JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Fernando Gasparian

Fernando Gasparian nasceu em 27/1/1930, em São Paulo, SP. Empresário, editor, livreiro, escritor, jornalista e político. Deputado federal na Assembleia Constituinte de 1988, ficou conhecido por ter proposto o polêmico § 3º do art. 192, a taxa de 12% ao ano. Fundador do jornal Opinião, teve atuação destacada na criação de uma imprensa livre e independente.

Filho de Zília Gasparian e Gaspar Gasparian, imigrante armênio e industrial do ramo têxtil, ingressou na Escola de Engenharia da Universidade Mackenzie, em 1948. No movimento estudantil, presidiu o Centro Acadêmico Horácio Lane e a UEE-União Estadual dos Estudantes de São Paulo, em 1951. Graduou-se em 1952 e no ano seguinte passou a integrar o grupo responsável pelo Jornal de Debates, ao lado de Rubens Paiva, Almino Afonso, Matos Pimenta e Marcos Pereira.

Ingressou na vida sindical e elegeu-se, em 1957, diretor e depois presidente do Sindicato das Indústrias da Fiação e Tecelagem de São Paulo, à época o maior sindicato patronal do País. No ano seguinte, integrou o quadro de diretores da FIESP/CIESP. Em 1960 foi diretor-financeiro da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Atuou como interventor na CNI-Confederação Nacional da Indústria, em 1961, substituindo Franco Montoro. Neste periodo, reduziu o nº de funcionários de 2 mil para 1.200 e conseguiu o apoio da CNI para o projeto de lei do 13º salário, aprovado mais tarde. No Governo João Goulart foi cogitado para assumir o Ministério da Indústria e Comércio, mas foi preterido por Auro de Moura Andrade. Em 1963 passou a integrar o CNE-Conselho Nacional de Economia. No ano seguinte, pouco antes do Golpe Militar, adquiriu, junto com Francisco Filleppo e Fuad Mattar a empresa América Fabril, que se encontrava sob intervenção do Banco do Brasil. Mudou-se para o Rio de Janeiro, em fins de 1964, e continuou na área sindical, vindo a representar o Estado no conselho da CNI. Por esta época ajudou a fundar o partido MDB-Movimento Democrático Brasileiro, de oposição ao governo militar e teve seu nome cogitado para suceder o governador Laudo Natel, de São Paulo.

Em 1966 lançou o livro Em Defesa da Economia Nacional, publicado pela Editora Saga. No ano seguinte, com a nova Constituição, foi extinto o CNE e ficou decidido que os membros ficariam em disponibilidade remunerada até o encerramento do mandato, em fins de 1968. Ele recusou-se a permanecer no cargo e pediu demissão. “Não iria passar pelo vexame de receber sem trabalhar”, declarou. Com a decretação do Ato Institucional nº 5 (AI-5), foi cassado e passou por um auto-exílio. Mudou-se para os EUA, onde foi trabalhar no Centro de Estudos Internacionais da Universidade de Nova Iorque, seguido da Inglaterra, passando a lecionar no St. Anthony’s College, da Universidade de Oxford, como professor-visitante na área de economia latino-americana.

Na ocasião, escreveu o livro Capitais estrangeiros e desenvolvimento na América Latina, lançado no Brasil em 1973, pela Ed. Civilização Brasileira. Ainda no exílio, seu filho Marcus Gasparian conta que ele “perdeu sua indústria ao ser forçado por um emissário do governo a assinar um documento no aeroporto de Heatrow, passando todas as suas ações pelo preço de um cruzeiro. Do contrário, todos os créditos seriam cortados, o que levaria a empresa à falência provocando o desemprego de milhares de funcionários”. Retornou ao Brasil, em 1972 e fundou o semanário Opinão, em oposição aberta ao regime militar. Entre os colaboradores, contava com os principais intelectuais brasileiros. Por essa época adquiriu o controle acionário da editora Paz e Terra e fundou a livraria e a revista Argumento. Como editor, recebeu de seu amigo Paulo Freire os originais do livro Pedagogia do oprimido, “contrabandeado” para o Brasil pelo diplomata suíço Jean Ziegler.

Mesmo que o autor fosse um exilado, cujas obras estivam proibidas pela censura, ele publicou a obra e a divulgou pelo país, arrostando a censura prévia e a perseguição política de que também era alvo. Em 1975, lançou os Cadernos de Opinião”, publicação mensal de maior fôlego e voltada ao público mais acadêmico. No mesmo ano foi diretor da SIP-Sociedade Interamericana de Imprensa e em agosto foi preso por ter publicado, nos Cadernos de Opinião, uma conferência do cardeal Dom Hélder Câmara, cujo nome era proibido até de ser mencionado na imprensa. A publicação foi apreendida e retornou mais tarde com o título Ensaios de Opinião. Em novembro de 1976, a sede do Opinião foi alvo de um atentado a bomba e deixou de circular no ano seguinte. A partir daí, ele passou a dedicar-se à administração da Editora Paz e Terra.

Com a extinção do bipartidarismo, em 1979, filiou-se ao PMDB-Partido do Movimento Democrático Brasileiro, vindo a integrar o diretório regional. Em 1982, voltou a morar em São Paulo e assumiu a vice-presidência do SNEL-Sindicato Nacional dos Editores de Livros, acumulando o cargo com a Secretaria de Relações Internacionais do PMDB. Em seguida foi tesoureiro da campanha de Fernando Henrique Cardoso à prefeitura de São Paulo em 1985, e no ano seguinte ocupou a tesouraria do PMDB de São Paulo. Em seguida elegeu-se deputado federal constituinte, empossado em 1987. Participou de diversas comissões, e ganhou notoriedade como relator da Subcomissão do Sistema Financeiro, onde defendeu uma emenda constitucional que previa restringir a cobrança de juros bancários a 12% ao ano, visando uma desoneração das atividades produtivas. Mais tarde afirmou que o limite de 12% de juros ao ano não prosperou por culpa dos banqueiros, que, segundo ele “mandam neste País”

