WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

CEGO ADERALDO

O poeta Sebastião Dias contava que em uma cantoria no Mercado de Fortaleza, Cego Aderaldo cantava com um cantador jovem que, sabendo que Aderaldo, mesmo solteiro, criava sete filhos adotivos, cutucou:

Não sei por que este cego
Nunca pensou em casar.

Cego Aderaldo respondeu na deixa:

Até pensei em casar
Falo a verdade, não nego!
Mas com minha experiência
Batata quente eu não pego.
Quem tem vista leva chifre
Imagine eu que sou cego!

Cego Aderaldo em foto de 1949. Publicada na revista O Malho em maio de 1953

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

MANÉ BANDÊRA

Manoel Bandeira da Silva (Mané Bandêra) nasceu no município de Quipapá-PE, em data que ele desconhecia.

Analfabeto e sem contato com alguém da sua terra natal (pelo menos nunca me falou de algum parente seu), Mané Bandêra chegou a Altinho no início da década de 1960.

Casou com a senhora Elvira, com quem teve o filho Adilson José da Silva (falecido). Morou até a sua morte em 1994, no sítio Sobradinho, Altinho-PE.

Foi durante a sua vida um trabalhador rural dos mais dispostos, trabalhando nas terras do meu avô João Maurício de Farias, dos meus tios maternos Alcides, Pedro e Gumercindo e participando dos famosos mutirões de roça nos sítios Quilombo, Letreiro e Cantinho.

Foi uma figura muito presente em minha infância na roça e na vida de muita gente da minha época.

Em 1994, após ficar sabendo do seu passamento para o Plano Superior, escrevi o poema MANÉ BANDÊRA, que foi publicado no jornal Diário da Amazônia, em Porto Velho, Rondônia.

MANÉ BANDÊRA temos,
desde o nascimento,
Nossos destinos traçados;
Uns são bem-afortunados,
Outros só têm sofrimento.

Não me queixo, nem lamento
Cada um tem seu valor:
Um nasce pra ser doutor,
A outra pra ser parteira…
Porém o Mané Bandêra
Nasceu pra ser lavrador!

Mané! Foste um ser humano
Sem fortuna, sem renome,
Mas tinhas o mesmo nome
De um vate pernambucano;
Quis, porém, O Soberano
Mudar a linha traçada,
Passaram na mesma estrada
Mas com diferentes metas:
Ele: Mestre dos Poetas!
Você: Mestre da Enxada!

Nos lugares que passaste
Todos sentem a tua falta,
Na roça, a tua ribalta,
Muito suor derramaste;
Mas foi lá que encontraste
O prazer de viver nela.
Tua camisa amarela
Foi “armadura de guerra”,
Quem mais descobriu a terra
Está coberto por ela.

Não vi, porém, imagino
A tua triste partida
Deixando enorme ferida
No Agreste Nordestino.
Quando repicou o sino,
Piou tristonho o tetéu,
Pegaste botas, chapéu,
O “pacaia” e a enxada
Pra primeira “empeleitada”
Com O Capataz do Céu.

Uma foto dos anos 90: Mané Bandeira, de camisa branca, e este colunista, bem jovem, no lado direito

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POETAS CANTADORES

Não há poeta pequeno
Em noite de inspiração.

Mote de José Lucas de Barros

As musas descem voando
Em direção ao poeta
Que sem saber se projeta
Em tudo que está cantando
A platéia admirando
O poder de criação
Do matuto do sertão
Devoto dO Nazareno.
Não há poeta pequeno
Em noite de inspiração.

As palmas são combustível
Para o vate violeiro
Cada canto do terreiro
O aplaude em alto nível
Parece que um dirigível
O guia em cada canção,
O vento presta atenção,
O calor se torna ameno,
Não há poeta pequeno
Em noite de inspiração.

Os matutos e doutores
Dos setores mais diversos
São levados por seus versos
Às paisagens multicores
As lembranças dos amores
Guardadas no coração
Retomam a ebulição
Mesmo no frio sereno.
Não há poeta pequeno
Em noite de inspiração.

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

A FEIRA DE SANTA CRUZ-RN

Mote:

“Tem tudo, não falta nada
Na feira de Santa Cruz”.

