CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

Orla da Ponta Verde onde sucedeu o fato

Tibúrcio acordou-se na maior ressaca nessa quinta-feira. Estava feliz com a vitória do Fluminense na noite anterior. Afinal Campeão da Taça Rio 2020. Levantou-se, olhou na cozinha de seu apartamento de solteiro um monte de garrafas e copos, deixou para lavar depois, tomou um suco de laranja. Eram dez horas da manhã, vestiu a camisa tricolor, colocou uma máscara, e mesmo nessa pandemia, desceu à praia para uma caminhada.

Andava contemplando o marzão naquela bela e luminosa manhã de julho. Avistou ao longe, à beira-mar, uma moça de vestido verde, com uma faixa branca como se fosse um cinto, descalça, dançando sozinha com o fone no ouvido. Pequenas marolas batiam em suas canelas, molhando a ponta do vestido. Tibúrcio olhava admirando à jovem dançar, se requebrar, tendo apenas o mar como companheiro. Ele sorriu, devia ser uma bêbada maluca e continuou sua andança mais meia hora e voltou. Ao passar novamente pelo local da dançarina notou que ela retornava ao calçadão. Quis o destino, ou o diabo, ou o Sobrenatural de Almeida, que a moça cruzasse com Tibúrcio. Ele teve um susto quando a jovem, ao avistá-lo com a camisa do Fluminense, abriu os braços e cantou alto, sorrindo:

– “Sou tricolor de coração… sou do time tantas vezes campeão”.

A alegre torcedora aproximou-se e deu um abraço em Tibúrcio. Sorrindo comentaram o jogo, o sufoco. Depois de algum papo, sentaram num banco olhando para o mar. Os dois se entenderam, maior empatia, eram tricolores doentes. A moça entre 30 a 35 anos, da mesma faixa etária do Tibúrcio. Conversaram mais de uma hora sobre o Fluminense. Valéria é advogada, carioca, viajou à Maceió para resolver pendências de sua firma, sem data para retornar ao Rio devido à pandemia. Certo momento, a garota tricolor convidou-o para tomar uma cerveja, precisava comemorar e muito esse título. Atravessaram a rua, na loja de conveniência do posto entornaram meia dúzia de cerveja.

Tibúrcio observou que em sua roupa havia apenas o verde do vestido e o branco da faixa, faltava o vermelho-grená. Valéria deu uma gargalhada, apertou a mão do amigo, cochichou no ouvido para ele prestar atenção. Sentou-se em sua frente, num gesto altamente discreto e sensual levantou o vestido, bem devagar, apareceram lindas pernas, as coxas, e finalmente a calcinha. Tibúrcio percebeu que a calcinha era vermelho grená. Ficaram às gargalhadas. Valéria estava hospedada em um apartamento de temporada, convidou o amigo tricolor a subir. Ao entrar no apartamento, a carioca puxou-o para dentro do banheiro, ainda vestidos, abriu o chuveiro, abraçaram-se, beijaram-se, encharcados amaram-se, feito dois animais.

Eram quatorze horas quando Tibúrcio saiu do apartamento. Valéria dormia o sono dos justos, dos amantes, dos campeões. Ele deixou um bilhete pedindo para telefonar quando acordasse. Depois do jantar, sem alguma notícia de sua tricolor, Tibúrcio resolveu aparecer no apartamento de Valéria. Comprou flores vermelhas, subiu, antes de tocar a campainha na porta, seu celular chamou. Era Valéria, perguntando quando ia vê-lo. Ele respondeu: agora, e apertou a campainha. Ao abrir a porta, ela ficou radiante com a surpresa, abraçou-o, beijou-o, arrastou seu tricolor. Não saíram, passaram a noite na varanda, bebendo uísque, se amando com carinho e alegria. Eles fizeram a maior comemoração do Fluminense campeão da Taça Rio 2020.

Na sexta-feira pela manhã foram à praia da Barra de São Miguel. Ao passar pela Prefeitura, Tibúrcio mostrou à Valéria a bandeira do município que tinha as cores: verde, branco e vermelho. Tibúrcio contou a história que se tornou lenda e ninguém sabe ao certo se é verdade ou invencionice do povo. A Barra quando se emancipou de S. Miguel não tinha bandeira, a secretária de educação levou o problema ao novo prefeito. Ele gostava de desenhar passou a noite desenhando três opções para a Câmara de Vereadores escolher. Aconteceu o incrível, a bandeira escolhida foi a parecida, semelhante à bandeira do Fluminense. O casal ainda está comemorando a vitória do campeão da Taça Rio, 2020; até que a pandemia acabe.

7 pensou em “A COMEMORAÇÃO DA TORCEDORA

  1. Carlito, sua crônica, uma beleza. Leve, prazerosa, emocionante e sensual.

    Deixa no leitor o desejo de se incorporar ao Tubúrcio.

    Parabéns!

    Foram momentos deliciosos.

    Você, de fato, sabe cronicar.

    E em cenas daquelas não tem solitário que não se torne astro de uma historieta bem inventada.

  2. Eu sou amante da coluna do alagoano Carlito(jamais sacaneei ou pratiquei alguma traição com HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA). Além de ser um escritor de mão cheia, Carlito Lima é um profundo conhecedor do turismo alagoano. Entre tantos predicados que fazem parte desse apaixonado escritor que é tarado por Alagoas, toca-me lê-lo, também, em razão de eu ter morado por 17 anos naquele belo Estado e jamais vi um escritor descrever, diuturnamente, em verso e prosa sua terra igual a Carlito. Seus textos matam-me saudades que, na minha mocidade, isso não faz tanto tempo assim, um dia deixei e colhi por lá…

    P.S.: – Fale-me em que estágio estar o Festival Graciliano Ramos da cidade de Palmeira dos Índios, meu prezado!!!

    • Meu amigo Altamir. Infelizmente o Prefeito de Palmeira dos Índios fez aquela Festa Literária e parou nos outros anos.
      Mas estou organizando Festas Literária nos bairros periféricos de Maceió. Qunado a pandemia passar vou lhe convidar para dar uma palestra sobre cinema na 4ª Festa Literária do Pontal da Barra. FLIPONTAL.
      Obrigado pelas gentis palavras. Vc que é meio alagoano, 17 anos é uma vida. Abraço..

      Obs – O Cacá Diegues vem filmar o próximo filme dele aqui em Maceió: DEUS AINDA É BRASILEIRO, eu colaborei escrevendo a história inicial do roteiro. Muita honra. Quando ele estiver por aqui filmando venha á Maceió para conhecê-lo..

      • Prezado escritor,

        Fiquei bastante lisonjeado pelos convites e devo aceitá-los na hora oportuna.

        P.S.; – Que ótimo meu prezado, o
        FLIPONTAL já vai para sua quarta edição, formidável!!! Isso sim, é instrumento de transformação social.

        Saudações alagoanas,

  3. O vascaíno Sancho aproveita a crônica do Capita para homenagear o sogrão, o resendense Chiquito, um grande torcedor do tricolor das Laranjeiras, que muito vibrou com o título, pois ganhar do atual elenco rubro-negro não anda sendo tarefa fácil para ninguém.

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