Tenho 72 anos no costado, e já vi e vivi coisas, que como diria minha bisavó Iaiá Alexandrina Belarmina Alencar, só Deus com jeito, pra acreditar.
Vi secas terríveis, gente com um saco vazio nas mãos querendo invadir locais onde se sabia, o Governo guardava “dicomê”; vi homens mendigando, trocando filhos, doando filhos (meu avô paterno teve dez e criou mais seis, doados pelos compadres;); vi fazendeiros trabalhando em frentes de serviço, limpando estradas ou velhos açudes em troca de um quase nada; vi muita gente arribando para nunca mais voltar, (eu fiquei 47 anos mundo a fora), e também vi a aposentadoria rural (aposentado pelo funrural, como dizia o povo), uma das medidas mais eficazes do governo militar.
Deu dignidade ao idoso rural, que de pedinte passou a ser árrimo da família. (Meu avô paterno foi um deles, o vei Adonias Alencar).
Mas também vi, esse mesmo instrumento de redenção, virar moeda de troca, fábrica de um novo tipo de sertanejo: “Sou apusentado graças ao gunverno”, recebo minha bolsa família, o gunverno paga minha luz, e ainda me dá um botijão de gás! Promode que eu vou curtir sole nas cacundas? Não matou ninguém de vergonha, mas viciou o cidadão…
Na maioria dos Estados nordestinos, segundo a imprensa, já existem mais pessoas dependentes dessas “benesses” , que com um trabalho formal.
A conta não fecha, e vai cair, ou melhor, já está caindo, no colo de quem trabalha, ou gera trabalho, imposto e renda. E só aumenta.
O que fazer não sei. Só sei que é assim com bem dizia Chicó.
E mais, temo que nada ou muito pouco vai mudar, tomando por base o Status Quo vigente.
E essa multidão de “novos escravos” vai elegendo de dois em dois anos os de sempre, ou os filhos dos “de sempre”…
É natural querer mais tempo para descanso e família, mas brasileiro também quer produzir, prosperar e ter melhores condições de vida
O governo Lula e o Congresso Nacional, não contentes em correr o máximo possível com a PEC que reduz a jornada semanal de trabalho e acaba com a escala 6×1, querem fazer o setor produtivo correr também. O plano é aprovar o projeto rapidamente – a comissão especial na Câmara dos Deputados aprovou o texto nesta quarta-feira, e na mesma noite o plenário aprovou a PEC em dois turnos, remetendo-a ao Senado – e impor às empresas um prazo exíguo, de apenas dois meses, para que a jornada semanal já seja reduzida em duas horas, de 44 para 42, com mais um ano para completar a redução para 40 horas. O formato foi acertado após acordo entre Lula e o presidente da Câmara, Hugo Motta.
Pouco importa que o prazo seja ainda menor que o originalmente previsto até mesmo nas propostas de parlamentares de esquerda, e que uma alteração tão drástica seja extremamente difícil de executar em tão pouco tempo sem causar uma disrupção severa nas cadeias de produção, distribuição e comercialização. O objetivo é apenas um: fazer com que o eleitor sinta na pele o benefício de trabalhar menos ganhando o mesmo salário, ainda antes que vá às urnas em outubro, para que assim possa recompensar os muitos pais da criança – a começar pelo principal deles, o presidente da República que busca a reeleição.
Mas a pressa também serve a outra finalidade: impedir que o brasileiro trabalhador, aquele que será diretamente afetado pelas mudanças, comece a se fazer as perguntas certas. O apoio popular à PEC que reduz a jornada e acaba com a escala 6×1 é enorme, e não poderia ser diferente: quando alguém é questionado se gostaria de trabalhar um pouco menos, sem deixar de receber menos por isso, quem haveria de dizer que não? É natural querer mais tempo para a família, o descanso, o lazer, os hobbies. Mas e se os institutos de pesquisa perguntassem se as pessoas querem mais oportunidades de crescer, de prosperar economicamente, de dar uma vida melhor para si mesmos e para suas famílias – inclusive para aproveitar melhor os momentos de folga –, a resposta não seria ainda mais positiva?
E, com essa resposta em mãos, viria em seguida outra pergunta: a imposição (eis o termo fundamental, pois não estamos falando do resultado de negociações livres entre patrões e empregados, intermediada por sindicatos) da escala 5×2 e a redução forçada do número semanal de horas trabalhadas levará à prosperidade que o brasileiro trabalhador deseja para si e para sua família? Os defensores da PEC estão vendendo uma ilusão: a de que o brasileiro será capaz de produzir mais riqueza trabalhando menos, nas mesmíssimas condições que ajudam a emperrar a produtividade do trabalhador – que no Brasil é muito inferior à de países que também reduziram suas jornadas de trabalho. E desejam que essa ilusão seja mantida ao menos pelo tempo necessário para que triunfem eleitoralmente usando a redução da jornada como trampolim.
