CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

XICO COM X, BIZERRA COM I

GUSTAVO COM DOIS ‘TÊS’

Engana-se quem pensa que sou preconceituoso em questão de música. Não sou. Adoro Sertanejo. Eu, forrozeiro juramentado, fole com firma reconhecida no cartório das brejeirices puras, estaria cometendo, aos olhos de alguns amigos, pecado mortal ao proferir essa declaração. Não entendi. Que há de mal nisso? Um amigo mais afoito, radical em seu gosto musical, não se deu por satisfeito e quis me por à prova perguntando de qual sertanejo eu mais gostava, esperando, talvez, um Wesley Safadão ou Marília Mendonça como resposta. Sem titubear, repliquei, na bucha: – Sertanejos, tem muitos, mas eu gosto mais de Gonzaga, Dominguinhos e Sivuca. Incrédulo, insistiu: – E esses são sertanejos? dúvida decorrente do fato de ele nunca ter escutado uma cantiga sequer desses ‘cabras’ do Sertão. Tive que informar, sem me constranger e ao mesmo tempo constrangendo-o: – Sertanejos, sim, da gema. Gonzaga é do Exu, Dominguinhos de Garanhuns e Sivuca de Itabaiana. Queres mais sertanejo que isso? Com a dignidade do diferencial de que eles nunca receberam pagamentos milionários provenientes de recursos públicos sugados de municípios pobres nem se envolveram em esquemas de corrupção com superfaturamento de cachê justificado pela celebridade que são, fabricada pelos Faustões e Hucks da mídia interesseira. Quem nunca desconfiou de que por detrás do sertanejo universitário (alguns frequentaram, quando muito, os bancos escolares do primeiro grau) existe muita coisa ruim, além da música de extremo mau gosto e de péssimos cantores e cantoras. Há o famigerado “bate e volta” dessa grana que sustenta eleição e reeleição de corruptores. No autofalante do bar e alheio a tudo, alienados ouviam uma cantiga ‘sertaneja’ interpretada por um tal de Nivaldo Batista, mais conhecido nos paredões do interior como Gusttavo Lima que, com seus dois ‘tês’ é muito querido pelos Prefeitos, Secretários, Empresários e Produtores de shows espalhados Brasil afora.

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JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

DISCURSO DE POSSE

“Academia nova é como religião sem mistérios, falta-lhe solenidade”, lembrava Joaquim Nabuco em seu Discurso de Posse nesta Academia Brasileira de Letras. E concluiu “As Academias precisam de antiguidade”. Precisam mesmo. De antiguidade, tradição e memória. “O povo há de elevar-se pelas tradições” (Alexandre Herculano, Carta a Magesai Tavares) e “sem memória não existimos” (Saramago, Cadernos de Lanzarote). Mais que esforço de uma geração, a partir de conhecimentos que, com o passar dos anos, vão se acumulando. Somos “anões nos ombros de gigantes”, como na célebre imagem de Bernard de Chartres, depois aproveitada por tantos escritores – desde Montaigne até Monteiro Lobato. O futuro nos ombros do passado. Desde o início dessa caminhada entendendo, junto com Orwell (1984), que “quem controla o futuro controla o presente e quem controla o passado controla o futuro”. Como se tudo fosse prenúncio de algo maior que já se pode pressentir e permanece, entranhado em nossas carnes. “Esse pó que fica nos livros, o pó do tempo” (Eduardo Lourenço, entrevista à Agência Lusa). Um culto que é importante, sobretudo, por ser parte de quem somos, o muito feito e o tanto ainda por fazer.

A obra do homem nasce na solidão. “Sem solidão escrever não se produz”, dizia Marguerite Duras (Escrever). Proust sentiu isso (À sombra das raparigas em flor), a “reclusão é mais forte que qualquer outro sentimento”. Só que, uma vez no mundo, essa obra deixa de pertencer ao autor. Passa a ser de todos. E é nessa aparente oposição, entre gestos solitários e ações coletivas, que as academias vão sendo construídas. Por não se fazer com pessoas isoladas, ainda que preparadas e especiais. Fernando Pessoa definiu, com precisão, “Um barco parece ser um objeto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto” (Bernardo Soares, Livro do desassossego). E lembro dessa metáfora dos navegadores antigos ao refletir sobre nossa Academia. Que seu fim, em palavras de Merval Pereira quando assumiu a presidência da Casa este ano, sobretudo seria “distribuir conhecimento”. É nosso melhor Destino. E se faz em comunhão. Todos juntos. A própria razão de haver determinado, o art. 22 do Regimento Interno, que, nos discursos de posse, o novo Acadêmico “apreciará a personalidade e a obra dos patronos e dos antecessores”. Não pretendo me afastar dessa liturgia. Aqui estão, pois, alguns companheiros de ontem.

