Arquivo diários:6 de março de 2026
DEU NO X
PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS
UM MOTE BEM GLOSADO E UM CORDEL FEMININO

Poeta João Paraibano, um dos gênios da cantoria nordestina (1952/ 2014)
* * *
João Paraibano glosando o mote:
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três dias de chuva no Sertão.
O bezerro mamando a cauda abana;
A espuma do leite cobre o peito;
Cada estaca de cerca tem direito
A um rosário de flor da jitirana.
No impulso do vento a chuva espana
A poeira do palco do verão;
A semente engravida e racha o chão,
Descansando dos frutos que germina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três dias de chuva no Sertão.
Quando Deus leva em conta a nossa prece
O relâmpago clareia, o trovão geme,
Uma nuvem se forma, o vento espreme,
Pelos furos do véu, a água desce;
A campina se enfeita, a rama tece
Um tapete de folhas sobre o chão;
Cada flor tem formato de um botão
No tecido da roupa da campina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.
No véu negro da barra, o sol se esconde;
Um caniço amolece e cai no rio;
Nos tapetes de grana do baixio,
Um tetéu dá um grito, outro responde;
A frieza da terra faz por onde
Pé de milho dar nó no esporão
E a boneca, na sombra do pendão,
Lava as tranças com gotas de neblina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.
A presença do Sol é por enquanto.
Onde vinga uma fruta, a flor desprende;
Cada nuvem que a mão de Deus estende
Cobre os ombros do céu, de canto a canto.
Camponês não precisa roubar santo,
Nem lavar mucunã pra fazer pão;
Faz cacimba na areia com a mão
Onde o pé deixa um rastro, a água mina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.
A cabocla mulher do camponês
Caça ninho nas moitas quando chove
Quando acha dez ovos, tira nove,
Deixa o outro servindo de indez;
As formigas de roça fazem vez
De beatas seguindo procissão;
As que vêm se desviam das que vão,
Sem mão dupla, farol e nem buzina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.
Sertanejo apelida dois garrotes,
Bota a canga nos dois e desce a serra;
Passa o dia no campo arando terra,
Espantando mocó pelos serrotes;
Sabiá, pra o conforto dos filhotes,
Forra o ninho com pasto de algodão;
Bebe o suco da polpa do melão,
Limpa o bico nas varas da faxina
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.
Treme o gado na lama do curral,
Sopra o vento, cheirando a chão molhado;
Cada pingo de chuva, congelado,
Brilha mais do que pedra de cristal.
Uma velha, durante o temporal,
Se ajoelha, rezando uma oração,
Fecha os lhos com medo do trovão
E abre a porta, depois que a chuva afina
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.
Cresce a planta, viçosa, e frutifica
Com um cacho de flor em cada galha;
Vê-se o milho mudando a cor da palha
E o telhado chorando pela bica;
A cigarra emudece, a acauã fica
Sem direito a fazer lamentação;
Deus afina a corneta do carão,
Só depois de três meses, desafina.
Jesus salva a pobreza nordestina,
Com três meses de chuva no Sertão.
* * *
MULHER TAMBÉM FAZ CORDEL – Salete Maria da Silva

O folheto de cordel
Que o povo tanto aprecia
Do singelo menestrel
À mais nobre academia
Do macho foi monopólio
Do europeu foi espólio
Do nordestino alforria
Desde que chegou da França
Espanha e Portugal
(Recebido como herança)
De caravela ou nau
O homem o escrevia
Fazia a venda e lia
Em feira, porto e quintal
DEU NO JORNAL
A REPÚBLICA DO CRIME
Leonardo Coutinho
O Banco Master comprou meio mundo no Brasil. Do jagunço, com salário mensal de um milhão de reais para fazer o que jagunço sabe fazer, às mais altas autoridades do país. Vou ser genérico aqui não por zelo, mas por precisão.
Quando um sistema inteiro se une para se blindar, a lista completa dos envolvidos nunca aparece com nitidez. Mas a complexidade e a desfaçatez da operação, tal como vêm sendo descritas, deixam uma coisa inequívoca: não é obra de um só homem, nem de meia dúzia.
