PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

O “ADEUS” DE TERESA – Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala

E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”

Passaram tempos sec’los de delírio
Prazeres divinais gozos do Empíreo
… Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!. . . “
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquesta
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

Antônio Frederico de Castro Alves, Bahia (1847-1871)

DEU NO JORNAL

DEU NO JORNAL

O CURUPIRA VAI CHORAR DE VERGONHA EM BELÉM

Luciano Trigo

Curupira, o guardião da floresta amazônica, figura lendária dos povos indígenas da região de Belém

À primeira vista, a escolha do Curupira como mascote oficial da COP30 – a Conferência da ONU sobre mudanças climáticas que acontecerá entre 10 e 21 de novembro, em Belém do Pará – pode parecer acertada, pelo seu simbolismo e por estar alinhada à nossa identidade cultural. Mas, olhando mais de perto, pode ter sido uma decisão ruim, por ressaltar o abismo entre a realidade da Amazônia e a narrativa ambientalista.

Nas culturas indígenas e ribeirinhas, o Curupira é um ser mítico quase sagrado. Com seus cabelos vermelhos flamejantes e seus pés virados para trás, ele é o guardião das matas, um espírito vingativo que não perdoa caçadores predatórios, desmatadores e outros inimigos da floresta. Transformar esse personagem no mascote amigável e fofo de um evento internacional pode acabar contribuindo para camuflar a tragédia que se perpetua na região.

Dados recentes do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostram que o desmatamento e as queimadas na Amazônia continuam em níveis alarmantes, apesar das reiteradas promessas e planos de governo. O Pará, estado anfitrião da COP30, é um dos líderes em áreas desmatadas e queimadas. Enquanto o Curupira dançar nas peças publicitárias do evento, a floresta continuará a arder.

Não é só a devastação ambiental que contínua forte – ainda que, curiosamente, não desperte mais a indignação dos artistas e ativistas nacionais e até estrangeiros, como Leonardo DiCaprio e Greta Thunberg. As travas ao desenvolvimento que impedem a melhoria das condições de vida da população local também desmentem a mensagem otimista pretendida pela COP30.

Nesse contexto, a instrumentalização política do Curupira e a banalização do folclore como ferramenta de marketing se tornam arriscados. Podem parecer uma tentativa de desviar a atenção da tragédia ambiental e humana da região, com uma narrativa lacradora que convence cada vez menos gente.

Apesar de sua imensa riqueza, a Amazônia é marcada por indicadores sociais precários, como alta mortalidade infantil, analfabetismo e falta de saneamento. Aliás, Belém é uma das cidades brasileiras com os piores índices de saneamento básico do país. Os índices de pobreza e extrema pobreza são altíssimos. A insegurança alimentar afeta 30% dos domicílios. No Pará, mais de 90% da população não tem sequer coleta de esgoto, de acordo com levantamento do Instituto Trata Brasil. É vergonhoso.

Nesse cenário, o uso do Curupira pode ser percebido não como um gesto de preocupação verdadeira com o meio ambiente, mas simplesmente como uma jogada de greenwashing, ou mesmo como a apropriação cínica de um símbolo do nosso folclore por uma agenda política que faz muito pouco para enfrentar de fato a destruição da floresta e a miséria da população da região.

Greenwashing, como o leitor sabe, é o termo usado para descrever estratégias de marketing que tentam vender a imagem de compromisso ambiental onde, na prática, há omissão, inércia ou destruição deliberada. A escolha do Curupira se encaixa perfeitamente nesse conceito: em vez de enfrentar com coragem os desafios de um desenvolvimento sustentável que traga riqueza para a região, opta-se por oferecer ao público um símbolo politicamente correto e palatável aos olhos do mundo.

Mas é impossível ignorar a ironia: o verdadeiro Curupira castigaria justamente aqueles que hoje são convidados a debater soluções que não saem do papel – e só servem para frear o desenvolvimento do nosso país. A escolha do mascote ganha contornos trágicos e farsescos. A Amazônia, por sua vez, é reduzida a mero cenário: um pano de fundo exótico e colorido para discursos civilizatórios que só atendem aos interesses dos países ricos. É uma forma de exotismo institucionalizado.

