PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A INDIFERENÇA – Luciano Dídimo

Alastra-se no mundo a indiferença,
Um fruto que não vem da ingenuidade,
Que tanto prejudica a humanidade,
De forma, nestes tempos, mais intensa.

Alastra-se no mundo qual doença,
Um fruto da total insanidade,
No incauto, uma voraz comorbidade,
Contagiosa como ninguém pensa.

Esposa do desprezo, descarada,
Em pobres e sofridos corações
Craveja a sua lâmina gelada.

Olhemos para a dor do ser humano,
Livremo-nos da teia de omissões
E ajamos como o “bom samaritano”!

Luciano Dídimo Camurça Vieira, Fortaleza-CE, 1971

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CEARENCÊS – Luciano Dídimo

Aqui no Ceará é “invocado”
O linguajar cantado e bem rasteiro.
Todo cabra matuto é “beradeiro”
E aquele que tem pressa é “avexado”.

Quem se mete a valente é “arrochado”,
Se cria muito caso é “bunequeiro”,
Se o cara é brincalhão, ele é “fuleiro”,
E se não “bate bem”, “abirobado”.

Quem gosta de mexer é “buliçoso”
E aquele que tem fome,“esgalamido”.
“Só o pitel” é algo bem gostoso.

Chamamos de “ariado” o distraído,
“Bichim” é tratamento carinhoso,
Cearencês é mesmo divertido!

Luciano Dídimo Camurça Vieira, Fortaleza-CE, 1971

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

AOS OLHOS DELE – Florbela Espanca

Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa,
Pelo azul do ar. E assim fugiram o
As minhas doces crenças de criança.

Fiquei então sem fé; e a toda gente
Eu digo sempre, embora magoada:
Não acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!

Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavíssima de dor…
E grito então ao ver esses dois céus:

Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que m’encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

MAL SECRETO – Raimundo Correia

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja aventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Raimundo da Mota de Azevedo Correia, São Luís-MA (1859-1911)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

FANATISMO – Florbela Espanca

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CLARA – Casimiro de Abreu

Não sabes, Clara, que pena
eu teria se – morena
tu fosses em vez de clara!
Talvez… quem sabe… não digo…
mas refletindo comigo
talvez nem tanto te amara!

A tua cor é mimosa,
brilha mais da face a rosa
tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio…
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
mas a morena é da terra
enquanto a clara é dos anjos!

Mulher morena é ardente:
prende o amante demente
nos fios do seu cabelo;
– A clara é sempre mais fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou arder no teu gelo!

A cor morena é bonita,
mas nada, nada te imita
nem mesmo sequer de leve.
– O teu sorriso é delírio…
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

Casimiro José Marques de Abreu, Barra de São João-RJ (1839-1860)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DE ANIVERSÁRIO – Vinicius de Moraes

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece…
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

Vinicius de Moraes, Rio de Janeiro-RJ (1913-1980)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

DESDÉNS – Raimundo Correia

Realçam no marfim da ventarola
As tuas unhas de coral felinas
Garras com que, a sorrir, tu me assassinas,
Bela e feroz… O sândalo se evola;

O ar cheiroso em redor se desenrola;
Pulsam os seios, arfam as narinas…
Sobre o espaldar de seda o torso inclinas
Numa indolência mórbida, espanhola…

Como eu sou infeliz! Como é sangrenta
Essa mão impiedosa que me arranca
A vida aos poucos, nesta morte lenta!

Essa mão de fidalga, fina e branca;
Essa mão, que me atrai e me afugenta,
Que eu afago, que eu beijo, e que me espanca!

Raimundo da Mota de Azevedo Correia, São Luís-MA (1859-1911)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

ÚLTIMO PORTO – Raimundo Correia

Este o país ideal que em sonhos douro;
Aqui o estro das aves me arrebata,
E em flores, cachos e festões, desata
A Natureza o virginal tesouro;

Aqui, perpétuo dia ardente e louro
Fulgura; e, na torrente e na cascata,
A água alardeia toda a sua prata,
E os laranjais e o sol todo o seu ouro…

Aqui, de rosas e de luz tecida,
Leve mortalha envolva estes destroços
Do extinto amor, que inda me pesam tanto;

E a terra, a mãe comum, no fim da vida,
Para a nudeza me cobrir dos ossos,
Rasgue alguns palmos do seu verde manto.

Raimundo da Mota de Azevedo Correia, São Luís-MA (1859-1911)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

DULCE – Castro Alves

Se houvesse ainda talismã bendito
que desse ao pântano – a corrente pura,
musgo – ao rochedo, festa – à sepultura,
das águias negras – harmonia ao grito…

Se alguém pudesse ao infeliz precito
dar lugar no banquete da ventura…
E trocar-lhe o velar da insônia escura
no poema dos beijos – infinito…

Certo… serias tu, donzela casta,
quem me tomasse em meio do Calvário
a cruz de angústia que o meu ser arrasta!…

Mas se tudo recusa-me o fadário,
na hora de expirar, ó Dulce, basta
morrer beijando a cruz de teu rosário!…

Antônio Frederico de Castro Alves, Bahia (1847-1871)