PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VÁCUO – Adelino Fontoura

Não sei se pode haver padecimento
Mais profundo, mais íntimo e que tanto
Nos ponha na alma a dor que gera o pranto,
Do que um longo e tristonho isolamento.

Não ter um bem sequer no pensamento,
Nem o calor de um lar, nem o encanto
De um amor de mulher suave e santo,
É viver sem nenhum contentamento.

Bem sei que é bom sofrer, e me parece
Que esta vida sem dor nada seria,
E que é por isso até que se padece.

Mas esta solidão contínua e fria
Chega a ser tão cruel, que a não merece
Um coração que a dor mereceria.

Adelino Fontoura | Academia Brasileira de Letras

Adelino Fontoura Chaves, Axixá-MA (1859-1884 – 25 anos)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

À BAHIA – Gregório de Matos

Tristes sucessos, casos lastimosos,
Desgraças nunca vistas nem faladas,
São, ó Bahia! vésperas choradas
De outros que estão por vir mais estranhosos.

Sentimo-nos confusos e teimosos,
Pois não damos remédios às já passadas,
Nem prevemos tampouco as esperadas,
Como que estamos delas desejosos.

Levou-vos o dinheiro a má fortuna,
Ficamos sem tostão, real nem branca,
Macutas, correão, novelos, molhos.

Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna,
E é que, quem o dinheiro nos arranca,
Nos arrancam as mãos, a língua, os olhos.

Gregório de Matos, Salvador-BA, (1636-1696)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

DESDÉNS – Raimundo Correa

Realçam no marfim da ventarola
As tuas unhas de coral, felinas
Garras, com que, a sorrir, tu me assassinas,
Bela e feroz… O sândalo se evola;

O ar cheiroso em redor se desenrola;
Pulsam os seios, arfam as narinas…
Sobre o espaldar de seda o torso inclinas
Numa indolência mórbida, espanhola…

Como eu sou infeliz! Como é sangrenta
Essa mão impiedosa que me arranca
A vida aos poucos, nesta morte lenta!

Essa mão de fidalga, fina e branca;
Essa mão, que me atrai e me afugenta,
Que eu afago, que eu beijo, e que me espanca!

Raimundo da Mota de Azevedo Correia, São Luís-MA (1859-1911)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO A AUGUSTO DOS ANJOS – Ialmar Pio Schneider

Leio seus versos de poeta ousado,
e me comovo com a verve forte,
que se deprime qual um condenado,
a cada instante lamentando a sorte.

Mas foi um grande, embora desgraçado,
sem ter um lenitivo que o conforte,
em cada verso um passo encaminhado
rumo ao destino que o esperava: a morte !

E sendo um vândalo destruidor,
andou por ´´templos claros e risonhos´´,
como num pesadelo com pavor…

Então, num ímpeto de iconoclastas,
“quebrou a imagem dos seus próprios sonhos”´,
“erguendo os gládios e brandindo as hastas”!

Ialmar Pio Schneider, Sertão-RS, 1942

* * *

A IDEIA – Augusto dos Anjos

De onde ela vem? De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!

Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas da laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No molambo da língua paralítica!

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

RETRATO – Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Benevides de Carvalho Meireles, Rio Comprido-RJ, (1901-1964)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VANDALISMO – Augusto dos Anjos

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos…

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Cruz do Espírito Santo-PB (1884-1914)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DO PAU DECIFRADO – Bocage

É pau, e rei dos paus, não marmeleiro,
Bem que duas gamboas lhe lobrigo;
Dá leite, sem ser árvore de figo,
Da glande o fruto tem, sem ser sobreiro:

Verga, e não quebra, como zambujeiro;
Oco, qual sabugueiro tem o umbigo;
Brando às vezes, qual vime, está consigo;
Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

À roda da raiz produz carqueja:
Todo o resto do tronco é calvo e nu;
Nem cedro, nem pau-santo mais negreja!

Para carvalho ser falta-lhe um U;
Adivinhem agora que pau seja,
E quem adivinhar meta-o no cu.

Manuel Maria Barbosa du Bocage, Setúbal, Portugal (1765-1805)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A POESIA – Luciano Dídimo

Às vezes, se o poema está contente,
Eu toco a poesia em instrumentos,
Cantando doces versos para os ventos,
Recebo a poesia na nascente.

Às vezes, se o poema está doente,
Eu sofro a poesia nos tormentos,
Gemendo amargos versos em lamentos,
Oferto a poesia no poente.

Nas Rosas, eu encontro a poesia,
Nas cores e no aroma, em cada espinho,
Nos versos que, das pétalas, escorrem.

Diferem os poemas, todavia,
Das rosas, em seu rápido caminho,
Que brotam, desabrocham, depois morrem!

Luciano Dídimo Camurça Vieira, Fortaleza-CE, 1971

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A INDIFERENÇA – Luciano Dídimo

Alastra-se no mundo a indiferença,
Um fruto que não vem da ingenuidade,
Que tanto prejudica a humanidade,
De forma, nestes tempos, mais intensa.

Alastra-se no mundo qual doença,
Um fruto da total insanidade,
No incauto, uma voraz comorbidade,
Contagiosa como ninguém pensa.

Esposa do desprezo, descarada,
Em pobres e sofridos corações
Craveja a sua lâmina gelada.

Olhemos para a dor do ser humano,
Livremo-nos da teia de omissões
E ajamos como o “bom samaritano”!

Luciano Dídimo Camurça Vieira, Fortaleza-CE, 1971