CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

O cantor Claudionor Germano, astro do carnaval do Recife

Em 1962, quando assistente da Gerência do Banco do Brasil, no Recife, apresentei um jovem cantor de Rádio, ao Dr. Pedro Lima, durante momento muito agradável, porque o primeiro diálogo foi meio hilário, em virtude do bom humor de ambos.

Ao introduzi-lo, além da apresentação comercial ao meu chefe, informei que se tratava de um famoso cantor do Rádio Jornal do Commercio.

Uma prosa se iniciou antes que as tratativas comerciais surgissem.

– Ah, então o senhor canta no Rádio Jornal? Sabia que sou acionista de sua empresa, exatamente da Tv Jornal?

– Que bom! Sim, sou cantor, mas aqui o assunto é comercial. Sou Claudionor Germano da Hora e aqui estou para dirimir dúvidas quanto a uma operação comercial que está em curso com uma das clientes do Banco do Brasil, a empresa Gessy-Lever, da qual sou Gerente.

E Dr. Pedro, inteligente, procurou derivar um pouco antes do cliente tratar do assunto. Perguntou se a atividade musical dava dinheiro, ao que o cantor respondeu com segurança quase filosófica:

– É uma profissão muito ilusória. A fama pode subir à cabeça, mas o sucesso é coisa temporária. Por isso tenho uma atividade paralela, sendo comerciário.

– O amigo é pernambucano?

– Sou, nasci na Avenida Caxangá, aqui no Recife, no Dia do Índio: 19 de abril.

– Quantos irmãos tem?

– Lá em casa somos cinco irmãos. Um deles é o escultor Abelardo da Hora.

– Ah, então quer dizer que são “Cinco Horas?…”

Diante do trocadilho, o cliente compreendeu que se tratava de um cidadão agradável e que desejava derivar um pouco a chatice do assunto comercial que o levara ao Banco, soltando conversa. Foi quando o cantor aproveitou para melhor se ambientar.

– Vale dizer ao senhor que tenho boas ligações com o seu Banco, porque com o funcionário José Barreto e um amigo comum, o Aldo Guedes, formamos o conjunto: “Trio Albano”, mas foi coisa de amador.

– O que, rapaz!… Então você está em casa!… Fale mais alguma coisa sobre você.

– Gravei uma das mais notáveis canções de Capiba: “Maria Betânia”, que aliás, foi a trilha sonora da peça “Senhora de Engenho”, de Hermógenes Viana, também, funcionário do Banco do Brasil e ilustre homem de letras.

– O que, meu amigo? Estou admirado!

E desse encontro tão agradável, comecei a imaginar: escrever a biografia de Claudionor. Fiz a pesquisa, muitas entrevistas com cantores, compositores e colecionadores e lancei anos depois, sob o título de “Canta se queres viver”, um livro que motivou um espetáculo realizado no Salão Nobre do Clube Internacional do Recife.

Fizemos um show com um monte de artistas, do qual participaram Onilda Figueiredo, Mêives Gama, Paulo Duarte, Fernando Castelão, Voleide Dantas, Nerise Paiva, Paulo Duarte, Antônio Laborda, Irmãs Acyoman, Mônica Maria, Inalva Pires, Marilene Silva, Flor de Maria, Gilberto Fernandes, Terezinha Mendes, Jakson do Pandeiro, Mimi Castilho, Neide Maria, Inaldo Vilarim, José Auriz, Capiba, Expedito Baracho, Creusa de Barros e alguns outros artistas, sem falar os intelectuais.

Claudionor Germano é um dos maiores intérpretes de Capiba e quando divulgamos aquele livro ele já havia gravado mais de 100 músicas desse compositor, segundo notas de Samuel Valente, um dos maiores colecionadores de música popular brasileira.

Nossa amizade continua representando a maior expressão de afetividade até os presentes dias, quando lhe faço visitas regulares e aproveitamos para rever os melhores tempos do Rádio pernambucano.

Nunca me esqueci de uma das suas frases filosóficas:

“Cante se quiser viver bem! Por isso que eu vivo a cantar!”* * *

Claudionor Germano e Orquestra Nelson Ferreira

* * *

A Dor de Uma Saudade – Composição de Capiba e interpretação de Claudionor Germano

2 pensou em “CANTA SE QUERES VIVER

  1. Ainda tenho alguns direitos a recordações distintas, a grande maioria despertada por registros como estes, dessa crônica tão agradável, que me traz à memória dois paraibanos arretados: Jackson do Pandeiro e Mêives Gama, notadamente o primeiro, para quem bati muitas palmas, em suas apresentações no auditório da Rádio Tabajara, onde ele despontou, no programa de Gilberto Patrício, nos sábados à noite.
    Nessas recordações, aflora também a presença de Severino Araújo, mestre da Banda de Música da Polícia Militar da Paraíba, que congregou seus melhores companheiros, formou a Orquestra Tabajara e com ela migrou para o Rio de Janeiro, levado pelas mãos e sensibilidade de Antonio Lucena (irmão do Senador Humberto Lucena), que dirigia a Rádio Tupi, do Rio de Janeiro, sob a batuta pioneira de Assis Chateaubriand.
    Ainda sobre Claudionor, vale recordar a expectativa do lançamento, pela Gravadora Mocambo, de seu novo disco, para o carnaval que avizinhava.
    Foram bons tempos…

  2. Arael,

    Você é mesmo de lascar!

    Não perde uma lembrança de meu estoque para ampliar o assunto com as suas memórias paraibanas.

    Morei perto da Mocambo, ali na Vila dos Remédios, em Afogados.

    Conheci José Rozenblit e dele recebi favores.

    Certa feita assisti a uma gravação da Banda da PMPe tocando frevos magníficos, principalmente no tempo em que se usavam as tubas, baixo arretado e insuperável nos rítmos de frevo.

    Sobre Mêives Gama conheço pouco mas posso lhe dizer que tenho um livro escrito por ela sobre a biografia do pai, o grande Luiz Queiroga, criador dos personagens Otrope e Coronel Jacinto.

    Mas tenho muitas saudades das “rodadas de saia” que Mimi Castilho (companheira de Jackson) que dava no palco da PLR-6, o Rádio Jornal do Commercio, quando apareciam suas roliças e tentadoras pernas.

    Tenho um mundo de recordações do Rádio Broadcasting dos anos 50, inclusive uma passagem de Nelson Gonçalves durante programa de entrevista no studio da Rádio Tabajara.

    Botaram uma fã pra falar com Nelson ao telefone, ao vivo e ela desejou que ele cantasse u’a música que não sabia o nome; só que era: “Se deita comigo esta noite”.

    Nesse momento o gago velho soltou essa maliciosa frase:

    O nome da música é “Fi-fica comigo esta no-no-noite”.
    E di-di-digo mais:
    Eu já-já-já vi-vi tudo!…”

    Eu seja a interlocutora deu talvez um recado cifrado, dando a entender que desejava dar uma foda com o cantor.

    Falaremos depois.

    Bom domingo!

    Carlos Eduardo

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