CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

RICA DESCENDÊNCIA

Bisnetos americanos: Isabela Telga e Set

Deixo aqui, de certo modo, uma homenagem às minhas descendências. Principalmente aos meus onze bisnetos, o que não é trunfo fácil para qualquer velhote ostentar.

Ser bisavô de tantas criaturinhas me estufa o peito. A primeira – Isabela Telga – nascida na América do Norte, filha de Patrícia e James. E acho que fechei a rosca com a chegada da caçula – Luana – pernambucana do Recife, ainda com dois anos.

Quando aos 21 anos casei-me, nem poderia imaginar que viesse a ser tão numerosa a descendência. E para descrever melhor, uso os numerais: 4 filhos, 12 netos e 11 bisnetos, além dos quatro filhos. São, portanto, 27 criaturas que estão levando meu sobrenome Santos pelo mundo afora.
Entre a vidinha deles e o que observei na infância dos meus filhos, há grandes diferenças de educação, pois os lugares, os modos e os tempos onde foram criados apresentam características bem diversas.

Os tempos deram um pulo enorme desde que minha descendência se foi formando, a partir do ano de 1960, quando nasceu meu primogênito – Carlos Eduardo de Almeida Santos – até a chegada de Luana, uma das bisnetas, que veio nos encantar a partir de 2019; ou seja, decorreram aproximadamente 60 anos.

Luana, a bisneta caçula brasileira

O que lamento, nessa decorrência, é que os pequeninos de hoje estão sendo criados sem a liberdade que meus primeiros filhos usufruíram. Podiam brincar nas ruas sem perigos.

Os brinquedos das crianças de hoje são comprados em lojas e visam prende-los em apartamentos, tornando-se as escolas o único refúgio para sua convivência com outras crianças. Vê-se, com certa tristeza que vivem “pregados” às telinhas dos aparelhos eletrônicos que os viciam inexoravelmente.

Tenho que aceitar os rigores que o progresso lhes está impondo. Dos bisnetos, a primogênita, Isabela Telga, se prepara para entrar em período de faculdade, nos Estados Unidos, pois já conta quase 18 anos. E depois que casar-se, certamente iniciar-se-á uma outra geração.

O que me orgulha é possuir descendência tão rica. Afinal, só bisnetos, tenho a honra de informar, são onze. Os netos são doze e filhos quatro.

E isto não é trunfo para qualquer velhote não!…

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HISTÓRIAS PITORESCAS DA IMPRENSA

Um dos mais bem-feitos periódicos humorísticos do Recife. Circulou até 20.10.1909

Fernando Lobo, jornalista, escritor e produtor de televisão, (por sinal pai do cantor Edu Lobo) pessoa finíssima que conheci em 1984, por apresentação de Capiba, me disse uma frase que para mim se tornou clássica:

“Recordar não é querer que o tempo volte. É mais comparar as horas de ontem e achar graça no contraste das comparações”.

Por isso entrego aos meus leitores títulos de jornais que circularam no meu Pernambuco, para as suas comparações entre o Ontem e o Hoje.

Conheci um documentarista de grande valor: Luiz do Nascimento, uma figura que para mim se notabilizou por um trabalho que levou anos para ser concluído.

Durante tarefas comuns que exercemos no Centro de Estudos de História Municipal, como colaboradores, previ o quão seria útil seu trabalho tão abnegado: “A História da Imprensa de Pernambuco”, como o foram igualmente outros, incluindo-se Francisco Augusto Pereira da Costa e Nelson Saldanha.

Luiz do Nascimento deixou uma obra pouco comum, na qual reuniu títulos de periódicos que circularam em Pernambuco, entre os anos de 1821a1954.

Agora, dando um giro pela obra do saudoso jornalista fui encontrar verbetes interessantíssimos no sumário do seu trabalho: “Índice Alfabético dos Títulos de Periódicos que Circularam em Pernambuco”.

Aproveito para galhofar, mas falo sério quando faço comentários a respeito de comparações das épocas de ontem, com as de hoje. Por exemplo: houve jornais humorísticos que falaram sobre coisas muito sérias. Vejamos.

O jornal “Lanterna Mágica”, em sua edição nº 223, de 20 de maio de 1988, em que pese ocupar-se de temas pitorescos, comemora festivamente a libertação da escravatura.

Ora vejam! Um órgão humorístico abre uma edição inteira para comemorar o fato mais significativo daqueles anos.

Publicou em sua primeira página excelente retrato de D. Izabel, Princesa Imperial Regente do Brasil, com versos assinados por Carneiro Vilela.

D. Izabel, Princesa Regente

O jornal foi ainda mais além e fugindo de seu escopo. descreve a grande movimento de pessoas nas ruas do Recife, em 15 de maio, a entrega das bandeiras das associações abolicionistas ao Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, após a passeata das nações africanas, fatos que transformaram um jornal humorístico em algo muito sério.

Anos mais tarde falaria o artista Chico Anísio (Francisco Anisio de Paula Oliveira Filho): “As críticas mais sérias, quando ditas com boa dose de humor inteligente, atingem às finalidades com maior força”. E perduram.

Embora toda aquela edição do “Lanterna Mágica” haja se dedicado às festividades comemorativas do fim da escravatura, jamais perdeu sua essência de humor.

Vejamos os títulos de jornais, coletados por Luiz do Nascimento e por mim comentados.

ABC – Órgão Literário, Noticioso e Independente. Garanhuns. Não poderia haver título mais expressivo para tratar de literatura.

Abelha – Jornal do município de Vitória de Santo Antão, cidade destaque na produção de apicultura.

