Aderaldo Ferreira de Araújo, o “Cego Aderaldo”, Crato-CE (1878-1967)
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A prisão deve ter sido Invenção de Lúcifer Eu só aceito a prisão Nos braços duma mulher Aguentando o que ela faz E fazendo o que ela quer.
Jesus a mim quis fazê Neste caso que se deu: Eu perdê a minha vista Meus olhos escureceu Mas estou cantando as virtudes Que a natureza me deu
Deus a mim deu a bola Para levar a cantoria Tirou a luz dos meus olhos Eu não vejo a luz do dia Porém eu levo a palavra Transcrita em poesia
Oh! Santo de Canindé! Que Deus te deu cinco chagas, Fazei com que este povo Para mim faça as pagas; Uma sucedendo as outras Como o mar soltando vagas!
Só nos falta ver agora Dar carrapato em farinha, Cobra com bicho-de-pé, Foice metida em bainha, Caçote criar bigode, Tarrafa feita sem linha.
Muito breve há de se ver Pisar-se vento em pilão, Botar freio em caranguejo, Fazer de gelo carvão, Carregar água em balaio, Burro subir em balão.
Ah! Se o passado voltasse, Todo cheio de ternura. Eu ainda tinha vista, Saía da vida escura… Como o passado não volta Aumenta minha tristeza: Só conheço o abandono Necessidade e pobreza.
A lagarta tem forma de serpente Quando vai viajando numa estrada, Mas, depois de metamorfoseada, Ela toma uma vida diferente: Cria asas de cor bem transparente, Verdadeiro vislumbre de beleza. Nem ciência, nem arte, nem riqueza Poderia pintar beleza igual. Isto é lei do Juiz Universal E é impulso da mão da natureza.
Quis casar-me, que loucura ! Quando pensei em casar, Deixei e fui meditar, Fui pensar na vida escura, Nesse cálice de amargura, Que recordo dia a dia, Mas ouvindo a melodia Fui sentindo a flor do goivo, De repente fiquei noivo Me casei com a poesia.
Vésperas de eleição, no próximo outubro, e era mesmo de esperar. Requente de bolo, em um confronto desnecessário. Ano passado, todos os grandes jornais do país já diziam “O governo Lula decidiu reabrir o caso” (Globo e, em manchetes quase iguais, todos os outros, inclusive o JC).
Nessas matérias se via que a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos (do Ministério dos Direitos Humanos), com militantes do PT nomeados pelo governo em Brasília, estava correndo o país a fazer audiências públicas e tentar reabrir o caso, indicando a possibilidade de “sabotagem mecânica, tiro ou envenenamento do motorista”.
Para lembrar em 22/4/2014 apresentamos, Pedro Dallari e eu, no CCBB (Brasília), laudo da perícia que fizemos na Comissão Nacional da Verdade. Com 139 páginas. Firmado por 5 renomados peritos (os melhores, segundo a PF), que trabalharam nele desde 2012. Examinando 23 outras perícias e afins, já antes realizadas. Mais 298 negativos de fotos referentes a imagens do caso. E realizando novos exames.
Acompanhei pessoalmente os trabalhos, no caso, por uma razão de foro íntimo. A de ser padrinho em nosso casamento. E por muito gostar dele. Tanto que sempre nos encontrávamos, quando íamos ao Rio.
Fato curioso é que, quando estávamos nos preparando para essa apresentação ao público, alguns jornalistas da FolhaSP informaram que a Comissão da Verdade de São Paulo acabava de apresentar laudo próprio, indicando que JK teria sido assassinado. As mesmas pessoas de agora. E os mesmos argumentos. Considerando que estávamos divulgando nosso laudo naquele momento, e se quisessem mesmo apurar a verdade, o mínimo que se deveria esperar é que PRIMEIRO estudassem nosso laudo; para DEPOIS, e já considerando tudo que dissemos, apresentar o deles. Aceitando ou rejeitando aquele nosso. Mas preferiram divulgar alguns minutos antes…
Agora vem a notícia, em toda Grande Mídia, de um “parecer” da historiadora Maria Cecília Adão, relatora, daquela mesma comissão. Para esta senhora, teria sido um atentado político: “o veículo perdeu o controle em razão de uma ação externa, como sabotagem mecânica, disparo de arma de fogo ou até envenenamento do motorista”. A mesma tese de antes. Requentada.
Suspeitas são até naturais, no imaginário coletivo. Posto que morreram em pouco espaço de tempo, menos de um ano, as três maiores lideranças civis da oposição à ditadura, no Brasil: JK, 22/08/1976, no Rio; João Goulart, 06/09/1976, em Mercedes (Argentina); e pouco depois Carlos Lacerda, 21/05/1977, no Rio.
Com relação a Lacerda, sua família sempre acreditou que a morte se deu por conta de um câncer que o roeu, sem piedade, por quase três anos. Numa cama de hospital. Tanto que nem autorizou qualquer investigação. Para esses familiares, ninguém perderia tempo na eliminação de um já quase cadáver.
