PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DE SEPARAÇÃO – Vinícius de Moraes

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes (1913-1980)

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

A IGREJA NÃO MATOU CIENTISTAS POR AMOR A DEUS. MATOU (E PERSEGUIU) PARA PROTEGER O PRÓPRIO “PODER”

Não, a Igreja não matou cientistas por amor a Deus.

Isso é a versão açucarada que se conta aos ingênuos e aos que confundem incenso com ética.

Ela matou, perseguiu, silenciou e difamou para proteger poder. Puro. Nu. Cru.

Porque Deus jamais terá medo de um telescópio.

O problema nunca foi Copérnico; Nunca foi Galileu; Nunca foi Giordano Bruno olhando para o céu e ousando pensar que o Universo não girava em torno de um trono em Roma. O problema sempre foi este: quem controla a narrativa, controla o mundo.

Durante séculos, a Igreja não foi apenas uma instituição religiosa. Foi Estado, banco, cartório, tribunal, polícia moral e editora oficial da realidade. Questionar o modelo cosmológico era questionar a autoridade. Questionar a autoridade era ameaçar o sistema. E ameaçar o sistema… bem, isso nunca foi tolerado por nenhum poder estabelecido — seja ele coroado, fardado ou ungido.

Dizer que a Terra gira em torno do Sol não era apenas uma afirmação astronômica.

Era uma heresia política. Porque, veja bem: se a Terra não é o centro do Universo, talvez o homem não seja o centro da criação, e se o homem não é o centro da criação, o papa não é o porta-voz exclusivo de Deus.

Percebe o efeito dominó? Giordano Bruno não morreu porque falava de infinitos mundos. Ele morreu porque ousou dizer que o cosmos não precisava de autorização clerical para existir. Foi queimado não por blasfêmia divina, mas por insubordinação metafísica. Galileu não foi condenado porque estava errado.

Foi condenado porque estava certo demais, com evidências demais, num mundo que preferia dogmas confortáveis a verdades desconcertantes.

A Igreja não defendia Deus. Defendia o monopólio do sentido. E isso é o que mais incomoda até hoje: não foi um erro de época; foi um padrão de comportamento. Toda instituição que se diz dona da verdade absoluta inevitavelmente vê o pensamento livre como ameaça. A Ciência não pede fé; pede método. Não exige submissão; exige evidência. E isso, para qualquer poder autoritário, é veneno.

Por isso ainda hoje vemos ecos desse passado grotesco: gente perguntando “prove que a Terra é redonda” com a convicção de quem acha que dúvida ignorante é profundidade filosófica; gente tratando opinião como equivalente a conhecimento; gente desconfiando de telescópios, satélites, físicos e matemáticos, mas, acreditando piamente em vídeos mal editados com trilha dramática no YouTube.

A Idade Média não acabou.

Ela só ganhou Wi-Fi.

E aqui está a ironia final, deliciosa e cruel: a mesma Igreja que perseguiu cientistas, hoje posa para fotos com astrônomos do Vaticano, mantém observatórios e fala em “harmonia entre fé e razão”. Claro. Depois de perder o poder de matar, descobriram o diálogo. É fácil ser tolerante quando já não se controla a fogueira. Mas a História não esquece.

E o Universo — indiferente, vasto, silencioso — continua girando, expandindo, criando estrelas e destruindo mundos sem pedir bênção a ninguém. A verdade não precisa de altar. Nunca precisou. E talvez seja isso que mais assuste quem sempre viveu de joelhos… não diante de Deus, mas diante do próprio poder.

PENINHA - DICA MUSICAL