CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

Bibi Ferreira em foto de 1953

Tenho dito que o jornalismo me realizou. Foram tantas as amizades que daria um pequeno dicionário se fosse fazer a relação.

Aos 16 anos eu era Escriturário do City Bank e trabalhava com Amílcar Dória Matos no setor de Ordens de Pagamento. Como atividade paralela praticava o jornalismo, publicando reportagens como Profissional Liberal Autônomo, aproveitando os fins de semana para as reportagens.

Certa manhã atendi no balcão do Banco um casal. Ela disse que desejava receber uma Ordem de Pagamento e lhe solicitei a Cédula de Identidade. Era Abigail Izquierdo Ferreira. Nome estranhíssimo.

Passei-lhe o formulário, colei os selos de Educação e Saúde, e lhe solicitei duas assinaturas; sendo uma por cima dos selos e outra igual à identidade, que seria conferida por D. Eunice Catunda.

A selagem era uma forma de o Governo Federal cobrar imposto destinado à Educação e à Saúde. Nesse tempo os documentos que formalizavam um empréstimo bancário eram as Notas Promissórias, que também eram seladas.

Ao cidadão que estava com ela indaguei o nome, pensando que seria também um beneficiário. Um tipo bonitão, muito simpático, que causou frenesi nas moças do Banco.

Herval Rossano, o galã

– Herval Rossano é meu nome artístico, mas na Identidade sou Herval de Abreu Paes.

E puxou conversa.

– Mas nada tenho a receber do seu Banco, porque ela – apontou para Bibí – é quem me paga. Trabalhamos juntos no teatro. Ontem foi o fim de nossa temporada no Teatro Santa Isabel; por sinal muito bonito, tanto o teatro quanto a sua cidade.

Aí “soltei meus cachorros”.

– Também já me apresentei lá na sua terra, no Teatro Regina, localizado na Cinelândia. Sou do Teatro de Amadores de Pernambuco. Logo vi que conhecia essa senhora de fotografias, mas o nome me pareceu estranho…

– Ela é Bibi Ferreira! – Disse-me Herval Rossano.

Aí “peguei ar” como dizem os humoristas.

– Que honra atende-la, madame! Sobretudo por ser filha do sr. Procópio Ferreira, o inimitável astro que conheci num engenho do Vale do Siriji, aqui em Pernambuco.

– Como conheceu papai?

– Numa festa no Engenho Palma, em Machados, quando numa festa, ele foi apresentado a duas moças – Margarida e Madalena – alguém, indiscretamente indagou qual das duas era a mais bonita.

Precisando de tempo pra pensar, soltou um sorriso bem teatral e disse que responderia logo mais.

Procópio, o pai de Bibi, com 62 anos de carreira, interpretou mais de 500 personagens em 427 peças

Pedi ao fotógrafo que não tirasse os olhos dele porque era um ator famoso do Rio de Janeiro e iria demorar pouco por ali. Era o motivo de nossa reportagem. Tínhamos a missão de acompanha-lo. Aí surgiu o fato principal.

Mesas espalhadas pelo pátio bem iluminado, quitutes e bebidas correndo à vontade, o Senhor do Engenho todo satisfeito com a presença do ator naquela noite especial. Discretamente Procópio pegou um guardanapo e escreveu um verso elogiando as duas sem definir sua predileção:

Não sendo nada poeta
Mas simples homem de cena
Não sei qual a mais bela
Se Margarida ou Madalena.

Na época em que nos encontramos eu estava com o verso na memória e logo o declamei. Depois que Bibí foi ao caixa receber o dinheiro, retornou para que eu lhe ditasse o verso de seu pai, que ela não conhecia. Anotou meu nome numa revista e se despediram comentando o fato.

Bibi, como alguns sabem, era uma das maiores atrizes dos palcos brasileiros, além de cantora e diretora de teatro. Nosso encontro foi marcante. Ficaria na minha história.

Meses depois recebi dela um cartão-postal com este recado:

Entreguei o verso a papai. Ele ficou impressionado com sua memória. Um beijo da Bibi. Rio de Janeiro, 24.03.1954.

