PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

TESTAMENTO DE UM HOMEM SENSATO – Carlos Pena Filho

Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “Ele era assim…”
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.

Aceita o que te deixo, o quase nada
destas palavras que te digo aqui:
Foi mais que longa a vida que eu vivi,
para ser em lembranças prolongada.

Porém, se um dia, só, na tarde em queda,
surgir uma lembrança desgarrada,
ave que nasce e em voo se arremeda,

deixa-a pousar em teu silêncio, leve
como se apenas fosse imaginada,
como uma luz, mais que distante, breve…

Carlos Souto Pena Filho, Recife-PE, (1929-1960)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

OS POEMAS – Mário Quintana

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.

Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…

Mário de Miranda Quintana, Alegrete-RS (1906-1994)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DAS METAMORFOSES – Carlos Pena Filho

Carolina, a cansada, fez-se espera
e nunca se entregou ao mar antigo.
Não por temor ao mar, mas ao perigo
de com ela incendiar-se a primavera.

Carolina, a cansada que então era,
despiu, humildemente, as vestes pretas
e incendiou navios e corvetas
já cansada, por fim, de tanta espera.

E cinza fez-se. E teve o corpo implume
escandalosamente penetrado
de imprevistos azuis e claro lume.

Foi quando se lembrou de ser esquife:
abandonou seu corpo incendiado
e adormeceu nas brumas do Recife.

Carlos Souto Pena Filho, Recife-PE, (1929-1960)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

AQUI MORAVA UM REI – Ariano Suassuna

Aqui morava um rei quando eu menino
Vestia ouro e castanho no gibão,
Pedra da Sorte sobre meu Destino,
Pulsava junto ao meu, seu coração.

Para mim, o seu cantar era Divino,
Quando ao som da viola e do bordão,
Cantava com voz rouca, o Desatino,
O Sangue, o riso e as mortes do Sertão.

Mas mataram meu pai. Desde esse dia
Eu me vi, como cego sem meu guia
Que se foi para o Sol, transfigurado.

Sua efígie me queima. Eu sou a presa.
Ele, a brasa que impele ao Fogo acesa
Espada de Ouro em pasto ensanguentado.

Ariano Suassuna, João Pessoa-PB (1927-2014)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CANÇÃO – Cecília Meireles

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
– depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio…

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901-1964)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A INFÂNCIA – Ariano Suassuna

Sem lei nem rei, me vi arremessado
bem menino a um planalto pedregoso.
Cambaleando, cego, ao sol do acaso,
vi o mundo rugir. Tigre maldoso.

O cantar do sertão, rifle apontado,
vinha malhar seu corpo furioso.
Era o canto demente, sufocado,
rugido nos caminhos sem repouso.

E veio o sonho: e foi despedaçado!
E veio o sangue: o marco iluminado,
a luta extraviada e a minha grei!

Tudo apontava o sol! Fiquei embaixo,
na cadeia que estive e em que me acho,
a sonhar e a cantar, sem lei nem rei!

Ariano Vilar Suassuna, João Pessoa-PB (1927-2014)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

RENASCIMENTO – Cruz e Sousa

A Alma não fica inteiramente morta!
Vagas Ressurreições do Sentimento
abrem já, devagar, porta por porta,
os palácios reais do Encantamento!

Morrer! Findar! Desfalecer! que importa
para o secreto e fundo movimento
que a alma transporta, sublimiza e exorta,
ao grande Bem do grande Pensamento!

Chamas novas e belas vão raiando,
vão se acedendo os límpidos altares
e as almas vão sorrindo e vão orando…

E pela curva dos longínquos ares
ei-las que vêm, como o imprevisto bando
dos albatrozes dos estranhos mares…

João da Cruz e Sousa, Florianópolis-SC, (1861-1898)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CHUVA DE CINZAS – Gilka Machado

Chuva de cinzas… Cai a tarde lá por fora
na estática mudez da Terra triste e viúva;
e, da tarde ao cair, sinto, minha alma, agora,
embuça-se na cisma e no torpor se enluva.

Hora crepuscular, hora de névoas, hora
em que de bem ignoto o humano ser enviúva;
e, enquanto em cinza todo o espaço se colora,
o tédio, em nós, é como uma cinérea chuva.

Hora crepuscular – concepção e agonia,
hora em que tudo sente uma incerteza imensa,
sem saber se desponta ou se fenece o dia;

hora em que a alma, a pensar na inconstância da sorte,
fica dentro de nós oscilando, suspensa
entre o ser e o não ser, entre a existência e a morte.

Gilka da Costa de Melo Machado, Rio de Janeiro-RJ (1893-1980)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

ANTES DE PARTIR – Adelino Fontoura

Venho ensopar de lágrimas o lenço
No tristíssimo adeus de despedida;
Em breve a Pátria vou deixar perdida
Além – na curva do horizonte imenso!

Em breve sobre o mar profundo e extenso
Adejará minh’alma dolorida,
Como a gaivota errante, foragida,
Sem ter um ninho onde pousar, suspenso!

Então, senhora, hei de pensar, tristonho,
Revendo a vossa angélica bondade,
Neste ninho de amor calmo e risonho;

E triste, sobre a triste imensidade,
Como quem despertou de um ledo sonho,
Hei de chorar o pranto da saudade.

Adelino Fontoura | Academia Brasileira de Letras

Adelino Fontoura Chaves, Axixá-MA (1859-1884 – 25 anos)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

FRUTO PROIBIDO – Adelino Fontoura

Escravo dessa angélica meiguice
por uma lei fatal, como um castigo,
não abrigara tanta dor comigo,
se este afeto que sinto não sentisse.

Que te não doa, entanto, isto que digo
nem as magoadas falas que te disse.
Não tas dissera nunca, se não visse
que por dizê-las minha dor mitigo

Longe de ti, sereno e resoluto,
irei morrer, misérrimo, esquecido,
mas hei de amar-te sempre, anjo impoluto.

És para mim o fruto proibido:
não pousarei meus lábios nesse fruto;
mas morrerei sem nunca ter vivido.

Adelino Fontoura | Academia Brasileira de Letras

Adelino Fontoura Chaves, Axixá-MA (1859-1884 – 25 anos)