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PREFIXOS DE RÁDIO

Em 1965: Romildo, Edson de Almeida, Almy e Isaltino

O programa de Rádio mais conhecido nos anos 50 foi o “Repórter Esso”, que cobrindo boa parte do Brasil dava prestígio aos prefixos das emissoras que o transmitiram por mais de 27 anos.

Quando eu tinha uns 10 anos, (1946), era seduzido pelos programas da PRA-8 – Rádio Clube de Pernambuco. O único meio de comunicação sonora de massa que havia no Recife. Por isso me empolgava.

Era um alumbramento ouvir aquelas vozes límpidas e sem erros de gramática, nos noticiários, nas radionovelas, nas crônicas e anunciando as músicas.

Naquele tempo se destacavam em Pernambuco as vozes de José Renato, Abílio de Castro, Aluízio Pimentel e Fernando Castelão.

Se acaso sintonizássemos as Ondas Curtas, a fim de localizar as emissoras do exterior, era maior a vibração, porque se ouvia os locutores brasileiros que atuavam no exterior, dentre eles Aymberê e Luiz Jatobá, ambos da BBC de Londres.

Passei a ter o desejo de ser locutor de Rádio. Vivia anunciando os programas da época como se ao microfone estivesse. Parecia um “peãozinho doido” andando por dentro de casa, com a boca próxima a uma lata de leite, para ter a impressão que era um microfone.

Várias vezes mamãe me ouviu falando no banheiro, local em que havia boa ressonância: “E agora vamos ouvir a “Crônica do Meio Dia”, escrita por Xavier Maranhão, na voz de Abílio de Castro.”

Em 1948 meus tios Moacir e Floriza, permitiam que eu ligasse o enorme rádio “Murphy”, na casa deles, próxima à nossa, deixando-o sintonizado nas Ondas Médias e Curtas, através das quais se localizavam as emissoras do Rio de Janeiro, Meca do Rádio, na época.

O que me empolgava muito era a forma como os locutores ditavam os prefixos.

Outra de minhas doidices infantis, exercitada para ser um locutor carioca: “Rádio Nacional, Rio de Janeiro, Brasil, falando diretamente de seus estúdios, no Edf. “A Noite. E agora passamos a apresentar o Programa César Ladeira.”

E do lado de cá, no Recife, utilizando o rádio de nossa casa, um “Philco”, eu vibrava com o único prefixo de radio-broadcasting que se dispunha: “PRA-8 – Rádio Clube de Pernambuco, Brasil, falando diretamente do Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto.” Era um barato!…

Amadurecendo, entendi que para ser um locutor primoroso era preciso dominar bem o vernáculo, pronunciar com perfeição todos os “S” e “R”, além de ter a arcada dentária perfeita. Mas eu era bastante dentuço, além disso, fanhoso. Adeus locução!

Por imposição do destino me dediquei à escrita em jornais, porém nunca deixei de admirar a locução dos grandes noticiaristas que passaram pelo Rádio pernambucano.

Lembro-me bem das programações esportivas onde se apresentavam dois locutores ao mesmo tempo, falando da Cabine de Imprensa do Sport Clube do Recife, criada sob a inspiração do Diretor Pedro Bezerra Cavalcanti, a primeira do Norte-Nordeste.

Fernando Ramos e Fernando Castelão. Cada um transmitia um lado no jogo. Em campo, Jota Soares e Haroldo Praça faziam os comentários técnicos.

Era interessantíssima a coordenação entre eles. Castelão estava falando ao microfone e quando a bola ultrapassava a linha divisória do campo, definindo o local das duas equipes, quem tomava a palavra era Fernando Ramos. Um espetáculo de coordenação!

Recordo, para conhecimento das gerações atuais, os grandes locutores, apresentadores e atores das novelas do nosso Rádio: Abílio de Castro, Geraldo Liberal, Dantas de Mesquita, Fernando Castelão, Fernando Ramos, José Renato, Barbosa Filho, Aldemar Paiva, Ziul Matos, Samir Habou Hana, Paulo Duarte, Paulo Fernando Távora, Tavares Maciel, Geraldo Freyre e Edson de Almeida, este, que durante 12 anos foi o responsável pela apresentação do “Repórter Esso”, o noticioso de maior audiência em todo o País.

Com o advento da Televisão no Recife, no início dos anos 60, parte da força e dos talentos do rádio se dividiu ou migrou para esse novo e poderoso canal de comunicação. Em consequência, os grandes apresentadores do Rádio foram saindo para a Televisão, dentre eles Fernando Castelão que batia todos os ibopes com o seu “Você Faz o Show”, no horário nobre dos domingos.

A partir dos anos 80 as emissoras do Recife passaram oferecer mais jornalismo, esportes e prestação de serviços, ficando com as Televisões os espetáculos de auditório.

Pouco antes, no final dos anos 70, apareceram as FM’s, e assim as emissoras de broadcasting tiveram que ser totalmente reformuladas.

Não realizei meu desejo de criança que seria me tornar locutor de Rádio, porém, aprendi a escrever notícias breves e hoje administro um grupo de comunicação, via WhatsApp, que denominei “Correspondentes Unidos”, interligando pessoas de vários lugares do País e até do estrangeiro.

Recordo proveitoso estágio de Jornalismo na PRL-6 – Rádio Jornal do Commercio, onde aprendi a escrever no padrão exclusivo exigido para o “Repórter Esso”, o mais famoso noticiário de todos aqueles tempos no Brasil. Meus orientadores foram Isaltino Bezerra e Romildo Cavalcanti, aqui homenageados na foto principal destas notas.

