CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

TRÊS PASSAGENS

– “Geraldo, há algum tempo precisava conversar com você, pode me dar alguns minutos? Vamos pegar uma mesa?” Disse Luzia abraçando o irmão, ao encontrá-lo no shopping.

Feliz em encontrar a irmã querida no início daquela tarde de sexta-feira, Geraldo sentou-se e pediu dois chopes. Luzia olhou-o, sorriu-lhe e foi direto ao assunto.

– “Geraldo querido, só nós dois é que sabemos o quanto nos amamos, sou louca pelo meu irmão caçula desde que nasceu. Nossas afinidades sempre foram visíveis, nos entendemos com apenas um olhar. Por isso quero essa conversa. Você casou-se, separou-se, agora está solteiro novamente aos 40 anos, nunca dei palpite em sua vida amorosa, boêmia e escandalosa. Desculpe eu estar me intrometendo em seu novo namoro, você insinuou em breve um casamento. Sua namorada, Maria da Graças, parece equilibrada e sensata, embora seja bem mais nova que você. Acontece que, informaram-me um pequeno detalhe de sua vida pessoal e eu tenho obrigação de lhe passar, não quero que seja enganado. Fonte fiel confidenciou-me: ela é sapatona, ou melhor, bissexual, tem um caso com aquela morena, andam muito juntas, se diz prima. Desculpe eu tocar em sua vida particular. Sabendo do fato, seria uma imperdoável traição por omissão não contar-lhe esse pequeno detalhe.”

Geraldo respirou fundo, tomou dois goles de chope, pensou, pensou, respondeu à irmã ainda no impacto emocional da notícia.

-“Obrigado Luzia, você agiu como uma irmã querida, não poderia ser de outra forma, francamente, nunca desconfiei de Graça. Eu até gosto de sua prima Fátima, nada me fez perceber essa opção sexual de minha namorada, ela gosta de homem, tenho certeza, na cama é um arraso. Vou pensar no que fazer, é caso grave, não sei se dá para conviver sabendo que sua mulher gosta de outra mulher. Obrigado minha irmã.” Geraldo pediu mais chope, passaram o resto tarde conversando.

Eram nove horas da noite quando Geraldo encontrou-se com Maria das Graças na Barraca Pedra Virada, orla da Ponta Verde, acompanhada de Fátima, tomaram chope, uísque, tira-gosto, jantaram quase meia noite. Duas horas da manhã deixaram Fátima em casa, dormiram no apartamento, amaram-se. Geraldo nunca mais havia passado uma noite de amor com tanta intensidade. Pela manhã do sábado resolveram dar um mergulho na praia do Francês. Graça perguntou se podia convidar Fátima.

– “Tudo bem” – disse Geraldo – “porém, quero uma conversa com você”. Foi claro e taxativo com a namorada.

– “Graça, temos mais de dois anos juntos, somos adultos, lhe amo, tenho de ser sincero. Sua amizade com Fátima vem atiçando a maldade alheia, vieram me fuxicar de um relacionamento íntimo entre vocês duas, é o boato corrente nas rodas da cidade”.

Graça ouviu olhando nos olhos do namorado, depois baixou a cabeça, respirou fundo, encarou-o novamente, abriu seu coração com franqueza.

– “Geraldo querido, é verdade! Eu tenho essa opção sexual a mais, sou bissexual e Fátima não é minha prima. Estava esperando um momento apropriado para conversar sobre essa situação. Conversei muito com Fátima, temos uma proposta, você pode se chocar, francamente não imagino sua reação. Minha única certeza é que lhe amo, quero você, quero ficar com você, não importa se casados ou juntados. Minha proposta é meio louca, entretanto, foi bem pensada, amadurecida: Quero continuar nosso relacionamento como está, cada qual em seu lugar. Peço-lhe apenas que você conheça melhor a Fátima, sinta como é uma pessoa boa, entre em suas intimidades, depois me diga se aceita a situação entre nós três, sem compromissos”.

Geraldo teve um impacto com aquela inusitada proposta, pediu um tempo para pensar. Conversou e passou algumas noites com Fátima. Não precisou muito tempo para definir-se. Estão em período de adaptação, tiraram férias juntos passeando na bela cidade de Buenos Aires, o mais caro foram as três passagens de avião.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

TABICA DE BIMBA DE BOI

O casal vivia às turras, os dois com suas razões: a fama de mulherengo do marido e o ciúme incontido da mulher apaixonada, Lilibeth.

Antônio Pedro, por ser homem bonito, não pode sentir o olhar de uma garota que fica assanhado. Não precisaria de outra mulher, sua esposa é um belo espécime feminino. Porém, ele tem uma compulsão de querer transar com todas as mulheres do mundo.

A desconfiança e ciúme de Lilibeth aumentaram quando o marido passou a atender o celular longe do alcance, falando baixo. Ela pressentiu que era namorada nova, coisa séria, resolveu contratar um detetive. No escritório de Audálio no Edifício Brêda, ela acertou os honorários, forneceu-lhe informações, fotos do marido e um adiantamento. O detetive era bom e o Antônio Pedro era ruim em se esconder. As investigações foram rápidas e o crime facilmente descoberto. A namorada do marido trabalhava em um banco. Saía do trabalho às 16:30 h, no mínimo duas vezes por semana, Antônio Pedro apanhava Juliete, bonita moça, para passar o resto da tarde em algum motel da cidade. Variavam de local. O detetive mostrou fotografias para indignação e raiva de sua cliente.

Lilibeth controlou-se, haveria pegá-los em flagrante. Esperou uma oportunidade. Certa tarde ela notou que seu marido telefonava do celular falando baixo. Coisa só percebida por mulheres ciumentas, elas têm esse incrível faro. Às três horas da tarde o maridão foi tomar banho, dizendo que haveria uma reunião, uma grande venda com um fazendeiro. Antônio Pedro trabalha em uma representação de adubo. Ganha altas comissões nas vendas.

Lilibeth gritou para o marido que estava saindo para comprar cigarro. Porém, dirigiu-se ao carrão do marido, abriu a mala e deixou-a aberta. Recolocou as chaves no mesmo local onde apanhou. Segurou uma tabica de bimba de boi que ficava permanentemente pendurada no porta-chapéus, voltou ao carro, entrou na mala e trancou-se por dentro. Mesmo com a mala espaçosa, ficou desconfortável. Ela deitou-se com as pernas encolhidas com ânsia e coragem.