Menos trabalho, multiplicado pela mesma produtividade, resulta em menos produção e renda. Por outro lado, o custo do trabalho será elevado, e só os adeptos da escola janjista de economia acreditam que essa elevação não será repassada, ao menos parcialmente, aos preços finais. Por fim, o risco de demissões de funcionários mais “caros”, substituídos por outros cujo custo por hora seja menor, não é nada desprezível. O setor produtivo tem se cansado de alertar os parlamentares e a sociedade, com estudos mostrando o efeito da PEC sobre a inflação e o emprego, mas tem sido ignorado.
Como ninguém pergunta o que o brasileiro realmente prefere (prosperar e ter uma vida melhor), e muito menos como concretizar esse desejo (criando condições para elevar a produtividade), a população acaba enganada por uma proposta simpática à primeira vista, mas que reduzirá oportunidades no médio e longo prazo – se não o fizer já no curto prazo. Trabalhar melhor para produzir mais e, então, pensar em trabalhar menos foi o caminho dos países ricos; o Brasil, em vez disso, escolhe um atalho que não nos levará a lugar nenhum.
O senador e pré-candidato a Presidência Flávio Bolsonaro durante encontro com o presidente Donald Trump, dos EUA, nesta terça (26)
O senador Flávio Bolsonaro conseguiu o encontro com o presidente Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca, com direito a uma foto e tudo. Até a hora do almoço de terça-feira (26) esse encontro não estava garantido, principalmente pela agenda corrida de Trump. Mas Flávio foi capaz de se reunir com o presidente, mesmo não sendo chefe de Estado, e isso representou um gol importante em sua campanha.
Claro que não significa um endosso de Trump à candidatura de Flávio, e não deveria. Mas é um sinal de respeito inequívoco, que serve também para mostrar ao presidente Lula que existe alternativa para os Estados Unidos. Trump vem negociando com Lula pautas sensíveis, e o presidente brasileiro promete muita coisa, mas não entrega. Agora mesmo baixou decretos que incomodaram as Big Techs. Trump quer um Brasil mais afastado da China, e Flávio representa a candidatura mais alinhada do ponto de vista ideológico.
Na questão das organizações criminosas, Flávio Bolsonaro levou a Trump a demanda pela classificação do CV e PCC como grupos terroristas, o que mostra o abismo em relação à postura lulista, que se recusa a definir assim essas entidades, chama traficante de vítima de usuário, veste literalmente o boné de uma facção e sobe morro dominado sem escolta policial.
A campanha de Flávio estava na defensiva, nas “cordas”, principalmente por conta dos áudios vazados das conversas com Daniel Vorcaro. Tinha também o caso da “rachadinha” de Mario Frias, aliado próximo, e nova operação da Polícia Federal mirando Cláudio Castro no Rio, outro aliado. A foto com Trump dá fôlego novo para a campanha, e ajuda a reverter esse quadro. Lauro Jardim comentou no Globo: “Passado o choque, empresariado volta a ter Flávio Bolsonaro como candidato preferencial”.
Caberá ao Flávio, agora, buscar se afastar dos aliados mais tóxicos e radicais, de olho na turma do mercado e nos eleitores de centro, que Lula tem conseguido seduzir em maior número. A aproximação de Trump ajuda nesse sentido, e a esquerda, esquizofrênica, não consegue decidir se responde alegando que Lula também esteve com Trump ou se receber os afagos do presidente americano é ameaça à soberania nacional pelo “imperialismo ianque”. Aliás, a maior prova de que o encontro entre Flávio e Trump foi importante para sua candidatura é a reação histérica da esquerda. Não souberam como lidar com isso e lotaram as redes sociais com pura gritaria.
Flávio se saiu bem na coletiva de imprensa, que contou com a participação de Paulo Figueiredo, uma espécie de assessor informal do candidato, que coordenou a ordem das perguntas e até ajudou seu candidato nas respostas. Figueiredo desponta como forte candidato ao cargo de porta-voz do governo numa eventual vitória de Flávio.
Quanto ao local da coletiva, o hotel em que Flávio estava hospedado, o senador repudiou a postura da Embaixada Brasileira de não lhe conceder o espaço. Adalberto Piotto comentou: “É vergonhoso, ultrajante e mesquinho o Itamaraty negar o uso do Embaixada do Brasil em Washington para que Flávio Bolsonaro concedesse uma entrevista após a reunião com Trump, na Casa Branca. A embaixada é um espaço público no exterior que pertence a todos os brasileiros, não é do governo Lula. Flávio é um senador da República no exercício do cargo, antes de tudo. É um constrangimento diplomático e internacional que denuncia, uma vez mais, que o governo Lula sequestrou o Estado. O Brasil não pode aceitar isso”.
