Espelho, amigo verdadeiro, Tu refletes as minhas rugas, Os meus cabelos brancos, Os meus olhos míopes e cansados. Espelho, amigo verdadeiro, Mestre do realismo exato e minucioso, Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico, Penetrarias até o fundo desse homem triste, Descobririas o menino que sustenta esse homem, O menino que não quer morrer, Que não morrerá senão comigo, O menino que todos os anos na véspera do Natal Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, Recife-PE (1886-1968)
Hoje, 22/12/2024, o congresso encerra oficialmente suas atividades para voltar em 01 de fevereiro próximo e com um novo presidente na câmara. Confesso que não tem admiração por Arthur Lira e me ojeriza aumentou no caso de Deltan Dallagnol. Para quem não lembra, Arthur Lira bradou que só a câmara tinha autonomia para cassar um mandato, mas o STF colocou na pauta um processo contra ele, que foi engavetado logo após a mesa diretora cassar Deltan. Eu sempre falo que enquanto não elegermos políticos sem rabo preso no STF, a gente não vai mudar esse país.
Essa semana final do ano é praticamente inoperante, exceto o executivo que pode, a qualquer momento fazer mais uma bobagem e fechar, com chave de ouro o ano de 2024. As pérolas são infindas e até acho que a retrospectiva da rede globo será sobre os momentos nos quais Bolsonaro foi ameaçado de prisão. Eu duvido muito que esse pessoal tenha coragem de criticar as merdas do governo atual.
O que vai mudar em 2025 não é apenas o passar do tempo. Termos um novo presidente no Banco Central, afinado com o partido do presidente e não sabemos até que ponto ele será capaz de manter os ensinamentos de Campos Neto. Nesse sentido, o presidente declarou publicamente que Galípolo terá autonomia e que ele não irá dar opiniões. Eu acho engraçado isso porque é muita burrice. Há uma lei que dá autonomia ao Banco Central, não ao seu presidente. Quem determina a política monetária do país não é presidente do Banco Central, é o COPOM. O Banco Central é um órgão que cumpre e faz cumprir as diretrizes do COPOM. É um órgão puramente executivo. No entanto, ao dizer que não vai se meter, fica patente que ele vai se meter sim. Que embora, ele no seu segundo governo tenha dado ao presidente do Banco Central o status de ministro – fez isso para evitar que Henrique Meirelles tivesse foro privilegiado por conta de investigações contra ele – o presidente, tanto diretamente quanto através do ministro da fazenda, vai querer implantar políticas que Campos Neto não admitia.
É do conhecimento de todos que a economia está indo, a passos rápidos – para um estado de estagnação. No início da pandemia eu cheguei a dizer que seriam necessários 10 anos para recuperar efetivamente a economia brasileira. Tivemos quatros de responsabilidade fiscal e estamos há dois anos com um governo totalmente irresponsável. A proposta fiscal do governo teve alguns pontos aprovados e outros desidratados. O DPVAT, por exemplo, foi enterrado. Como se sabe, trata-se de um seguro que cobre acidentes de veículos no Brasil. Na verdade o governo atual tentou recriar isso, mais como uma forma de transferir responsabilidades do que assumi-las e o que se quer, de fato, é aumentar a arrecadação.
O resto do pacote – vamos chamar essa porra de embrulho que é melhor – tem a limitação do aumento do salário-mínimo em 2,5% + inflação, em substituição a crescimento econômico + inflação. O efeito disso é um achatamento de renda na camada mais baixa da sociedade, em tese, formada por eleitores do presidente, afinal, quem não lembra quando ele disse que “quem ganha mais dois salários-mínimos ou tem uma educação melhor, não vota no PT”. Importante, dizer o seguinte: com o ritmo inflacionário atual, os R$ 1.518,00 de salário que serão pagos em 2025 fará com que, em maio/2025, o trabalhador já não tem capacidade de adquirir a mesma cesta de produtos adquirida em janeiro.