Antônio Pedro ligou o carro, o barulho do motor aumentou o desconforto. Em torno das quatro horas, o carro parou em uma rua movimentada. Lilibeth sentiu a porta abrir e entrar uma mulher cumprimentando Antônio com um “Ôi querido” meloso, e acomodou-se no assento dianteiro. Sentiu o perfume caro da serelepe, O carro partiu, Lilibeth ouviu um diálogo com dor no coração, com vontade de esganar os dois.

– Meu amor. Quero fazer aquelas coisas maravilhosas. Hoje estou com uma vontade… Vou lhe matar na cama!

– E eu vou lhe dar um banho de gato!

– E a Jararaca continua ciumenta? Será que ela desconfia de nós?

– A Jararaca pensa que é inteligente vive me ameaçando. Mas é burra. Jamais saberá de nós dois. Tomo meus cuidados.

– Meu amor, na próxima semana completa um ano de nosso namoro. Você me prometeu aquele colar, lembra-se?

– Não me esqueci, vamos comemorar juntos, vou inventar uma viagem para Salvador. Você diz no trabalho que está doente.

Lilibeth se conteve até por medo de estar correndo em uma pista de alta velocidade. A raiva no seu peito era tão grande que pensava ter um infarto naquele momento. O carro ainda rolou alguns minutos. Houve outros diálogos para desespero de Lilibeth. O carro diminuiu a velocidade, deu uma entrada à esquerda até frear. Ouviu-se a voz de Antônio Pedro: “Quero uma suíte com piscina”. Antônio Pedro manobrou até que parou de vez na garagem do motel. Nesse momento ele ouviu um barulho, alguém batendo por dentro da mala. Assustado dirigiu-se para traseira do carro, percebeu que havia alguém dentro. Quando abriu, deu-se a grande surpresa: Lilibeth saltou como uma fera, com a tabica de bimba de boi na mão gritava alucinada:

– Sua puta! Jararaca é a puta que a pariu!

Avançou na garota de vinte anos de porte elegante e bonita. Enquanto Antônio foi buscar ajuda na portaria, Lilibeth encheu Juliete de porrada, como se a culpa fosse só da garota. Houve escândalo no motel, o gerente chegou em socorro. Custou a se acalmarem. Colocaram Juliete num táxi e o casal voltou para casa no carro, com constantes ataques de choro e raiva de Lilibeth. Ao chegar, ela expulsou o marido de casa. Três meses depois fizeram a paz, ele voltou. Estão vivendo no maior amor, nem parece que houve o caso da tabica de bimba de boi. Quem quiser que entenda e que se meta nas brigas de casal.

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O MELHOR TIME DO MUNDO

Lembrando os 80 anos de Pelé

Lalá – Getúlio- Ramiro – Zito e Mourão
Dorval – Afonsinho – Jair da Rosa Pinto – Pelé e Pepe

Nezito Mourão é um amigo de infância, colega no Colégio Diocesano em Maceió, anos 50. Estudioso, dos primeiros da turma, Nezito desde cedo jogava um vigoroso futebol, até nas peladas da praia da Avenida. Ainda jovem foi convidado a jogar pelo CRB, beque durão, nenhum atacante passava. Eu tinha maior orgulho em ver nos jornais fotografias de meu amigo Mourão junto a Pelé e Coutinho no maior time de futebol do mundo, de todos os tempos, o Santos anos 60 – 61- 62.

Depois do Santos, Mourão jogou num time do Recife. Certa vez a torcida adversária pegou no pé do Negão, xingando, gritando, “é esse!” incentivando ao adversário dar cacetada no Negão. Num lance infeliz Mourão caiu, foi vaiado pela torcida adversária. Cabeça quente, ele levantou-se, segurou no calção, balançou os quibas para torcida. Era um jogo televisionado, Mourão teve que se explicar na Delegacia.

Quando eu morava no Recife encontrava-me com meu amigo, em vez em quando. Certa noite fomos com tomar uma cerveja na Boate Flamboyant, no centro da cidade na galeria do Edifício Walfrido Antunes, onde encontramos mais amigos.

Sentamos, pedimos “cuba-libre”, ouvindo um bonita cantora arrasar com músicas de sucesso. Ela atendeu nossos pedidos, “Felicidade”, “Apelo”, “Chega de Saudade.” No intervalo a cantora aceitou o convite, sentou-se à nossa mesa. Estávamos numa conversa agradável, a moça era simpática e risonha, para Mourão, famoso. Em certo momento, o proprietário da boate, bêbado achegou-se à nossa mesa, falou alto com a cantora, mandou levantar-se e esperá-lo na cozinha. Ele tinha um caso com a moça e pensava ser proprietário também da bonita artista. Estava com ciúme ou com despeito, coisa de corno, tentava tirar a moça bonita de nossa descontraída e bem humorada conversa. O Bêbado insistente segurou-a pelo braço. Mourão, como um cavalheiro, levantou-se e falou educadamente para o cidadão.

– “Meu senhor, a moça está em nossa companhia, ela só sai daqui se quiser, seja quem for o senhor.”

O dono da boate voltou para o balcão. A moça nos pediu desculpas foi conversar com seu patrão. De repente, o garçom trouxe a conta pedindo para que nós pagássemos e que nos retirássemos da boate por ordem do dono, ameaçando chamar a polícia. Como éramos inocentes, não saímos, ficamos esperando a polícia chegar. Depois de quase meia hora de espera pagamos a conta, nos retiramos.

Ao sairmos da galeria, parou um jipe com quatro policiais civis, armados. Entraram na galeria. Para evitarmos confusão, nos dispersamos, cada qual tomou destino diferente. No momento que parei um táxi mais adiante, o jipe freou junto a, descerem quatro homens armados gritando que eu estava preso. Conhecendo esse tipo de policial, pedi calma, falei que era tenente do Exército, que não houve perturbação na boate, tinha que ser ouvido antes de me prenderem. Um policial foi taxativo:

– Tenente pôrra nenhuma! Vai preso agora, seu merda! Suba!