Assim os prefixos de rádiojornalismo que eu vivia falando na casa de meus pais, feito um peãozinho doido, tiveram grande influência em minha trajetória através das notícias escritas.

Na foto acima, os locutores Fernando Castelão, Tavares Maciel, Ziul Matos e Abílio de Castro e os artistas: Ary Santa Cruz, Rildo Uchoa Cavalcanti, Oswaldo Silva, Hélio Peixoto, Dorinha Peixoto e Mercedes del Prado, todos do “cast” da PRA-8 – Rádio Clube de Pernambuco. Foto no “Palácio do Rádio”, em 1946.

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ANTIGOS E VALOROSOS III

Francisco Bayma, Gerente-adjunto do Banco do Brasil

Pouco se tem notícia de uma instituição cujos funcionários deram contributo tão significativo à vida social do Recife quanto o Banco do Brasil, sobremodo na década de 1950. O Recife os pranteou com nomes de várias ruas, praças e edifícios. Relacioná-los seria enfadonho para meus leitores.

Eu vivi esse tempo e algumas histórias das quais eles foram os atores. Estive próximo de alguns personagens. E por terem sido muitos, vou distribuir minhas louvações em várias crônicas, de certo modo cheias de graça, para que eles não fiquem, de todo, esquecidos.

Francisco Bayma, era nosso Subgerente, nos anos de 1950, tempos do “Prédio Velho”, época em que substituía o Gerente, Dr. Pedro Lima. Anos depois foi nomeado Gerente-adjunto, cargo no qual se aposentou. Ficava sob sua responsabilidade a área de administração do funcionalismo e a parte de movimentação financeira junto à rede bancária.

Era um cidadão manso, educadíssimo, mas caladão e de pouca conversa. Resolvia casos difíceis sempre com muito pensar e poucas palavras. Era um homem de ação. Mantinha as normas do Banco sobre todos nós, com rédeas curtas. Escreveu não leu a transferência para uma agência do interior acontecia.

Naqueles anos tínhamos um quadro de funcionários famosos: Capiba, Carnera, Osman Lins, Gastão de Holanda, Gilberto Vasconcelos, presidentes da Cooperativa, da AABB, da AAFBB, diretores de clubes esportivos e sociais, teatrólogos, advogados, professores, engenheiros e médicos.

Na mesa do homenageado: Luiz Gonzaga Alves de Albuquerque, Lúcio Maria Clementino Pires, Renato Machado Maia, Jorge Marques de Souza, Francisco Bayma, Luiz Marias de Figueiredo, Fernando da Silva Cunha, Lupercínio Travassos, Otacílio de Alcântara Venâncio, Agenor Nunes de Aragão, Mozart d’Olinda Campelo, Anísio do Monte Portela e outros. Abril de 1956

Em suma, pessoas que se sobressaiam em várias áreas da sociedade. E sendo destaques, naturalmente mais difíceis de serem administrados. E, como não seria infalível, ainda havia uns poucos que vez por outra peitavam as normas.

Na seriedade com a qual direciono minha homenagem àquele com quem trabalhei, lembro-me de interessante historieta.

Certa feita um funcionário conhecido por suas arbitrariedades, Numeriano topou no tapete do velho elevador Otis, que estava rasgado numa das pontas há bom tempo. Arretou-se, rasgou o resto e jogou tudo para fora, o que espantou o cabineiro, João Monteiro e outros que estavam por perto.

Foi lamentável a maneira sui-generis pela qual ele desejou chamar a atenção do administrador. Se esquecera, talvez, de que o Banco dependia de licitação ou carta-convite até para comprar papel higiênico. E mais, a compra estava a caminho e demorava porque não havia peça semelhante na Casa da Borracha, uma das poucas fornecedoras desses produtos especiais, que havia no Recife.

Passados poucos dias, quando se pensava que o fato havia esfriado, Numeriano foi chamado à Subgerência. Sua arrogância, a essa altura, já se havia pulverizado por completo.

Mas, reconhecido como funcionário eficiente, apresentou-se pensando, certamente, que iria ser prestigiado, no mínimo, com uma “Viagem de Numerário”, por seu “ato de bravura” ao danificar o patrimônio do Banco e ter saído ileso. Julgou que Subgerente iria lhe dar uma satisfação pela demora na compra do tapete.

“Viagens de Numerário” eram missões que somente beneficiavam funcionários eméritos. Havia uma gratificação sobre as quantias que levavamos. Além de ser verdadeiros passeios-turísticos. Nossa sorte era quando ocorriam para lugares distantes, porque o “passeio” era de avião.

Ser convocado para uma dessas missões, quando o deslocamento era para o Rio de Janeiro, Natal, Maceió, Fortaleza ou Salvador era o mesmo que se receber u’a medalha de bom comportamento.

Os momentos diferentes que poderíamos vivenciar nunca se assemelhavam a um dia de trabalho normal. E o Subgerente era o dono da “Caixa de Viagens”. Era dele a escolha do funcionário, após consultar as chefias. Chega o funcionário à Subgerência:

– Pronto, Seu Bayma, às suas ordens!… – Apresentou-se Numeriano, garboso como um cabo diante de um general.

– Já comprou? – Indagou o Subgerente.

– Comprou o que?

– O tapete do elevador que o senhor rasgou e jogou fora!…

Numeriano sentiu a falta de uma fralda. Até os cabelos das axilas ficaram em pé. Quase se borrou. Mas o pior viria, ao receber uma carta pronta para ser assinada, solicitando adição para Vitória de Santo Antão.

Leu o papel meio trêmulo e perguntou que se comprasse o tapete escaparia àquela punição.

