A PALAVRA DO EDITOR

Ontem, sexta-feira, esta gazeta publicou um texto de Percival Puggina com o título de “Você sabe de onde eu venho?“.

Uma belíssima crônica que continha um vídeo comovente.

Um vídeo que mostrava um evento acontecido na comunidade italiana de Montese, no ano de 2015, “para rememorar a conquista da cidade pela Força Expedicionária Brasileira em abril de 1945.”.

Neste vídeo, crianças e professores italianos cantam, em português, a Canção do Expedicionário.

Em sua crônica, Percival diz que o vídeo “me cobrou algumas lágrimas de pura emoção”.

Também fui cobrado, Percival… com muitas lágrimas…

Ao ler a crônica deste genial e talentoso escritor, lembrei-me, de imediato, de um texto que escrevi em 2014, e que foi publicado aqui, na versão antiga do Jornal da Besta Fubana.

O título era o mesmo desta postagem: O Horror e o Lirismo da Guerra.

Um texto que, abusando da paciência dos meus leitores, tomo a liberdade de repetir hoje, cinco anos depois.

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O HORROR E O LIRISMO DA GUERRA

Eu entrei para o Exército no dia 15 de janeiro de 1965 pra prestar o serviço militar obrigatório e obter o Certificado de Reservista, documento que, naquele tempo, era indispensável pra conseguir emprego, estudar, fazer concurso ou seguir em frente na vida. Não sei se ainda hoje é assim.

Eu tinha 18 anos e completaria 19 no mês de agosto daquele ano.

Foi no 10º Batalhão de Caçadores – uma denominação que não mais existe -, na cidade de Goiânia, capital do estado de Goiás.

Em maio, quatro meses depois, fui promovido a Cabo, após uma seleção e um curso rápido feito com todos nós, os recrutas, que estávamos ali pra servir naquele ano. Na minha primeira identidade militar, lá onde estava escrito “Graduação”, apaguei a palavra “Soldado 246″ e, apressado e orgulhoso, manuscritei “Cabo 246″.

Esta dezena, 46 – que recebi logo no primeiro dia e que, por uma feliz coincidência correspondia ao ano em que nasci -, era e continuou sendo meu número de sorte durante toda a vida. É um número que carrego na minha estima até a presente data e sou-lhe muito grato pela força, pela sorte e pelas boas realizações que ele me proporcionou e continua me proporcionando. Contra mau-olhado e praga de invejoso, então, é infalível!

E foi através do que escreveu o Serviço de Identificação do Exército que eu fiquei sabendo que tinha os cabelos “crespos” e que minha cor era “parda“.

Vôte!

Até hoje sei de cor o número do meu registro: 11G-174.215-A

Esta introdução é apenas pra contar a história que se segue.

Naquele ano em que incorporei (este é o termo usado no jargão militar), havia exatamente 20 anos que terminara a 2ª Grande Guerra Mundial, em 1945. De modo que, os soldados brasileiros que lutaram em solo europeu, deveriam estar na faixa dos 40 anos de idade, pouco mais ou menos, quando eu comecei a prestar o serviço militar. Hoje, quase 50 anos depois, a grande maioria já não mais está no mundo dos vivos e os sobreviventes estão bem velhinhos.

O comandante da nossa unidade era um coronel mineiro por nome de Renato Pitanga Maia. Ele havia servido na Itália durante a guerra, na Força Expedicionária Brasileira, e todos os anos fazia uma solenidade homenageando os chamados “pracinhas” que moravam na capital de Goiás.

Naquele ano de 1965, os pracinhas desfilaram junto conosco no páteo do quartel e, após o desfile, o nosso comandante foi fazendo a chamada, um a um, de nomes dos soldados brasileiros que haviam perdido a vida naquela guerra. A cada nome que o coronel pronunciava, nós, perfilados e em posição de sentido, gritávamos “Presente“, como que incorporando e fazendo voltar à vida cada um dos que tombaram em solo italiano.

Chorei abundamente e, cada vez que respondia “Presente“, em coro com meus colegas, meus olhos mais e mais se enchiam de lágrimas.

E foi a partir daquele dia que passei a me interessar, a estudar e a ler sobre a participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial. Sobretudo me interessei, particularmente, pelas histórias pessoais dos soldados, pelos dramas humanos, pelos amores e pelas paixões que foram intensamente vividos pelos brasileiros, vindos de todos os cantos e de todos os estados deste imenso país, geralmente homens simples e humildes. É um assunto que me toca o coração com muita profundidade sempre que dele me ocupo, como estou fazendo agora.

Me lembrei de tudo isto nos últimos dias por conta de mensagem que recebi de um leitor fubânico, informando sobre homenagem que um conjunto sueco de rock, do chamado heavy metal, prestou aos soldados brasileiros que lutaram naquela guerra, inclusive com direito a refrão em português! A música está num vídeo que consta de uma página que o leitor me mandou. Quem quiser ver, basta clicar aqui.

Continuando:

Tão cedo quanto comecei a me interessar pela história da FEB, a Força Expedicionária Brasileira, a primeira coisa que me impressionou foi a letra da “Canção do Expedicionário“. Cuida-se aqui de um belíssimo poema de Guilherme de Almeida que foi musicado por Spartaco Rossi.

Uma canção que era entoada pelos nossos jovens soldados, lutando naquela guerra estúpida. Como estúpida e irracional é toda guerra, onde os maiorais e “estadistas” colocam nações em confronto e provocam a morte de milhares e milhares de inocentes, que nada tem a ver com as razões que levaram à carnificina.

Esta canção é uma das coisas mais belas e mais tocantes que já tive a felicidade de ler/ouvir na língua portuguesa.

Quando se tem em mente que ela era cantada em terra estranha e bem distante do solo pátrio, o grito de esperança contido no estribilho da canção é lancinante:

Por mais terras que eu percorra
Não permita Deus que morra
Sem que volte para lá…

Existem vários, inúmeros vídeos na internet com esta canção. Selecionei este que está a seguir porque é legendado, de modo que se pode acompanhar a belíssima letra. Uma letra que fala e que se refere aos quatro cantos e recantos do Brasil.

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DOCUMENTÁRIO: FEB – BRASIL NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
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