Como detesto apanhar, subi no jipe antes que levasse uma cacetada. Na Secretaria de Segurança, belo prédio à margem do Capibaribe, desci do jipe escoltado. O Delegado mandou calar-me quando tentei esclarecer. Só fui ouvido depois de uma hora de espera. Ao me identificar como tenente do Exército, servindo na 2ª Cia. de Guardas, tropa de elite do IV Exército, o delegado pediu desculpas, chamou os investigadores de imbecis.

Na hora de minha prisão, Mourão assistiu ao longe. Correu a 2ª Cia de Guardas, na Avenida Visconde de Suassuna, contou sobre a minha prisão pela polícia civil. No momento que o delegado se desculpava, ouviu-se um barulho na Secretaria, uma patrulha do Exército, meus soldados que estavam no quartel foram dispostos a me soltar.

Eu fui bombeiro, evitei uma possível briga. Agradeci o apoio dos amigos, mandei a patrulha se recolher. Os soldados estavam inconformados em ver seu comandante preso. Há pouco tempo um investigador havia matado um soldado da 2ª Companhia de Guardas, os ânimos estavam quentes por uma vingança. Se eu não segurasse os soldados as consequências seriam inimagináveis.

No dia seguinte deu em manchete num jornal: “Tenente Carlos LIma do Exército, acompanhado do jogador Mourão fazem arruaça em uma boate e são presos”. O pacífico Mourão hoje vive aposentado com uma pousada na Rua do Aragão, centro do Recife, cheio de recordações do seu tempo quando era um jogador caceteiro e fez parte do incrível time Santos, anos 60, o melhor time do mundo, inigualável.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A ALEIJADINHA

Quando Manu conheceu Rosana, apaixonou-se, ela era filha de um estivador do cais do porto. A outra irmã Francisca era também uma jovem bonita, porém, nasceu com um defeito na perna direita, andava se arrastando. Pela vigilância de seu Béu, as filhas nunca casariam. Nas festas de natal da praça 13 de Maio, as jovens só apareciam acompanhadas da mãe, Dona Albertina. Manu começou a namorar Rosana escondido do pai. Quando podia ele acompanhava a namorada na saída do colégio, no caminho parava à sombra de uma árvore, conseguia uns beijinhos. À noite, seu Béu dormia cedo cansado de carregar sacos de açúcar nas costas, Manu e Rosana se encontravam no fundo do quintal, ficavam entre beijos e abraços. Numa noite de luar, forraram o chão com palha de bananeira e aconteceu a primeira vez, a marca de sangue ficou na areia cinza do quintal. Não pararam mais.

Até que um dia, Rosana deu a notícia: grávida. Foi uma complicação. Seu Béu botou a boca no mundo, mandou chamar Manu, acertaram o casamento dentro de um mês, Manu ficaria morando na casa dos sogros e daria uma contribuição para as despesas. Quando o filho nasceu, o pai botou o nome de Rivelino, o melhor jogador do Brasil, na época. O sogro ficou encantado com o neto e estreitou amizade com Manu. Todo fim de semana tomavam uma garrafa de Pitu e umas cervejinhas. Quando havia festa Manu levava Rosana e Francisca que nunca arranjava namorado, talvez por arrastar a perna; ele tinha pena da cunhada e ficava chateado quando alguém se referia à Chica como aleijadinha. Certo dia o sogro teve um infarto quando embarcava saco de açúcar na balsa. Morreu na hora. Manu ficou morando com a sogra e as duas irmãs. Dona Albertina recebeu uma indenização mixuruca e ficou com uma pequena pensão de estivador.

Certa vez, Francisca deixou a porta de seu quarto meio aberta, estava apenas de calcinha, Manu ao passar excitou-se. Dias depois, a sogra e Rosana foram a um aniversário levando Rivelino. Manu e Francisca ficaram em casa sentados no sofá assistindo uma novela. De repente, a cunhada aproximou-se, segurou a mão de Manu, se beijaram, terminaram na cama fazendo amor. Rápido ela lavou o lençol marcado com o sangue de sua virgindade. Toda vez que os dois ficavam sozinhos, acontecia amor, a aleijadinha era boa de cama. Até que um dia, feliz da vida, Chica mostrou ao cunhado o resultado de exame: grávida. Manu deu-lhe um esbregue:

–“Você não tomou o anticoncepcional sua irresponsável?”

Ela respondeu na maior alegria:

– “Tomei nada. Era isso que eu queria. Vou ser mãe, que coisa maravilhosa.”

Manu perguntou como diriam à Rosana? Ela respondeu alegre que o problema era dele. Quando as duas chegaram de um aniversário com Rivelino, Manu falou para Rosana que precisava uma conversa urgente no quarto Ao sentarem na cama, Manu contou o drama.

– Rosana tudo pode acontecer na vida, e aconteceu um caso muito grave, eu quero que você saiba por mim. Há uns meses você e Dona Albertina saíram com Rivelino, fiquei sozinho em casa tomando minha cachacinha, sua irmã também estava em casa, ficamos bebendo, meio de porre terminamos transando. E o pior, hoje a Francisca me disse que estava grávida. Esse é um grave problema, quero resolver com você, minha mulher que amo.

Rosana olhou para o marido, respondeu sem parar.

– Manu, pensa que eu sou besta? Você insinuou que transou com minha irmã apenas uma vez e engravidou. Fique sabendo que eu e mamãe sabíamos de tudo, desde a primeira vez que você transou com ela. Chica me contou, ela estava tão feliz, queria engravidar. Eu amo minha irmã, sou capaz de dar a vida por ela. Sempre tive uma pena louca por ela puxar da perna, quando éramos menina, muita gente mangava, chamava-a de aleijadinha. Quando ficamos mocinha ninguém queria namorar a Chica. Ela teve apenas um namorado que acabou por causa das brincadeiras de mau gosto de seus os amigos. Quando lhe conheci, me apaixonei por ser um homem generoso e batalhador. Nasceu o Rivelino, minha irmã ficou encantada com o sobrinho. Confessou-me que o maior sonho de sua vida era ter um filho. Pensava em ser mãe solteira. Eu tinha uma pena louca dela, depois que papai morreu, aumentou a dedicação de Francisca com Rivelino. Numa noite você chegou bêbado em casa, tirei sua roupa, dei-lhe um banho, fiquei com tanta raiva que não consegui dormir, foi quando eu tive a ideia. Se minha irmã quer um filho, porque não do sem-vergonha de meu marido? Pelo menos fica tudo aqui em casa. Amadureci a ideia e falei com Francisca. Ela me deu um abraço, começou a chorar.

