DEU NO JORNAL

DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

SCHIRLEY – CURITIBA-PR

Que bom que caiu em um domingo (de sol por aqui)!

As portas se abrem para um novo ciclo: a Primavera.

De flores, cantos e risos. De ninhos e despertares.

“Acorda Maria Bonita, levanta vem fazer o café”

Bem vinda Primavera!

Abram suas janelas (da casa e da alma) ao som de Vivaldi !

DEU NO X

DEU NO JORNAL

A HILÁRIA REPUBLIQUETA BANÂNICA

Processado por chamar Lula de ladrão, Nikolas Ferreira (PL-MG) diz que chamará três testemunhas: Gilmar Mendes (STF), Michel Temer (ex-presidente) e Geraldo Alckmin (vice-presidente de Lula).

Todos já manifestaram publicamente declarações semelhantes à do deputado.

* * *

Aguardemos a convocação destas três testemunhas.

Se é que serão mesmo convocadas…

A safadeza na alta cúpula deste país é mesmo um filme de humor.

Ou, melhor dizendo, na alta cópula.

Um filme de humor que a gente não sabe se chora ou se rir-se.

Putz!

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

TRIBUTO A JANDHUIR FINIZOLA

Janduhy Finizola da Cunha (1931–2024), médico, escritor e compositor brasileiro, encantou-se no último dia 14 deste mês de setembro

Partiu Mestre Finizola,
Outro doutor do Baião.

No Jardim do Seridó,
Foi nascido e foi criado,
Em Recife foi formado,
Virou “Doutor do Forró”.
Compunha como ele só
Pra Santanna e Gonzagão
E fez pra Jorge Assunção
A canção “Vida Viola”.
Partiu Mestre Finizola,
Outro doutor do Baião.

Escreveu “Ana Maria”,
“Bananeira Mangará”,
“Balance, Balanceá”,
Com Onildo fez parceria.
Sempre injetou poesia
Em toda composição,
Hoje vai pegar na mão
De Jobim, Nélson e Cartola.
Partiu Mestre Finizola,
Outro doutor do Baião.

“Vivência” foi um estouro
Na voz de Jorge de Altinho,
Fez da caneta o seu pinho,
De cada verso um tesouro.
Merece um busto de ouro
Na Praça da Conceição.
Caruaru, no São João,
Irá ver se nos consola.
Partiu Mestre Finizola,
Outro doutor do Baião.

* * *

Jorge de Altinho interpretando “Vivências”, da autoria de Janduhy Finizola

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

SAMUEL GROSS – ATIBAIA-SP

Carcereiro gentil

Preso em 1964, Francisco Julião, das Ligas Camponesas, foi metido num cubículo da 2ª Companhia de Guardas, no Recife.

Ele não passava bem e um oficial do Exército chamou um médico, que prescreveu apenas alimentação decente.

Gentil, todos os dias o militar “contrabandeava” um litro de leite para Julião.

E ainda lhe fez uma surpresa: levou-o para o banho, certo dia, em um inesperado encontro com outro preso político, Paulo Freire.

Trocaram abraço, palavras, força.

O oficial, o alagoano Carlito Lima, relatou a história em seu livro “Confissões de um Capitão” (Garamond, Rio), prefaciado pelo ex-líder estudantil Vladimir Palmeira.

R. Caro Samuel, Carlito Lima, grande figura das Alagoas, é colunista desta gazeta.

Excelente cronista, grande promotor de eventos na linda Maceió, ativista cultural, carnavalesco, um amigo muito especial e que mora na minha estima.

De fato, tudo que você escreveu é verdade e consta do livro dele.

Mostrei a ele esta sua mensagem e ele fez o seguinte comentário:

“Eu sempre tratei com humanidade os presos políticos, sem interessar a ideologia do cara.

Eu tratava os presos com humildade aí na 2a Cia. de Guardas, no Recife.

Por pena não por ideologia.