Em 1988 presidiu a Comissão de Fiscalização e Controle dos atos do Executivo, junto com os trabalhos da Constituinte. Disputou a reeleição em 1990, mas obteve apenas uma suplência e deixou a Câmara em 1991. Enquanto isso, o governador de São Paulo, Orestes Quércia, construia a sede do Parlamento Latino-Americano, instalado no Memorial da América Latino, um sonho que vinha sendo alimentado por Franco Montoro durante décadas. Gasparian foi convocado para dirigi-lo no periodo 1993-1995, defendendo a formação da União Latino-Americana de Nações. Em 1995 o Parlatino ficou sob a presidência de um deputado colombiano e ele passou a compor o conselho consultivo da entidade e o conselho curador do Memorial da América Latina. Estas foram suas últimas atividades públicas. Logo retomou suas atividades na Editora Paz e Terra e veio a falecer em 7/10/2006. Os interessados em conhecê-lo melhor, podem acessar seu necrológio “Fernando Gasparian, o homem que disse não ao não” clicando aqui.

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AS BRASILEIRAS: Claudia Andujar

Claudia Andujar nasceu em 12/6/1931, em Neuchântel, Suiça. Destacada fotógrafa e ativista em defesa dos índios Yanomami desde a década de 1970, na condição de brasileira naturalizada.

Filha de Germaine Guye e Siegfrid Haas, engenheiro húngaro judeu, vitimado no campo de concentração de Dachau. Ainda criança foi morar num convento, fechado pouco depois. Em seguida foi morar com a mãe, que mantinha um relacionamento com um policial ligado aos nazistas, garantindo a sobrevivência de ambas, sobretudo da menina, considerada judia.

Em 1944, durante a II Guerra Mundial, a Hungria foi ocupada pela Alemanha e mãe e filha conseguem escapar, passando pela Áustria e chegar à Suiça. Ao fim da guerra, um tio paterno que vivia nos EUA, convidou-as a viver com ele em Nova Iorque, em 1948. Estudou Humanidades no Hunter College, à noite e trabalhava para se manter. Não concluiu os estudos e trabalhou no comércio; em escritório; manteve interesse pela pintura e foi guia de visitantes na sede da ONU. “Me empregaram porque eu falava várias línguas”.

Por essa época conheceu Julio Andujar, um refugiado da Guerra Civil Espanhola, com quem se casou em 1949, aos 18 anos. No ano seguinte, o marido se apresenta como voluntário na Guerra da Coréia (1950-1953), esperando ser recompensado com a cidadania americana. Ficou 3 anos em combate e ela não o perdoou dos perrengues que passou. Quando voltou deu-se a separação. “Por tudo que aconteceu, quis eliminar meu nome de infância, Claudine Haas. Queria começar uma vida nova.” Em 1955 mudou-se para o Brasil, em São Paulo, onde já vivia sua mãe. Comprou uma câmera Rolleiflex e passou a fotografar, mas nunca fez curso de fotografia.

Passou a viajar pelo Brasil e América Latina, fotografando para si mesma, e querendo estabelecer contato com a população, pois não dominava a língua portuguesa. Aos poucos, começou a publicar suas fotos em revistas brasileiras: Quatro Rodas, Setenta, Claudia, Goodyear Brasil e estrangeiras: Life, Look, Fortune, IBM, Horizon USA, Aperture. Interessada nos índios, manteve contato com Darcy Ribeiro, em 1958, que sugeriu conhecer a Ilha do Bananal, terra dos índios Karajá. Conheceu outras aldeias e tribos e obteve boas fotos, que foram compradas por Edward Steichen, diretor do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Está traçado e pavimentado o caminho de uma grande fotógrafa, destacada na área do “fotojornalismo”.

Trabalhou na revista Realidade, da Editora Abril, no período 1966-1971, onde conheceu o fotógrafo George Love, o segundo marido. Em 1971, através de uma edição especial da Realidade sobre a Amazônia, foi conduzida até os índios Yanomami. Esta viagem foi o divisor de águas em sua carreira e em sua vida. Afim de se aprofundar no conhecimento da cultura indígena, saiu de São Paulo e foi viver entre Roraima e Amazonas. Para isso contou com o apoio de duas bolsas da Fundação Guggenheim em 1971 e 1974. Pouco depois separou-se do marido e conseguiu uma nova bolsa da FAPESP, para prosseguir seu trabalho com os Yanomami.

Em 1978 foi enquadrada na “Lei de Segurança Nacional” pelo governo militar, mesmo sem ter expressiva participação política, e foi expulsa do território indígena pela FUNAI-Fundação Nacional do Índio. Retornou à São Paulo e comandou a organização de um grupo de estudos visando a criação de uma área indígena Yanomami, o embrião da ONG “Comissão pela Criação do Parque Yanomami-CCPY”, com ajuda do missionário leigo italiano Carlo Zacquini. A partir daí passou a denunciar as ameaças à sobrevivência dos Yanomami e promoveu uma grande campanha pela demarcação da terra indígena, que veio ocorrer em 1992. Não fosse sua atuação nessa conquista, os Yanomami hoje não estariam mais aí para defender seus direitos novamente ameaçados.

Ao longo da década de 1980, foi diminuindo sua função de fotógrafa conhecida mundialmente, na medida em que foi aumentando sua participação, mobilizando forças em torno da demarcação de terras indígenas. Teve seus trabalhos expostos em várias amostras coletivas e individuais. Em 2005 expôs na Pinacoteca de São Paulo A Vulnerabilidade do Ser, a mais completa. Em 2015 apresentou Claudia Andujar no lugar do outro, no IMS-Instituto Moreira Salles (RJ), A 1ª parte de suas obras. A 2ª parte, dedicada aos Yanomami, foi exibida no IMS de São Paulo e em 9 países entre 2018 e 2024. Sua obra está exposta numa galeria permanente no Instituto Inhotim.