Como diz Jessier Quirino, “desmantelo para ser desmantelo só presta se for bem desmantelado” e nesse sentido o governo foi craque (ou crack, você escolhe). Limitou acesso ao BPC – Benefício de Prestação Continuada que atende uma camada da população inserida no Cadastro Único e que, na maioria, não tem condições de se manter sozinha. Em meio a isso tudo, vem a proposta fiscal de tributação e a pretensão de economizar R$ 375 bilhões até 2030. Quem votou no presidente pode até acreditar nisso, mas que tem um mínimo de discernimento sabe que isso é lorota. Basta ver o descontrole cambial para entender que não temos condições de fazer o dólar voltar para um patamar aceitável. E o engraçado em tudo isso é ver a mídia remunerada através dos seus representantes de plantão atribuindo culpa a Donald Trump ou a fake News envolvendo o futuro presidente do Banco Central. Ninguém culpa a irresponsabilidade do governo com medo de não receber o Pix no final do mês. No fundo esse governo se impõe como o traficante de drogas que mantem a dependência química dos usuários.
Os impostos serão tratados em 2025 e por isso só terão vigência em 2026 e para 2030 são apenas 4 anos. Tempo insuficiente para consertar o buraco econômico atual que é bem maior do que o buraco do Ibura. Aí vem a promessa de isentar contribuintes que ganham até R$ 5 mil. Haverá incidência sobre a renda superior a R$ 50 mil mês que, de modo amplo, é inerente a executivos contratados como pessoas jurídicas.
Enfim, vamos entrar em 2025 com uma penca de problemas atuais. O pior de tudo isso é não temos capacidade de mudança no curto prazo. O presidente foi colocado no poder, simplesmente, e quem questionar corre o risco de ser condenado a 17 anos de prisão. Cale-se, publicamente, mas aja em silêncio. É o melhor.
Assim sendo, tudo que podemos fazer é torcer pela mudança. No mais, um feliz Natal a todos que contribuíram com seus pensamentos aos meus textos aqui no JBF. Volto em janeiro de 2025, lembrando que o JBF é o único jornal do mundo que não dá férias coletivas aos seus empregados e que todos os dias teremos opiniões diversas de colunistas. Até 2025.
Tomei este título a partir de um artigo do grande jornalista Augusto Nunes, da Revista Oeste e de uma conversa que tive com meu amigo e irmão Marcelo Cestari sobre o que está ocorrendo em Pindorama nesses anos pavorosos e a temática da anistia aos presos políticos do dia 08/01/2023.
O que mais me horroriza é ver como aqueles que foram perdoados pela lei da Anistia de 1979 vociferam e babam de raiva quando o assunto é anistia para os presos e acusados de 2023. Ouço a palavra de ordem dessa canalha…. “sem anistia”!, sempre que se ajuntam em shows pagos com o dinheiro do pagador de impostos, ou financiados pela famigerada Lei Rouanet.
Pode-se fazer um percurso reverso da história até a gênese da lei da Anistia de 1979, quando o general Ernesto Geisel, então Presidente da República, disse, em uma reunião do Alto Comando Militar do país, cinco importantes palavras que viraram a manivela da história para acabar com o arbítrio, com a tortura e com os banidos “lenta, segura e gradativa distensão”. Essas palavras foram ditas, antes mesmo de Geisel impor disciplina às Forças Militares que viviam em estado de reunião sindical, com anarquia e insubordinação constante.
Apesar de ter sido aprovado no governo do general João Figueiredo, a forma final do texto da lei se deveu à maestria intelectual e política do general Golbery do Couto e Silva, o famoso “satânico Dr. Go” Genedow – os mais velhos saberão do que estou falando e dos apelidos que o general Golbery tinha, principalmente nos corredores ministeriais e desvãos do Congresso Nacional.
A lei foi sancionada por Figueiredo, porém, no seu preâmbulo está escrito… “O Congresso Nacional decreta, e eu sanciono”. Ou seja, foi o Congresso Nacional, os representantes do povo – deputados e senadores -, das mais diversas matizes política que buscaram a pacificação do país e a busca de caminhos para o futuro. Anistia significa isso: perdão, mas não esquecimento.
Foi a lei de Anistia de 1979 que permitiu que guerrilheiros comunistas como José Genoíno Neto, terroristas como José Dirceu e Dilma Roussef, além de agitadores como Caetano Veloso, Miguel Arraes, Luís Carlos Prestes, Paulo Freire, Leonel Brizola, Chico Buarque, Betinho, Fernando Gabeira entre outros, pudessem voltar ao país e reorganizarem suas vidas, até mesmo recebendo capilé oficial como indenização pela perseguição estatal. Mas, isso é matéria de discussão para outro texto.
