PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETO DO AMOR TOTAL – Vinícius de Moraes

Amo-te tanto, meu amor… não cante
O humano coração com mais verdade…
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes, Rio de Janeiro-RJ (1913-1980)

DEU NO JORNAL

ALEXANDRE GARCIA

QUAL SERÁ O FUTURO POLÍTICO DE RODRIGO PACHECO?

rodrigo pacheco codigo civil

O ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco

Grande especulação em Brasília. Ninguém viu, nem ouviu, nem acompanhou o que eles falaram, mas Rodrigo Pacheco, ex-presidente do Senado, foi conversar com Lula. Segundo um boato, ele foi dizer que não tem interesse em ser ministro do Supremo, que prefere ser candidato em Minas Gerais. Que decisão ruim! Ele sabe muito bem que não se elege mais para nada lá; talvez para síndico no prédio onde ele mora. Será que se candidatará a deputado? Senador, de novo? Governador? Ou não vai querer nada, vai ficar na dele? Tem alguma vantagem para isso? Porque Pacheco é o candidato de Davi Alcolumbre, que agora diz que Jorge Messias, o candidato de Lula ao STF, não teria nem 30 votos, não passaria no Senado.

O engraçado é que ficam discutindo votos no Senado quando a Constituição diz outra coisa. Falam até da cor da pele, do sexo da pessoa, mas nada disso está na Constituição. O que está lá é muito mais importante: exige-se, para ser ministro do Supremo, o notável saber jurídico. “Notável” não é estar acima da média, é estar acima daqueles que estão acima da média. Será que a sabatina do Senado é capaz de averiguar isso? Vejo que ficou mal para Messias o fato de só agora a Advocacia-Geral da União ter entrado na Justiça contra algo que a corregedoria da AGU já conhecia desde o ano passado: o excesso de descontos de aposentadorias dos velhinhos do INSS, para mandar dinheiro a sindicatos e associações. Isso pega mal, e não sei se na sabatina também seriam capazes de levantar isso.

* * *

Chanceler alemão não vai se desculpar; prefeito do Rio fez muito pior

Deu muito que falar essa história de o chanceler da Alemanha contar que perguntou para os jornalistas alemães quem queria ficar em Belém, e eles teriam dito que não, que todos queriam voltar, ainda mais de um lugar como aquele. Os brasileiros consideraram uma ofensa. Agora, o porta-voz do governo alemão disse que ninguém vai se desculpar, que não há razão para isso, que não foi feita nenhuma ofensa a ninguém. Se querem pedido de desculpas por causa disso, muito pior foi o prefeito do Rio de Janeiro, que chamou Friedrich Merz – depois apagou, mas o print ficou – de “filhote de Hitler” e “nazista”. Isso está além do insulto, acho que é calúnia, mas teriam que provar. Lula ironizou, disse que Merz devia entrar em um boteco em Belém, e aí ele iria gostar. Lula pensa que todos são como ele. Bolsonaro também entrava em boteco, mas tomava caldo de cana.

Esse vexame confirma que não conseguimos, ainda, absorver civilidade e urbanidade. Somos meio sem modos. Estava vendo declarações de paulistas horrorizados com a sujeira no chão, a barulheira, a bagunça, as coisas que não funcionam. Quem está acostumado com isso e acha bom, ótimo: é infeliz e não sabe que poderia ser muito feliz se vivesse em algo organizado, limpinho, que funcione. Como é a Alemanha – isso se os que estão indo para lá não acabarem com o país; já contei aqui que as coisas já estão diferentes em Munique, e parece que estão assim em Berlim também. Por isso é bom que nós nos preservemos. Em Portugal há reações às vezes, mas não é como dizem; o problema é que há brasileiros que chegam lá e não conseguem se comportar como um povo civilizado.