Seu acervo com mais de 40 mil fotos, documentos e publicações foi adquirido pelo IMS, em 2023. Foi agraciada com a Ordem do Mérito Cultural, pelo governo brasileiro, em 2008, e recebeu a Medalha Goethe, do Goethe Institut/República Federal da Alemanha, por seu trabalho junto aos índios Yanomami. Conta ainda com 12 livros publicados no Brasil e exterior na área fotográfica e defesa dos índios Yanomami.

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MEMORIAL: Domingos José Martins

Domingos José Martins nasceu em Marataízes, ES, em 9/5/1781. Militar, comerciante e um dos líderes e mártir da Revolução Pernambucana de 1817, que antecipou em 5 anos a independência do Brasil. Entusiasta dos ideais liberais, ligado à maçonaria inglesa e amigo de Francisco de Miranda, precursor da independência da América espanhola.

Filho de D. Joana Luíza de Santa Clara Martins e do capitão de milícias Joaquim José Martins, comandante do “Quartel” de estrada, cuja função era fiscalizar e impedir o desembarque clandestino de escravizados africanos. Teve os primeiros estudos em Salvador e mais tarde foi complementar sua formação em Lisboa e seguiu para Londres, onde foi comerciante na firma Dourado Dias & Carvalho. Pouco depois tornou-se sócio da firma.

Retornou ao Brasil em 1813 e passou a viver no Recife, onde se estabeleceu no comércio. Era um observador inteligente, ambicioso, afável e logo percebeu a evolução das ideias liberais na Europa. Se deu bem no Recife no ramo comercial e mantinha bom relacionamento num grande círculo social. Conta a história que era um homem que “andava de braços com todos os cabras, mulatos e crioulos”. Nesta citação pode-se ver o quanto ele tinha influência em todos os níveis sociais e também poder político, pois arregimentou muitos militares para a causa.

Compreendeu bem as aspirações libertárias das nações latino-americanas e percebeu que Pernambuco poderia ser um glorioso capítulo do processo de emancipação de Portugal. A vinda da Coroa Portuguesa para o Brasil, em 1808, junto com altos custos para mantê-la, propiciaram as condições para se instalar os alicerces do último movimento separatista de caráter republicano do período colonial brasileiro. Em seguida fundou a loja maçônica “Pernambuco do Ocidente” e, em segredo, planejou a revolução com data marcada para 1817.

No início daquele ano, viajou para Salvador e para o Rio de Janeiro e acertou os trâmites com seus confrades maçons. O levante se daria simultaneamente naquelas duas cidades e no Recife, as três maiores do País, na Semana Santa, em abril. Entretanto, o comerciante português “Carvalhinho”, descobriu a trama e a denunciou ao governador da Capitania Caetano Pinto Montenegro, que ordenou a prisão dos líderes civis e militares do movimento, em 6 de março. Os civis, incluindo Domingos, foram logo detidos. Mas, quando o brigadeiro português Manoel Barbosa deu ordem de prisão ao capitão José de Barros Lima, apelidado de “Leão Coroado”, o caldo entornou.

Em vez de se render, sacou a espada e atravessou a barriga do brigadeiro. Assim a rebelião iniciou no quartel daquela tropa, logo recebendo apoio dos recifenses e rapidamente se estendeu por todo Pernambuco, atingindo a Paraíba e o Rio Grande do Norte, nos dias seguintes. A Corte, instalada no Rio Janeiro, sentiu o golpe; preparou uma esquadra bem armada; enviou-a ao Recife; fechou as cercanias da cidade e, em 3 meses, conseguiu derrotar os revoltosos. Muitos deles foram mortos logo após o confronto e Domingos foi enviado para julgamento em Salvador, sendo fuzilado em 12/6/1817.

Evaldo Cabral de Mello, em seu livro Rubro Veio, considera que depois dos movimentos existentes em Pernambuco (a Restauração em 1654 contra o domínio Holandês, Guerra dos Mascates entre 1710 e 1712, a Revolução Pernambucana 1817, Confederação do Equador em 1824 e Revolta Praieira em 1848) “os pernambucanos se orgulhariam de sua participação ativa na história do Brasil, sempre mantendo altos ideais de liberdade”. Estes movimentos libertários foram instalados no imaginário ativista brasileiro.

Domingos José Martins, conhecido na história como líder da Revolução Pernambucana de 1817, é bastante reconhecido no Espírito Santo, sua terra natal. É patrono da Polícia Civil do Estado e do Instituto Histórico e Geográfico, em Vitória; nomeia algumas escolas e deu nome à cidade Domingos Martins. Em 2011 seu nome foi inscrito no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”

Clique aqui e veja vídeo com a história de Domingos José Martins.

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AS BRASILEIRAS: Luz del Fuego

Dora Vivacqua nasceu em 21/2/1917, em Cachoeiro de Itapemirim, ES, em 21/2/1917. Dançarina, atriz, escritora, naturista e feminista. Pioneira do naturismo no Brasil e fundadora do primeiro reduto naturista da América Latina na década de 1940. Foi pioneira também na luta pela emancipação das mulheres.

Filha de Etelvina Souza Monteiro Vivacqua e José Antônio Vivacqua, tradicional família de políticos e intelectuais, vivendo em Belo Horizonte no “Salão Vivacqua”, um casarão que promovia saraus mensais frequentados por Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e a turma modernista da cidade, onde ela participava ainda criança.

Desde cedo exibia comportamento rebelde e gostava de caminhar pela praia de Marataízes somente de roupa íntima e bustiê. Nos carnavais aparecia com curtas fantasias confeccionadas por ela mesma. Era uma adolescente aversa às convenções sociais. Aos 20 anos fugiu para o Rio de Janeiro e quando foi encontrada pela família, foi enviada ao Colégio da Imaculada Conceição, do qual saiu aos 21 anos, com a maioridade. Em seguida, bacharelou-se em Ciências e Letras, mas preferiu seguir carreira artística em 1942. Sua estreia no cinema, se deu em 1946, com o filme No Trampolim da Vida, apresentando-se com suas cobras vivas. No ano seguinte, embarcou em uma excursão para Nova Iorque, onde se apresentou em danceterias noturnas por três meses.

