A PALAVRA DO EDITOR

FIM DE MÊS

Hoje tá terminando a semana e também o mês.

Esta gazeta escrota chega a este 31 maio com tudo pago, em ordem e em dia.

O competente Bartolomeu Silva, que nos dá assistência técnica, já recebeu seu pagamento.

E Chupicleide, secretária de redação, está relinchando de alegria com o salário depositado em sua conta. 

Isso graças às doações dos nosso leitores, uma patota generosa que mantém essa gazeta escrota avuando pelos ares, atualizada diariamente e publicando tudo quanto é tipo de fuxico e de coisas que acontecem nesta nossa republiqueta banânica. 

Um xêro carinhoso pra todos vocês!!!

Um excelente domingo para esta maravilhosa comunidade fubânica!!!

E para embelezar o nosso dia, vamos fechar a postagem com a valsa Contos dos Bosques de Viena, uma comovente homenagem de Johann Strauss II à sua belíssima cidade natal.

DEU NO X

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VERSOS A UM CÃO – Augusto dos Anjos

Que força pôde adstrita e embriões informes,
Tua garganta estúpida arrancar
Do segredo da célula ovular
Para latir nas solidões enormes?!

Esta obnóxia inconsciência, em que tu dormes,
Suficientíssima é, para provar
A incógnita alma, avoenga e elementar,
Dos teus antepassados vermiformes.

Cão! — Alma de inferior rapsodo errante!
Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a
A escala dos latidos ancestrais…

E irás assim, pelos séculos, adiante,
Latindo a esquisitíssima prosódia
Da angústia hereditária dos seus pais!

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, Cruz do Espírito Santo, Paraíba (1884-1914)

DEU NO JORNAL

SONHO

Com estatais apresentando rombos atrás de rombos sob a gestão petista, Lula diz que sonha em fazer com que Eletrobras volte a ser estatal.

E ainda criticou a privatização da BR Distribuidora.

* * *

Normal, normal.

Tudo dentro dos conformes.

Os sonhos do descondenado são sempre contra o que é bom pro país.

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

BERNARDO - AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

CUSTO DA DEMAGOGIA

Esta semana, a Câmara de Deputados aprovou o fim da escala 6 x 1 e após a transição de um ano, todos nós vamos trabalhar 5 dias e folgar dois. Que esse novo dia de folga seja a quarta-feira porque a gente trabalha segunda e terça, folga na quarta, quinta e sexta e folga no sábado. O domingo já vem de graça mesmo. Acordemos que a coisa não é bem assim. Há uma redução de 44 horas para 50 horas semanais, então, podemos trabalhar 8 horas por dia, de segunda a sexta, por exemplo.

Em sã consciência ninguém é contra qualquer trabalhador ter direito a mais horas de lazer, ter mais tempo para dedicar aos estudos ou para dedicar à sua família. Não é essa questão. O problema é que tem dois mundos diferentes: setor público e setor privado. No setor público, algumas atividades já cumprem esse regime de trabalho, mas outras terão uma grande dificuldade em se adequar. Um hospital público, por exemplo, não tem como parar no final de semana, não dispõe de imediato de pessoas para suprir a ausência de outros e qualquer contratação está precedida de um concurso público ou de uma seleção simplificada.

Tanto o setor público quanto o setor privado dependem da atividade econômica. Quando a economia recua, as empresas são penalizadas pela obrigatoriedade de pagar impostos e o governo depende disso para arrecadar impostos, mas o impacto dessa proposta vai afetar diretamente o setor que gera emprego que é o setor privado. Atualmente, os encargos pagos sobre folha de pessoal, bem pesados e bem medidos, variam na faixa de 60 a 80% e com a redução das horas trabalhadas, mantendo-se o salário, não precisa ser um gênio para entender que haverá aumento de custos e, qualquer empresa do setor privado, vive mediante a perspectiva de lucro, portanto, a confusão será grande.