– Não senhor. E se o tapete até às 18h de hoje não estiver no elevador, considere-se à disposição da Direção Geral a partir de amanhã. E saiba que esta agência foi complacente dando ao senhor uma oportunidade porque o senhor era um funcionário de escol.

Tudo isso na maior maciota. O Subgerente era uma pessoa tão querida pelo funcionalismo que ao ser nomeado Gerente-adjunto, recebeu, como homenagem, um jantar no Restaurante Leite, o melhor do Recife, com música de piano a cargo de Isnard Mariano, comparecendo 45 colegas, distribuídos em vários grupos, ocupando todo o salão.

TURMA DE VALOROSOS – Na foto acima, feita em 1941, um grupo de funcionários do Banco do Brasil-Recife: Manuel Monteiro, João Batista Campos, Cirilo Mousinho, Pedro Lima, Francisco Bayma, Anísio Portela e Alberto Falcone. Em segundo plano: Alfredo Correia, José Barreto, Pedro Cavalcanti, Clodomiro Correia de Oliveira, Almir Sother, Gilvan Azevedo, Henrique Gonçalves, Ludovico s Santos, Álvaro Arantes, Mílton Santos e Jovelino de Brito Selva.

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UM GETÚLIO TRELOSO

Quarto onde Dr. Getúlio Vargas trocava figurinhas

Quando há três anos fui com meu neto Gabriel Pinheiro Santos, ao Rio de Janeiro, ficamos hospedados no Hotel do Inglês, na Rua Silveira Martins, ao lado do Palácio do Catete, estabelecimento que existe desde o início dos anos 40.

Logo que entramos no quarto o recepcionista nos disse que iriamos ficar hospedados exatamente no mesmo apartamento que, em anos passados, era permanentemente reservado para o Presidente do Brasil, o saudoso Dr. Getúlio Vargas, e segredou-me:

– Está vendo meu senhor, desta varanda se avista o jardim dos fundos do Palácio do Catete, por onde ele “escapava” para suas noitadas de “troca de figurinhas”. Às madrugadas, Dr. Getúlio deixava seus aposentos no Palácio, alegando aos Seguranças que precisava andar um pouco pelas redondezas, para arejar as ideias e era necessário que fosse sozinho, a fim de aliviar suas “preocupações” políticas. E simplesmente atravessava a Rua Ferreira Martins, dando boas baforadas em seu charuto, vestindo o que ele chamava “traje esportivo de velho”: o paletó sem gravata. Durante memoráveis madrugadas ele conseguia driblar a todos e vinha ocupar o quarto que estava reservado para ele durante todo o tempo em que esteve no Palácio do Catete.

Meu saudoso amigo Alcides Alves dos Santos, autor do livro “Toneleiro”, que foi um dos seguranças do Dr. Getúlio, me confirmou essa história, comentada por funcionários do hotel.

– Todos os dias abríamos as janelas, limpávamos tudo, inclusive o guarda-roupas, para arejar alguns pertences que ele mantinha aqui, como se fosse uma “residência de emergência”. Vi, numa certa madrugada, o ilustre e querido Presidente subir pela escada, até o 1º andar, a fim de não ser visto no elevador. Eu sabia que lá estava à sua espera ninguém menos do que a famosa cantora e dançarina portuguesa, Carmen Miranda, que se hospedara momentos antes. Com ele, ao que se supunha, “trocaria figurinhas”…

No dia seguinte, sentindo-me jornalista em ação, “entrei pesado”: sugeri, à Gerência – avaliando que ali se havia desenrolado um fato e certa relevância histórica – que se deveria fixar uma placa com os seguintes dizeres:

“Aqui neste quarto o Dr. Getúlio Vargas, Presidente da república, “trocou figurinhas” com a atriz cinematográfica, Carmen Miranda.”

E um velho Gerente, com mais de 50 anos de trabalhos naquele hotel, me confidenciou:

– Não foram poucas as dançarinas estrangeiras que depois de se apresentarem no Cassino da Urca, também se acomodaram no mesmo quarto, para – digamos – “discutir política” reservadamente com o Presidente.

E testemunhando tais cenas, foi mais além em sua narrativa. Contou-me que o ex-chefe do Estado Novo, certa noite, tomou um pifão tão “pesado” que desceu as escadas de pijama e chinelos.

– Ele apareceu na Portaria, às quatro da madrugada, “charutando”, cantando e fazendo coreografias, como quem imita a “Pequena Notável”. Estava visivelmente “chapado”!… Desejava abrir o portão do hotel para retornar ao Catete, mas sem as roupas com as quais havia chegado ao nosso hotel, seria um escândalo! Felizmente foi convencido pelo nosso habilidoso Segurança da Noite, para evitar problemas; pois saíra de paletó, para dar um passeio a pé pela Avenida, e ali estava só de pijamas, querendo retornar à residência presidencial. Como se explicaria tal desplante? Mas não deu outra, senão facilitar seu desejo, porque o homem era a autoridade máxima do País. Fizeram um acordo: que ele não passasse da calçada. Mas, o pior foi que o Dr. Getúlio começou a cantar partes da famosa música de Caymi, que era sucesso de Carmem Miranda:

“O que é que a baiana tem…
O que é que a baiana tem…
O que é que a baianaaaaa temmmmm?…”

Em dado momento, percebendo que estava na rua em traje de dormir, deixou escapar mais estas indagações, pois estava bêbado de fazer dó: 

– Minha Carmencita… cadê minha Carmencita?

E a Carmencita dele já deveria estar no mundo dos sonhos, talvez “cheia do mé.”