As notícias desta semana mostram que o escândalo associado ao banco (ou seria bando?) dirigido por Daniel Vorcaro não cabe nas páginas de economia, nem nas de política, nem mesmo nas de polícia.
O que está em jogo, ao que tudo indica, é um esquema multidimensional que ultrapassa o crime financeiro, a corrupção política e a interface com estruturas do crime organizado. E o ponto mais grave é o seguinte: Vorcaro não é a doença. É o sintoma.
Nenhum ecossistema dessa natureza prospera se o Estado e suas instituições já não tiverem ruído ou estiverem perigosamente perto de desabar. Não é de hoje que os brasileiros acordam com “mais um caso de corrupção”. São tantos que ora se somam, ora se anulam, ora empurram os anteriores para o esquecimento. Mas a “máfia” que orbita este caso aponta para algo mais sombrio: um estágio pré-falimentar da institucionalidade brasileira.
Vamos, por ora, deixar de lado a fraude bilionária, as alegações de vínculos com redes de lavagem associadas ao PCC, os contratos opacos com familiares e figuras de altas cortes, os métodos heterodoxos de defesa, as histórias de orgias e supostos registros comprometores, as decisões judiciais excêntricas que deram tempo e proteção, o travamento de investigações, a amplitude ideológica do círculo de influência, os relatos sobre planos de intimidação de jornalistas de um lado e cooptação de jornalistas de outro. Vamos ignorar tudo isso não porque seja pequeno, mas porque, diante do essencial, torna-se quase secundário.
A pergunta central é outra: como alguém como Vorcaro surge e se converte no operador capaz de chefiar uma engrenagem dessa magnitude? Em que país o Brasil se transformou para que esse tipo de personagem não apenas exista, mas prospere com tamanha facilidade e eficiência? O que aconteceu com a percepção de risco, de vergonha, de limite, de decoro? Como políticos, juízes, altos funcionários e formadores de opinião passam a ver como normal o cochichar de Vorcaro ao seu pé do ouvido, voos em seus jatos privados, favores, jantares, patrocínios, afagos e, segundo versões picantes, até atravessar fronteiras de intimidade sexual?
E por que ninguém se incomoda com o “modo de operação” e a generosidade de certos sujeitos que aparecem, de repente, com o coração transbordando de amor, distribuindo vinhos caros, viagens, prêmios e presentes? A esquisitice não é um detalhe folclórico: é um indicador. Em ambientes saudáveis, esse tipo de comportamento acende alarmes. Em ambientes doentes, vira etiqueta social.
O ambiente de anomia que permitiu a ascensão de Vorcaro é o que deveria nos preocupar de verdade. Seu gangsterismo é subproduto da falta de filtros institucionais ou, no português popular, da absoluta falta de vergonha na cara de quem manda e de quem se alimenta nas bordas do poder. Mas também é consequência da erosão dos freios, do “compliance” nas instituições do Estado, em parte da imprensa e em empresas que preferem fingir que não veem para não perder acesso.
Um amontoado de material que, independentemente do debate jurídico, teve um efeito político concreto e devastador: serviu como pretexto para implodir investigações inteiras, incluindo casos robustamente documentados e, em alguns episódios, até confessados, com dinheiro devolvido e delações cheias de provas.
O objetivo imediato era tirar Luiz Inácio Lula da Silva da cadeia. Mas não foi só isso. Para produzir a justificativa política desse movimento, era preciso mais do que “recontar” narrativas: era preciso reconfigurar o ambiente operacional. Uma consequência foi o fim da ideia de responsabilização.
A partir dali, o recado ao sistema foi cruelmente simples: o crime pode ser relativizado; a punição pode ser reescrita; a vergonha na cara pode ser abolida.
O Brasil que emergiu das cinzas da Lava Jato se parece, cada vez mais, com um Estado mafioso em consolidação, onde a impunidade não é acidente, mas arquitetura, onde Carecas do INSS e Vorcaros são apenas alguns parasitas que foram detectados. Não são os únicos, os últimos nem os maiores.
PENINHA - DICA MUSICAL