Quebrei muito galho de Arraes, Pelópidas, Julião, Abelardo da Hora…

Pode publicar foi verdade.”

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

CONVERSANDO COM AS ESTRELAS

As estrelas, quantas serão?

Ontem, após executar algumas tarefas domésticas e tomar uma boa chuveirada, daquelas de deixar a água cair com vontade e sem pensar em desperdício, vesti a parte inferior da roupa de dormir, coloquei a espreguiçadeira no alpendre e fui conversar com as estrelas.

Uma conversa daquelas “olhando no olho”. Sem titubeio.

Prometi a elas – as estrelas – que contaria um sem número delas até cansar. Quando cansasse, fisgaria a última contada e a chamaria para a tal conversa.

E foi assim. Contei centenas, milhares, e até acho que fiquei próximo do milhão.

Parei, quando tive a impressão que uma daquelas estrelas já havia sido contada.

– Ei, será que já contei você? Perguntei.

– Provavelmente não. É que, de longe, e daí de onde você está, todas parecemos iguais. Me informou a estrela…. Maria? Lourdes? Dalva?

– E quantas são vocês, daqui de onde eu posso ver? Indaguei.

– Somos tantas e outras tantas sequer podem ser vistas sem equipamentos especiais. Mas, são facilmente vistas apenas com a imaginação. Segredos do nosso firmamento, que está anos luz distante de vocês.

– Como assim, com a imaginação? Indaguei de novo.

– Assim, veja: feche os olhos! Bem fechados! Agora, imagine que está vendo uma de nós. A mais bela que você pretender ver. Fechou os olhos?

– Fechei! Respondi.

– Feche os olhos e volte o pensamento para os céus. Você vai conseguir ver, e repito, sem equipamento especial.

– Meus olhos estão fechados. O que devo fazer agora? Perguntei.

– Veja aquela que não se move. Ela tem um nome. Você a está vendo?

– Estou. Ela parece ser familiar. Respondi.

– Ela é realmente familiar. É uma pessoa da sua família terrena que não está mais entre vocês, claro. Me informou a estrela…. Dalva!

E era realmente a minha estrela materna. Fixei o olhar e matei a saudade. Quase fiz uma pergunta, mas ela parecia muito distante e, mais ainda, parecia estar muito ocupada, cuidando de mais um de nós. Foi quando resolvi aprofundar a conversa olho no olho.

Resolvi perguntar: – estrela, você tem uma liderança? Alguém que conduza vocês a alguma galáxia, a algum lugar? Perguntei, como Repórter que fui.

– Temos sim! Vocês que não tem!!! Respondeu a estrela Dalva com certo ar de deboche.

– Temos. Com certeza temos. Afirmei.

– Não. Vocês não têm liderança. Se vocês tivessem uma liderança, as coisas aí não estariam como estão.

– Mas, aquele que… Fui interrompido pela estrela Dalva.

– Não. Aquele não é líder. Ele nunca sabe de nada. Não consegue sequer contar dez nos dedos das duas mãos! Afirmou a estrela.

Fiquei atônito com a precisão da afirmação da estrela, e refletindo com o cadarço que segura o pijama, fiquei mais aflito.

É. Quem eu pensava que era líder, realmente não sabe de nada, e jamais vai poder contar até dez nos dedos das duas mãos.

– E, estrela, o que devemos fazer agora, se nem líder temos? Perguntei.

– Vocês devem se preparar melhor. Vem chumbo grosso por aí, e não é nenhuma chuva de meteoros.

É. As estrelas sabem das coisas. Afinal, são de outro mundo.

“Olhar o céu, as nuvens, a lua e as estrelas realmente faz com que eu me sinta calmo e esperançoso”.

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Guimarães Rosa (I)

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, MG, em 27/6/1908. Escritor, médico, diplomata, poeta, romancista, contista e poliglota, é considerado um dos maiores escritores da literatura brasileira. Além de criar, dar forma e voz ao ser-tão expressivo na escrita, registrou um modo de ser-tão peculiar dos lugares mais afastados dos centros urbanos.