Foi a primeira artista brasileira a aparecer nua no palco. Fez o curso de dança de Eros Volúsia, adestrou serpentes e estreou nos teatros de revista do Rio com o nome “Luz del Fuego”. Fazia espetáculos de dança com uma serpente enrolada no corpo quase nu. Foi desse modo que provocou furor em todo o País, tornando-se numa das principais artistas do teatro mais conhecidas na década de 1950, chegando a excursionar pelo exterior. Foi repudiada pelo público conservador; enfrentou a repressão; foi expulsa de algumas cidades e impedida de entrar noutras.

Pouco antes do sucesso, passou a expor seus ideais existencialistas e naturistas em defesa dos direitos da mulher e da liberdade de expressão, combatendo os preconceitos sociais. Publicou 2 livros: Trágico Black-out, em 1942, um “romance passado em três noites de escurecimento em Copacabana” e A verdade nua, em 1943, uma autobiografia expondo os ideais de sua filosofia naturista e suas ideias naturistas de vegetarianismo e nudismo. O livro foi apreendido pela polícia em 1948. Mas uma 2ª edição saiu em 1950, vendido por reembolso postal. Junto com o livro, lançou a teorização do movimento naturista brasileiro, defendendo-o das acusações de imoralidade.

Tentou candidatar-se a deputada federal no Partido Naturista Brasileiro, fundado por ela mesma, mas não obteve o registro. Logo aventurou-se em algumas produções cinematográficas ao longo da década de 1950. Por essa época, conseguiu uma autorização da Marinha do Brasil para ocupar a ilha Tapuama de Dentro, rebatizada como “Ilha do Sol”, onde fundou o Clube Naturista Brasileiro, em 1951. Foi o primeiro do gênero na América Latina, mantendo rígido controle e proibindo a entrada de bebidas alcoólicas, palavras de baixo calão e relações sexuais, bem como a entrada de menores de idade.

Seu clube chegou a receber as visitas Ava Gardner, Errol Flynn, Glen Ford, Brigitte Bardot e Steve MaQueen. Segundo o Correio da Manhã, mais de 3 milhões de pessoas visitaram a ilha. O local foi incluído na Federação Internacional de Nudistas, na Alemanha, e ela foi entrevistada pela revista Frieden Leden. Mais tarde foi convidada para viajar à Alemanha, para concorrer ao título de “Mais Bela Nua do Mundo”. Por volta de 1960, foi morar na Ilha do Sol; afastou-se do teatro de revista e dedicou-se mais ao cinema. Em 1965 queixou-se à polícia da visita de malfeitores à Ilha. Meses depois reiterou a reclamação, citando a presença de dois pescadores suspeitos. Em 19/6/1967 os tais pescadores mataram-na a facadas e saquearam sua casa. Seu corpo foi encontrado 10 dias depois no mar.

Sua história foi tema do documentário A Nativa Solitária (1954) e do filme Luz del Fuego (1982). Em 2010 foi incluída na lista das “Musas que fizeram a história do Rio” Três biografias dão conta de sua vida e legado: (1) Luz del Fuego, de Aguinaldo Silva e Joaquim Vaz de Carvalho, incluído como vol. 122 da Coleção Edições do Pasquim; (2) Luz del Fuego: a bailarina do povo, de Cristina Agostinho. Edições Loyola, 1994 e A verdadeira Luz del Fuego, de Thiago de Menezes, publicado (s,d.) pela editora All Print.

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OS BRASILEIROS: Rubens Paiva

Rubens Beirodt Paiva nasceu em 26/12/1929, em Santos, SP. Engenheiro, empresário, jornalista e político. Deputado federal pelo PTB em 1962, foi cassado em 1964 pela ditadura militar. Após o autoexilo, retornou ao Brasil em princípios de 1970 e manteve contatos com os exilados. Em 1971 foi preso, torturado e assassinado num quartel militar do Rio de Janeiro, sob a suspeita de envolvimento com o guerrilheiro Carlos Lamarca.

Filho de Jaime de Almeida Paiva, um dos maiores fazendeiros do Vale do Ribeira e prefeito da cidade de Eldorado Paulista. Teve os primeiros estudos em São Paulo, no Colégio Arquidiocesano e Colégio São Bento e formou-se engenheiro civil pela Universidade Mackenzie numa época de grande efervescência política. Com presença ativa no movimento estudantil, alcançou a vice-presidência da UEE-União Estadual dos Estudantes. Em 1962 foi eleito deputado federal por São Paulo, no Partido Trabalhista Brasileiro-PTB. No ano seguinte participou da CPI- Comissão Parlamentar de Inquérito, criada para examinar as atividades do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais – Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IPES-IBAD), que financiava escritores com artigos sobre a chamada “ameaça vermelha” no Brasil. Sua participação nesta CPI foi uma das causas que resultou em sua prisão em 1971.

No dia do Golpe Militar, em 1° de abril de 1964, fez um breve discurso, na Rádio Nacional, criticando o governador paulista, Ademar de Barros, apoiador do golpe, e conclamando trabalhadores e estudantes a defenderam a legalidade. Foi um dos primeiros políticos cassados após o Golpe, em 10 de abril. Pouco depois, se exilou na Iugoslávia e França, onde permaneceu por um ano e retornou ao Brasil, sem comunicar as autoridades. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde voltou a exercer a engenharia e retomou seus negócios. Como atividade política em segundo plano fundou, junto com Fernando Gasparian, o Jornal de Debates; dirigiu o jornal Última Hora e manteve contatos com seus amigos exiliados e ajudou alguns deles ainda no Brasil, em risco de serem presos, a saírem do País. Em 1969 esteve em Santiago, Chile, para ajudar a exilada Helena Bocayuva Cunha, filha de seu amigo Bocayuva Cunha, também cassado em 1964.

