CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Aos 19 anos, vivendo no Recife, eu farejava a todo instante um assunto diferente para basear minhas reportagens. Encontrei um camarada que comigo fez parelha. Também gostava de pensar em coisas diferentes para abordar em suas hilárias crônicas.

João de Belli buscava nas situações mais inusitadas um motivo para transformar em graça, a fim de enriquecer suas crônicas.

Tinha um nome curto e a fisionomia fechada. Carrancudo até. Mas, era muito engraçado. Era funcionário do Banco do Brasil na década de 1950, quando trabalhávamos no prédio da Praça Rio Branco, que na verdade tinha o endereço da Av. Alfredo Lisboa, 427.

Escrevia crônicas de humor no “Correio Bancário” todos os meses. Sempre que chegava ao trabalho antes da hora, formava um grupinho para contar suas historietas. Seu estilo era simples, inteligente, fácil de entender e próprio para qualquer idade.

Editor dos seus livros – “Notas de um Misantropo” e “Sem Bata e sem Bota” – lembrei-me de algumas das suas tiradas geniais, a começar pela legenda de sua foto.

João de Belli: “Vista parcial do Autor”

Ao abrir um dos seus livros, logo no Prefácio vamos encontrar: “Leia certo onde estiver errado”.

Nele, uma crônica se tornou famosa: “O Inferno Melhorado”, onde narra episódios sobre um mundo que ele julgava maravilhoso, inclusive com a ideia do “Corpo Humano Reformado”. Além disso, as melhorias feitas pelo Capeta em suas propriedades. Vejamos:

O Diabo, por estar perdendo hóspedes para o Purgatório, resolveu fazer alterações em seus domínios. A primeira delas foi baixar a temperatura das fornalhas, o que atraiu muitos candidatos.

Os “sentenciados”, que dormiam sob colchões-de-fogo passaram a ter direito a camas de arame-farpado, sem colchões.

Para animar a criançada o chefe do “Serviço de Atrações” mandou instalar nos Parques Infantis, escorregos com pregos pontiagudos nas descidas.

As piscinas passaram a ser de água fervente, com direito a uso da Caixa de Saltos, sem água, para que os atletas se quebrassem os no primeiro treino.

Para incentivar o turismo criou a “Espeto-tur”, com direito a ônibus com “ar de fogo-condicionado” e poltronas forradas com folhas de lixa, costuradas com urtiga braba.

Para manter o corpo dos habitantes mais vistosos fornecia, logo na entrada do Inferno, capas pretas já com caudas e chapéus com chifres fosforescentes, para os cornos serem vistos à noite.

Nas barbearias, determinou que fossem usadas “navalhas cegas” e “loção de pimenta” após as barbas.

Os dentistas foram obrigados a utilizar ácido de bateria para anestesiar as extrações de dentes.

Puniu muitos capetas por contrabando de cruzes, água benta, escapulários e bíblias.

Por fim baixou um decreto muito animador, determinando que a partir do ano 3.000 somente os Diabos casados usariam chifres.

De Belli era muito presepeiro. E ouvindo falar que eu estava iniciando atividade jornalística, sugeriu ir comigo entrevistar Miss Náutico. E para me entusiasmar, se ofereceu até para fotografar a ocorrência. Para ambos um projeto avançado. Entrevistar u’a Miss!…

Topei porque ele já havia se entrosado com o pai da Miss, moça fina, de família recentemente chegada do interior da Paraíba. Portanto, se esperava uma apresentação de prestígio.

Para nós dois, tudo marcado. Mas Nielson, o pai da Miss, esquecera de avisar a filha sobre a entrevista. E na hora aprazada nos encontramos na porta de um pequeno prédio da Rua Gervásio Pires. Eu com um bloco de notas e caneta na mão e João de Belli empunhando u’a reluzente “Kodak-caixão”, daquelas que não tinham flash. Coisa de museu.

Kodak-caixão. Um monstrengo da década de 50

Tocamos a cigarra. Desceu a escada devagar, uma senhora, já meio rodada nos anos. Cabelos brancos, pele enrugada, pernas meio bambas. Pareceu ser a Dama de Companhia da Miss. Muito delicada, se pronunciou:

– O que desejam?

Anunciamos que éramos os repórteres recomendados pelo pai da miss. E éramos do Banco do Brasil.

– Pensei que fosse esmola!… Esperem um tiquinho!

Disse que voltaria já com a chave do portão.

Subiu, demorou um bocado e veio informar que Nielba não poderia nos atender naquele dia. E com um olhar tristeza informou que o pai dela não lhe havia dito nada sobre a entrevista. E por isso estava tendo um “buruçu” lá em cima.

Depois de um tempão, desceu ainda mais devagar para dizer que não tinha jeito mesmo. Muito atenciosa, porém de “poucas letras”, diante de nossos argumentos, soltou uma história muito mal inventada pela família.

E dado à nossa insistência – pois estávamos sob o sol e esperando na calçada – talvez amedrontada com a sisudez de João de Belli, disparou essa excrescência:

– Olhe, meu sinhô, quer que eu diga a verdade? A miss não pode vir porque, como se diz lá na Paraíba, ela está “incomodada”!

Nelbe, Miss Náutico 1956. Acervo de Fernando Machado

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