XICO COM X, BIZERRA COM I

AO PASSADO, A SAUDADE

O passado já passou e o futuro não existe, ensinou-me o sempre sábio e saudoso Francisco Brennand. Assim, resta o presente, bom ou ruim. Remoer o ontem, apenas se for para avaliar e corrigir erros cometidos. Melhor preparar o amanhã, sedimentando os bons gestos, as atitudes corretas que refletirão, certamente, nos dias que estão por vir. O hoje, este sim, importa. … Como duvidar de tão profundo conhecimento, de um conselho de Brennand? Que importa se a antiga bodega de seu Almir, lá no Crato, onde se bebia, se conversava e se fazia amizade, hoje seja apenas um armarinho onde se vende peças de alumínio? A quem interessa o fato de que a loja de seu Abidoral, sempre tão farta de educação e bom atendimento, tenha se transformado num armazém de secos e molhados? Pior: a boate de Glorinha, em pleno Cabaré do Gêsso, à beira da linha férrea, hoje abriga fiéis de uma igreja chamada Universal, onde corretores da ilusão vendem ‘terrenos no céu’ onde antes passeavam corpos sinuosos e elegantes das mulheres de então. Que importa se o craque Anduiá já não faz seus gols pelo Sport Crato, no campinho do Seminário? Vivamos, pois, o hoje, intensamente, sem olhar para trás e sem preocupações maiores com o futuro, desde que o presente seja de bem. Ao passado, a saudade do que foi bom.

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SÓ ANDO EM BOA COMPANHIA

Eu nunca ando só. Tenho sempre um Poema ao meu lado, me acalentando. Seguro na mão de algumas palavras, dou-lhes uma dose de rimas e com elas saio por aí, galopando à beira-mar, caminhando e cantando, sonorizando palavras, inventando verso e fabricando canção. Assim sou feliz glosando motes de alegria.

Armas, não tenho nem quero tê-las. Delas me livro. Prefiro me armar com livros, ideias, palavras. Tem dado certo e assim continuarei, vivendo de desafio, amando de improviso para um dia morrer nos braços de um repente, como disse um Poeta. Meus poucos amigos são amigos verdadeiros e me acompanham pela estrada e pelo Facebook. Instagram, sequer tenho. Sou avesso às modernagens tecnológicas que surgem a cada dia. Meu celular cumpre, tão-somente, a função para a qual foi pensado: fazer e receber ligações.

Busco a sensibilidade de ter, na mesma praça defronte à igrejinha de minha cidade, as visões que me proporcionam vê-la apenas da calçada ou, se preferir, do alto de sua torre, onde badala o sino, ensinamento recolhido de um livro de Sávio Pinheiro, exímio cronista e dedicado médico nos cariris cearenses. Como ele, ainda creio no amor, na amizade, no respeito às pessoas e acredito no bem que deve nortear nossas vidas. Esta, minha Religião, minha crença, doçura e cura. É só do que preciso para ser feliz.

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ATÉ UM DIA QUALQUER

Nunca gostei muito de escrever quando sei da notícia da partida, sempre prematura para mim, de um parente, de um amigo ou de alguém que admiro pelo que fez, seja na vida como um todo, seja na arte, em particular. Fico puto com esses caras que ‘furam a fila’ e nos entristece. Tem tanta gente que se diz artista, sem sê-lo, que poderia ter ido no lugar deles e que não fariam falta à arte … Acho que é uma sacanagem divina, um pouco de egoísmo de Deus que quer os bons junto dele. É como diz um amigo meu, João Cláudio Moreno: tem gente que ao morrer, ao invés de ser sepultado, deveria ser plantado e regado para que nascessem outros indivíduos de igual cepa. É o caso. Que a Luz permaneça com vocês no novo palco, Gal, Boldrin, Milanés, Erasmo…

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CAIXINHA DE ESTRELAS

Abri lentamente a caixinha de meu guarda-estrelas sem mexer no papel prateado que embrulhava a lua. Deixei-os lá, papel e lua, e retirei, uma a uma, as estrelas de todas as cores que ali dormiam. Percebi que a lua não gostou daquela solidão e a ela devolvi as estrelas roxa e vermelha. As demais, com elas fiquei e levei-as a passear. A estrela branca me indicava o caminho da Paz e segui seu roteiro. No meio do caminho ela sonhou com Dom Helder e desapareceu nas asas de uma pombinha. A estrela verde, levei-a, a seu pedido, para ver o verde mar. Encantou-se com um peixinho cor-de-rosa e sumiu na primeira onda. À azul mostrei o céu e ela se apaixonou por um arco-íris que acabara de se abrir e embrenhou-se no meio das tantas cores surgidas. Restou-me a amarela, que não resistiu ao primeiro apelo e chamamento do Senhor Sol e a ele foi-se unir. Voltei ao guarda-estrelas, desembrulhei a lua, guardei-a bem junto ao peito e até hoje ela me faz companhia todas as noites, alegrando meus momentos. As estrelas roxa e vermelha deixei-as guardadas na caixinha para quando a Lua se cansar dos meus afagos e resolver morar em outros céus. Espero que não aconteça com elas o que com as outras aconteceu, encontrando complementos às suas belezas e qualidades e por eles me trocando. Aliás, melhor pensando, que elas encontrem rosas e ametistas, vermelhas e roxas, e sejam felizes. Quanto à lua, abençoado seja o seu desencontro com o sol.