– “Você seria capaz de fazer isso por mim, minha irmã? Emprestar seu marido?”.

Resolvemos contar nosso plano à mamãe, ela aprovou. Deixamos o resto acontecer acreditando na sua sem-vergonhice. Você é o pai da criança, assuma a paternidade no cartório e como disse minha mãe:

-“O povo que vá à merda”. Vamos ter uma família feliz.

Manu ficou de queixo caído com a astúcia das irmãs e a sogra. Ele vive normalmente com as duas mulheres. Tem dois filhos com a Rosana, Rivelino e Leila, e uma filha com a Chica, a Janaína. É uma casa feliz, os quatros não estão nem aí para a língua ferina do povo. Duas ou três vezes por semana Manu faz uma visita ao quarto de Francisca. Acha a aleijadinha melhor de cama que a irmã.

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CONTINUA NO RAMO

Há alguns anos apareceu na província de Maceió, um cidadão bem falante, terno impecável, roupas de grife, cabelos bem cortados, era conhecido pelo sobrenome, Karafiol. O distinto senhor montou uma empresa de consultoria dirigida especialmente aos grandes empresários, usineiros e companhias. Ele propunha negócios com vantagem inimagináveis em baixar impostos nas transações de importações de maquinarias e equipamentos. Os empresários logo se interessaram na possibilidade de baixar impostos contrataram a empresa de consultoria, “Marilda Karafiol”. Os resultados foram os melhores possíveis, Karafiol conhecia os tapetes, os bastidores de Brasília, dos impostos de importação, conseguiu baixar alguns impostos com malandragem, legislação duvidosa, propina e mulher. Tornou-se herói entre os abastados, os donos das Alagoas. No primeiro ele deu muito lucro às empresas. Karafiol frequentava a mais alta roda da cidade, seja em clubes, restaurantes ou alcovas, seu nome era sempre lembrado como cidadão de altos negócios. Um cara que consegue baixar imposto nesse país merece prêmio. Ele amava a vida entre os socialites, gostava também de um carteado, sempre jogava nas rodas particulares, as melhores e bem frequentadas mesas de baralho. Tinha uma compulsão pelo jogo, vício, jogava alto.

No segundo ano abriu uma empresa de taxi com um amigo alagoano muito conhecido e conceituado, na época era a melhor frota de taxi na cidade. Karafiol, exemplo de empresário e honestidade se dizia alagoano por opção, proclamava aos berros o amor a essa cidade. Um vereador chegou a propor o título de cidadão de Maceió, ganhou o prêmio de empresário do ano, em troca de algum valor ao cronista que organizava esse prêmio. Certo partido político convidou-o a se filiar, teria uma vaga garantida na Assembleia Legislativa, com o apoio dos empresários; ele ficou de pensar, era uma boa oportunidade.

No final do terceiro ano de consultoria, apareceu uma oportunidade de reduzir custos de imposto adquirindo uma maquinaria especial, diminuindo a mão de obra. Os empresários foram visitados por Karafiol que mostrava como poderia reduzir custos. Ele fez cálculos de redução de impostos, o custo do investimento compensava essa redução. Karafiol foi de empresário em empresário, mas precisava ter uma boa quantidade em dinheiro em mãos para propinas e outros custos costumeiros nas transações em Brasília. Nas suas visitas arrecadou U$ 300 mil de um, U$ 400 mil de outro, mais U$ 200 mil de outro, há quem diga que Karafiol arrecadou em torno de U$ 8 milhões de dólares das empresas alagoanas e pernambucanas. Ele havia comprado 20 Chevrolet OPALA na concessionária, aumentando a frota de taxi de sua empresa, uma mostra que ele estava cada vez mais arraigado à terra.

Na véspera de ele viajar para Brasília e Rio de Janeiro a fim de resolver o mais alto negócio dos empresários nordestinos, ele compareceu à casa de um amigo para alta jogatina de pôquer. Às três horas da manhã Karafiol havia perdido mais de R$ 20.000,00. Como tinha que embarcar no avião às oito horas, precisava de dinheiro vivo, passou um cheque de R$ 20 mil saldando a dívida do jogo e outro de R$ 10 mil arrecadando o dinheiro que havia na mesa dos parceiros, ele precisava do dinheiro para viajar. Todos aceitaram sorrindo a troca dos dois cheques, ninguém jamais suspeitaria, desconfiaria que os cheques daquele homem extraordinário não tinham fundos.

Na segunda-feira o dono da casa que bancava o jogo ao depositar o cheque no mesmo banco, teve a triste notícia que não havia fundo para cobrir os cheques, e que Karafiol havia raspado todo dinheiro da conta. Foi um Deus nos acuda. Houve uma reunião urgente dos empresários. Nunca mais Karafiol pisou em Alagoas, aquela noite do jogo, foi a última vez que o viram. Embolsou todo dinheiro, até hoje está desaparecido. Os magnatas alagoanos foram à polícia, contrataram detetives em Maceió, Brasília, Rio e São Paulo, gastaram uma enormidade em passagens e hospedagens, ninguém até hoje conseguiu uma pista sequer, foi o maior golpe até agora dado em dinheiro privado. Corre uma versão que Karafiol fez uma cirurgia plástica no rosto. Dizem que está irreconhecível, se candidatou, gastou uma grana, elegeu-se Deputado Federal por São Paulo, quer dizer, continua no ramo.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