P.S. Início do Discurso de Posse na Cadeira 39 da Academia Brasileira de Letras – que li no último dia 10, sexta-feira, às 21:00 hs. Nas colunas seguintes, seguem umas poucas lembranças sobre anteriores ocupantes da Cadeira 39.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Prudente de Moraes

Prudente José de Moraes Barros nasceu em 4/10/1841, em Mairinque, SP. Advogado, político e primeiro presidente civil do Brasil (1894-1898), numa eleição direta. Com ele dá-se a ascensão da oligarquia cafeicultora de São Paulo no poder político nacional e a consolidação da Repúlica, que manteve-se em constante disputa após sua proclamação em 1889.

Filho de Catarina Maria de Moraes e José Marcelino de Barros, foi descendente dos primeiros colonizadores de São Paulo. Ficou órfão do pai aos 5 anos; graduou-se advogado em 1863 e passou a exercer a profissão em Piracicaba por 2 anos. Ingressou na politica e elegeu-se vereador em 1865. Na condição de mais votado, assumiu a presidência da Câmara Municipal. Em 1866 casou-se com Adelaide Benvinda Gordo e tiveram 9 filhos. A casa onde viveram, atualmente sedia o Museu Histórico e Pedagógico Prudente de Moraes. Como vereador conseguiu mudar o nome da cidade de Vila Nova da Constituição para Piracicaba, um nome indígena que significa “lugar onde moram os peixes”.

Na eleição seguinte foi deputado provincial (1868-1869) pelo Partido Liberal. Abraçou a causa republicana em 1876 e a causa abolicionista em 1886. Com a proclamação da República, em 1889, passou a integrar a junta do Governo de São Paulo e logo governador do Estado até 1890 No ano seguinte foi eleito senador, exercendo a presidência da Assembleia Nacional Constituinte e a vice-presidència do Senado (1891). Neste ano disputou a presidência com Deodoro da Fonseca, numa eleição indireta, e perdeu. Porém, assumiu a presidência do Senado até 1894, quando foi eleito presidente da República numa eleição direta. Governou o País até 1898 e passou chefiar o Partido Republicano Dissidente.

Em plena crise econômica, em decorrência da política do “encilhamento”, enfrentou intensa oposição política, liderada por militares florianistas; pelo Partido Monarquista que buscava se reorganizar; e por parcelas dos setores médios da população, além da Revolta Federalista no Rio Grande do Sul em 1893-95. Em 1896 licenciou-se do cargo por motivo de saúde, agravando a crise política, que passou a ser enfrentada pelo vice Manuel Vitorino, aliado de Floriano. A crise agiganta-se com a eclosão da Guerra de Canudos, no sertão da Bahia, liderada por Antonio Conselheiro, e vista como uma reação da Monarquia. Na verdade, era apenas um movimento messiânico pregando uma vida ascética, que atraiu uns 30 mil sertanejos.

Os revoltosos venceram as tropas da Bahia e mobilizou o Exército a enviar tropas federais, sendo vencidas em duas batalhas. A batalha final deu-se em agosto de 1897 com a devastação do arraial de Canudos por uma expedição do Exército de 8 mil homens, equipada com canhões. A batalha resultou numa carnificina denunciada por Euclides da Cunha em seu livro Os Sertões. Pouco depois o presidente reassume o governo na nova sede do governo, o Palácio do Catete. Em 5/11/1897, na recepção dos batalhões que retornavam de Canudos, sofreu um atentado cometido por um soldado, que resultou na morte do ministro da Guerra Marechal Bittencourt. Foi decretado o “estado de sítio” no Distrito Federal, livrando-se dos oposicionistas mais radicais.

Não obstante o período conturbado de seu governo, conseguiu êxitos em questões fundamentais para o País: restabeleceu as relações diplomáticas com Portugal, rompidas por Floriano durante a Revolta da Armada; assinou o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação com o Japão, com o objetivo de fomentar a vinda de imigrantes japoneses; enfrentou a questão diplomática com os ingleses, que tomaram posse da Ilha da Trindade e com a França, que invadiu o Amapá. Nestas questões, valeu-se sempre do arbitramento internacional, contando com os governos de Portugal e Suiça, e foram resolvidas favoravelmente ao Brasil. Obteve sucesso, também, na questão dos limites com a Argentina, arbitrada pelo presidente dos EUA e comandada pelo Barão do Rio Branco.

