Há no homem uma centelha divina e uma sombra abissal. Desde que se ergueu sobre duas pernas e contemplou o firmamento, ele passou a travar uma guerra íntima entre o impulso de criar e o impulso de aniquilar. É o único ser que contempla as estrelas e, ao mesmo tempo, fabrica as armas capazes de apagá-las da memória dos olhos.
Nenhum outro animal concebe a própria destruição com método e cálculo. O tigre mata por instinto; o homem, por argumento. O escorpião fere quando ameaçado; o homem, por ideologia. O instinto natural é breve, o humano é racionalizado. Ele planeja o caos, projeta o colapso e, em nome de uma ideia, arrasta consigo gerações inteiras.
Somos a espécie que descobriu o fogo e, em seguida, construiu o inferno.
A inteligência, esse presente divino, converteu-se em faca de dois gumes. O mesmo engenho que ergueu catedrais, lançou telescópios e decifrou o DNA é aquele que desenhou Auschwitz, Hiroshima e Chernobyl. A mente humana, sedenta de transcendência, muitas vezes se perde na vertigem da onipotência. Queremos ser deuses — e, por isso mesmo, criamos o demônio à nossa imagem.
O abismo não está fora; habita-nos. A cada avanço tecnológico, cresce a sombra do uso que dele faremos. Não há neutralidade nas mãos que tocam o poder. Toda invenção humana é, em si, um espelho: reflete tanto a luz do engenho quanto a escuridão da intenção. A bomba atômica é, talvez, o símbolo supremo dessa dualidade — fruto da mais alta matemática e da mais baixa moralidade.
Somos capazes de criar mundos inteiros dentro de uma tela, mas incapazes de sustentar um olhar compassivo diante da miséria. Criamos redes que unem continentes, mas isolam consciências. A ciência progride em saltos quânticos, e a alma retrocede em abismos morais.
O Homo sapiens tornou-se o Homo contradictorius — sábio e estúpido, criador e verdugo, artista e algoz.
E, no entanto, há algo de sublime nesse conflito.
Porque é justamente nele que reside a possibilidade da redenção.
O horror só é possível porque ainda resta no homem a noção de que há limites — o “embrulho no estômago”, a náusea diante do abismo. Essa reação visceral é o último vestígio de humanidade pura, o sinal de que a consciência não morreu.
Nietzsche alertou: “Quando olhas longamente para o abismo, o abismo olha de volta.” E o homem, fascinado, fixou o olhar. Há séculos fitamos essa escuridão e começamos a reconhecermo-nos nela. Talvez o segredo não seja fugir, mas encará-la com lucidez, reconhecendo o monstro para que ele não nos possua.
A monstruosidade cresce no silêncio da negação; diminui na luz do reconhecimento.
Em cada criação humana pulsa um dilema: servir à vida ou à morte.
A arte é a resposta mais alta à tentação do niilismo. Cada sinfonia é um grito contra o caos; cada poema, uma barricada contra o vazio. A verdadeira ciência é irmã da humildade — quando busca compreender o cosmos, e não dominá-lo. Mas quando o saber se converte em arrogância, o homem deixa de ser criador e passa a ser carcereiro do próprio destino.
Há uma ironia trágica em nossa condição: construímos templos para os deuses e, no mesmo gesto, projetamos a ruína deles. Queremos a eternidade, mas agimos como se o amanhã fosse descartável.
Somos a espécie que inventou o conceito de “futuro” e, paradoxalmente, trabalha para destruí-lo.
E, ainda assim, contra toda evidência, persiste a chama.
Porque, em meio às ruínas, o homem continua criando — e talvez aí resida sua salvação. Criar é negar o nada. É resistir. É afirmar, diante da morte, que ainda há sentido.
Enquanto houver quem compõe uma música, escreve um verso, observa uma estrela, ou acolhe um cão sem dono, o mundo ainda não está perdido.
A destruição é obra de muitos; a criação, de poucos.
Mas é desses poucos que a história se reergue. São eles — os poetas, os sábios, os compassivos — que sustentam o delicado equilíbrio entre o apocalipse e o amanhecer.
O homem é o único animal que chora diante da beleza e, no entanto, empunha a foice contra ela. Mas é também o único que, ao fitar a própria ruína, pode dizer: “basta”. Enquanto houver esse poder — o de interromper o gesto destrutivo e escolher o gesto criador —, há esperança.