MEU SONHO NO DIA DO NORDESTINO, 8 DE OUTUBRO

Tive um fantástico e alegre sonho no Dia do Nordestino: o povo feliz, reunido, dançando na praia, comemorava a Independência do Nordeste. Nas Alagoas a festa varou a noite, continuou por mais 19 dias. Foi armado um palco no coreto da Avenida da Paz, de repente, entrou um animado e colorido pastoril cantando e acenando para o povo. De um lado a coluna do cordão encarnado, com sete pastoras, moças charmosas e bonitas com vestidos de chita, fantasias de saias rodadas. A outra coluna, o cordão azul, mais sete meninas, louras, morenas, mulatas, todas acenavam para o povo seus pequenos pandeiros fantasiados de fitas. Entre as duas colunas, entre os dois cordões dançava a única Diana vestida de minissaia de chita. Todas sorriam, era Festa da Independência. “Boa noite meus senhores todos… Boa noite senhoras também… Somos pastoras, pastorinhas belas… Que alegremente vamos a Belém…”

A festa continuou revezando no palco, dia e noite, exuberantes grupos da cultura popular: Guerreiro da Viçosa, com suas fantasias coloridas e chapéu cheio de espelhos. Eles cantavam: “Guerreiro cheguei agora… Nossa Senhora é nossa defesa…” Dançaram fandangos, bumba meu boi, coco de roda, baiana, caboclinho, reisado, nega da costa, chegança e outras danças populares nordestinas. No início da Avenida da Paz acontecia um agitado e divertido desfile de carnaval. A orquestra do maestro Passinha tocou dia e noite. A moçada se esbaldava se empolgava com frevos e marchinhas, ia ao delírio quando arrochava o frevo Vassourinhas. O dia foi despertando, a orquestra desceu à praia. De repente os foliões entraram na água cristalina naquela luminosa manhã. A cor do mar era escandalosamente de um azul-esverdeado, dourada pelo sol da madrugada. Os mergulhos lavaram as roupas, as fantasias, e as almas do povo. A música continuou, o povo dançou e cantou. A Festa da Independência durou vinte dias. Estendeu-se por todas as praias da cidade. O povo dançou na praia de Pajuçara, onde o mar beija as areias, com mais alma e mais amor. A Ponta Verde fervia nos arredores do acarajé do Alagoinha com três bandas e quatro trios elétricos. Na Jatiúca o povo gritava cheio de esperanças por dias melhores. No litoral norte a festa continuou, na praia de Ipioca foi organizado um corso de jangada, todas enfeitadas, fantasiadas de azul e verde, as cores da nova República Nordestina. De repente apareceu Elba Ramalho cantando a música de Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova: 

“Já que existe no Sul esse preconceito 
Que o Nordeste é ruim, seco e ingrato 
Já que existe a separação de fato 
É preciso torná-lo de direito 
Quando um dia qualquer isso for feito 
Todos os dois vão lucrar imensamente 
Começando uma vida diferente 
Da que a gente até hoje tem vivido 
Imagine que o Brasil ser dividido 
E o Nordeste ficar independente”

O patrono da nação nordestina foi escolhido por unanimidade, Luiz Gonzaga. No sonho continuavam lindos e eróticos movimentos de Elba se rebolando e cantando: 

“O Nordeste seria outro país 
Vigoroso, leal, rico e feliz 
Sem dever a ninguém no exterior 
Jangadeiro seria o senador 
O cassaco-da-roça era o suplente 
Cantador-de-viola o presidente 
E o vaqueiro era o líder do partido 
Imagine o Brasil ser dividido 
E o Nordeste ficar independente”

No sonho aparecia toda pujança e a beleza de nossa cultura. Nossos bravos homens e mulheres escreveram a Constituição Nordestina:

Artigo Primeiro: Todos são iguais perante a lei e perante todos.

Artigo Segundo: O amor é considerado utilidade pública.

Artigo Terceiro: A esperança será marcada por uma faixa verde na bandeira para ninguém perdê-la ou esquecê-la.

Artigo Quarto: O medo é abolido de todos os corações.

Artigo Quinto: Todos têm direito à saúde, educação, moradia, emprego, arte, cultura, felicidade e sexo.

Artigo Sexto: A desonestidade, a mentira e a hipocrisia são banidas do país para sempre.

Artigo Sétimo: São inimputáveis: os índios, os menores, os bêbados e as putas.

Foi decretado que a fraternidade, a igualdade e a honestidade constituiriam a base da Nova Nação Nordestina. Os homens de bem foram conclamados a voltar de onde estivessem, onde terão fartura e paz. E finalmente o povo era obrigado a ser feliz. E Elba continuava cantando: 

“A bandeira de renda cearense
Asa Branca era o hino nacional
O folheto era o símbolo oficial
A moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o inconfidente
Lampião, o herói inesquecido
Imagine o Brasil ser dividido
E o Nordeste ficar independente”

Foi quando alguém aumentou o volume da televisão e me acordei com o Jornal Nacional. Pô!!!

Obs – Agradeço a Ivanildo Villanova e Bráulio Tavares o uso de sua poesia.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O SENHOR DAS LAGOAS

Eu era menino, de calça curta, aurora de minha vida, meu pai gostava de passeios com a família. Fazíamos piquenique no Gogó da Ema, em Fernão Velho na casa do primo Pedrinho. Muitas vezes embarcávamos numa canoa ou na lancha do horário, partindo do Porto das Lanchas no Trapiche, navegando pelas lagoas até Coqueiro Seco ou Bica da Pedra.

A canoa enorme feita de tronco de árvore cabia toda família. A criançada sentada no fundo, os mais velhos nos bancos de tábuas na proa, na popa e perto do mastro. Todos a bordo iniciava a navegação rumo ao povoado de Coqueiro Seco, onde amigos do meu pai nos esperavam com um delicioso almoço.

O canoeiro dava a direção, puxando e molhando a vela conforme a intensidade do vento. Vela enorme colorida em vários matizes marrons, como se fossem manchas. Eu ficava extasiado, embevecido com a beleza da imensidão da lagoa cheia de ilhas, coqueirais e entrecortadas por canais naturais. Deliciava-me mergulhando a mão acariciada pela água corrente do navegar. Água límpida e raiada pelo sol da bonita manhã.

Tio Béu era o mais animado dos adultos, gostava de contar casos e piadas durante o percurso. Ele cantava emboladas e nós acompanhávamos.