Não se trata de se posicionar contra o projeto apenas para criar divergência política. O lógico será convidar os trabalhadores para um debater sua situação e a partir daí fazer algo que não prejudicasse a economia, porque da forma como feito, há poucas dúvidas sobre os danosos efeitos econômicos. Ao que parece, haverá substituição de mão de obra por tecnologia em casos mais elementares e escassez de trabalho. Por exemplo: no caso da Educação, existe uma norma que regula o ano letivo em 200 dias. Alguém precisará fechar essa conta, porque ao reduzir a quantidade de horas, pelo que entendo, precisa esticar o tempo. Regra de três simples e direita: se eu diminuo a quantidade de horas trabalhadas por dia, eu precisar de mais dias para fazer o mesmo trabalho ou de mais pessoas. Neste último caso, será mais versátil, pois devemos ter dois professores da mesma disciplina, na mesma turma. A convivência é pacífica porque teremos dois ou mais professores da mesma disciplina por turma.

Quem estuda Microeconomia, sabe que existe uma relação inversa entre custo marginal e produtividade marginal. Vamos explicar isso para que não pensemos em determinados nomes da política. Custo marginal é custo decorrente da produção de uma unidade a mais. Se para produzir 10 unidades o custo de produção foi 15 e ao se produzir a 11ª unidade, este custo aumentou para 18, então o custo marginal é 3. Isso vale também para custo médio e produtividade média. Quanto menor a produtividade marginal/média, maior será o custo marginal/médio e é aqui que a porca torce o rabo.

A produtividade média do Brasil é relativamente baixa quando comparada a outros países. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas mostrou que um trabalhador americano faz em 15 minutos o que o trabalhador brasileiro faria em 1 hora. A redução das horas trabalhadas vai impactar a produtividade média (vai diminuir) e com isso haverá aumento nos custos. Logicamente, este custo será repassado para o preço.

Demagogia tem preço e ele além de alto, não é pago pelo demagogo. É pago pela sociedade. Infelizmente, no Brasil o setor privado é demonizado suficientemente. O discurso é sempre o mesmo: exploração da mão de obra, ganância pelo lucro, concentração de renda. Ninguém considera o esforço que um determinado empresário fez para implantar uma atividade lucrativa que gera emprego e renda. O ponto é que existe uma torcida muito grande para que o empresário se lasque, mas estas pessoas não dão a mínima importância para os empregos perdidos.

No Brasil, quem paga a conta é sempre o empresário, mesmo quando ele não tem nada com o assunto. Em 1987, Bresser-Pereira ao assumir o ministério da fazenda do governo Sarney, alterou o método de cálculo da inflação. Ao invés de calcular do dia 1º de um mês para o dia 1º do mês subsequente, ele definiu que seria de 15 a 15. Tudo bem. É só uma medida temporal. O fato é que ele jogou no lixo a inflação de 26,02% apurada nos 14 dias e houve um prejuízo nítido para operações reajustadas pela inflação, como a Caderneta de Poupança.

Muita gente procurou a justiça e FHC acabou pagando essa conta, mas com a participação da iniciativa privada. Demissão sem justa causa havia uma multa de 10% sobre o FGTS e este dinheiro era para cobrir o rombo causado por Bresser-Pereira. Em 2018, Paulo Guedes acabou com essa multa.

Mais uma vez, ninguém é contra qualquer medida que beneficie o trabalhador. Então, a crítica em relação ao modo de como isso tudo foi feito. Aguardemos.

DEU NO JORNAL

ROMBÃO

Sob o governo Lula, o rombo das estatais federais já chegou a R$ 5,9 bilhões até abril, recorde para o período e maior que todo o déficit de 2025.

Os dados foram apresentados pelo Banco Central.

* * *

Ainda tá pouco.

O rombo vai aumentar muito mais até o descondenado tirar o traseiro da cadeira presidencial.

Enquanto isso não acontecer, o rombo vai virar rombão.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

DONA MARIA, A MORADORA DA CASA 82

Dona Maria reflexiva

A vida não está boa. Agora. Mas, já foi excelente, antes. Tudo acontecia dentro de uma normalidade e seguia os caminhos da humanização que sonhamos.

Dona Maria, soube-se tempos depois, nascera ali naquela casa 82, Rua das Paparaúbas. Ali também crescera, enfrentou a juventude, e casou. Casou com João, naquele tempo, Cabo da Marinha de Guerra. Era Taifeiro (aquele que cuida e se envolve com a alimentação – no caso dele, no navio).

Embarcado, João passou mais tempo da vida no navio que em casa. Naquela casa de número 82. E, sempre que João desembarcava revivia com Dona Maria, a quente lua de mel. A gravidez era inevitável, e, João nunca acompanhou a luta de Dona Maria durante a gestação dos cinco filhos. Três meninos e duas meninas.