Não menos fáceis foram as questões econômico-financeiras, herdadas da crise do encilhamento, acentuadas em sua administração, devido aos gastos militares, aumentando as dívidas com os credores estrangeiros. Assessorado por seus ministros da Fazenda, Rodrigues Alves e Bernardino de Campos, negociou com os banqueiros ingleses a consolidação da dívida externa. Ao fim de seu mandato em 15/11/1898, gozava de grande popularidade e passou o cargo ao sucessor Campos Sales. Retornou à Piracicaba e retomou a advocacia até 3/12/1902, quando veio a falecer vitimado por uma tubeculose.

Escreveu, entre outros textos, Orçamento e política geral (1888), Projeto de impostos sobre escravos (1888) e A nação brasileira (1894), além dos discursos e um belo manifesto ao assumir, como primeiro civil, a presidência da jovem República Brasileira. Foi homenageado com seu nome dado à cidades em 3 estados: Presidente Prudente (SP), Prudentópolis (PR) e Prudente de Morais (MG). Entre suas biografias, destacam-se Prudente de Moraes: uma vida marcada (1971), de Antonio Barreto do Amaral, Biografia de Prudente de Moraes (s.d.), da Academia Piracicabana de Letras e Os Presidentes: Prudente de Moraes (1983), de Hélio Silva.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

ARQUIVAR É VIVER!

“Folha da Manhã” o primeiro jornal em que publiquei reportagem

Sou um compulsivo guardador de papéis. Hábito que vem da Casa Paterna. Dizem que nas gavetas da memória a gente guarda inconscientemente tudo quanto não se pretende esquecer. Eu vou mais além. Guardo os papéis, pois são comprovantes.

Estão numerados, datados e acondicionados em caixas de poliestireno.

Quando preciso vou lá, desarrumo-as e me divirto com as coisas do passado que face à documentação conseguem me manter antenado sem nada esquecer.

Tenho muito cuidado ao guardar documentos. Tiro os grampos e os clips, para evitar a ferrugem, faço uma limpeza cuidadosa e colo aqueles que forem necessários manter como irmãos siameses.

Cada abertura de caixa é um passeio maravilhoso pelas coisas boas que já vivi. Parece que aos domingos as caixas de isopor ficam me convidando à abertura e exame da papelada.

Sim, porque o melhor que vivi em minha vida tive o cuidado de documentar, juntar comprovantes, fotografias e guardar para sempre, como se eu fosse viver uma eternidade. E sempre que revejo parte daquilo revivo os anos.

O interessante desse hábito inveterado de guardar é que sempre que vou aos arquivos antigos encontro alguma coisa que possa ser encaminhada a um amigo e faço uma cartinha encaminhando o assunto.

Quando os tempos já passaram aqueles papeis se tornam peças históricas. A utilização dessas “gavetas físicas da memória” é como se fossem a abertura de cofres, dotados de segredo, onde guardei tudo quanto não desejava que ficasse esquecido.

Na vida, em termos de arquivamentos, a sorte me ajudou. Aos 16 anos eu estava trabalhando nos arquivos do City Bank, depois, ao ingressar no Banco do Brasil, sabendo-se que eu tinha certa prática da função, fui para um departamento semelhante.

E entre as tantas emoções adormecidas eis que vou encontrar o primeiro jornal profissional em que publiquei uma reportagem há 67 anos: a “Folha da Manhã”, do Recife, que circulou em 3 de agosto de 1955; um jornal de propriedade do grande governador Agamenon Sérgio de Godoy Magalhães.

Hoje, graças aos arquivos que também guardam a pré-história de minha vida – porque lá estão as minhas ascendências colaterais, posso recordar tudo isto que me traz uma felicidade que nem posso traduzir.

E revivendo tais preciosidades fui encontrar a peça de teatro – “Amor que salva” – toda escrita à mão, por meu avô paterno, que era Juiz, jornalista e escritor, João Pacífico Ferreira dos Santos, levada à cena em 1904, em Palmares, PE.

Peça de Pacífico dos Santos, levada à cena em 1904, em Palmares

E, por isso, direi até filosofando: Arquivar é viver!

PENINHA - DICA MUSICAL