“Coqueiro Seco do outro lado da lagoa… Se atravessa de canoa… fazer feira no Pilar…” Vinha o coro da meninada: “Espingarda, pá, pá, pá, pá, faca de ponta, tá, tá, tá”… Tio Béu continuava: “Eu dei um beijo no sovaco da veia, minha boca encheu de peia, quase morro de lançar…” Uma alegria.

A chegada da canoa era uma festa, não havia ancoradouro, era preciso ajudar as mulheres e crianças desembarcarem. Passávamos o dia naquele pequeno povoado, correndo, jogando bola na “ribeira”, mergulhando nas águas limpas da lagoa. Depois do suntuoso almoço, a meninada voltava para o banho de lagoa, onde nadava e brincava de caldo e pescaria. Na volta, a meninada ficava desconfortável no fundo da canoa amontoada de manga, melancia, banana, fruta-pão, jaca e outras frutas. Às vezes, a travessia da lagoa tinha outro destino: o sítio de um primo, Pedro Lima, onde existe uma fonte de água provinda de uma fenda de uma enorme pedra. Um banho maravilhoso que deram o nome apropriado de Bica da Pedra.

Meu pai tinha um amigo que gostava de conversar à noite em minha casa. Era um homem alto, com olhar inquieto e bondoso. Seus assuntos invariavelmente passavam pelas lagoas, preocupação, luta constante de sua vida e o CSA. Pela primeira vez ouvi alguém se referir à preservação da natureza. Paulo Pedrosa, na prática, foi o primeiro ambientalista das Alagoas. Essas são algumas reminiscências da minha infância, ligadas às grandes e belas lagoas.

O tempo passou, fiz caminhos e andanças pelo Brasil afora; voltei para Alagoas, mas só tive consciência dos grandes problemas das lagoas a partir dos anos 80, quando as questões ambientais tornaram-se importante.

Nesses últimos anos houve um desastre criminoso nas lagoas. Usinas de açúcar jogaram tibornas e águas de lavagem de cana. As cidades, sem sistema de esgotamento sanitário, ainda hoje despejam dejetos in natura e lixos nas águas das nossas sagradas lagoas. Autodestruição, um crime inominável. Em todo esse tempo, só uma voz havia esbravejado, esperneado, gritado e ecoou sem que ninguém ouvisse ou se preocupasse pelo crime que o homem ambicioso cometia. Essa voz solitária era de Paulo Pedrosa. Um senhor com visão que dedicou seus 96 anos à sua grande paixão: as bonitas e inigualáveis lagoas das Alagoas.

Paulo Pedrosa também foi um vitorioso industrial, montou uma fábrica de mosaico no bairro de Jaraguá. Ainda nos legou duas grandes figuras da arte e cultura alagoana: sua filha Tânia Maya Pedrosa Moreira, pintora naif e maior colecionadora de arte popular do Brasil e seu filho, coronel José Fernando Maya Pedrosa, historiador, militar de brilhante carreira no Exército Brasileiro. O saudoso Paulo Pedrosa, homem dedicado à causa das lagoas merece uma homenagem. Sua impertinência, sua dedicação e seu amor foi importante na preservação das lagoas. Devemos essa homenagem, nunca feita, ao ambientalista Paulo Pedrosa, “O Senhor das Lagoas”.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

O RAPOSA FELPUDA

Leocádio está preocupado com a situação nacional. Se a pandemia não acabar antes de do dia 15 de novembro ele vai perder sua maior diversão, a campanha eleitoral. Durante a campanha ele passa no mínimo dois meses viajando com seu chefe, um político de alta linhagem, vamos chamá-lo de “Raposa Felpuda”. E o melhor, fica livre da esposa, mandona, braba que o leva no cabresto nesses 27 anos de casados. Durante a campanha eleitoral ele se entrega de corpo e alma, se gaba que seu patrão é pé quente, não perde eleição.

Leocádio trabalha muito e farreia como pode na campanha, driblando a vigilância de sua esposa mandona, com a desculpa de trabalho para o chefe.

O que não deixa de ser verdade, pois o patrão é incansável nos acordos políticos, nas trocas de favores, incluindo noitadas com raparigas. Leocádio é o homem de contato com as mulheres. Administra as farras da equipe, sempre sobra alguma quenga para ele. Nosso amigo tem um cargo comissionado, só comparece à repartição para pegar o contracheque e racha o ordenado com outro assessor. O “Raposa” tem o dobro de assessores permitidos, usa o artifício da rachadinha: um recebe o pagamento e divide com outro. O trabalho de Leocádio é estar perto do chefe, ele é pau para toda obra, gosta do trabalho, ama organizar as farras nas viagens.

Leocádio conhece todos os políticos, seja deputado, prefeito, ou senador, falam com ele na maior intimidade, assessor muito querido, respeitado, arquivo vivo, sabe histórias da nossa política de corar de vergonha esses caras de Brasília. É discreto, não ouve, não fala, não vê.

Durante a última campanha, depois de exaustiva caminhada em três municípios, a caravana do “Raposa” de seis carros desembarcou numa churrascaria. Juntaram algumas mesas enquanto serviam o churrasco. Ainda estavam servindo quando apareceu outra comitiva, de um famoso deputado, metido a cavalo do cão. Tomaram assento, juntaram-se. Na hora da cerveja o “Raposa Felpuda” comentou.

– Estou há mais de uma semana em campanha, é estafante e não peguei uma mulher nesses dias. Hoje estou a fim de uma rapariga.

Olhou para Leocádio e pediu sorrindo.

– Meu assessor predileto, você que conhece do assunto, arranje umas garotas bonitas, telefone e traga de Maceió um caminhão de quengas, para uma farrinha hoje à noite.

– Oxente! Vou pessoalmente cuidar desse assunto. Levantou-se, entrou no carro rumo à Maceió.

A moçada ficou às gargalhadas com as histórias do “Raposa”, são sempre engraçadas as histórias de políticos.

Leocádio partiu já ligando o celular e marcando. Em Maceió alugou dois táxi para acompanhá-lo, não parava no celular, trabalho eficiente catando o material solicitado, não podia falhar, afinal sua reputação estava em jogo.

A comitiva do “Raposa” estava numa caminhada à noite por uma cidade, quando chegou Leocádio e mais dois táxis cheios de raparigas. Oito mulheres desembarcaram sorrindo, encantando com suas belezas. Quengas bonitas de primeira qualidade.