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UMA BODEGA NO MATO

Duas ‘fôia’ de papel
Pra embrulhar coisa alguma
Nada, vendendo de ruma
Mosca fazendo escarcéu
Garrafa seca sem mel
Formiga sem formicida
Sem rapadura ou batida
Balança pença sem prato
Uma bodega no mato
Mesmo sem nada é sortida

Caba contando lorota
Devendo pra mais de um mês
Só Maciel de frequês
Com Xico tomando meiota
Na saída o dono anota
A conta na caderneta
Dinheiro, só com luneta
Em Iguaraci ou no Crato
Uma bodega no mato
Mermo sem nada é porreta

Um lenço ‘chei’ de catarro
Uma fralda já cagada
Um pedaço de cocada
Com as cinzas de um cigarro
Um balcão sujo de barro
Um anãozinho indecente
Quase nu, atende a gente
Feio, grosso, bebo e chato
Uma bodega no mato
Mesmo sem nada é atraente

Meio cibazol furado
E dois dedim de aguardente
Par de óculos sem lente
Farpas do arame farpado
Um papel todo riscado
Uma caneta estragada
Um cabo cotó de enxada
Remédio pra matar chato
Uma bodega no mato
É uma fartura de nada

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A INCÔMODA ZOADA DO SILÊNCIO

Que diabo tão zoadento é o silêncio! Será apenas o descanso do barulho ou a cama vazia do filho que não se vê, há um bom tempo? Talvez o abraço não dado no neto que mora longe seja sinônimo do silêncio. Assim como o grito confinado na garganta, a quarentena da voz. É a saudade gritando tão alto que nem o mais atento dos monges consegue ouvir. Quem sabe, um verso quebrado, uma rima torta, uma nota musical sem companhia ou um poema inconcluso?

POUCO TUDO E MUITO NADA

O silêncio é a ausência do tudo, a abundância do nada, a tristeza líquida escorrendo dos olhos, o isolamento do beijo, a impossibilidade do abraço. É a canção calada, a mudez da festa, o não-cantar de um passarinho sem ter um arrebol em que pousar. É o ‘eu te amo’ guardado nas gavetas do esquecimento ou nos armários empoeirados do adeus. Silêncio é tudo que não quero.

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A LANTERNA DA MÚSICA BOA

Nos quadrantes de nossa arte apagaram-se as luzes. Escuro. Menos mal que, se querendo, a lanterna da música boa continua acesa e alumia os becos e esquinas de nossas vidas, clareia as escuridões que nos espreitam a cada segundo. E a casa toda se ilumina, ainda hoje, quando a vitrola velha, de agulha arranhadora de discos, nos brinda com seus chiados graves e agudos perfeitos, fazendo desaparecer nossas dores e pesadelos. São as alegrias do passado na poltrona da sala. Também nos acompanha no banco da frente de nosso carro, música convertida em modernos pen drives, fazendo felizes nossos ouvidos e não nos deixando andar só. Aliás, a vida fica menos perigosa quando nossa alma dá carona aos poetas e cantadores, quando nosso braço se apoia no ombro acolhedor de uma Elis, por exemplo, e nossa alma se deleita com um agudo de seu Luiz Gonzaga. Nosso interior saudoso agradece, comovido, este acender de luz brilhante. Nesse cenário, bêbados e equilibristas se abraçam em meio à chuva que cai propiciando erguer castelos de quimeras mil num mundo de fascinação que se perdeu com o passar do tempo, mas que a música não permite que se vá.

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AS VOLTAS QUE O SOL DÁ

Mais um ano está passando em minha vida ou, mais uma volta do sol ao redor da terra (ou é da terra em torno do sol? Não sei. Nunca fui bom em Astrologia)). Translação consumada. Tudo é questão de ponto de vista. Aos meus amigos, em seus aniversários, eu digo que eles estão um ano menos novo. É a mesma coisa de um ano mais velho, mas dito de uma forma mais carinhosa. Mas de nada adianta esconder o calendário e não rasgar-lhe a folhinha do tempo, a cada dia que vai passando, a cada passeio do sol. Esse ciclo inevitável é impiedoso e corre mais velozmente que nossos projetos e nossos desejos. É o ritmo alucinado da vida. Resta-nos aproveitar cada segundo como se fosse o derradeiro, fazendo o bem, desejando o bem. E a volta ao começo é uma verdade incontornável. A indesejada mulher nos espreita, sem marcar a hora em que vai bater à porta. Tomara que demore mas é inevitável que o dia chegue. O bom seria se a gente nascesse velhinho e fosse, a cada aniversário, rejuvenescendo até morrer no útero da mãe. Se foi Chaplin ou Chico Anysio que disse isso, não lembro, mas que seria bom se fosse desse jeito, ah, isso seria. Infelizmente, a vida não é assim.

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TEMPO MANSO

Tempo manso é o sertão
que não canso de louvar.
Ao vê-lo
já me lanço em mansidão,
na imensidão do ar …
Tempo pleno,
de um passado,
de um presente.
E não há Deus que o reinvente,
de tão sereno, de tão singelo,
de tão sofrido,
mas de tão belo.
Assim o sinto,
nada além do que desejo:
um sertão verde e chovido,
um jardim tão bem florido
e com um defeito só:
ser distante de um mar …

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O AZUL DO TEU LUGAR

Na paisagem quase azulada de teu lugar, percebo o céu e as paredes na cor azul. Até a porta é quase desta cor, numa tonalidade mais branda. Destoam do cenário as telhas e o chão: este, cor de barro; aquelas, vermelhas cor de telhas. A escada, deixa que eu azulo: faço que nem Penna … Desmantelo teu casulo, prometo não te fazer mal. E aí, o tudo mais que azul não for transformarei em cor: o teu pé e a tua mão, num azul bem terno e até teu barro-chão será azul celestial … Assim como faria Bandeira ou Cabral … Assim como fez Carlos Penna Filho. E num nascedouro sul vertiginosamente azul, seríamos todos espaços azuis de coisas gratas.

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