PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

INGRATIDÃO – Raul de Leoni

Nunca mais me esqueci! … Eu era criança
E em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança…
Cresceu… cresceu… e aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança…

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
Eflorescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio…

Raul de Leoni, Petrópolis, (1895-1926)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

DECADÊNCIA – Raul de Leoni

Afinal, é o costume de viver
Que nos faz ir vivendo para a frente.
Nenhuma outra intenção, mas, simplesmente
O hábito melancólico de ser…

Vai-se vivendo… é o vício de viver…
E se esse vício dá qualquer prazer à gente,
Como todo prazer vicioso é triste e doente,
Porque o Vício é a doença do Prazer…

Vai-se vivendo… vive-se demais,
E um dia chega em que tudo que somos
É apenas a saudade do que fomos…

Vai-se vivendo… e muitas vezes nem sentimos
Que somos sombras, que já não somos mais nada
Do que os sobreviventes de nós mesmos!…

Raul de Leoni, Petrópolis, (1895-1926)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

PRIMAVERA – Augusto dos Anjos

Primavera gentil dos meus amores,
Arca cerúlea de ilusões etéreas,
Chova-te o Céu cintilações sidéreas
E a terra chova no teu seio flores!

Esplende, Primavera, os teus fulgores,
Na auréola azul, dos dias teus risonhos,
Tu que sorveste o fel das minhas dores
E me trouxeste o néctar dos teus sonhos!

Cedo virá, porém, o triste outono,
Os dias voltarão a ser tristonhos
E tu hás de dormir o eterno sono,

Num sepulcro de rosas e de flores,
Arca sagrada de cerúleos sonhos,
Primavera gentil dos meus amores!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Cruz do Espírito Santo, Paraíba (1884-1914)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

RETRATO – Cecília Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
A minha face?

Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901-1964)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

MOÇA E SOLDADO – Carlos Drummond de Andrade

Meus olhos espiam
a rua que passa.

Passam mulheres,
passam soldados.
Moça bonita foi feita para
namorar.
Soldado barbudo foi feito para
brigar.

Meus olhos espiam
as pernas que passam.
Nem todas são grossas…
Meus olhos espiam.
Passam soldados.
… mas todas são pernas.
Meus olhos espiam.
Tambores, clarins
e pernas que passam.
Meus olhos espiam
espiam espiam
soldados que marcham
moças bonitas
soldados barbudos
…para namorar,
para brigar.

Só eu não brigo.
Só eu não namoro.

Carlos Drummond de Andrade, Itabira-MG, (1902-1987)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A MINHA AMADA – Bocage

Se tu visses, Josino, a minha amada,
Havias de louvar o meu bom gosto;
Pois seu nevado, rubicundo rosto,
Às mais formosas não inveja nada:

Na sua boca Vênus faz morada:
Nos olhos Cupido as setas posto;
Nas mamas faz Lascívia o seu encosto,
Nela enfim tudo encanta, tudo agrada:

Se a Ásia visse coisa tão bonita
Talvez lhe levantasse algum pagode
A gente, que na foda se exercita!

Beleza mais completa haver não pode:
Pois mesmo o cono seu, quando palpita,
Parece estar dizendo: “Fode, fode!”

Manuel Maria de Barbosa l’Hedois du Bocage,Setúbal, Portugal (1765-1805)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

CELESTE – Adelino Fontoura

É tão divina a angélica aparência,
e a graça que ilumina o rosto dela,
que eu concebera o tipo da inocência
nessa criança imaculada e bela.

Peregrina no céu, pálida estrela
exilada da etérea transparência,
sua origem não pode ser aquela
da nossa triste e mísera existência.

Tem a celeste e ingênua formosura
e a luminosa auréola sacrossanta
de uma visão do céu, cândida e pura.

E, quando os olhos para o céu levanta,
inundados de mística doçura,
nem parece mulher – parece santa.

Adelino Fontoura Chaves, Axixá-MA, (1859-1884)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VELA BRANCA – Adelmar Tavares

Vela branca, vela branca,
que vais lá longe… no mar…
quem me dera, vela branca,
que me quisesses levar
para tão longe… tão longe,
que eu não pudesse voltar…
Mas uma vez, vela branca,
que não me queres levar,
para tão longe… tão longe…
que eu não pudesse voltar,
leva-me a saudade dela
para o mais fundo do mar.

Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti, Recife-PE, (1888-1963)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VAIDADE – Jenário de Fátima

Quanta gente, que se acha tão bonita.
Como apenas, só a beleza contasse,
E nunca expõe aquele monstro que habita
E se esconde, sob sua bela face.

Quanta gente, em quase nada acredita
Passa a vida, como só a incomodasse
A ausência de um espelho que reflita
O seu rosto, em qualquer lugar que passe.

Quanta gente, ao cuidar só da beleza.
Se esquece que no âmago se revela
Uma parte, onde a humana natureza

Leva a Deus, que vê tudo do seu jeito.
Pois da carne, inda que seja a mais bela.
Só os vermes tirar-lhe-ão algum proveito.

Jenário de Fátima, Brasília-DF (1955)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DO VELHO ESCANDALOSO – Bocage

Tu, oh demente velho descarado,
Escândalo do sexo masculino,
Que por alta justiça do Destino
Tens o impotente membro decepado:

Tu, que, em torpe furor incendiado
Sofres d’ímpia paixão ardor maligno,
E a consorte gentil, de que és indigno,
Entregas a infrutífero castrado:

Tu, que tendo bebido o ménstruo imundo,
Esse amor indiscreto te não gasta
D’ímpia mulher o orgulho furibundo;

Em castigo do vício, que te arrasta,
Saiba a ínclita Lísia, e todo o mundo
Que és vil por gênio, que és cabrão, e basta.

Manuel Maria Barbosa du Bocage, Setubal, Portugal (1765-1805)