– Pronto chefe, missão cumprida. Não deu para trazer um caminhão, mas trouxe oito raparigas da melhor qualidade. Meu celular trabalhou, consegui arrecadar essas belas mulheres.

Rumaram a uma bela casa na fazenda de um colega deputado na zona da mata. Foi o maior bacanal já realizado naquelas bandas. A mansão com um jardim gramado, árvores e uma piscina ao centro. Da varanda se avistava a piscina, era noite de lua, ambiente propício para brincar feito menino. As raparigas se escondiam no jardim, depois de gritar, AGÚ, os homens iam à caça, procurando, vasculhando os lugares, quando alguém achava uma escondida, tinha de tocá-la, condição para ganhar o prêmio, podia usar da quenga à vontade. Depois de brincar de esconde-esconde, mergulharam na piscina. A festa foi até o dia amanhecer. O sol raiou esplêndido na fazenda, a manhã iluminou os guerreiros do voto com suas presas deitados na grama do jardim.

Por esse e outros trabalhos, Leocádio continuará no cargo por muito tempo, sua eficiência e eficácia no assunto são inigualáveis, um arquivo vivo. Todo dia ele lê o jornal torcendo que a pandemia acabe pra que a campanha seja no corpo a corpo nas visitas às cidades e não apenas nas redes sociais como parece que será. De qualquer maneira o “Raposa” não perde eleição, sabe botar voto na urna.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

GALEGUINHO

Ninguém sabe de onde veio. A mãe o abandonou no bairro do Jacintinho, ele não havia completado dez anos. Era um menino experto, bonito, olhos azuis, vivos. Ficou a vagar pela cidade, sua pele alva e cabelos louros compridos chamavam a atenção, devia ter vivido em lugar bem pobre para bandas do sertão, o sotaque revelava. Só lembrava que seu pai fugiu da seca e sua mãe largou-o na cidade. Não reclamava. Ser menino de rua parecia melhor que o sofrimento da seca, da falta d’água, de comida, da morte do gado e de gente. Na cidade tinham, pelo menos, as lixeiras com sobras de comidas.

O menino enjeitado andou durante alguns dias pelas ruas de Maceió, dormindo embaixo de marquises, encontrou um bando de meninos abandonados. Foi uma alegria conhecer novos amigos, logo se tornou um líder entre os menores que perambulavam pelo centro da cidade, Praça Deodoro e arredores. Viviam de pouca esmola, do que achavam no lixo, e de alguns roubos fortuitos. Todos gostavam do Galeguinho, assim chamavam os amigos de rua, sem escola, sem casa, sem documentos.

Galeguinho assim que viu a praia e o mar pela primeira vez, ficou encantado, fascinado. Sentou-se na praia da Jatiúca e contemplou o mar azul esverdeado por muito tempo, até que se encorajou e entrou no mar, estranhou a água salgada, feliz, brincou com as ondas, as marolas. Quando dava fome, pedia comida aos banhistas sentados nas cadeiras tomando banho de sol com uma sombrinha ao lado. Sempre conseguia matar a fome, a Irmã do Acarajé do Meliá, lhe dava um reforçado acarajé. O Galeguinho tomou o bairro da Jatiúca como lar, dormia embaixo das barracas de praia. Amava o mar, encantou-se com os surfistas deslizando na onda. Certa vez, João, percebeu aquele garoto quase todos os dias olhando, admirando os surfistas, perguntou se já havia pegado surf numa onda, diante da negativa, João ofereceu sua prancha, ensinou o básico. O Galeguinho entrou no mar, na primeira onda equilibrou-se e veio à beira mar. A partir desse dia tornou-se amigo de João e um dos melhores surfistas do Posto Sete.

Foi crescendo como se fosse morador do bairro, fazia bico nos estacionamentos lavando carro, simpático flanelinha que nunca teve local certo de dormir.
Dagmar, dedicada assistente social estava realizando para Prefeitura, um levantamento de meninos de rua que dormiam na orla, quando conheceu o Galeguinho, teve simpatia pelo menino alegre, louro, cabelo escorrido até os ombros, vestes maltrapilhas. Dagmar fez uma entrevista, ficou abismada, ele sequer lembrava seu nome, depois de cinco anos esqueceu, só o chamavam de Galeguinho, não sabia a idade, era analfabeto.

Dagmar lhe fez uma proposta: limpar o quintal de sua casa, fazer outros serviços em troca de comida. Ele aceitou. Era uma casa num conjunto perto da Jatiúca. Ele trabalhou, limpou e arrumou o quintal durante todo o dia, almoçou e além do jantar, ganhou um bolo. Dagmar, solteirona, sentiu forte empatia, um afeto maternal pela criança. O Galeguinho recebeu o enorme bolo com alegria, dirigiu-se ao velho ponto de encontro e dividiu o bolo com os amigos, fizeram uma festa. A partir daquele dia, o menino cheira-cola, aparecia de vez em quando de manhã cedo na casa de Dagmar para algum serviço.

Dagmar havia completado 40 anos no dia que conheceu o Galeguinho, dizia para si mesma que foi um presente de Deus. Mulher sofrida teve o coração despedaçado, noiva durante 12 anos de um médico, na véspera do casamento, ele fugiu com uma aluna da Faculdade. Um trauma para Dagmar, ainda hoje mulher bonita, vistosa, nunca quis outro namorado. Desde sua decepção amorosa mora sozinha na casa que herdou dos pais.

Esse menino veio preencher sua carência afetiva, com pouco tempo ele ficou morando no quarto de empregados, almoçava com a única empregada, tornou-se secretário para compras e outros afazeres. Dagmar ficou apegada ao adolescente, durante a noite ensinava o alfabeto, a contar, até que o matriculou no Colégio Diocesano onde os Irmãos Maristas têm curso para os necessitados que não podem pagar colégio.

Galeguinho é alegre por natureza. Dagmar descobriu que seu sonho era ter uma prancha de surf. Assim que ganhou uma, o jovem saiu feliz da vida para surfar na praia do Posto Sete. De bom coração nunca abandonou os amigos de rua, quando vai ao surf, seus amigos pegam carona na prancha. Ainda leva comida para distribuir. O Galeguinho é alma boa.