* * *

O “exemplo de saúde” dos esquerdistas está dominado pela dengue e pelo chikungunya

A propaganda esquerdista no Brasil fala muito de Cuba, da medicina de Cuba, da saúde em Cuba, das condições sanitárias em Cuba. Agora até o governo cubano admitiu que um terço do país está infectado por chikungunya, dengue e outras doenças. O país tem 10 milhões de cubanos, 50 mil estão hospitalizados, mas estimam o número de infectados em 3,6 milhões. É aquele país que exportava médicos para ganhar dinheiro dos brasileiros – só que os médicos que nós pagávamos, coitados, recebiam só um pedacinho, assim como mostrava a personagem do Chico Anysio, e o resto ia para a ditadura cubana.

DEU NO X

JESUS DE RITINHA DE MIÚDO

POMPEIA

“A mulher de César não basta ser honesta, ela tem que parecer honesta.”

A expressão acima, entre aspas, surgiu após Júlio César se divorciar de Pompeia, sua segunda esposa.

O motivo do divórcio, que ocorreu em 62 a.C., foi o seguinte: o político Públio Clódio Pulcro se infiltrou disfarçado de mulher na festa de Bona Dea (Boa Deusa), realizada na casa de César.

Pompeia e sua mãe Aurélia eram as anfitriãs. Nessa festa os homens não podiam entrar.

Há uma versão que defende a atitude de Clódio como uma tentativa de conquistar a mulher de César, e mesmo que nada tenha acontecido entre ele e Pompeia, ainda assim o divórcio foi motivado pelo escândalo que se seguiu à descoberta.

A imagem acima foi copiada da Internet, e segundo o que lá estava escrito, é um fragmento do filme de 1953, “Julius Caesar” (Júlio César).

Já o filme é uma adaptação da peça de William Shakespeare.

Os atores em primeiro plano são George Coulouris como Marcus Brutus (esquerda), Marlon Brando como Marco Antonio (centro) e Deborah Kerr como Pompeia (direita).

Bom. Eu vou repetir aqui a frase. Pensemos nela como algo dos dias atuais.

“A mulher de César não basta ser honesta, ela tem que parecer honesta.”

Entendedores entenderão.

DEU NO JORNAL

MEMÓRIA SELETIVA

Os ativistas de redação destacaram que o príncipe saudita recebido por Donald Trump, acompanhado do craque Cristiano Ronaldo, foi acusado da morte de jornalista.

Detalhe que esqueceram ao noticiarem o convite de Lula (PT) ao mesmo Mohammed bin Salman para visitar o Brasil.

* * *

Tem alguém surpreso ou espantado?

Normal, normal.

Tudo dentro dos conformes do jornalisteirismo banânico.

JESSIER QUIRINO - DE CUMPADE PRA CUMPADE

COMENTÁRIO DO LEITOR

DOENÇA DA ALMA

Comentário sobre a postagem EU – Florbela Espanca

João Francisco:

Este soneto retrata a depressão profunda da poetisa, a doença da alma; talvez a pior de todas.

Ainda assim, Florbela, Florbela pinta seu estado interno de forma poética, linda, que faz a gente pensar na vida.

Poema super atual.

* * *

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

DEU NO JORNAL

MAURINO JÚNIOR - SEM CRÔNICAS

O HOMEM E O ESPELHO DO ABISMO

Há no homem uma centelha divina e uma sombra abissal. Desde que se ergueu sobre duas pernas e contemplou o firmamento, ele passou a travar uma guerra íntima entre o impulso de criar e o impulso de aniquilar. É o único ser que contempla as estrelas e, ao mesmo tempo, fabrica as armas capazes de apagá-las da memória dos olhos.

Nenhum outro animal concebe a própria destruição com método e cálculo. O tigre mata por instinto; o homem, por argumento. O escorpião fere quando ameaçado; o homem, por ideologia. O instinto natural é breve, o humano é racionalizado. Ele planeja o caos, projeta o colapso e, em nome de uma ideia, arrasta consigo gerações inteiras.

Somos a espécie que descobriu o fogo e, em seguida, construiu o inferno.