Jango morreu com enfarte, algo até esperado em obeso com largo histórico de problemas cardíacos. E nenhum depoimento que coletamos, na Comissão Nacional da Verdade, teve mínimos de seriedade capazes de nos levar a considerar respeitável essa hipótese. Falta ver o caso JK (o que faremos na próxima coluna).
Nos anos 50/60, Maceió vivia uma época áurea de tranquilidade, excelente qualidade de vida, parecia uma enorme família. Nós adolescentes formávamos turmas de bairros, inventávamos brincadeiras, jogos, festas de rua onde a moçada torcia no pastoril pelo azul ou encarnado, ou nos campos de futebol pelo CRB ou CSA. Havia a turma da Praia da Avenida, da Praça Deodoro, da Praça Sinimbu, do Gramado da Pajuçara, da Praça Rayol, do Farol, entre outras. Todas tinham um time. Era grande a rivalidade entre os jovens no futebol na areia da praia, nas festas, nos clubes e nas namoradas. Contudo, todas as turmas convergiam para as mesmas praias: Avenida ou Pajuçara; mesmos clubes: Fênix, Iate, Portuguesa ou CRB; mesmos colégios: Diocesano, Liceu, Guido ou Batista. Resultava numa integração de amizade. Todos se conheciam na província de Maceió.
Apesar de morador na praia da Avenida da Paz, eu circulava por toda cidade com minha bicicleta. Certa vez eu namorava uma bela morena na Praça Centenário. Depois do jantar subia de bicicleta pela Ladeira da Catedral pedalando, na ânsia de abraçar a morena.
Minha namorada era gêmea. Um dia a irmã veio me avisar que ela estava doente, de repente resolveu tomar seu lugar, calada, segurou minha mão. Não percebi, abracei e beijei a cunhada. Caminhamos pelas ruas escuras do Farol, vez em quando parando, xumbregando, sem saber que beijava a irmã gêmea da namorada. Quando foi para casa, sorrindo me contou o engano proposital,
Tornou-se um segredo.
Certa noite, no Parque Gonçalves Ledo, encontrei um amigo. Depois de um papo informal, convidou-me para reunião de uma associação que a turma do Farol tinha criado com muita imaginação e bom humor. Assisti a reunião, gostei, fui aprovado e tornei-me sócio da UCPM – União dos Conquistadores de Peniqueira de Maceió, (naquela época nós adolescente chamávamos de Peniqueira, sem menosprezar, a empregada doméstica).
Tinha regulamentação. Havia uma escala hierárquica. Os sócios para ganharem pontos e serem promovidos, relatavam as aventuras, as conquistas com as empregadas domésticas. Conforme o tipo da aventura e o número de conquistas, ganhava-se pontos e promoção aos postos dentro da hierarquia, como se fosse militar. Cheguei a Capitão no Exército, mas não consegui ser Tenente na UCPM. Havia alguns amigos dedicados. José foi galgado ao posto de Marechal por merecimento. Este posto tornou-se cargo privativo; era o comandante, chefe geral. Apenas dois associados conseguiram promoção a general. Por coincidência, esses dois generais da UCPM, moram hoje no mesmo edifício na praia de Ponta Verde.
Naquela época namorada era só beijinhos, abraços, no máximo. Quando dava 10 da noite a namorada entrava em casa. Nós pobres mortais jovens, saíamos excitadíssimos do xumbrego. A solução era descarregar nas profissionais dos casarões de Jaraguá, ou ir à cata das gentis empregadas, generosas, amadas, inigualáveis. Geralmente morenas do interior, do sertão, aonde a seca matava. As moças vinham para a cidade por uma vida melhor. Na capital tinha pouco emprego, para sobreviver elas tinham dois caminhos: a prostituição ou ser empregada doméstica. Sempre cheirosinhas, saíam de casa perfumadas em busca de amor e carinho.
A mais famosa e bonita era a Nega Odete, parecia uma rainha africana, a rainha de Sabá, lábios carnudos, bunda rebitada e riso debochado. Trabalhava numa casa na Praça Sinimbu. À noite dedicava-se de corpo e alma, literalmente, ao que mais gostava, ao que mais sabia fazer, o amor. Era a Vênus Calipígia de ébano dos sonhos da juventude da Praia da Avenida, uma rainha. Não queria compromisso, nem cobrava, ela escolhia seu parceiro. Toda a noite arranjava um namorado. Sua cama de amor eram as plantas ralas da praia, olhando o céu com um milhão de estrelas. A maioria da juventude da Avenida da Paz perdeu a virgindade nas areias mornas da praia, nos braços e sabedoria da Nega Odete.
É necessário uma homenagem, um reconhecimento aos serviços prestados pela divina criatura, que merecia uma estátua na Praça Sinimbu, junto ao Joãozinho Mijão. É merecedora da gratidão de várias gerações.