Pouco depois, uma pessoa, que trazia uma carta de Helena endereçada a ele, foi presa pelos órgãos da repressão política. Os agentes suspeitaram que ele fosse o contato de “Adriano”, membro do MR-8 e contato de Carlos Lamarca, na época o militante mais procurado do País. Em 20/1/1971, seis homens armados invadiram sua casa e levaram-no para o quartel do comando da III Zona Aérea, junto com a esposa e filha de 15 anos. A filha foi solta no dia seguinte, deixada na Praça Saens Peña e a esposa ficou presa por 12 dias. Em seguida foi transferido para o DOI-CODI, no quartel da Polícia do Exército, onde foi interrogado, torturado e veio a falecer devido aos ferimentos sofridos. Em nota oficial, os órgãos de segurança alegaram que o carro que o levava à prisão, foi abalroado e atacado por desconhecidos, que o sequestraram. Assim, ele foi dado oficialmente como desaparecido.

A partir daí inicia a via sacra de sua esposa – Eunice Paiva – para que o Governo investigasse o desaparecimento do marido. Esteve no STM-Supremo Tribunal Militar e no Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, sempre barrada pela farsa do desaparecimento. A falsa versão foi desmascarada apenas em 2014. Em depoimento à CNV-Comissão Nacional da Verdade, o major Raimundo Ronaldo Campos, admitiu ter montado a versão, incendiando e atirando no suposto fusca no qual Paiva teria sido resgatado por subversivos, para que ele assim fosse encontrado, confirmando a versão oficial de resgate.

Em carta, ainda em 1971, ao Conselho de Defesa dos Direitos Humanos, Eunice Paiva contou que provavelmente seu marido começara a ser torturado no mesmo dia de sua prisão, durante o interrogatório na sede da III Zona Aérea, sob o comando do brigadeiro João Paulo Burnier. Em 1996, com a Lei dos Desaparecidos Políticos, promulgada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, foi emitido o atestado de óbito do deputado, ficando assim reconhecida oficialmente a sua morte. O corpo, entretanto, nunca foi encontrado.

Em fevereiro de 2014, a CNV confirmou o assassinato de Rubens. Seu relatório final concluiu que ele “foi morto e desaparecido quando (…) se encontrava sob a guarda do Estado brasileiro, em contexto de sistemáticas violações de direitos humanos promovidas pela ditadura militar, implantada no país a partir de abril de 1964, restando desconstruída a versão oficial divulgada à época dos fatos.” Em março do mesmo ano, sob condição de anonimato, o jornal O Globo publicou o depoimento de militares envolvidos no caso, esclarecendo o que foi feito com o corpo. Foi enterrado na zona oeste da cidade e 2 anos depois seus restos mortais foram jogados em alto mar.

Em seguida o MPF-Ministério Público Federal decidiu instaurar a denúncia formal de 5 militares reformados envolvidos no caso. A denúncia foi aceita e os militares tornaram-se réus pelos crimes de homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver e associação criminosa, além fraude processual. O MPF pedia, também, cassação das aposentadorias e a anulação de medalhas e condecorações obtidas por eles. O entendimento foi que os crimes não estavam prescritos, pois constituíam crimes de lesa-humanidade. No entanto, na última instância, o ministro Teori Zavascki, do STF, concedeu liminar aplicando a jurisprudência da corte, reconheceu a constitucionalidade da lei de anistia, e assim suspendeu o processo.

Por outra via institucional, em 2/4/2024, o Conselho Nacional dos Direitos Humanos anunciou a reabertura da investigação sobre o assassinato de Rubens Paiva. Embora tenha sido considerada constitucional pelo STF, a Lei da Anistia não abrange crimes comuns, como ocultação de cadáver. Assim, o TRF-Tribunal Regional Federal-2 negou o trancamento do processo. O relator, Messod Azulay, também entendeu que se trata de crime permanente, ou seja, crime que, em tese, ainda continua sendo perpetrado porque o corpo não foi localizado. A procuradora Silvana Batini, considerou “histórica” a decisão. Segundo ela, foi a primeira vez que a Justiça brasileira reconheceu que determinados crimes cometidos durante a ditadura militar configuram crimes contra a humanidade.

Os interessados em conhecer o caso Rubens Paiva em detalhe, podem consultar a dissertação de mestrado A construção da busca por Rubens Paiva: um estudo de caso nas investigações sobre o desaparecimento do parlamentar (2016) de Julian Schwatz Dal Piva, no CPDOC-Centro de Pesquisa e Documentação da FGV-Fundação Getúlio Vargas, (clique aqui para acessar)

Rubens Paiva vem sendo homenageado desde 1992, quando seu nome foi dado ao Terminal de Integração de Passageiros, em Santos; em 1998 nomeou a estação do Metrô do Rio, no bairro da Pavuna; em 2014, seu busto foi inaugurado na Praça Lamartine Babo, na Tijuca em frente e de costas ao 1º Batalhão de Polícia de Exército, a sede do DOI-CODI, local onde foi torturado e morto. Em 2015, seu filho, Marcelo Rubens Paiva, publicou o livro Ainda Estou Aqui, pela Editora Alfaguara, contando a história de seu desaparecimento.

O livro entrou na lista dos melhores livros do ano; foi indicado aos prêmios “Oceano” e “Governador do Estado” e obteve o 3º lugar no Prêmio Jabuti. Em 2024 foi adaptado para o cinema por Walter Salles e obteve um dos maiores recordes de bilheteria. O filme estrelado por Fernanda Torres e Selton Mello recebeu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza entre outros prêmios; Fernanda Torres foi premiada como melhor atriz no “Globo de Ouro” e foi escolhido para representar o Brasil no Oscar de 2025, na categoria de melhor filme internacional.

