Na Espanha, o partido que ganhou as últimas eleições não está no governo. Isso acontece porque, embora tenha sido o mais votado, não conseguiu o apoio de nenhum outro partido para formar uma coligação que atingisse a maioria de 50%. O segundo partido mais votado, por outro lado, anunciou que topava qualquer acordo para conseguir a maioria. O resultado foi uma coalizão com partidos nanicos, a maioria deles separatistas, que somam 51% das cadeiras. O partido mais votado ficou na oposição.
Portugal, em maio do ano passado, realizou eleições para o congresso. A AD, de centro-direita, passou de 80 para 91 cadeiras, enquanto o PS, de centro-esquerda, caiu de 78 para 58 cadeiras. No mês passado, houve eleições para presidente. O vencedor, por ampla maioria, foi o candidato do PS – o mesmo que saiu derrotado nas eleições legislativas oito meses antes.
Na Alemanha, o governo entrou em crise no final de 2024. O primeiro-ministro demitiu o ministro das finanças, o que causou o rompimento da coalizão que governava. Foram convocadas novas eleições. Os três partidos mais votados foram exatamente os mesmos da eleição anterior, com resultados parecidos, e o novo governo foi formado com os mesmos três partidos que haviam se desentendido meses antes.
Não é difícil notar que estes casos não se ajustam ao que normalmente se chama “democracia”. Do que se trata, então?
Do jeitinho que aprendemos na escola, eleições funcionam assim: vários candidatos se apresentam, mostram suas idéias e debatem em programas de TV. Os jornalistas fazem perguntas sobre as propostas de cada um para resolver os problemas existentes e sobre o posicionamento em relação às questões mais relevantes. O eleitor escolhe o candidato com as melhores propostas e vota nele.
Hoje em dia, claro, não acontece nada disso. O que acontece é:
– Os políticos se juntam em partidos e cada partido passa a se manifestar de forma única.
– Os eleitores simpatizam com as idéias de um determinado partido e passam a apoiá-lo.
– Os partidos, por vários mecanismos, detectam as preferências dos eleitores e concentram seu discurso nessas preferências.
– Os eleitores, vendo seus interesses pessoais representados por um determinado partido, tornam-se cada vez mais fiéis a ele.
– Os partidos eliminam o debate e a troca de idéias e passam a repetir sem parar aquilo que os marqueteiros determinaram ser o que mais agrada ao eleitor. Assim, os nomes e as propostas originais de cada partido perdem a importância. Os partidos passam a ser, na prática, o Partido dos Taxistas, o Partido dos Professores, o Partido dos Agricultores, o Partidos dos Comerciantes, etc., todos agrupados nas designações genéricas de “esquerda” e “direita”.
– O eleitor deixa de olhar os políticos de forma crítica e se torna um fã (abreviação de fanático) que defende incondicionalmente o “seu” partido e ataca todos os outros, usando como argumentos os clichês e frases prontas elaboradas pelos marqueteiros.
– O debate eleitoral se transforma em um concurso de memorização, onde os candidatos competem para ver quem decorou melhor as respostas elaboradas pelos mesmos marqueteiros. Os fãs de cada partido nem precisam assistir ao debate para ter a certeza de que o “seu” candidato venceu o debate porque é o mais inteligente, o mais preparado, o mais honesto, o mais tudo.
– O noticiário torna-se irrelevante porque o fã, ao ouvir qualquer notícia contrária ao “seu” candidato ou favorável aos “outros”, imediatamente grita “fake news!” e encerra o assunto.
É fácil notar que o processo se realimenta: quanto mais o eleitor se torna fã de um partido, mais ele exige que o partido repita sem parar as frases que ele gosta de ouvir, sobre os assuntos que ele gosta de ouvir. E o partido fica feliz em atender a essa exigência, porque isso o livra da obrigação de ter idéias ou propostas reais sobre qualquer assunto.
O resultado final é que eleições tornam-se inúteis. Não há propostas, não há idéias, há apenas troca de acusações e raiva, muita raiva. O irônico disso tudo é que muitas vezes a eleição acaba sendo decidida por uma minoria que não se interessa por nada e vota em qualquer número que vêm na cabeça.
A leitora Elba Freire, solidária com a pequena tragédia de D. Jumira, comentada na crônica anterior, nos ofereceu este episódio de cunho pessoal.
Tudo começou após um “evento ratazanístico” digno de investigação científica: simplesmente choveu. E quando chove, tais roedores entendem que são merecedores de abrigo digno.
Logo se reúnem, pintam cartazes, queimam pneus nas esquinas, adotando táticas do MRST – Movimento dos Ratos Sem Teto.
Quando a chuva desce, os “Mickey Mouse” urbanos entram em “modo sobrevivência”. Procuram abrigo nas residências próximas. E parte de sua “freguezia” é a residência onde moram Elba, Dudu, Vitinho e Clarinha.
Os roedores já saem de suas malocas “armados”; ou seja, de bexiga cheia, fazendo ameaças a todos.
Em seus gatilhos só há “balas líquidas”, cujos pingos mortais” são produzidas por urina dosada, de fábrica, com a temida bactéria: leptospira e flatulências violentíssimas, compostas por “nitrato de pó de peido”.
Não há quem aguente!
Saem os anarquistas do desconforto dos bueiros das ruas. Um batalhão deles: roedores: ratazanas e catitas.
E assim, em nossa história, mais uma vez, os ratos escolheram justamente a residência de nossa leitora Elba, para servir como hotel cinco estrelas.
No Condomínio Sol Nascente o acesso aos aptos superiores é facultado através de escada de alvenaria, com três lances.