De fato, era os tempos de um Getúlio treloso.

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AABB – UM CLUBE NA HISTÓRIA

Complexo sócio esportivo da AABB-Recife

Pouco se tem observado que os clubes sociais e esportivos do Recife significam locais de divertimento para as famílias, funcionam como centros culturais e esportivos para os jovens, e assim polos educacionais em geral.

Neste comentário trago notícia histórica sobre a AABB, de onde sou associado há seis décadas, que neste mês comemora 82 anos de fundação, e reelegeu, em chapa única, seu Presidente, Euler Araújo de Souza para mais três anos de mandato.

A história do clube começou quando um grupo de esportistas se reuniu para praticar o atletismo – geralmente o futebol – e a partir daí, se formou uma sociedade dançante e cultural, além de esportiva. Mas, vamos rever uma síntese de sua história.

Há um estirão de tempo surgiu no Recife o Satélite Club, grupo formado por jovens bancários, tendo como organizadores os musicistas Lourenço da Fonseca Barbosa (Capiba) e Felinto Nunes de Castro Alencar (Carnera).

Além de poderoso esquadrão de futebol, se constituiu um grupo social respeitável por sua intensa atividade, inclusive realizando festas no Clube Internacional do Recife, porque não possuía sede e muito menos estatutos.

Seus descendentes devem estar orgulhosos por saberem que seus antecedentes colaterais criaram uma instituição que teve fôlego para cumprir um Regimento capaz de ultrapassar oito décadas.

Dentre eles: Dr. Álvaro Ramos Leal, Armando Dantas, José Leopoldino de Luna Pedrosa Filho, Dr. Armínio de Lalor Mota Nelson Lima, Prêntice Avelino da Cunha, Raul de Sá, Franklin Diniz, Mário Fontes, Antônio Pinto de Lemos, Gutenberg de Arruda Peixoto e Luiz Burgos, que formaram a Comissão Organizadora que mais adiante organizou a Assembléia Geral com 81 funcionários do Banco do Brasil e legalizaram a fundação do Clube, imprimindo-lhe outro nome.

Assim, depois de dez anos viria o Satélite Club a se transformar, criando normas de acordo com lei, para se identificar como: Associação Atlética Banco do Brasil-Recife, parte de uma federação que congrega atualmente mais de 1.200 clubes interligados: a Federação Nacional de AABB.

Durante estes 82 anos de atividade ininterrupta, edificou um complexo sócio esportivo que causa admiração; e a cada dia mais se agiganta em todas as modalidades esportivas, culturais e quanto ao patrimônio imobiliário.

Um clube inteligente que mais tarde se expandiu e congregou em seu corpo a categoria de Sócios Comunitários, atualmente formando uma sociedade de sólidos princípios, grandes feitos esportivos, culturais e amplo patrimônio.

Situado no antigo Sítio dos Moreira, próximo ao Parque da Jaqueira, nas Graças, ocupou uma área de terreno com aproximadamente dois mil metros quadrados.

Depois, graças à visão dos seus administradores Sérgio Dias Cesar Loureiro e Alcides Alves dos Santos, foi adquirindo vários imóveis circunvizinhos e assim edificou algumas construções internas, onde foram acomodando seus departamentos, inclusive um prédio de três pavimentos.

Hoje conta com três salões para eventos sociais, duas quadras cobertas de tênis, três piscinas, campo de futebol, um ginásio esportivo, dois restaurantes, duas bibliotecas, salão de sinuca, estacionamento para 90 veículos, sala exclusiva para aposentados e um auditório.

Euler Araújo de Souza – Presidente da AABB

O clube conquistou seu lugar nos esportes, registrando no acervo de seu Memorial nada menos que 1.785 troféus conquistados por suas equipes esportivas e 10.395 peças digitalizadas, entre fotografias e documentos. Fundou um grupo de teatro, mantém uma Unidade de Documentação Histórica e recentemente fundou uma academia de artes e letras.

Tanto tempo passou desde 10 de julho de 1939, mas a Associação Atlética Banco do Brasil continua progredindo, graças ao espírito daqueles que têm formado suas administrações ao longo de tantos anos, guiados pelo exemplo de pioneirismo dos seus fundadores.

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BRINCANDO COM AS PALAVRAS

Na longa caminhada jornalística contracenei com vários poetas, filólogos, compositores e outros tipos de mestres em brincar com as palavras. Aprendi a admirá-los e fazer grandes amizades.

Dentre eles, Dirceu Rabelo, Berlando Raposo, Mário Souto Maior e Carlos Antônio Rabelo, só pra citar uns poucos. Todos de elevada sabença no trato com as palavras.

De minhas anotações encontrei algumas coisas muito interessantes, com as quais brindo meus leitores.

Certo dia, lembrando-me de Orlando Tejo, pedi a Carlos Rabelo para glosar uma das filosofias daquele grande paraibano, quando num bar de Brasília ele escreveu um verso longo, sobre um cidadão de má conduta.

É um verso muito engraçado, que nosso Editor Luiz Berto sabe de cor e salteado. Já fez até festejado vídeo declamando o dito cujo. De u’a monumental estrofe pincei duas linhas e sugeri ao poeta de São José do Egito, um mote.

Disse Tejo, que foi um dos maiores poetas da Paraíba:

“Anda de marcha ré na estrada da virtude”.

Ao que Carlos Rabelo, a meu pedido glosou:

Se alguém partir a pé
É capaz de se atrasar.
Se resolver não chegar
VAI ANDAR DE MARCHA RÉ.
Não é preciso ter fé
Demonstrar beatitude
Na velhice ou juventude
quem pra trás vive a andar
Por certo não vai passar
NA ESTRADA DA VIRTUDE

Andar prá trás não adianta
Pois não contempla o futuro
Se o passado não censuro
O porvir é que me encanta
Da semente nasce a planta
O fruto é a plenitude.