Obs: “Li, conferi e atesto a correção de todas estas informações”.
José Paulo Cavalcanti Filho- Membro da Comissão Nacional da Verdade.

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AS BRASILEIRAS: Eunice Paiva

Maria Lucrécia Eunice Fracciolla Paiva nasceu em São Paulo, SP, em 7/11/1929. Advogada e um dos símbolos da luta contra a ditadura militar no Brasil. Destacou-se pelo empenho na denúncia e busca dos desaparecidos políticos, incluindo seu marido, o deputado federal Rubens Paiva. A gravidade do caso e o sentimento evocado contribuíram para obnubilar sua contribuição na defesa legal dos direitos dos povos indígenas.

Cresceu no bairro do Brás numa comunidade de imigrantes italianos e pouco depois se mudou para o bairro de Higienópolis, onde se formou no curso de Letras, na Universidade Mackenzie, aos 18 anos, com fluência nas línguas inglesa e francesa. Aos 23 anos casou-se com Rubens Beirodt Paiva; tiveram 5 filhos e era amiga de alguns escritores, como Lygia Fagundes Telles, Antonio Calado e Haroldo de Campos.

No ano de 1971, com o Brasil em pleno regime ditatorial, seu marido, na condição de deputado federal, foi sequestrado, torturado e assassinado pela ditadura. Os militares foram até sua casa e levaram-no junto com ela e a filha de 15 anos. A menina ficou presa por um dia e ela ficou presa 12 dias passando por interrogatórios, enquanto o marido já devia estar morto. Aqui começa sua luta para descobrir o que ocorreu com o marido desaparecido. Em recente decisão (dezembro de 2024) o ministro do STF Flávio Dino, decidiu que a Lei da Anistia não pode valer para casos de ocultação de cadáver. Trata-se de uma conquista na luta por justiça aos desaparecidos durante o regime militar (1964-1985) e pelo fortalecimento do Estado Democrático de Direito no País.

Ciente da tarefa que iniciava, ingressou, de novo, na Unversidade Mackenzie, afim de tornar-se advogada. Formou-se em 1977, aos 47 anos, e passou a liderar campanhas para abertura de arquivos sobre vítimas da ditadura, mesmo correndo riscos. Mais tarde ficou comprovado que ela e os filhos foram vigiados pelos militares de 1971 a 1984. Sua trajetória, junto com outras duas viúvas de presos políticos, foram contadas no documentário Eunice, Clarice (Vladimir Herzog), Thereza (Manuel Fiel Filho) lançado em 1978 por Joatan Berbel.

Sua luta resultou na promulgação da Lei 9.140/95, que reconhece como mortas as pessoas desaparecidas devido a sua partipação em atividades políticas. No ano seguinte, 25 anos depois, ela conseguiu em 1996 que o Estado emitisse o atestado de óbito de seu marido, mesmo não encontrando o corpo. Sua dedicação à causa indígena resultou na publicação, junto com Manuela Carneiro da Cunha, do livro O Estado contra o índio, em 1985. Pouco depois, em 1987, fundou o IAMA-Instituto de Antropologia e Meio Ambiente, uma ong que atuou na defesa e autonomia dos povos indígenas.

Em 1988, foi consultora da Assembleia Nacional Constituinte, que promulgou a Constituição Federal Brasileira. Em fins da década de 1980, atuou no Conselho Consultivo da Fundação Mata Virgem, uma fundação criada pelo músico Sting, para lutar pela demarcação da terra dos índios Kayapó, no Xingu. Seu filho, o escritor Marcelo Rubens Paiva, conta que “A minha mãe tinha uma vida incrível, porque ela ficou viúva aos 41 anos, com cinco filhos, se formou em direito e virou uma militante muito intensa com relação à anistia, redemocratização, Diretas-Já, Constituinte. Ela começou com o direito de família, mas depois se especializou em direito indígena. Ela era uma das pouquíssimas especialistas em demarcações de terras indígenas e passou a ser requisitada”.

Em 2015, Marcelo publicou o romance autobiográfico Ainda estou aqui, contando a história de sua mãe e entrou na lista dos melhores livros do ano. Foi também indicado aos prêmios “Oceano” e “Governador do Estado” e obteve o 3º lugar no Prêmio Jabuti. Em 2024 foi adaptado para o cinema por Walter Salles e ganhou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza e foi escolhido para representar o Brasil no Oscar de 2025, na categoria de melhor filme internacional. No âmbito interno, o filme obteve um dos maiores recordes de bilheteria. Em 5/4/2024, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo outorgou o “Colar de Honra ao Mérito Legislativo” às 3 mulheres que simbolizam a luta contra a ditadura: Clarice Herzog; Ana Dias e, postumamente, Eunice Paiva.

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OS BRASILEIROS: Oswaldo Aranha

Oswaldo Euclides de Sousa Aranha nasceu em Alegrete, RS, em 15/2/1894. Advogado, diplomata e político. Personagem destacado na política brasileira na década de 1930, no governo Vargas, e nas relações do Brasil com os EUA. Presidiu a Assembleia Geral da recém-criada ONU, em 1947, atuando no Plano de Partilha da Palestina, que criou o Estado de Israel. A tradição de se manter a abertura da reunião anual da ONU, por um brasileiro, é mantida até hoje.

Filho de Luísa Jacques de Freitas Vale Aranha e Euclides Egídio de Sousa Aranha, fazendeiro e coronel da Guarda Nacional, teve os primeiros estudos no Colégio dos Jesuítas de São Leopoldo e no Colégio Militar do Rio de Janeiro, concluído em 1911, aos 17 anos. Ingressou na Faculdade Nacional de Direito, mas antes de se formar, foi para a França em tratamento da saúde e passou uma temporada em Paris. Aproveitou a estadia para aprofundar estudos na área jurídica e, de volta ao Brasil, retomou o curso de Direito, concluído em 1916. Na universidade manteve intensa atividade política junto a alguns nomes que se destacariam mais tarde no cenário nacional.

