PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

FUMO – Florbela Espanca

Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas…
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram… choram…
Há crisântemos roxos que descoram…
Há murmúrios dolentes de segredos…

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

MAIOR TORTURA – Florbela Espanca

Na vida para mim não há deleite,
Ando a chorar convulsa toda a noite,
E não tenho nem sombra em que me acoite,
E não tenho uma pedra em que me deite!

Ah! Toda eu sou sombras, sou espaços!
Perco-me em mim na dor de ter vivido!
E não tenho a doçura duns abraços
Que me façam sorrir de ter nascido!

Sou como tu um cardo desprezado,
A urze que se pisa sob os pés,
Sou como tu um riso desgraçado!

Mas a minha tortura inda é maior:
Não sou Poeta assim como tu és
Para concretizar a minha dor.

Florbela Espanca, Portugal (1894-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

AMOR FATAL – Adolfo Caminha

Vi-a passar, a lúbrica Maria,
olhar sereno, indiferente, à toa …
Ao vê-la o coração da gente entoa
dentro do peito uns hinos de alegria.

Débil, franzina, o mundo lhe perdoa
os pecados da carne, e acaricia
aquela carnação torpe, doentia,
que encerra uma alma afetuosa e boa …

Vi-a depois no leito da agonia,
a se estorcer na derradeira luta,
quase cadáver, pálida, sombria …

E eu disse dentro em mim: Alma corrupta,
se tu vivesses mais sequer um dia,
eu te amaria ainda, prostituta!

Adolfo Ferreira dos Santos Caminha, Aracati-CE (1867-1897)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

RENÚNCIA – Florbela Espanca

Fui nova, mas fui triste; só eu sei
como passou por mim a mocidade!
Cantar era o dever da minha idade…
Devia ter cantado, e não cantei!

Fui bela. Fui amada. E desprezei…
Não quis beber o filtro da ansiedade.
Amar era o destino, a claridade…
Devia ter amado, e não amei!

Ai de mim! Nem saudades, nem desejos;
nem cinzas mortas, nem calor de beijos…
— Eu nada soube, nada quis prender!

E o que me resta? Uma amargura infinda:
ver que é, para morrer, tão cedo ainda,
e que é tão tarde já para viver.

Florbela Espanca, Portugal (1894-1930)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONHO DE AMOR – Amadeu Amaral

Tudo isto há de passar, de certo, muito em breve…
Branca névoa sutil, ir-se-á quando o sol nasça;
branco sonho de amor, passará, como passa
pelas ondas em fúria uma garça de neve.

Passará dentro em pouco, imitando a fumaça
que se evola e se esvai nas curvas que descreve.
Fumaça de ilusão, força é que o vento a leve,
força é que o vento a leve, e disperse, e desfaça.

Que importa! Uma ilusão que nos alegra e afaga
há de ser sempre assim, no mar bravo da vida,
como a espuma que fulge e morre sobre a vaga.

Esta me há de fugir, esta que hoje me inflama!
E antes vê-la fugir como uma luz perdida
que possuí-la na mão como um pouco de lama…

Amadeu Ataliba Arruda Amaral Leite Penteado, Capivari-SP (1875-1929)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

NO BANHO – Adolfo Caminha

Ninfas do bosque, Náiades formosas,
Sátiros, Faunos, vinde vê-la agora,
Nua, no banho, esta ideal senhora,
Que em beleza e frescura excede as rosas.

Vinde todos depressa!… Ei-la que cora,
Ei-la que solta as tranças graciosas
Sobre as espáduas níveas, capitosas…
Ei-la que treme à loura luz da aurora…

Tinge-se o céu de cores purpurinas,
O sol desponta; as tímidas boninas
Mostram à luz os cálices dourados.

Vêde-as, Ninfas, agora: os nacarados
Lábios, os seios túmidos, nevados,
Segredam coisas ideais, divinas.

Adolfo Ferreira dos Santos Caminha, Aracati-CE (1867-1897)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

PÁLIDA, À LUZ DA LÂMPADA SOMBRIA – Álvares de Azevedo

Pálida, à luz da lâmpada sombria,
sobre o leito de flores reclinada,
como a Lua por noite embalsamada,
entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens de alvorada,
que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando…
Negros olhos as pálpebras abrindo…
Formas nuas no leito resvalando…

Não te rias de mim meu anjo lindo!
Por ti – as noites eu velei chorando,
por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!

Manoel Antônio Álvares de Azevedo, São Paulo (1831-1852)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

ARGILA – Raul de Leoni

Nascemos um para o outro, dessa argila
De que são feitas as criaturas raras;
Tens legendas pagãs nas carnes claras
E eu tenho a alma dos faunos na pupila…

Às belezas heroicas te comparas
E em mim a luz olímpica cintila,
Gritam em nós todas as nobres taras
Daquela Grécia esplêndida e tranquila…

É tanta a glória que nos encaminha
Em nosso amor de seleção, profundo,
Que (ouço ao longe o oráculo de Elêusis)

Se um dia eu fosse teu e fosses minha,
O nosso amor conceberia um mundo
E do teu ventre nasceriam deuses…

Raul de Leoni, Petrópolis-RJ (1895-1926)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

EPITÁFIO – Bocage

Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia – o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
que engrole sub-venites em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

“Aqui dorme Bocage, o putanheiro:
Passou a vida folgada, e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro.”

Manuel Maria Barbosa du Bocage, Setúbal, Portugal (1765-1805)

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A CAROLINA – Machado de Assis

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Joaquim Maria Machado de Assis, Rio de Janeiro-RJ, (1839-1908)