Quem tem mais de sessenta anos deve se lembrar de “Vanda”, nome de guerrilheira de Dilma Roussef, cujo grupo terrorista matou o soldado raso Mário Kozel Filho, o Cuca, que estava tirando guarda na entrada de seu batalhão e foi morto por uma caminhonete cheia de explosivo, sem ter nenhuma participação na violência cometida pelo Estado. Morreu apenas porque era um militar cumprindo serviço obrigatório pela lei brasileira.
Ou mesmo José Dirceu que, treinado em Cuba para ser guerrilheiro e terrorista, achou pesado demais, dada à sua preguiça moral e intelectual, e foi disfarçado, se homiziar no interior do Paraná, como dono de loja de tecidos. Tão logo veio a Anistia, revelou quem era, abandonou a esposa e voltou a São Paulo para ajudar a criar o PT e tentar destruir o Brasil mais uma vez.
São exatamente essas pessoas, anteriormente perdoados pela sociedade brasileira, haja vista o Congresso é uma representação do povo que, na atualidade são os mais intransigentes defensores da não anistia para os injustiçados do 08/01/2023. São os perdoados do passado que nem cogitam a hipótese de perdão para os outros. Isso me faz lembrar a parábola de Jesus sobre o homem que devia mil denários para outro homem, pediu clemência e foi perdoado, mas quando encontrou outro que lhe devia cem denários, não teve a mesma misericórdia. Pegou o devedor pelo pescoço e exigiu pagamento. Quando este disse que não tinha mandou-o para a cadeia, para o sofrimento até receber o que o outro lhe devia.
Observem a crueldade, a ignomínia dessa gente. Buscaram o perdão e foram perdoados pela sociedade brasileira por crimes como assalto a banco, terrorismo, assassinato, sequestro, execução sumária, guerra de guerrilha e outros crimes previstos no Código Penal Brasileiro. Hoje, essa mesma gente vocifera que não há perdão para senhoras com Bíblia debaixo do braço, carregando uma bandeira do país, ou mesmo uma senhora que escreveu com batom na estátua da deusa Dice. Não é hipocrisia. É sadismo puro, é crueldade. São pessoas malignas, mas malignas no sentido bíblico de malignidade, que se liga ao demônio, a antiga serpente, a Satanás. A essência da alma dessa gente é má, destrutiva, perversa.
Diante dessa situação, eu se me peguei perguntando….se essa gente não tem o dom de perdoar e buscar a pacificação da nação, por quê eles merecem o perdão da nação? Por que gente que foi perdoada por crimes previstos na lei penal, na atualidade, com seus corações negros e endurecidos como pedra merecem o perdão dado pela sociedade lá em 1979? Não merecem!
Isso me leva a concluir que precisamos nos mover para, democraticamente, no Congresso Nacional brasileiro, votar pela revogação daquela lei que perdoou gente incapaz de perdoar. É uma questão, não de vingança, ou mesmo revanche, mas de equilíbrio de justiça e de verdade. Se aqueles perdoados que não perdoam, então, também, não merecem o perdão que a sociedade graciosamente deu a eles.
Podem me criticar, ou mesmo me execrar. Aceito qualquer tipo de crítica, até mesmo de exposição pública, mas fico cada vez mais convicto de minha posição, pois a parábola de Jesus também vai nesse caminho. Se alguém que foi perdoado não tem a capacidade do exercício do perdão, então esse alguém não merece o perdão que recebeu.
Papai Noel na tarefa ilusória de distribuir presentes
Mesmo com o privilégio divino de alcançar a terceira ou quarta idade, a lucidez me permite lembrar: o ano, 1951. Eu tinha apenas 8 anos dos 81 de hoje. A imagem está firme e brilhante na minha memória fotográfica.
Tenho saído muito pouco de casa, por conta de querer concluir algumas tarefas que assumi: escrever um livro com as peraltices da infância, mesmo sabendo que não ganharei, jamais, o Prêmio Nobel de Literatura. Eis que, ontem, saí com uma das filhas para comprar alguns penduricalhos para a árvore de Natal.