Retornou ao Rio Grande do Sul e instalou banca de advogado em Uruguaiana, em 1917, aos 24 anos. Aí atuou até 1923 e ficou conceituado em questões relacionadas com transações de terra e gado. Nessa época travou amizade com o advogado Getúlio Vargas, com quem chegou ter clientes em comum. Em 1923, quando explodiu a luta fratricida entre “chimangos” (aliados de Borges de Medeiros, presidente do estado) e “maragatos” (opositores à sua quinta reeleição), chegou a pegar em armas a favor do sistema republicano de Borges de Medeiros. Em 1925 foi prefeito de Alegrete, cidade fundada por seu avô. Além de Porto Alegre, foi a única cidade do Estado a contar com luz elétrica nas ruas, calçamento e rede de esgotos. Com sua peculiar diplomacia conseguiu apaziguar os conflitos entre as famílias separadas pelos conflitos entre os chimangos e maragatos, de 1923.

Em 1924 foi lecionar direito internacional na Faculdade de Direito de Porto Alegre e participou dos combates aos movimentos armados, incluindo a “Coluna Relâmpago”, em fins de 1926, visando impedir a posse de Washington Luiz na presidência da República. Nesse combate, foi atingido no pé e teve o calcanhar esfacelado. Sempre atuante na política, foi candidato pelo PRR-Partido Republicano Rio-grandense, e eleito para a Assembleia de Representantes do estado. Mas não chegou a assumir o cargo, pois logo seria eleito também para a Câmara Federal, em maio de 1927, ocupando o lugar de Vargas, que foi indicado para o Ministério da Fazenda.

Na Revolução de 1930, agia nos bastidores para organizar o levante armado e negociou com a Junta Governativa Provisória a entrega do Governo a Getúlio Vargas e foi nomeado Ministro da Justiça. No ano seguinte assumiu o Ministério da Fazenda, consolidando a dívida externa brasileira. Como foi alijado do processo político na escolha do interventor em Minas Gerais, pediu demissão do cargo em 1934 e foi assumir a embaixada brasileira nos EUA. Ficou impressionado com a democracia estadunidense e tornou-se amigo do presidente Franklin Roosevelt. Em 1937 não aceitou os rumos da política de Vargas, com o Estado Novo, e entregou o cargo de embaixador. No entanto, aceitou o cargo de Ministro das Relações Exteriores; combateu a tendência germanófila do governo e buscou maior aproximação com os EUA. Sob sua direção o Itamaraty passou por uma grande reforma administrativa.

Na II Guerra Mundial, destacou-se na criação da ala pan-americanista, defendendo a aliança com os EUA e contra o ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra, partidário de uma aproximação com a Alemanha. Presidiu a “Conferência do Rio”, em 22/8/1942, quando o Brasil rompe as relações com os países do Eixo, anunciando o estado de beligerância com a Alemanha Nazista e a Itália. Foi uma vitória de suas convicções pan-americanistas. Pouco depois se demitiu de cargo de chanceler, após o fechamento da Sociedade dos Amigos da América, da qual era vice-presidente, em 1944. Alguns analistas viam-no como candidato natural nas eleições de 1945, mas a falta de uma base política e a fidelidade a Vargas fizeram com que não disputasse as eleições.

Em 1947 voltou à cena política como chefe da delegação brasileira na recém-criada ONU-Organização das Nações Unidas e presidente da Assembleia Geral, que votou o “Plano de Repartição da Palestina, culminando na criação do Estado de Israel. Tal feito rendeu-lhe eterna gratidão dos judeus e sionistas por sua atuação. Foi homenageado com seu nome dado a ruas em Tel Aviv, Bersebá, Ramat Gan e uma em Jerusalém. Em 1953 voltou a ocupar a pasta da Fazenda, promovendo reformas na área econômica, enfrentando a crise do final do governo Vargas. Com a morte de Vargas, retirou-se do governo e só voltou no governo Juscelino Kubitschek (1956-61), retornando à ONU na frente da delegação brasileira e fechando sua carreira política.

Faleceu em 27/1/1960 e dentre as diversas homenagens que recebeu em vida, consta o prato carioca “Filé à Oswaldo Aranha”, um filé alto temperado com alho frito, acompanhado de batatas portuguesas e farofa de ovos. Certamente era um “bon gourmet”. Em 2020 entrou no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”. No ano seguinte, seu neto Pedro Correa do Lago prestou-lhe uma homenagem com o lançamento do livro Oswaldo Aranha – Uma fotobiografia, pela Ed. Capivara. É detentor de diversas biografias, com destaque para Oswaldo Aranha: a Estrela da Revolução, de Aspásia Camargo, lançada pela Ed. Mandarin em 1996; Oswaldo Aranha: uma biografia, de Stanley Hilton, lançada pela Ed. Objetiva em 1994 e Oswaldo Aranha: um estadista brasileiro, de Sérgio Eduardo Moreira Lima, lançada pela Ed. da Fundação Alexandre Gusmão em 2017.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Zacimba

Zacimba Gaba nasceu em Angola, em meados do século XIX. Foi uma princesa da nação Cabinda, capturada como escrava e trazida para o Brasil, numa fazenda em Espírito Santo. Liderou uma revolta dos escravizados e fundou um quilombo às margens do riacho Doce. Passou a vida na construção de canoas e na organização de ataques noturnos no porto próximo à São Mateus para libertar os negros recém-chegados.

Ao chegar no Brasil, foi vendida com mais 12 súditos como escravos ao fazendeiro português José Trancoso, e foi castigada por não se submeter às ordens do senhor. Num primeiro momento, o fazendeiro não tinha noção do seu status entre os angolanos, mas percebeu logo o tratamento dado a ela. Assim, foi torturada e revelou que fazia parte da realeza em sua terra de origem. Conta-se que ela proibiu seus companheiros de a libertarem até que ela conseguisse envenenar seus algozes. O que foi feito aos poucos, utilizando-se de um pó preparado com a cabeça moída de uma cobra jararaca, o “pó de amansar sinhô”.