A inteligência, esse presente divino, converteu-se em faca de dois gumes. O mesmo engenho que ergueu catedrais, lançou telescópios e decifrou o DNA é aquele que desenhou Auschwitz, Hiroshima e Chernobyl. A mente humana, sedenta de transcendência, muitas vezes se perde na vertigem da onipotência. Queremos ser deuses — e, por isso mesmo, criamos o demônio à nossa imagem.

O abismo não está fora; habita-nos. A cada avanço tecnológico, cresce a sombra do uso que dele faremos. Não há neutralidade nas mãos que tocam o poder. Toda invenção humana é, em si, um espelho: reflete tanto a luz do engenho quanto a escuridão da intenção. A bomba atômica é, talvez, o símbolo supremo dessa dualidade — fruto da mais alta matemática e da mais baixa moralidade.

Somos capazes de criar mundos inteiros dentro de uma tela, mas incapazes de sustentar um olhar compassivo diante da miséria. Criamos redes que unem continentes, mas isolam consciências. A ciência progride em saltos quânticos, e a alma retrocede em abismos morais.

O Homo sapiens tornou-se o Homo contradictorius — sábio e estúpido, criador e verdugo, artista e algoz.

E, no entanto, há algo de sublime nesse conflito.

Porque é justamente nele que reside a possibilidade da redenção.

O horror só é possível porque ainda resta no homem a noção de que há limites — o “embrulho no estômago”, a náusea diante do abismo. Essa reação visceral é o último vestígio de humanidade pura, o sinal de que a consciência não morreu.

Nietzsche alertou: “Quando olhas longamente para o abismo, o abismo olha de volta.” E o homem, fascinado, fixou o olhar. Há séculos fitamos essa escuridão e começamos a reconhecermo-nos nela. Talvez o segredo não seja fugir, mas encará-la com lucidez, reconhecendo o monstro para que ele não nos possua.

A monstruosidade cresce no silêncio da negação; diminui na luz do reconhecimento.

Em cada criação humana pulsa um dilema: servir à vida ou à morte.

A arte é a resposta mais alta à tentação do niilismo. Cada sinfonia é um grito contra o caos; cada poema, uma barricada contra o vazio. A verdadeira ciência é irmã da humildade — quando busca compreender o cosmos, e não dominá-lo. Mas quando o saber se converte em arrogância, o homem deixa de ser criador e passa a ser carcereiro do próprio destino.

Há uma ironia trágica em nossa condição: construímos templos para os deuses e, no mesmo gesto, projetamos a ruína deles. Queremos a eternidade, mas agimos como se o amanhã fosse descartável.

Somos a espécie que inventou o conceito de “futuro” e, paradoxalmente, trabalha para destruí-lo.

E, ainda assim, contra toda evidência, persiste a chama.

Porque, em meio às ruínas, o homem continua criando — e talvez aí resida sua salvação. Criar é negar o nada. É resistir. É afirmar, diante da morte, que ainda há sentido.

Enquanto houver quem compõe uma música, escreve um verso, observa uma estrela, ou acolhe um cão sem dono, o mundo ainda não está perdido.

A destruição é obra de muitos; a criação, de poucos.

Mas é desses poucos que a história se reergue. São eles — os poetas, os sábios, os compassivos — que sustentam o delicado equilíbrio entre o apocalipse e o amanhecer.

O homem é o único animal que chora diante da beleza e, no entanto, empunha a foice contra ela. Mas é também o único que, ao fitar a própria ruína, pode dizer: “basta”. Enquanto houver esse poder — o de interromper o gesto destrutivo e escolher o gesto criador —, há esperança.

A humanidade caminha à beira do abismo.

Mas enquanto houver um olhar capaz de se comover, ainda haverá caminho.

E talvez seja exatamente esse limite — essa náusea ética, esse horror diante do horror — que nos separa do colapso.

A espécie que pode destruir-se por completo é também a única que pode, por decisão moral e consciência, escolher não fazê-lo.

E nisso, paradoxalmente, reside a nossa grandeza.