Fomos a um shopping não tão distante de casa. Pagamos apenas R$ 10,00 de Uber.
O primeiro pavimento do shopping é usado como estacionamento de veículos pequenos. A escada rolante nos levou ao segundo pavimento, totalmente iluminado com motivos natalinos. Crianças se divertem, ingenuamente, nos dois playgrounds e outras aproveitam para as selfie ao lado do bom velhinho. Procurei um lugar para sentar e observar a beleza da ingenuidade humana quando criança. Minha filha me deixou ali, inebriado, enquanto cumpria a tarefa dela na compra dos itens natalinos.
Não sei se dormi. Provavelmente, não. Mas me senti transportado para outra época, em 1951, onde a realidade – não apenas para mim – era completamente diferente. Me senti na Queimadas, então povoado de Pacajus, onde vim ao mundo. Me envolvi totalmente.
Casa dos avós, com chaminé – por onde Papai Noel nunca entrou
Numa manhã qualquer daquele ano de 1951, mas em dezembro, Tarcísio – que poucos o conheciam pelo verdadeiro nome – conhecido, provavelmente, na Finlândia ou no Canadá pelas ações elogiáveis de pretender proporcionar alegria às crianças daquele povoado cearense, apenas pelo apelido carinhoso de “Tôta”, o Papai Noel daquelas crianças.
Na primeira semana de dezembro, por muitos anos, Tôta arrumava o boi “Mansinho” atrelando-o a uma carroça, tão logo o galo cantava e os chocalhos dos bodes e cabras se reuniam numa verdadeira sinfonia chiqueiral no despertar para o mundo e a vida – sempre para garantir o sorriso de meninos e meninas que, ajudadas pelos pais ou avós, escreviam cartas ao bom velhinho.
– “Quero uma boneca bem linda”, escrevia Maria Liduína!
– “Quero uma bola de borracha”, pedia Julinho!
Naquele período, lembro-me bem, o trenó improvisado numa carroça puxada por Mansinho, primeiro recolhia os pedidos. Todos eles, por mais distantes que estivessem – e havia criança que morava distante dali por quase dez léguas. Mas, todas as cartinhas eram buscadas. Nos dois domingos seguintes, sempre no anonimato, Tôta fazia um périplo pedindo, e até recolhendo com moradores que se associavam em proporcionar alegrias para as crianças ingênuas.
Os comerciantes da sede do povoado encomendavam as bonecas pedidas, bem como as bolas de borracha – outros até aproveitavam a compra de gêneros na capital e nunca esqueciam os presentes distribuídos pelo Papai Noel Tôta.
O trenó do Papai Noel Tôta
Segundo i8nformações do próprio Tôta, a última semana antes do Natal era para organizar as entregas, preparando-as em papel de presentes com motivos natalinos. Recebia a ajuda da esposa, Beatriz – mas faziam tudo só depois que se certificavam que as suas crianças estavam dormindo.
– Tá faltando uma boneca Tôta, avisava Beatriz.
– Menhã a gente arresolve isso! Garantia Tôta.
Finalmente era chegado o dia do Papai Noel entrar nas casas pelas chaminés. Meninos e meninas pediam para as avós não acenderem fogo naquele dia, para evitar que Papai Noel se queimasse quando fosse descer por ali para entregar os presentes.
Tôta finalmente se realizaria entregando todos os presentes. Até os meninos e meninas que moravam distante, receberiam. A boneca que faltara na noite anterior, finalmente foi adquirida, graças à mãe da solicitante, Maria Liduína. O trenó puxado por Mansinho estava arrumado. Os meninos e meninas receberam ordens para se aquietarem e dormirem. Que todos ficassem despreocupados, pois Papai Noel não queria deixar de ser o bom velhinho.
Agora, tão logo o galo cantou e a sinfonia chiqueiral foi aberta, o barulho do desenrolar pacotes de presentes movimentava as casas – ninguém se preocupava em tomar o café da manhã. A alegria dava o tom das casas – uma tradição secular fora mantida.
Minha filha, voltando das lojas onde comprara todos os itens necessários, com um leve toque no meu ombro, me trouxe de volta ao mundo real.