O Curupira é retirado de seu contexto de resistência e luta e colocado como figurante de um espetáculo internacional que privilegia aparências e falsos consensos, que agridem a nossa soberania e impõem uma agenda climática que prioriza os interesses dos países ricos e limita o uso dos recursos amazônicos pelo Brasil. Como vem alertando o insuspeito Aldo Rebelo, esta é uma agenda que “congela” a Amazônia e perpetua a miséria da região.

Rebelo enfatiza que a Amazônia deve permanecer sob controle do Brasil, protegendo seus recursos contra interesses internacionais que cobiçam a região desde o período colonial. Ele critica a influência de ONGs, que considera um “Estado paralelo” a serviço de agendas estrangeiras, e defende o “direito ao desenvolvimento”, com a regularização de atividades econômicas, como mineração e agricultura. A preservação do meio ambiente não pode se dar ao preço da miséria da população. Mas, seguramente, nada disso será debatido na COP30.

Aliás a COP vem sendo criticada até por apoiadores incondicionais do governo, como o líder indígena Ailton Krenak. Em uma entrevista recente, Krenak declarou que o evento será um grande “balcão de negócios de corporações”, com pouca representatividade de povos originários e sem compromisso real com a preservação ambiental. “Para bilionários, interessa mais ganhar dinheiro e aumentar sua força política do que cuidar da vida no planeta”, afirmou. E explicou por que se recusou a participar da conferência: “Eu não suportaria o cheiro dos bilionários. Se eu fosse, seria apenas para passar vergonha ou raiva”.

PS. Mal dei o ponto final neste artigo, vi que o deputado Nikolas Ferreira já se manifestou no X sobre a escolha do Curupira como mascote da COP30: “Excelente escolha pra representar o Brasil e nossas florestas: anda para trás e pega fogo”, escreveu o parlamentar, em uma postagem com 2,5 milhões de visualizações, que já rendeu quase 4.000 comentários, 7.000 compartilhamentos e 36 mil curtidas. Precisamos regular as redes sociais!

DEU NO X

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

SEM NOVIDADE NO FRONT

No Ranking Mundial de Competitividade 2025, recentemente divulgado, o Brasil ficou em 58º lugar entre 69 países, logo acima de Botswana e atrás de Quênia e Bulgária. Conseguimos a proeza de ficar em penúltimo no item Eficiência Governamental e em último no sub-item Finanças Públicas. Na área de educação, ficamos em último em Habilidades Linguísticas, penúltimo em Educação Primária e Secundária e antepenúltimo em Educação em Gestão. Para quem ficou curioso, os primeiros do ranking são os de sempre: Suíça, Cingapura e Hong-Kong.

Nosso judiciário continua sendo um dos mais caros do mundo. Provavelmente é um dos mais morosos também, mas não se pode ter certeza porque isso não é considerado importante para ser medido ou divulgado.

Nosso ministério público também continua sendo um dos mais caros do mundo. E também continua sendo um caso único de um órgão cuja função é “representar o povo” não ter um único integrante escolhido pelo povo e não ter absolutamente nenhum mecanismo onde o povo possa opinar se está sendo bem representado ou não.

Nossa educação pública custa mais caro (5,5% do PIB) do que as da Suíça (5,0%), Coréia do Sul (4,9%), Canadá (4,7%), China (4%) e Japão (3,3%), e praticamente empata com Holanda, Estados Unidos e França. Não é preciso dizer que nossos resultados são absurdamente piores do que os destes países. Mesmo assim, tudo que sabemos dizer sobre os problemas da educação é “o governo precisa investir mais”.

29% dos brasileiros acima de 15 anos são considerados analfabetos funcionais, e mais 61% estão no nível “elementar” ou “intermediário”. Apenas 10% da população é considerada “proficiente”. Além disso, entre os brasileiros com curso superior completo, 12% são analfabetos funcionais e mais 27% têm alfabetização elementar. O paradoxo de existirem analfabetos portadores de diploma universitário não parece ser algo que preocupe a sociedade brasileira.

A dívida pública total (federal e estadual) acaba de atingir dez trilhões de reais. Isso significa que cada bebê brasileiro já nasce devendo cinquenta mil reais. Claro que essa dívida também é uma das mais caras do mundo, com taxas de juro reais acima de 10% ao ano. Como o sistema educacional, comentado acima, produz cidadãos absolutamente ignorantes em economia e também em matemática, o povo em geral acredita que isso é uma questão política e que é o governo (ou o banco central) quem decide quanto pagar de juros.