Enfim, Flávio marcou um gol importante nessa ida aos Estados Unidos, que pode representar o começo de uma virada eleitoral para quem vinha só apanhando. Resta saber, claro, se o PT não guardou munição contra o adversário para usar mais à frente…
A menos de cinco meses da eleição, o projeto de uma alternativa presidencial ao PT é uma montanha de fragmentos e estilhaços
A sucessão presidencial no Brasil está especialmente embaralhada. Faz parte das corridas eleitorais o cenário indefinido e a consolidação das opções mais competitivas em cima da hora. Mas parece que a comunicação total das redes, cada vez mais veloz e reativa, criou um componente extra de ansiedade no debate público.
A expectativa sobre quem seria o substituto do ex-presidente Jair Bolsonaro no pleito demarcou a fase preliminar da campanha. O eleitorado de oposição ao petismo já se dividia conforme determinadas preferências. Uns queriam um perfil de maior confrontação, na linha do temperamento do ex-presidente; outros preferiam uma opção mais ponderada. O problema começou aí.
Desde muito cedo, a campanha eleitoral de 2026 foi marcada pela intolerância e pela propensão à patrulha. Na verdade, ainda em 2025, o debate entre os simpatizantes da oposição já trazia a cobrança por escolhas definitivas. E, se não fossem assim manifestadas, ou se o perfil escolhido não fosse o “certo”, multiplicavam-se as acusações de “traidor” ou “xiita”.
O cenário atual de beligerância e elevada hostilidade entre adeptos de Jair Bolsonaro já estava delineado desde o ano passado, independentemente dos fatos mais recentes envolvendo a candidatura de seu filho Flavio. Desde antes dessa definição, o campo de guerra estava demarcado: já não se permitia uma boa convivência entre inclinações diferentes.
(“Todos” é força de expressão, porque não há como generalizar esse tipo de conduta. Mas é bastante característico dos tempos atuais que grupos de vozes mais estridentes acabem direcionando o debate como um todo.)
A definição do senador Flavio Bolsonaro como pré-candidato à Presidência pegou muita gente de surpresa. Embora a escolha tenha partido de seu pai, não era um nome que circulasse tanto nas cogitações, desde o período em que não se sabia ao certo se o ex-presidente poderia concorrer. Muitos viram nessa escolha uma boa estratégia: a manutenção do sobrenome Bolsonaro na disputa por meio de um candidato com lealdade sanguínea ao ex-presidente.
Outros tantos consideraram uma escolha forçada, por não verem na trajetória do senador expressão política comparável à do pai. Seria uma situação normal da democracia, em que o próprio desenrolar da campanha confirmaria ou não as várias premissas postas — e permitiria ao eleitorado de oposição amadurecer sua escolha. Mas isso não foi possível.
A própria imprensa — ou melhor dizendo, a nova imprensa, que surgiu como excelente contraponto aos desvios da imprensa tradicional — contribuiu para o problema. Apesar dos bons serviços prestados, essa nova imprensa vem confundindo um pouco seu público, que eventualmente vê nela uma espécie de porta-voz da “direita”, seja lá o que isso signifique (conceitos vagos comportam variadas acepções). Linha editorial é uma coisa; ativismo ideológico é outra. E essa parte mais audível do público passou a cobrar adesão jornalística a candidatos — o que é uma aberração em si.
Foi nessa escalada de intolerância e cobranças generalizadas que se chegou ao cenário conflagrado de hoje. A própria cogitação da candidatura presidencial de Tarcísio de Freitas, em certo ponto desse percurso, expôs o terreno envenenado. Para muitos adeptos do governador de São Paulo como presidenciável, era imperioso retirar a família Bolsonaro do protagonismo; para outros tantos, o perfil “moderado” de Tarcísio era uma traição ao bolsonarismo. E tome patrulha matando, na raiz, a troca de ideias.
O que se pode constatar, a menos de cinco meses da eleição, é que o projeto de uma alternativa presidencial ao PT é uma montanha de fragmentos e estilhaços. Não há sobriedade para se discutir nada consistente no panorama sucessório. Para qualquer consideração das opções colocadas, há um bombardeio apontado para a opinião que ousar colocar a cabeça de fora. Ou essa beligerância reflui, ou a oposição vai ficar vendo a banda passar.