10 pensou em “ENCONTRO COM BIBI FERREIRA

  1. Ah, como é bom curtir os registros que a memória arquiva e, vez por outra, libera.
    Olhar para o que ficou, sem ser necessário um retrovisor, é uma das delicias que a vida pode nos propiciar, como o caro amigo, tem tido oportunidade de fazer.
    Danado é quando o fato, por demais marcante, deve ficar em segredo e hoje, que pode ser revelado, não tem mais nem uma das testemunhas que o podem corroborar, fazendo com que você corra o risco de ser chamado de “pabuloso”.

  2. Corrigindo: em lugar de “deve” coloque “teve de”.
    Vou lhw mandar por email, um desses episódios que vivi, para evitar as maledicências.

  3. Caro Arael,

    Você bem sabe que nem todas as estripulias que a gente viveu no passado podem ser devassadas num jornal.

    Já contei algumas – como o caso das chaves-da-sorte que apareciam nos sabonetes Lifebuoy, que davam direito a um Chevrolet 47, de graça.

    E o fiz numa naice, como trela que na idade me era permitida. E não tive critério para contar. Soltei os cachorros.

    Você poderá ver esta interessante crônica no arquivo do nosso jornal.

    Vou ver se lhe mando, caso me comunique que não encontrou.

    Receba meu jornalístico e historiográfico abraço sabatino, de irmão.

    Carlos Eduardo

  4. Ah,esses fubânicos de tanta história, causos e bem escrever. Lendo tais luminares que Berto reuniu em um só espaço, agradeço a Deus e a nosso editor-chefe por me colocarem ao lado desses gigantes fubânicos que, com suas colunas e comentários fazem do Jornal da Besta Fubana um anexo às residências e vidas de cada um de nós.

  5. Sancho,

    Você tem o dom de superar limites e sobrepujar pódios, em termos de ultrapassagens utilizado adjetivos, verbos e advérbios em certos momentos onde comenta os escritos de seus comparsas líteros-recreativos.

    “Considerar nós” Gigantes Fubânicos é u’ maneira clássica de auto-afirmar-se e destacar o grande cronista que você é.

    Por isso, palmas!

    Bom domingo.

    Carlos Eduardo

  6. Muito boa crônica sobre a nossa talentosa Bibi Ferreira.

    Eu não imaginava que a nossa Bibi fosse conhecida internacionalmente,
    até que um dia quando em Nova Yorque fui procurar um post numa famosa loja que vendia cartazes de filmes de todo o mundo, Comprei um cartaz original do filme SHANE pelo qual paguei US$100,oo e o tenho emoldurado até hoje,
    e quando o vendedor descobriu que eu era brasileiro, me ofereceu um cartaz raríssimo de um filme que a nossa Bibi fez na Inglaterra com o astro
    famoso da época chamado SABU. Desconheço se este filme foi lançado no Brasil, pois com todo o meu trabalho sobre cinema, nunca lí nada a respeito na
    imprensa brasileira.Procopio e Bibi Ferreira. Dois ARTISTAS autênticos
    insubstituíveis que o Brasil perdeu e que infelismente a geração artística atual
    está num deserto de talento e criatividade.

  7. Caro D. Matt,

    Sua indagação mereceu breve procura no meu passado de menino, na década de 1940/50.

    Lembro-me que a identificação de Sabu viveu em minha memória dos tempos infantis, quando havia no cinema americano vários filmes distribuídos no Brasil, onde o artista era um mágico príncipe indiano que se deslocava voando num tapete.

    No Google, Sabu aparece, embora em tempos recentes, como pseudônimo do ator e diretor japonês Hiroyuki Tanaka. No mesmo site aparecem vários cartazes do mesmo filme, todo em inglês.

    Sabu, o artista de filmes de aventura da década de 1950, era o encantamento dos jovens que frequentavam o Cine Eldorado, do Recife.

    Apareceram vários filmes com o artista, que era um jovem de tez indiana, forte como Tarzan, mas baixinho e sempre se apresentava de pés descalços e uma tanga indiana.

    A fisionomia lembra aquele que aparece nos cartazes do filme ao qual v. se refere: “The end of river” (O fim do Rio) onde está nossa inesquecível Abigail Izquierdo Ferreira.