Filho de Francisca Guimarães Rosa e Flordualdo Pinto Rosa, começou a estudar línguas, sozinho, aos 7 anos (francês); aos 9 encarou o holandês; com uns professores; em seguida pega o alemão e prossegue. Mais tarde declarou: “Eu falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração”.

Este gosto pela linguagem propiciou-lhe um estilo literário marcado pela influência da falar popular e regional que, somados à erudição do autor, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas. Seus contos e romances têm como ambiente o sertão brasileiro, onde os personagens utilizam uma linguagem “simples”, própria do interior, i,é do sertão.

Na infância, foi morar com os avós em Belo Horizonte, onde concluiu os primeiros estudos. O curso secundário se deu em São João del-Rei e retornou à capital. O tio Adonias, rico fazendeiro, patrocinou seus estudos no Colégio Arnaldo. Em 1925 ingressou na Faculdade de Medicina com apenas 16 anos. Ainda estudante, participou de um concurso literário da revista O Cruzeiro, em 1929. Enviou 4 contos: Caçador de camurças, Chronos kai anagke (tempo e destino), O mistério de Highmore Hall e Makiné. Todos foram premiados e publicados em 1929-30 e foram escritos com a intenção de ganhar uma bolada de 100 contos de réis.

Em 1930 casou-se com Lígia Cabral Pena, com quem teve duas filhas e no mesmo ano recebeu o diploma de médico. Passou a exercer a profissão em Itaguara, onde permaneceu por 2 anos.

Consta que foi aí que passou a ter contato com os elementos do sertão, servindo-lhe de referência e inspiração a sua obra. Em seguida serviu como médico voluntário durante a Revolução Constitucionalista de 1932, e depois tornou-se oficial-médico, por concurso, da Força Pública do Estado de Minas Gerais. Atuando em Passa Quatro (MG), manteve contato com o futuro presidente Juscelino Kubitschek, médico-chefe do Hospital de Sangue.

Em 1933 foi para Barbacena, ocupando o cargo de médico no 9º Batalhão de Infantaria. No ano seguinte decidiu seguir a carreira de diplomata; prestou o concurso do Itamarati e passou alguns anos atuando em países da Europa e América Latina. Foi cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo, na Alemanha, de 1938 a 1942, onde conheceu sua segunda esposa: Aracy de Carvalho, da Embaixada, que ficou notabilizada pela ajuda que prestou a muitos judeus para fugir do Holocausto durante a 2ª Guerra Mundial. Por esta ação humanitária e de coragem, ela ganhou o reconhecimento do Estado de Israel e é a única mulher brasileira homenageada no “Jardim dos Justos entre as Nações”, no memorial oficial de Israel para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto.

De volta ao Brasil, serviu como diplomata nas embaixadas brasileiras do em Bogotá e Paris. Em 1937, recebeu um prêmio da ABL – Academia Brasileira de Letras, pelo livro de poesia Magma, considerado por ele mesmo uma obra menor. No mesmo ano, participou de outro concurso com o livro de contos Sagarana, que foi revisto e publicado em 1946. Aí incluiu o conto A hora e a vez de Augusto Matraga, adaptado para o cinema em 1965, sob a direção de Roberto Santos. A publicação deste livro garantiu-lhe um lugar de destaque no panorama da literatura brasileira, pela linguagem inovadora, pela singular estrutura narrativa e a riqueza de simbologia dos seus contos.

A partir dali o regionalismo estava novamente em pauta, mas com um novo significado e assumindo a característica de experiência estética universal. O nome “Sagarana” foi criado por ele mesmo, com a junção das palavras “saga”, que designa as epopeias escandinavas, e “rana”, que vem do tupi e quer dizer “semelhante a”, ou seja, “próximo a uma saga”. (continua no próximo domingo)