No mercado, um açougueiro
Retalha a perna de um touro
Chapéu de bola de couro
No quengo de um cabeceiro.
Um sujeito beradeiro
Carregando dois perus
Outro vendendo chuchus
Sobre uma lona rasgada
“Tem tudo, não falta nada
Na feira de Santa Cruz”.

Hélio Crisanto

Um caneiro envergonhado
Fala para o bodegueiro:
– Vou já pegar o dinheiro
Para acertar meu fiado.
Um declamador testado
Diz versos de Zé da Luz,
Um grupo de papangus
Passa numa batucada.
“Tem tudo, não falta nada
Na feira de Santa Cruz”.

Wellington Vicente

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

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LOURO DO PAJEÚ

Louro, o ouro do improviso,
Majestade do Repente.

Mote de Bia Marinho

Pelo estágio de calouro
Louro não passou, eu sei.
Já despontou como rei
Com seu repente de ouro.
Nunca engoliu desaforo,
Mesmo não sendo insolente,
Com resposta inteligente
Sempre foi digno e preciso.
Louro, o ouro do improviso,
Majestade do Repente.

Gregório Filomeno Menezes

É dos “Três Irmãos Batista”
Até hoje o mais lembrado,
Deixando um grande legado
À arte de repentista.
“O Cruzeiro” uma revista,
Mostrou ele e Zé Vicente,
Getúlio, era o presidente
Ouvindo com ar de riso.
Louro, o ouro do improviso,
Majestade do Repente.

Wellington Vicente

Recorte da Revista “O Cruzeiro”, ano de 1952

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A BANDA

Toda vez que a banda passa
Leva uma banda de mim.

Mote de Paulo Barba

Não sei o que aconteceu
Com o desfile e a banda
Só sei que meu peito anda
Sentindo a falta do seu.
O meu mundo entristeceu
Sem a voz do teu clarim,
Vou gastando meu latim
Nestes poemas sem graça.
Toda vez que a banda passa
Leva uma banda de mim.

Marcílio Pá Seca Siqueira

A Banda do Camarão,
Bandinha do Pé do Monte,
Hoje me servem de fonte
Onde bebo inspiração.
Tuareg’s, que emoção!
Tocava em todo festim.
Trepidant’s, meu carmim,
Labaredas, muito massa!
Toda vez que a banda passa
Leva uma banda de mim.

Wellington Vicente

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CHUVA NO SERTÃO

Um poeta matuto se distrai
Escrevendo as belezas do sertão.

Mote de Lenelson Piancó

No sertão quando passa uma neblina
É bonito demais de ver a cena
Do orvalho descendo pela pena
Da cabeça de um galo de campina.
Um carão às seis horas da matina
Canta alto, faz sua previsão.
Deus escuta a cantiga do carão
Abre a porta do céu, a água cai.
E um poeta matuto se distrai
Escrevendo as belezas do sertão.

Lenelson Piancó

A mesinha dos santos bem forrada,
Uma vela que há pouco foi acesa
Ilumina a imagem de Teresa,
Santo Antônio e Maria Imaculada.
A devota, escutando a trovoada,
Agradece através da oração.
O seu ato ao chegar na Amplidão
Bota um riso na face de Adonai.
Um poeta matuto se distrai
Escrevendo as belezas do sertão.

Wellington Vicente

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ZÉ VICENTE E ZÉ LIMEIRA

Zé Vicente da Paraíba (1922-2008), pai deste colunista

O poeta José Vicente da Paraíba chegava inesperadamente, quando Zé Limeira abria a primeira baionada, sob o pretexto de “molhar a goela”. Pontificando agora ao lado de Zé Vicente, o poeta do absurdo continua a ser aplaudido pela multidão que se avoluma, circulante, em torno da barraca.

O talento de Agnelo Amorim extrapola neste momento romântico com este mote:

São frios, são glaciais,
Os ventos da solidão.

E daí vem a inspiração de Zé Vicente, num relance:

Quando se sente saudade
Duma pessoa querida,
Dá-se um vazio na vida
E dói esta soledade…
Ninguém suporta a metade
Da dor do meu coração,
Lembrando o aceno de mão
Do amor que não voltou mais…
São frios, são glaciais,
Os ventos da solidão.

FONTE: Orlando Tejo, em Zé Limeira, poeta do absurdo.