    Mas sobre esta película a que v se referiu jamais tinha eu ouvido referência.

    Na Internet ainda encontrei várias imagens de propaganda do filme, em cinemas do Rio de Janeiro. Clique pelo título em inglês e irá encontrar as gravuras que aqui não posso reproduzir face ao sistema utilizado por nosso jornal.

    Feliz do cronista que consegue despertar no leitor algumas boas lembranças, mesmo que deseje – como é o caso – ir mais além, na procura do filme original.

    Fico-lhe grato por sua leitura e o trabalho para o comentário.
    Um abração do Carlos Eduardo.

  8. GRATO CARLOS EDUARDO. SEGUINDO A SUA PESQUISA, encontrei o
    filme no qual a nossa Bibi contracena com o famoso SABU naquela época.
    Interessante notar que a Bibi é o segundo nome nos letreiros, logo abaixo do
    nome do Sabu e não uma aparição eventual no filme em questão. Reparei até que ela canta para o SABU, uma linda canção em português.
    Na época em que me ofereceram o post, não reparei o nome do filme, por isso mesmo não consegui encontrar na internet.
    Mais uma vez grato pela gentileza do amigo e também por valorizar um dos
    verdadeiros valores artísticos do Brasil, neste deserto cheios de pseudos
    valores sem definições biológicas autênticas.

    Vou ficar aguardando a sua próxima coluna com grande expectativa.
    Grande abraço

  9. Caro d. Matt,

    Nós, mais jurássicos, temos a obrigação de manter vivos os valores sob os quais fomos formados.

    Na época de menino – 12/15 anos – vivi ouvindo comentários sobre teatro, porque meu pai era artista amador, chegou a criar o GRUPO TEATRAL DE AMADORES DO ATLÉTICO e escrever uma peça.

    Assim, me cabe preparar a escrever crônicas sobre os notáveis da época.

    Alguns deles, o médico Pedro Bloch, que escreveu uma das mais interpretadas peças – As Mãos de Eurídice – que foi interpretada pelo notável Rodolfo Meyer.

    Os apresentadores dos programas do Rádio: César Ladeira, Blota Jr., Ari Barroso, J Silvestre e por aqui pelo Recife: Fernando Castelão, Barbosa Jr., Ernani Seve, etcétera.

    Ouviu falar nesse povo?

    Pois é… não podem ficar esquecidos.

    Um abração do Carlos Eduardo.

  10. Caro Carlos Eduardo.

    Concordo com a ,sua idéia de que precisamos manter vivos e lembrados os valores do passado, valores esses que infelizmente, muitos estão esquecidos..

    É emocionante a sua lembrança da peça mágica do Dr. Pedro Bloch , obra
    magnífica quer teve uma representação magistral do grande ator Rodolfo Meyer
    aqui no Brasil e foi interpretada no exterior por grandes figuras da cena teatral,
    pois a peça exige um ator de grande talento e resistência.

    Os apresentadores citados, dos programas de Radio, Cesar Ladeira, Blota jr.,
    Ary Barroso ( e sua gaitinha ), J. Silvestre, FORAM GENIAIS, ACRESCENTO TAMBÉM
    os talentosos Cesar de Alencar ( com o maior programa de auditório da radio brasileira, em que eu, ainda adolescente , fui um dia assistir e fiquei encantado, e Paulo Gracindo , que deram uma grande contribuição na programação das Radios Brasileiras.

    Os recifenses citados pelo amigo eu não os conheci, pois na época, morava no RJ e
    e a imprensa do RJ não citava ninguém fóra do grupinho carioca, fazendo apenas algumas exceções para os paulistas, por necessidade de mercado.

    Mas acrescento, como foram citados pelo amigo, certamente foram grandes, pois
    hoje estou grato por ter tido a oportunidade de conhecer
    esse mundo nordestino, que me encantou nó só por sua inteligência como
    também pela simpatia e grande cultura,, naquela época, desconhecidas nos estados centrais e do sul.

    Vamos fazer o possível para continuar lembrando os nossos conterrâneos
    o que tivemos de bom no passado., pois o presente está gorado e o futuro
    a Deus Pertence. Né não ?

    Grande abraço.

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