E mesmo assim, os roedores sobem com uma habilidade e velocidade que faria qualquer personal trainer se admirar. São praticamente astros olímpicos das invasões domiciliares.
Na residência, reside também, Nerda Kosovsky, a cachorra importada, até então respeitada, com nome e sobrenome eslavo, que poderia ser a heroína dessa saga. Poderia. Mas não foi!
Ao pressentir qualquer ruído na sua “Zona de Segurança”, ela reage. Nos latidos é fera!
Outro dia, sentiu um odor diferente. Armou os dentes, correu à cozinha, avaliou a situação, deu um “latido de advertência”, para intimidar o invasor, e quando o rato mostrou os dentes, ela correu apavorada, com o rabicho entre as pernas.
Depois do episódio a família resolveu procurar um Mickey Mouse pernambucano para alegrar Maria Clara e encher o saco da cachorra frouxa.
O avião com o banqueiro Daniel Vorcaro chega ao hangar da Polícia Federal em Brasília, para onde ele foi transferido nesta sexta-feira, dia 6
O banqueiro Daniel Vorcaro está de volta à cadeia. Ele já tinha sido preso em 17 de novembro do ano passado, quando tentava sair do país – segundo ele, para negociar a aquisição do Banco Master –, e foi solto 12 dias depois, ao mesmo tempo em que o caso “subia” da primeira instância para o STF. A nova ordem, cumprida na quarta-feira, dia 4, veio do ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo, e se baseia no conteúdo das mensagens trocadas entre Vorcaro e vários interlocutores; elas expõem a ousadia da máfia criada pelo banqueiro, e a extensão da rede de relacionamentos criada por ele.
Já se sabia que havia uma teia de fundos de investimento e instituições financeiras montada para dar aparência de legalidade às fraudes que deixaram o Master à beira da bancarrota; que Vorcaro havia contratado a peso de ouro o escritório de advocacia da mulher de Alexandre de Moraes; e que o banqueiro estava pagando influenciadores para questionar a credibilidade do Banco Central, quando a autoridade monetária estava prestes a negar a compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB). Mas o celular do banqueiro mostrou que havia muito mais – inclusive uma estrutura de intimidação, que contava até mesmo com um “sicário”, chamado assim mesmo, sem vergonha alguma de camuflar o papel de quem era encarregado de fazer o trabalho sujo, como nos planos de “moer” uma empregada ou “quebrar os dentes” do jornalista Lauro Jardim, de O Globo. Um dos membros da “Turma” conseguia acessar os sistemas da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e até da Interpol.
Diante disso tudo, é assombroso que a Procuradoria-Geral da República tenha considerado que não havia urgência para a prisão de Vorcaro e vários de seus cúmplices, como o cunhado Fabiano Zettel, o “sicário” Luiz Phillipi Mourão e o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. Ainda que as tais agressões desejadas por Vorcaro não tenham se concretizado, era gritante o risco de mantê-los todos soltos, até porque outras atividades ilícitas estavam em curso (como o acesso aos sistemas dos órgãos de investigação). Se tudo o que a PF encontrou no celular de Vorcaro não configurava urgência aos olhos da PGR, difícil imaginar o que mais seria necessário para o Ministério Público endossar o pedido de prisão.
A PGR, neste caso, pode até ter considerado que agia com prudência, mas na verdade foi tíbia, omissa, covarde. E este é o maior risco para o Brasil neste momento crucial. O escândalo do Banco Master pode ganhar dimensões iguais ou maiores que o mensalão ou a Lava Jato, se não nos valores movimentados, certamente na forma como o esquema se entranhou nos círculos do poder em Brasília e na oportunidade de, com o perdão do clichê, “passar o Brasil a limpo”. As conversas de Vorcaro também evidenciam sua proximidade com figuras graúdas do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, sua influência em órgãos como o Banco Central, a “compra de consciências” no jornalismo. O banqueiro jamais teria chegado aonde chegou, fazendo o que fazia, sem uma multidão de cúmplices e de omissos.
Se antes já era muito difícil para o presidente do Senado e do Congresso, Davi Alcolumbre, e para o presidente da Câmara, Hugo Motta, justificarem a não abertura de uma CPI ou CPMI do Banco Master, já se passaram horas suficientes desde a prisão de Vorcaro e a divulgação de conversas do banqueiro para que essa recusa ganhe ares de prevaricação. Mas Brasília anda com medo do que mais pode aparecer, de quem mais pode ser citado, de que outras amizades ou favores podem ser expostos. Se há instituições fazendo o seu trabalho, há outras que estão paralisadas, cientes de que “se ele [Vorcaro] fizer uma delação premiada, meia República vem abaixo”, como disse o senador Jorge Kajuru.
O timing e o conteúdo das conversas (incluindo aquelas com Moraes no dia em que Vorcaro foi preso pela primeira vez), a maneira como Dias Toffoli tentou esconder do país sua sociedade em uma empresa que fez negócios com Vorcaro e como ele tentou impor sigilo total às investigações, os contratos multimilionários sem explicação, a tentativa bizarra do Tribunal de Contas da União de desqualificar o Banco Central – não há absolutamente nada na história do Master que não desperte suspeita e não mereça todo o esforço das instituições para esclarecer quem ajudou Vorcaro, de que forma e por quais motivos. Todos – Congresso Nacional, PF, PGR, STF, BC, TCU – devem isso ao Brasil, e é imperativo que, em meio aos covardes e aos cúmplices, haja gente de valor em todas essas instituições que esteja disposta a não deixar nada passar em branco.