Tornou-se um forte e belo rapaz, típico surfista. Estudioso, quer um dia fazer vestibular de Direito, ser advogado, o que torna mais feliz sua mentora, Dagmar.

Galeguinho deixou a dependência de empregada, agora dorme em seu próprio quarto. Mostra sempre sua gratidão, tem verdadeiro afeto e carinho por sua protetora que mudou sua vida, que lhe deu o que um jovem da classe média pode ter. Para Dagmar é como se fosse um filho, aliás, mais que um filho. Nas refeições divide com ele a mesa. Segundo línguas ferinas, invencionice dos que não tem o que fazer, durante a noite, divide também a gostosa cama forrada de colcha de linho e travesseiros de marcela. Dagmar anda na maior felicidade, tem apenas um problema: administrar o ciúme das paqueras que dão em cima do belo surfista Galeguinho.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

AULAS PARTICULARES

Professor de talento e vocação como Tobias é raro. Dedica sua vida ao magistério, ensina em colégios e faculdades. Um dos professores mais antigos da Universidade. Ainda não se aposentou por amar a nobre profissão, seus cabelos grisalhos dão-lhe respeitabilidade, como ele gosta.

Austero, não admite falta ou atraso de alunos, em sua matéria só passa quem souber, no seu entender o professor tem a responsabilidade de mostrar a importância da disciplina durante a vida profissional. Tobias jamais aceitou as prevaricações descaradas de certos professores em aventuras com alunas, como é o costume de alguns colegas.

Acontece que o demônio aparece sem deixar perceber. Muitas vezes o capeta surge travestido em uma mulher bonita, ele é treloso e sabe das fraquezas humanas. O satanás incorporou-se em Dalila, aluna bonita, cabelos pretos, longos, olhos grandes, amendoados, sobrancelhas cerradas, pele macia, uma perdição. Ela parece não ser desse mundo, é galáctica, como dizem os homens de olho nela.

Há algum tempo Tobias notou estranho o comportamento de Dalila, usando vestidos sensuais em demasia, passou a tirar dúvidas das aulas com o professor no final da aula. Tobias se prontificava, entretanto, sentia-se incomodado com a proximidade e o perfume da aluna. Ele ficava com o sangue fervilhando quando a aluna se achegava mais perto vestindo saia curta, exibindo as belas pernas com uma borboleta tatuada na batata esquerda. Aquela tatuagem deixava Tobias emocionado. A diabinha sentiu a fraqueza do professor, durante as aulas sentava-se na primeira fila, abria as pernas com classe e sensualidade. Ela mostrava a calcinha exclusivamente para ele.

Dalila perturbou o professor durão, ela não saía de sua cabeça, em casa pensava nas pernas abertas e a calcinha branca. E a tatuagem? À noite sonhava com um enxame de borboletas voando ao seu redor

Certa tarde, após a aula, a jovem pediu para tirar uma dúvida. Ele explicou, tirou a dúvida da moça. Aproveitou que estavam sozinhos e falou que havia um assunto importante. Foi direto ao assunto.

– “Dalila, você sempre foi uma moça comportada, discreta; de um tempo para cá tenho notado mudança em seu comportamento, principalmente seus vestidos curtos, suas calças justas, não sou contra, sou um liberal na política e no viver, não me intrometo com a vida dos outros, acontece que sua nova maneira de proceder me tira a atenção. Quero lhe pedir dois favores: que se vista mais composta e assista as minhas aulas nas últimas bancas. Faça-me esse favor!”

Tobias falou rápido esperando alguma resposta da aluna, contudo, ficou sem ação ao ver Dalila levantar-se, caminhar até a porta da sala de aula, trancá-la à chave, retornar sorrindo, ato contínuo abriu o zíper ao lado da saia, deixando-a cair. Tobias não resistiu quando a moça o abraçou, deitaram-se por trás do birô. Amaram-se como dois animais, ali na sagrada sala de aulas.

Ao terminar ele sentiu-se culpado, vexado. A aluna cochichou em seu ouvido: “Quero mais amanhã, sei que você não trabalha nas quartas-feiras, lhe espero na Avenida da Paz, em frente ao coreto às três horas. OK?”.

Ele emudeceu olhando Dalila se afastar, abrir a porta, e desaparecer. O comportado professor passou o resto do dia e a noite pensando naquele pecado. Quando o diabo atenta, difícil se controlar. Na tarde seguinte, em frente ao coreto, estava Dalila mais bela que nunca. Levou-a ao motel, ficou louco com a aluna na cama.

Passaram a se amar quando podiam durante a semana. Aos sábados e domingos descanso, ele casado, ela ajudava ao pai no restaurante. Até que certa manhã, depois de três meses e meio de amor ardente e bom consumo de viagra, Tobias ficou surpreso quando sua Deusa, a diaba, entrou na sala de aula com roupa composta, mal cumprimentou o professor. Assim continuou pelo resto da semana.

Em um momento propício, Tobias tomou coragem, pediu um particular. Perguntou o motivo daquela mudança, daquele distanciamento, ele estava louco de paixão, querendo amor. Dalila respondeu com tranquilidade, sem algum remorso.

-“Não me leve a mal, eu desejava experimentar um amor maduro. Posso dizer que gostei de tudo, Tobias. Acontece que vou me casar em fevereiro, precisava dessa experiência. Meu futuro marido é mais jovem, bonito, rico. É um primo tem uma enorme fazenda em Monteiro, lá na Paraíba. Só conversa sobre boi e cavalo. É extremamente conservador, diz que fazer sexo anal e oral com a esposa é falta de respeito. Foi quando eu tive a ideia de antes de casar fazer uma experiência, uma aventura descompromissada com alguém que entendesse do assunto. Escolhi bem, agradeço suas experientes carícias. Seus dedos, suas mãos, seus lábios, marcaram todo meu corpo, momentos deliciosos e inesquecíveis, entretanto, pretendo ser fiel a meu marido, não vou repetir. Obrigada por tudo, professor, o senhor foi maravilhoso”

No dia da formatura Tobias recebeu um formal aperto de mão e um piscar de olho maroto de Dalila, como agradecesse as aulas particulares do professor.