A humanidade caminha à beira do abismo.
Mas enquanto houver um olhar capaz de se comover, ainda haverá caminho.
E talvez seja exatamente esse limite — essa náusea ética, esse horror diante do horror — que nos separa do colapso.
A espécie que pode destruir-se por completo é também a única que pode, por decisão moral e consciência, escolher não fazê-lo.
O chanceler alemão, Friedrich Merz, discursa no encontro de líderes da COP 30, em Belém
Eu tenho amigos alemães. Eles falam como pensam e pensam como vivem. Sem floreio, sem rodeio, sem medo de parecer rudes. Friedrich Merz não seria diferente. Não que eu o considere especialmente talentoso no trato diplomático; ele não é. Mas quem conhece minimamente a cultura alemã entende que a frase sobre a COP 30, em Belém, não é o escândalo moral em que a imprensa progressista brasileira o transformou. É o tipo de sinceridade incômoda que um alemão expressa quando acredita estar dizendo uma banalidade.
Sejamos honestos: quem se sentiu incomodado com a fala de Merz tem problemas sérios de autoestima; quem o chamou de nazista tem problemas sérios de caráter.
O discurso de Merz não tem o Brasil como alvo. Ele tem a Alemanha como preocupação. Merz não falou em comício partidário nem num improviso irritado. Ele estava em Berlim, diante de empresários, políticos e líderes do setor produtivo, abrindo um evento marcado pela estagnação econômica, crise energética, avanço da AfD e fadiga institucional. Não era um discurso sobre política externa. Era um discurso sobre sobrevivência interna.
Belém entra ali como nota lateral no calor de um argumento maior. O foco de Merz é a Alemanha. E seu eixo é a palavra que sustenta a autocompreensão política alemã desde 1945: Ordnung. Os alemães levam a sério seus conceitos. No centro da fala, ele articula: “unsere Demokratie zu verteidigen… und auch unsere marktwirtschaftliche Ordnung zu verteidigen“. A tese é simples: uma sociedade aberta só permanece aberta quando defende sem hesitação seu arcabouço institucional, isto é, “defender a nossa democracia e defender a nossa ordem econômica”. A Alemanha é estável e livre porque leva a sério sua ordem institucional (ordnungspolitische Stabilität), tratada não como detalhe retórico, mas como fundamento moral da vida pública.
E é preciso lembrar um ponto básico: Merz não cita Belém em nenhum momento. Menciona apenas Brasilien como referência de viagem e se refere ao destino como “diesem Ort, wo wir da waren“ – “aquele lugar onde estávamos”. O Brasil não aparece como alvo do discurso. Surge como circunstância vivida, usada de passagem para reforçar a defesa da ordem das instuições alemãs. Isso não é abstrato. É o cimento da reunificação, da prosperidade e da paz duradoura. Merz está preocupado com populismos, extremismos e declínio econômico. A anedota sobre Belém é apenas contraste ilustrativo: ordem se constrói; desordem se vê.
Entendido isso, o choque brasileiro parece ainda mais artificial. Não houve xenofobia; houve comparação. Não houve desprezo moral; houve franqueza funcional. O problema é que o Brasil parece sempre operar numa cultura de alto contexto, na qual cada frase precisa de acolchoamento simbólico e gestos suaves para não ofender ninguém. A forma importa mais que o conteúdo. Já o alemão vive no regime oposto: cultura de baixo contexto, direta e explícita. Ele não constrói clima, não adocica, não envolve de metáforas. A frase é a frase. Quem conhece alemão sabe que não há subtexto escondido.
Foi justamente por desconhecer essa diferença de ethos que parte da imprensa brasileira reagiu com ressentimento. A elite progressista que cobre COPs e vive em simbiose com o moralismo internacional viu ali uma chance de reafirmar sua identidade: acusar a Alemanha de arrogância e flertar com o fantasma do nazismo. O discurso de Merz foi analisado menos pelo que disse e mais pelo país de onde veio. Alemão colonizador. É o preconceito elegante da nossa esquerda cosmopolita, sempre pronta a enxergar opressões imaginárias enquanto ignora a realidade concreta.