Todos estes fatos são coisa de décadas, mas os brasileiros, a imprensa e as redes sociais estão divididos entre os fãs de um grupo político e os fãs de outro grupo político, ambos plenamente convencidos de que todos os problemas acima são culpa do grupo adversário.

Enquanto tudo isso persiste, os brasileiros acompanham a mais recente briga entre o ministro e o deputado, torcem, como se estivessem em um jogo de futebol, pela vitória do partido X ou do partido Y em cada “disputa” inventada pela mídia, e debatem diariamente (como nas mesas-redondas do futebol) os prognósticos da próxima eleição, onde finalmente um Salvador da Pátria fará aquilo que os dez ou doze Salvadores da Pátria anteriores não fizeram.

DEU NO JORNAL

DESINTERESSE

O desinteresse do governo Lula de dar um jeito no crime organizado já constrange o País lá fora.

O presidente da Argentina, Javier Milei, cobrou contenção de facções brasileiras que ameaçam o Mercosul.

* * *

O crime administrativo jamais vai querer dar um jeito no crime organizado.

Não adianta o presidente argentino cobrar: o bando que comanda o Brasil atualmente vai sempre fingir que não está acontecendo nada.

Os parceiros do outro bando agradecem emocionados.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

FATOS DE ONTEM E HOJE

Antigo jornal: predominância de anúncios

Tempo houve em que os velhos jornais, tanto estrangeiros quanto brasileiros, se lidos hoje, poderiam ser considerados cheios de graça.

Das oito colunas, como eram paginados, a maioria, mostrava os pequenos anúncios, ficando apenas duas para a “manchete do dia”. Os brasilianos copiaram o modelo.

Até 1910, nas menores cidades do Brasil, tais periódicos se apresentavam apenas com duas páginas: frente e verso. Sempre eram adquiridos por venda avulsa, nas bancas ou através de pequenos jornaleiros.

Pareciam folhetos. As principais notícias eram ‘Compras e Vendas”. Como não havia ainda, nem ao menos a radiodifusão, as notícias circulavam muito devagar. O jornal era a fonte das informações comerciais e outras ofertas de compra e venda, particulares.

Muitas vezes os jornalistas eram obrigados a redigir editoriais com base em cartas que chegavam do Rio de Janeiro, por via marítima ou telegramas nacionais, que nem sempre cjegavam nos dias desejados.

Como me disse Fernando de Castro Lobo, “Recordar não é querer que o tempo passe; é mais comparar as horas de ontem e achar graça no contraste das comparações”. Por isso, vejamos como eram os pequenos anúncios.

Vestido de noiva, nunca usado. Vende-se barato e urgente. Material de primeira. Negocio fiado. Ver e tratar com a ex-noiva, na casa 25, do Beco do Sirigado, em São José, com sua genitora, D. Sinhá.

O lucraniano Avir Debrands está querendo se desfazer de seis jumentos. Está apertado de dinheiro. Apenas um deles tem a mania de emperrar. Veterano criador de ácinos e maures, garante a qualidade dos animais. Sítio do Pau Duro, Limoeiro.

Avaliando-se ass notícias em jornais de nossa época, observamos que são bem diferentes A exemplo:.

A piedosa “Federal” pegou no Aeroporto dos Guararapes motoboy com cinco quilos de coca, daquela que nem passarinho cheira. Foi enquadrado.

Como ia para Lisboa e com mala cheia, teve que desviar-se do “turismo jumentício”, pois servia como “mula”. Recebeu duas pulseiras metálicas e o levaram para se hospedar no quadrilátero da PF, no Cais do Apolo, Recife.

Astrofísicos acompanham com muita atenção a evolução de uma “bolinha de pedra”, com 2,6 bilhões de toneladas, que poderá visitar a terra em 2014. Já tem gente fazendo contas da idade. Mas felizmente esta notícia escrevi em 2003, acho que o pedregulho perdeu a rota e nós escapamos.

Pesquisa de um laboratório de Viena, Áustria, indica que 50% dos homens que sofrem de insuficiência cardíaca crônica, têm disfunção peniana.

O estudo revela que por medo de ataques cardíacos, tem se verificado desuso do membro viril. E, por falta de uso, brocharam.

PENINHA - DICA MUSICAL