PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

AS FLORES ESTÃO CHORANDO – Miguel Jansen Filho

Os lilases murcharam . . . As roseiras,
Ao castigo do outono, estão despidas . . .
Hão de viver assim horas inteiras,
Mergulhadas nas sombras esquecidas . . .

Outrora foram elas mensageiras
Das alegres paisagens coloridas . . .
Hoje ostentam nas hastes agoureiras.
A tristeza das rosas fenecidas . . .

Desce a noite orvalhada sobre os mirtos,
A secura das plantas abrandando
Na frouxidão letal dos cravos hirtos!

Enquanto o orvalho se transforma em bolhas
Que pelos ramos murchos vão rolando
Como se fossem lágrimas das folhas! . . .

Miguel Jansen Filho, Monteiro-PB, (1925-1994)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O VINHO DE HEBE – Raimundo Correia

Quando do Olimpo nos festins surgia
Hebe risonha, os deuses majestosos
Os copos estendiam-lhe, ruidosos,
E ela, passando, os copos lhes enchia…

A Mocidade, assim, na rubra orgia
Da vida, alegre e pródiga de gozos,
Passa por nós, e nós também, sequiosos,
Nossa taça estendemos-lhe, vazia…

E o vinho do prazer em nossa taça
Verte-nos ela, verte-nos e passa…
Passa, e não torna atrás o seu caminho.

Nós chamamo-la em vão; em nossos lábios
Restam apenas tímidos ressábios,
Como recordações daquele vinho.

Raimundo da Mota de Azevedo Correia, São Luís-MA (1859-1911)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O ENTERRO DA CIGARRA – Olegário Mariano

As formigas levavam-na… Chovia…
Era o fim… Triste outono fumarento!…
Perto, uma fonte, em suave movimento,
cantigas de água trêmula carpia.

Quando eu a conheci, ela trazia
na voz um triste e doloroso acento.
Era a cigarra de maior talento,
mais cantadeira desta freguesia.

Passa o cortejo entre árvores amigas…
Que tristeza nas folhas… Que tristeza!
Que alegria nos olhos das formigas!…

Pobre cigarra! Quando te levavam,
enquanto te chorava a Natureza,
tuas irmãs e tua mãe cantavam…

Olegário Mariano, Recife-PE – (1889-1958)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO MATINAL – Bocage

Eram seis da manhã; eu acordava
Ao som de mão, que à porta me batia;
“Ora vejamos quem será”… dizia,
E assentado na cama me zangava.

Brando rugir da seda se escutava,
E sapato a ranger também se ouvia…
Salto fora da cama… Oh! que alegria
Não tive, olhando Armia, que arreitava!

Temendo venha alguém, a porta fecho:
Co’um chupão lhe saudei a rósea boca,
E na rompente mama alegre mexo:

O caralho estouvado o cono aboca;
Bate a gostosa greta o rubro queixo,
E a matinas de amor a porra toca.

Manuel Maria Barbosa du Bocage, Setúbal, Portugal (1765-1805)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

POEMA DE SETE FACES – Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo , mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo , vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade, Itabira-MG, (1902-1987)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

NIRVANA – Antero de Quental

Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;

Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;

Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;

Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro – é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!

Antero Tarquínio de Quental, Ponta Delgada, Portugal (1842-1891)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O MONSTRO – Bocage

Esse disforme e rígido porraz
Do semblante me faz perder a cor:
E assombrado d´espanto, e de terror,
Dar mais de cinco passos para trás:

A espada do membrudo Ferrabrás
Decerto não metia mais horror:
Esse membro é capaz até de por
A amotinada Europa toda em paz.

Creio que nas fodais recreações
Não te hão de a rija máquina sofrer
Os mais corridos, sórdidos cações:

De Vênus não desfrutas o prazer;
Que esse monstro, que alojas nos calções,
E porra de mostrar, não de foder.

Manuel Maria Barbosa du Bocage, Setubal, Portugal (1765-1805)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

RETRATO DO HERÓI – Manuel Alegre de Melo Duarte

Herói é quem no muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
E morre devagar de morte certa.

Homem é quem anônimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.

Camões Berlim – Manuel Alegre

Manuel Alegre de Melo Duarte, Águeda, Portugal, 2 de maio de 1936 (88 anos)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SOBRE UM MOTE DE CAMÕES – Manuel Alegre de Melo Duarte

Se me desta terra for
eu vos levarei amor.
Nem amor deixo na terra
que deixando levarei.

Deixo a dor de te deixar
na terra onde amor não vive
na que levar levarei
amor onde só dor tive.

Nem amor pode ser livre
se não há na terra amor.
Deixo a dor de não levar
a dor de onde amor não vive.

E levo a terra que deixo
onde deixo a dor que tive.
Na que levar levarei
este amor que é livre livre.

Camões Berlim – Manuel Alegre

Manuel Alegre de Melo Duarte, Águeda, Portugal, 2 de maio de 1936 (88 anos)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

LIVRE – Cruz e Souza

Livre! Ser livre da matéria escrava,
arrancar os grilhões que nos flagelam
e livre penetrar nos Dons que selam
a alma e lhe emprestam toda a etérea lava.

Livre da humana, da terrestre bava
dos corações daninhos que regelam,
quando os nossos sentidos se rebelam
contra a Infâmia bifronte que deprava.

Livre! bem livre para andar mais puro,
mais junto à Natureza e mais seguro
do seu Amor, de todas as justiças.

Livre! para sentir a Natureza,
para gozar, na universal Grandeza,
Fecundas e arcangélicas preguiças.

João da Cruz e Sousa, Florianópolis-SC, (1861-1898)