O presidente Lula reforçou o teatrinho. Sua resposta – “ele deveria ter ido ao boteco, dançado, comido bem” – revela mais sobre o Brasil que sobre Merz. A ideia de que um estrangeiro só entende nosso país depois de visitar um bar é a síntese do nosso patrimonialismo cordial. A política brasileira opera assim: afeto no lugar de Estado, simpatia no lugar de estrutura. O chanceler fala de democracia e instituições; o presidente responde com gastronomia. O contraste é quase pedagógico.
E o fato simples permanece: Belém tem problemas sérios. Violência, abandono urbano, saneamento básico insuficiente. Qualquer jornalista europeu que passasse uma semana na cidade teria a mesma impressão dos jornalistas citados por Merz. A elite que gourmetiza favela ofende-se com a frase, mas não com a realidade social do país.
Entre a Ordnungspolitische Stabilität alemã e a sensibilidade gentil brasileira, escolhemos sempre o caminho mais fácil: indignar-nos com palavras, não com fatos. O episódio diz menos sobre o chanceler alemão e mais sobre o nosso país. Merz falou demais; nós ouvimos de menos. E, entre a ordem deles e a nossa vaidade tropical, a diferença é simples: eles defendem o que construíram. Nós defendemos a imagem do que gostaríamos de ser.
Derrite afirmou o texto original do governo Lula para o PL antifacção era “fraco” e “benevolente com o crime organizado”
Meu critério nunca falha: se o PT não gosta de algo, então é coisa boa. O PL antifacção foi desidratado, o relator Guilherme Derrite teve de fazer algumas concessões, mas o que foi aprovado na Câmara vai na direção certa. E a maior prova disso é a reação petista.
A proposta endurece as penas para organizações criminosas, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Os parlamentares aprovaram o destaque do Partido Novo que extingue a possibilidade de presos votarem nas eleições. Menos eleitores para o Lula! Foram 370 votos favoráveis, 110 contrários e 3 abstenções.
O relator endureceu bastante as punições aos crimes dos faccionados:
– homicídio doloso: de 6 a 20 anos para 20 a 40 anos;
– lesão corporal seguida de morte: de 4 a 12 anos para 20 a 40 anos;
– lesão corporal, demais casos: aumento de 2/3 da pena respectiva;
– sequestro ou cárcere privado: de 1 a 3 anos para 12 a 20 anos;
– furto: de 1 a 4 anos para 4 a 10 anos;
– roubo: de 4 a 10 anos para 12 a 30 anos;
A ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, classificou as diversas versões do parecer de Derrite sobre o PL antifacção como uma “lambança legislativa” que beneficiará facções. “Achamos realmente que foi muito ruim apresentar seis relatórios de forma atabalhoada e não se reunir com ninguém”, disse Gleisi a jornalistas. Ela destacou que o substitutivo aprovado “está cheio de inconstitucionalidades”. Se a petista está insatisfeita, então o projeto é bom!
Outra alteração no PL antifacção diz respeito à destinação dos recursos financeiros e bens apreendidos. Na versão anterior, os ativos apreendidos em investigações da Polícia Federal (PF) seriam destinados ao Fundo para Aparelhamento e Operacionalização das Atividades-Fim da Polícia Federal (Funapol).
No parecer mais recente do PL antifacção essa destinação foi modificada: os bens e valores provenientes de investigações da Polícia Federal serão encaminhados ao Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP). Em casos de atuação conjunta entre a PF e forças de segurança estaduais ou distritais, os valores recuperados serão rateados em partes iguais entre o FNSP e os Fundos de Segurança Pública dos respectivos estados ou Distrito Federal. Mais autonomia para os estados, o que é boa notícia.
A nova versão do PL antifacção estabelece que a audiência de custódia será realizada, em regra, por videoconferência. A modalidade presencial será apenas em situações excepcionais decorrentes de força maior e mediante decisão judicial justificada. Essa medida visa reduzir os custos de escolta, que em 2018 somaram R$ 250 milhões aos estados, excluindo salários de agentes penitenciários, e evitar riscos à segurança, aproveitando os atuais meios tecnológicos de comunicação. Outra ótima notícia!