Quem com o tempo se ilude
Volta a ser um zé-mané
SE ANDAR DE MARCHA RÉ
NA ESTRADA DA VIRTUDE.

Em outra passagem, bebericando num sítio de Dirceu Rabelo, lá em Carpina, indaguei se ele costumava fazer veros fora do estilo romântico. Como resposta soltou-me um dos seus mais apreciados.

Mas, antes, contou a cena. Ao dar um passeio de lancha lá pelas águas do Maranhão, o motor deu pane e ficaram à deriva os políticos Eduardo Cafeteira e José Sarney.

Dirceu não perdeu a oportunidade de gozar ambos:

Ao velho tubarão perguntei
Se o mar lhe favoreceu
Por que você não comeu
Cafeteira e Zé Sarney?

Ao que o sábio animal
Logo me respondeu:
Prefiro morrer de fome
A morrer de indigestão.

Normando Raposo foi outra criatura que conheci, que mesmo sendo poeta, publicava coisas interessantíssimas, muitas das quais editei em minhas revistas. Contou-me ele:

Quando entrevistei durante algumas horas um índio lá no Alto Xingu e deligamos nossos equipamentos para ir embora, ele foi tirando o cocar e pronunciou:

– Agora posso trocar de roupa!…

O mesmo Normando contou-me:

Um homem perdido na mata, de madrugada, viu um clarão diante dele e pensou que fosse um disco voador. Mas na verdade se constatou que aparecera sim, um vagalume gigante com “ideia luminosa.”

Mário Souto Maior, meu saudoso amigo, famoso filólogo, gostava de brincar com as palavras, como se fosse um jogo de armá-las.

E certo dia, ao visitá-lo em seu terraço, onde se balançava em uma dolente rede, tendo na barriga o Dicionário Aurélio, me favoreceu com estas maravilhas que estava preparando.

Com um “Pai dos Burros” e um caderno de notas à mão, ele foi anotando e chegou à observação que os verbos rir, reler, raiar e rever, lidos ao contrário significam a mesma coisa.

E foi mais além:

Os prenomes Ana e Oto, têm o mesmo comportamento. Já Raul passa a ser luar. Eva passa a ser ave. Saul passa ser luas. Lael passa a ser leal. Edna passa a ser ande. Omar passa a ser ramo e Lena passa a ser anel.

Uma das frases mais conhecidas, lida às avessas dá no mesmo: “Roma me tem amor”.

Dias depois me telefonou informando que causou embaraços em sua mente, o exercício que havia feito, de tanto ler palavras de revestréis, naquele domingo em que comigo se encontrou.

E me repetiu o que disse ao chegar à sua repartição no dia seguinte, não mais acertando nem a pronunciar o próprio nome:

ROIAM OTUOS OIRAM (Mário Souto Maior).

Depois disso foi mais além e publicou nota sobre aquele nosso encontro no livro: “Folclore quase sempre”. Peguei gás!

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CANTA SE QUERES VIVER

O cantor Claudionor Germano, astro do carnaval do Recife

Em 1962, quando assistente da Gerência do Banco do Brasil, no Recife, apresentei um jovem cantor de Rádio, ao Dr. Pedro Lima, durante momento muito agradável, porque o primeiro diálogo foi meio hilário, em virtude do bom humor de ambos.

Ao introduzi-lo, além da apresentação comercial ao meu chefe, informei que se tratava de um famoso cantor do Rádio Jornal do Commercio.

Uma prosa se iniciou antes que as tratativas comerciais surgissem.

– Ah, então o senhor canta no Rádio Jornal? Sabia que sou acionista de sua empresa, exatamente da Tv Jornal?

– Que bom! Sim, sou cantor, mas aqui o assunto é comercial. Sou Claudionor Germano da Hora e aqui estou para dirimir dúvidas quanto a uma operação comercial que está em curso com uma das clientes do Banco do Brasil, a empresa Gessy-Lever, da qual sou Gerente.

E Dr. Pedro, inteligente, procurou derivar um pouco antes do cliente tratar do assunto. Perguntou se a atividade musical dava dinheiro, ao que o cantor respondeu com segurança quase filosófica:

– É uma profissão muito ilusória. A fama pode subir à cabeça, mas o sucesso é coisa temporária. Por isso tenho uma atividade paralela, sendo comerciário.

– O amigo é pernambucano?

– Sou, nasci na Avenida Caxangá, aqui no Recife, no Dia do Índio: 19 de abril.

– Quantos irmãos tem?

– Lá em casa somos cinco irmãos. Um deles é o escultor Abelardo da Hora.

– Ah, então quer dizer que são “Cinco Horas?…”

Diante do trocadilho, o cliente compreendeu que se tratava de um cidadão agradável e que desejava derivar um pouco a chatice do assunto comercial que o levara ao Banco, soltando conversa. Foi quando o cantor aproveitou para melhor se ambientar.

– Vale dizer ao senhor que tenho boas ligações com o seu Banco, porque com o funcionário José Barreto e um amigo comum, o Aldo Guedes, formamos o conjunto: “Trio Albano”, mas foi coisa de amador.

– O que, rapaz!… Então você está em casa!… Fale mais alguma coisa sobre você.

– Gravei uma das mais notáveis canções de Capiba: “Maria Betânia”, que aliás, foi a trilha sonora da peça “Senhora de Engenho”, de Hermógenes Viana, também, funcionário do Banco do Brasil e ilustre homem de letras.