Sem reclamar, Dona Maria cuidava de tudo. E ninguém reclamava de nada. Só Ela, que, às vezes, carente, se obrigava a recorrer aos métodos antigos para satisfazer as carências do corpo. As maiores carências eram satisfeitas no desembarque de João.

Dona Maria era a mãe e o pai dos filhos. Cuidava de tudo. Da escola, da orientação familiar, das dificuldades e, principalmente, de esclarecer as dúvidas e os questionamentos dos filhos.

Cuidava, sozinha, dos afazeres domésticos daquela casa 82.

Muitos aniversários e datas religiosas foram vividos sem a presença paterna. Mas, Dona Maria, por acreditar em milagres, durante os aniversários dos filhos, guardava sempre uma fatia do bolo para João. Entendia que era seu dever e a forma de imaginar a presença do marido.

Os anos iam passando. Os filhos, todos já adultos e agora graduados nas universidades, começaram a cuidar de suas próprias vidas. Dona Maria já não lavava mais as fraldas e nem passava no ferro as camisas usadas pelos filhos ainda alunos. Todos, inclusive as duas meninas, já cuidavam de suas vidas.

Numa manhã de uma quinta-feira, a campainha da casa 82 tocou. De soslaio, Dona Maria viu uma viatura da Marinha. Imaginou que João estivesse voltando de mais uma viagem de serviço.

Do carro desceu um oficial da Marinha, em vez de João. O oficial pediu a presença de Dona Maria, pois tinha algo a comunicar. O falecimento de João. O desmaio foi inevitável. O oficial procurou apoiar Dona Maria, ao tempo que garantia que a Marinha cuidaria de tudo. Do translado do corpo, ao sepultamento.

Os dias seguintes não foram os mesmos. Dona Maria reuniu os cinco filhos e lhes comunicou o fato. Toda a vizinhança da Rua das Paparaúbas soube, e, claro, demonstrou solidariedade. A vida seguiu, mas de forma diferente.

Os filhos casaram. Todos. Os netos começaram a chegar. Mas, contrastando com os anos anteriores, as visitas dos filhos foram “roubadas” pelo modernismo e os novos valores que a sociedade enfrenta diariamente.

Dona Maria, a moradora da casa 82 da Rua das Paparaúbas “adotou” um novo filho. O croché. Com ele e ao lado dele vivia as folgas das atividades domésticas, agora não tão intensas.

Todo fim de tarde, tão logo “o sol esfriava”, Dona Maria brincava com o novo filho, sem chupeta, sem fralda e sem carrinho. Era ali que vivia cada dia, cada fim de tarde. Até que as estrelas cadentes parecessem visitá-la.

O croché preenche a ausência dos filhos

A prática desenvolveu a atividade de Dona Maria. Dona Maria evoluiu tanto nos cuidados com aquele filho adotivo, que passou a receber encomendas. A diminuição das despesas domésticas com a saída dos filhos naturais daquela casa 82, não afetou a pensão que Dona Maria continuou recebendo pelo falecimento de João. O que valia para ela, era a ocupação do tempo vago e o preenchimento da solidão inevitável.

Dona Maria: “eu me abraço abraçando o tronco da árvore”

Aquela casa 82 da Rua das Paparaúbas parecia ser muito distante para os filhos fazerem uma visita. Viviam alegando que não tinham tempo – mas eram vistos nos fins das tardes passeando com os cães e cadelas que, insuflados e absorvidos pelo modernismo, passaram a criar. Até lhes davam nomes humanos.

Para Dona Maria, só o croché.

Certo dia Dona Maria precisou comprar agulhas novas – as antigas estavam lhe trazendo lembranças (João, em vida, trouxera da Hungria e as presenteou, para quem sabe, as necessidades de algum dia) desconfortáveis e precisou comprar novos novelos de linhas coloridas para as encomendas das clientes. Aproveitou e foi dar um rápido passeio pelo parque.

Ali, avistou uma das duas filhas passeando com duas cadelas nas coleiras. Não se aproximou. Preferiu olhar de longe.

Correu e abraçou o tronco de uma árvore, enquanto pensava em voltar para casa e conviver com o filho adotivo – o croché.

A partir daquela descoberta, Dona Maria passou a chamar aquele tronco de árvore de João.