Agora é aguardar o que poderá ser modificado pelo Senado, sob a relatoria de Alessandro Vieira. O texto aprovado pela Câmara não é perfeito, mas aponta na direção certa, endurecendo as penas aos criminosos e cortando algumas regalias. Claro que o PT não ficaria contente: sua simpatia pelos bandidos é evidente. Lula considera que traficantes são vítimas dos usuários, não podemos esquecer.
Trump disse que processará a BBC “em algo entre US$ 1 bilhão e US$ 5 bilhões”: “Mudaram as palavras que saíram da minha boca”
O escândalo da BBC não escandalizou a opinião pública. Nos dias de hoje, escândalos não necessariamente escandalizam mais — se é que ainda existe opinião pública. Talvez estejamos mais para uma confederação de nichos, ou uma constelação de bolhas, ou como se queira chamar essa fragmentação do que um dia já se chamou de senso comum.
Um ex-conselheiro da emissora inglesa admitiu a fraude cometida contra Donald Trump. Seu depoimento foi publicado pelo jornal The Telegraph e a BBC não desmentiu — até porque a manipulação do discurso do então candidato à Casa Branca é facilmente constatável. Em documentário veiculado às vésperas da eleição americana do ano passado, a tradicional TV britânica mistura falas isoladas de Trump para forjar outro significado ao que ele disse.
Como diria Roger Waters (na época em que compunha contra a repressão), foi mais um tijolo na parede da farsa. A imprensa quase inteira trabalhou para disseminar a tese de que Trump comandou a invasão ao Capitólio em janeiro de 2021. Jamais surgiu prova de que isso tivesse acontecido, mas quem precisa de provas nos dias de hoje? Basta a versão. A BBC só tentou solidificar um pouco essa versão — com uma adulteração grave que deveria estar dominando o noticiário até hoje.
Mas foi como se a BBC tivesse escrito “cachorro” com x: um erro primário, e vida que segue. A Folha de S. Paulo noticiou no fim de semana: “Como erro em edição de discurso de Trump paralisou a emissora BBC”. Errar é humano; chamar fraude de erro é sobre-humano. Já O Estado de S. Paulo, em editorial, escreveu: “O perigo do jornalismo militante”.
Veículos como Globonews, Valor Econômico, G1, a própria BBC e outros fizeram bem pior nos dias que se seguiram à confissão de manipulação publicada pelo Telegraph. A escolha editorial foi atacar justamente a vítima da manipulação. Despejaram uma sucessão de manchetes contra Trump, mirando em diversos assuntos (menos o da montagem fraudulenta da BBC, claro). A coisa foi tão impressionante que é o caso de citar aqui, pelo menos em parte, essa artilharia:
“Trump estava ciente dos crimes sexuais de Epstein, revelam e-mails” (Valor Econômico).
“Trump não quer guerra na Venezuela, mas sim desestabilizar o governo de Nicolás Maduro para que ele caia por pressões internas de opositores” (Globonews).
“Trump é atingido por escândalo que ele próprio trouxe à tona” (G1).
“Imagens mostraram Donald Trump com os olhos fechados durante um evento na Casa Branca, gerando críticas de parlamentares democratas. A equipe do presidente negou que ele estivesse dormindo” (Globonews).
“Epstein disse que Trump ‘passou horas’ com uma de suas vítimas, diz e-mail divulgado pela oposição” (BBC News Brasil).
“O prefeito de Londres, Sadiq Khan, afirmou que líderes mundiais reunidos na COP30 precisam ouvir as demandas de autoridades locais e regionais. Ele diz que não teme Donald Trump, que nega a existência de uma crise climática” (Globonews).
“‘Sou o único capaz de derrubar Trump’, disse Epstein em e-mail” (G1).
Este é só um pequeno extrato da avalanche de matérias contra Trump que vieram na sequência da publicação do Caso BBC. Se você observar as redes sociais de alguns desses veículos, verá que eles se deram ao trabalho até de redigir chamadas novas para matérias já postadas — aumentando com jeitinho o volume da artilharia.
Poderiam ter economizado esforços concentrando a mensagem em um único post: “Não queremos falar da fraude da BBC contra Donald Trump. Não queremos que o público perceba o serviço sujo da imprensa para tentar difamar um político legitimamente eleito. Precisamos tentar esconder a propaganda enganosa que inventa ataques inexistentes à democracia”.
Fica a sugestão aos colegas para a próxima campanha difamatória. É de graça.