– O que, meu amigo? Estou admirado!

E desse encontro tão agradável, comecei a imaginar: escrever a biografia de Claudionor. Fiz a pesquisa, muitas entrevistas com cantores, compositores e colecionadores e lancei anos depois, sob o título de “Canta se queres viver”, um livro que motivou um espetáculo realizado no Salão Nobre do Clube Internacional do Recife.

Fizemos um show com um monte de artistas, do qual participaram Onilda Figueiredo, Mêives Gama, Paulo Duarte, Fernando Castelão, Voleide Dantas, Nerise Paiva, Paulo Duarte, Antônio Laborda, Irmãs Acyoman, Mônica Maria, Inalva Pires, Marilene Silva, Flor de Maria, Gilberto Fernandes, Terezinha Mendes, Jakson do Pandeiro, Mimi Castilho, Neide Maria, Inaldo Vilarim, José Auriz, Capiba, Expedito Baracho, Creusa de Barros e alguns outros artistas, sem falar os intelectuais.

Claudionor Germano é um dos maiores intérpretes de Capiba e quando divulgamos aquele livro ele já havia gravado mais de 100 músicas desse compositor, segundo notas de Samuel Valente, um dos maiores colecionadores de música popular brasileira.

Nossa amizade continua representando a maior expressão de afetividade até os presentes dias, quando lhe faço visitas regulares e aproveitamos para rever os melhores tempos do Rádio pernambucano.

Nunca me esqueci de uma das suas frases filosóficas:

“Cante se quiser viver bem! Por isso que eu vivo a cantar!”* * *

Claudionor Germano e Orquestra Nelson Ferreira

* * *

A Dor de Uma Saudade – Composição de Capiba e interpretação de Claudionor Germano

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

A MISS “INCOMODADA”

Aos 19 anos, vivendo no Recife, eu farejava a todo instante um assunto diferente para basear minhas reportagens. Encontrei um camarada que comigo fez parelha. Também gostava de pensar em coisas diferentes para abordar em suas hilárias crônicas.

João de Belli buscava nas situações mais inusitadas um motivo para transformar em graça, a fim de enriquecer suas crônicas.

Tinha um nome curto e a fisionomia fechada. Carrancudo até. Mas, era muito engraçado. Era funcionário do Banco do Brasil na década de 1950, quando trabalhávamos no prédio da Praça Rio Branco, que na verdade tinha o endereço da Av. Alfredo Lisboa, 427.

Escrevia crônicas de humor no “Correio Bancário” todos os meses. Sempre que chegava ao trabalho antes da hora, formava um grupinho para contar suas historietas. Seu estilo era simples, inteligente, fácil de entender e próprio para qualquer idade.

Editor dos seus livros – “Notas de um Misantropo” e “Sem Bata e sem Bota” – lembrei-me de algumas das suas tiradas geniais, a começar pela legenda de sua foto.

João de Belli: “Vista parcial do Autor”

Ao abrir um dos seus livros, logo no Prefácio vamos encontrar: “Leia certo onde estiver errado”.

Nele, uma crônica se tornou famosa: “O Inferno Melhorado”, onde narra episódios sobre um mundo que ele julgava maravilhoso, inclusive com a ideia do “Corpo Humano Reformado”. Além disso, as melhorias feitas pelo Capeta em suas propriedades. Vejamos:

O Diabo, por estar perdendo hóspedes para o Purgatório, resolveu fazer alterações em seus domínios. A primeira delas foi baixar a temperatura das fornalhas, o que atraiu muitos candidatos.

Os “sentenciados”, que dormiam sob colchões-de-fogo passaram a ter direito a camas de arame-farpado, sem colchões.

Para animar a criançada o chefe do “Serviço de Atrações” mandou instalar nos Parques Infantis, escorregos com pregos pontiagudos nas descidas.

As piscinas passaram a ser de água fervente, com direito a uso da Caixa de Saltos, sem água, para que os atletas se quebrassem os no primeiro treino.

Para incentivar o turismo criou a “Espeto-tur”, com direito a ônibus com “ar de fogo-condicionado” e poltronas forradas com folhas de lixa, costuradas com urtiga braba.

Para manter o corpo dos habitantes mais vistosos fornecia, logo na entrada do Inferno, capas pretas já com caudas e chapéus com chifres fosforescentes, para os cornos serem vistos à noite.

Nas barbearias, determinou que fossem usadas “navalhas cegas” e “loção de pimenta” após as barbas.

Os dentistas foram obrigados a utilizar ácido de bateria para anestesiar as extrações de dentes.

Puniu muitos capetas por contrabando de cruzes, água benta, escapulários e bíblias.

Por fim baixou um decreto muito animador, determinando que a partir do ano 3.000 somente os Diabos casados usariam chifres.

De Belli era muito presepeiro. E ouvindo falar que eu estava iniciando atividade jornalística, sugeriu ir comigo entrevistar Miss Náutico. E para me entusiasmar, se ofereceu até para fotografar a ocorrência. Para ambos um projeto avançado. Entrevistar u’a Miss!…

Topei porque ele já havia se entrosado com o pai da Miss, moça fina, de família recentemente chegada do interior da Paraíba. Portanto, se esperava uma apresentação de prestígio.

Para nós dois, tudo marcado. Mas Nielson, o pai da Miss, esquecera de avisar a filha sobre a entrevista. E na hora aprazada nos encontramos na porta de um pequeno prédio da Rua Gervásio Pires. Eu com um bloco de notas e caneta na mão e João de Belli empunhando u’a reluzente “Kodak-caixão”, daquelas que não tinham flash. Coisa de museu.

Kodak-caixão. Um monstrengo da década de 50

Tocamos a cigarra. Desceu a escada devagar, uma senhora, já meio rodada nos anos. Cabelos brancos, pele enrugada, pernas meio bambas. Pareceu ser a Dama de Companhia da Miss. Muito delicada, se pronunciou:

– O que desejam?

Anunciamos que éramos os repórteres recomendados pelo pai da miss. E éramos do Banco do Brasil.

– Pensei que fosse esmola!… Esperem um tiquinho!

Disse que voltaria já com a chave do portão.

Subiu, demorou um bocado e veio informar que Nielba não poderia nos atender naquele dia. E com um olhar tristeza informou que o pai dela não lhe havia dito nada sobre a entrevista. E por isso estava tendo um “buruçu” lá em cima.

Depois de um tempão, desceu ainda mais devagar para dizer que não tinha jeito mesmo. Muito atenciosa, porém de “poucas letras”, diante de nossos argumentos, soltou uma história muito mal inventada pela família.

E dado à nossa insistência – pois estávamos sob o sol e esperando na calçada – talvez amedrontada com a sisudez de João de Belli, disparou essa excrescência:

– Olhe, meu sinhô, quer que eu diga a verdade? A miss não pode vir porque, como se diz lá na Paraíba, ela está “incomodada”!

Nelbe, Miss Náutico 1956. Acervo de Fernando Machado

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ENCONTRO COM BIBI FERREIRA

Bibi Ferreira em foto de 1953

Tenho dito que o jornalismo me realizou. Foram tantas as amizades que daria um pequeno dicionário se fosse fazer a relação.

Aos 16 anos eu era Escriturário do City Bank e trabalhava com Amílcar Dória Matos no setor de Ordens de Pagamento. Como atividade paralela praticava o jornalismo, publicando reportagens como Profissional Liberal Autônomo, aproveitando os fins de semana para as reportagens.

Certa manhã atendi no balcão do Banco um casal. Ela disse que desejava receber uma Ordem de Pagamento e lhe solicitei a Cédula de Identidade. Era Abigail Izquierdo Ferreira. Nome estranhíssimo.

Passei-lhe o formulário, colei os selos de Educação e Saúde, e lhe solicitei duas assinaturas; sendo uma por cima dos selos e outra igual à identidade, que seria conferida por D. Eunice Catunda.

A selagem era uma forma de o Governo Federal cobrar imposto destinado à Educação e à Saúde. Nesse tempo os documentos que formalizavam um empréstimo bancário eram as Notas Promissórias, que também eram seladas.

Ao cidadão que estava com ela indaguei o nome, pensando que seria também um beneficiário. Um tipo bonitão, muito simpático, que causou frenesi nas moças do Banco.

Herval Rossano, o galã

– Herval Rossano é meu nome artístico, mas na Identidade sou Herval de Abreu Paes.

E puxou conversa.

– Mas nada tenho a receber do seu Banco, porque ela – apontou para Bibí – é quem me paga. Trabalhamos juntos no teatro. Ontem foi o fim de nossa temporada no Teatro Santa Isabel; por sinal muito bonito, tanto o teatro quanto a sua cidade.

Aí “soltei meus cachorros”.

– Também já me apresentei lá na sua terra, no Teatro Regina, localizado na Cinelândia. Sou do Teatro de Amadores de Pernambuco. Logo vi que conhecia essa senhora de fotografias, mas o nome me pareceu estranho…

– Ela é Bibi Ferreira! – Disse-me Herval Rossano.

Aí “peguei ar” como dizem os humoristas.

– Que honra atende-la, madame! Sobretudo por ser filha do sr. Procópio Ferreira, o inimitável astro que conheci num engenho do Vale do Siriji, aqui em Pernambuco.

– Como conheceu papai?

– Numa festa no Engenho Palma, em Machados, quando numa festa, ele foi apresentado a duas moças – Margarida e Madalena – alguém, indiscretamente indagou qual das duas era a mais bonita.

Precisando de tempo pra pensar, soltou um sorriso bem teatral e disse que responderia logo mais.

Procópio, o pai de Bibi, com 62 anos de carreira, interpretou mais de 500 personagens em 427 peças

Pedi ao fotógrafo que não tirasse os olhos dele porque era um ator famoso do Rio de Janeiro e iria demorar pouco por ali. Era o motivo de nossa reportagem. Tínhamos a missão de acompanha-lo. Aí surgiu o fato principal.

Mesas espalhadas pelo pátio bem iluminado, quitutes e bebidas correndo à vontade, o Senhor do Engenho todo satisfeito com a presença do ator naquela noite especial. Discretamente Procópio pegou um guardanapo e escreveu um verso elogiando as duas sem definir sua predileção:

Não sendo nada poeta
Mas simples homem de cena
Não sei qual a mais bela
Se Margarida ou Madalena.

Na época em que nos encontramos eu estava com o verso na memória e logo o declamei. Depois que Bibí foi ao caixa receber o dinheiro, retornou para que eu lhe ditasse o verso de seu pai, que ela não conhecia. Anotou meu nome numa revista e se despediram comentando o fato.

Bibi, como alguns sabem, era uma das maiores atrizes dos palcos brasileiros, além de cantora e diretora de teatro. Nosso encontro foi marcante. Ficaria na minha história.

Meses depois recebi dela um cartão-postal com este recado:

Entreguei o verso a papai. Ele ficou impressionado com sua memória. Um beijo da Bibi. Rio de Janeiro, 24.03.1954.