Após a fuga da Casa Grande, com a morte do fazendeiro e alguns capatazes, ela guiou seu povo pelo interior e criou um quilombo nas margens do Rio Doce, próximo do atual distrito de Itaúnas, na cidade de Conceição da Barra, no Espírito Santo. O povo de Zacimba organizou algumas revoltas pela liberdade e o quilombo tornou-se ponto de referência para escravizados em fuga. A princesa passou o resto da vida guiando batalhas no porto de São Matheus pela libertação dos negros chegados da África, e pela destruição dos navios negreiros. Faleceu na invasão de um navio português, lutando pela libertação do povo cabindense.

Existe pouca documentação sobre a vida de Zacimba e a que existe não é precisa, com algumas fontes indicando o século XIX e outras o século XVII, o período de sua existência. Mas existem alguns livros contando sua história. Em 1995 Maciel de Aguiar publicou o livro Zacimba Gaba: princesa, escrava, guerreira, pela Editora Brasil em parceria com o Centro Cultural Porto de São Mateus. Uma nova edição foi relançada em 2007 pela Memorial Editora.

No livro Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis, Jarid Arraes retrata a história de Zacimba em cordel.

“ (…) Quando Zacimba chegou
E então foi interrogada
Respondeu com altivez
Fez a história confirmada
Era sim uma princesa
Por seu povo era adorada (…)

Em 2020 Tati Rabelo e Rod Linhares realizaram o documentário Zacimba Gaba: um raio na escuridão, uma mistura de animação e cenas reais, em que 3 mulheres contam sua história. Zacimba é uma das descendentes do quilombo de Linharinho, no Espirito Santo e atualmente é uma figura destacada na história do Estado.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Marc Ferrez

Marc Ferrez nasceu no Rio de Janeiro, em 7/12/1843. Um dos primeiros fotógrafos do Brasil, teve atuação destacada no período 1860-1922, constituindo o mais importante legado visual do País neste período. Suas fotos retratam diversos aspectos da vida brasileira, com ênfase nos processos de modernização urbana e vistas panorâmicas do Rio de Janeiro.

Filho de Alexandrine Caroline Chevalier e Zéphyrin Ferrez, gravador de medalhas e escultor vindo como membro da Missão Artística Francesa. Ficou órfão de pai e mãe aos pais aos 7 anos, e foi mandado para a França, onde foi morar com o escultor e gravador Alphée Dubois; estudou até a adolescência, e retornou ao Brasil. Foi trabalhar na casa Leuzinger, uma papelaria e tipografia com uma seção de fotografia. Aí aprendeu a técnica fotográfica com Franz Keller.

Aos 21 anos abriu a firma Marc Ferrez & Cia., um estúdio fotográfico, e logo tornou-se um dos principais fotógrafo da Corte. Aprimorou a técnica fotográfica com estudos de física e química, estando sempre a par das últimas novidades técnicas e importando novos equipamentos da Europa. Foi além de seu ofício mantendo o comércio de equipamentos e materiais fotográficos. A partir de 1905, junto com os filhos Júlio e Luciano Ferrez, passou a dedica-se também ao cinema, tornando-se dono do “Cinema Pathé”, um dos primeiros do Brasil, e distribuidor de filmes.

Na década de 1870 realizou a documentação fotográfica de diversos eventos, como a construção do Arco do Triunfo e do Templo da Vitória, no Campo da Aclamação, bem como os festejos públicos ao término da Guerra do Paraguai. Em 1872 fotografou as festas em diversas ruas, comemorando o retorno da família imperial, após longa estadia na Europa. No mesmo ano, a pedido da comissão organizadora da 3ª Exposição Nacional, fotografou o evento, cujas fotos foram enviadas à Exposição Universal de Viena.

Em 1873, um incêndio destruiu sua loja/residência, fazendo-o partir para a Europa, a fim de readquirir os materiais e equipamentos. Retornou em 1875, restabeleceu sua empresa e integrou-se à Comissão Geológica do Império do Brasil, chefiada pelo geógrafo canadense Charles Frederick Hartt. Esta foi a primeira expedição de caráter científico, realizada no século XIX, e ele foi o primeiro a fotografar os índios botocudos, na selva no sul da Bahia. Em seguida, passa a viajar e fotografar as principais cidades brasileiras, com destaque para a capital do país.

Participou de diversas exposições nacionais e internacionais, sendo premiado com medalhas de ouro em Filadélfia (1876) e Paris (1878). Em 1880 recebeu o título de “Photographo da Marinha Imperial” e da Comissão Geográfica e Geológica do Império. No mesmo ano providenciou a importação de um aparelho fotográfico para a execução de grandes imagens panorâmicas e procurou aperfeiçoar o aparelho. Seus contatos com a indústria fotográfica, em Paris, eram constantes. Em 1881, introduziu no mercado nacional as primeiras chapas secas elaboradas pelos Irmãos Lumière. Anos depois, introduziu no País as chapas de “autochrome”, também lançadas pelos Irmãos Lumière em Paris, em 1912.

Participou das reuniões da Société Française de Photographie, em 1885, onde apresentou sua câmara para panorâmicas de grandes dimensões e presenteou a instituição com vistas panorâmicas do Brasil, medindo 1,08 m de comprimento, e 2 álbuns contendo numerosas paisagens do País. Neste ano foi agraciado com o título de “Cavaleiro da Ordem da Rosa, pelo Imperador Dom Pedro II. Tendo em vista a realização da Exposição Universal de Paris, em 1889, o Barão do Rio Branco organizou o Album de Vues de Brésil, com suas fotografias, para ser enviado à Exposição. Pouco depois associou-se a Henri Gustave Lombaets, encadernador da Academia Imperial de Belas Artes, fundando a empresa Lombaetes, Marc Feerrez & Cia. e passa a editar postais, o jornal A Estação e o álbum Quadros de História da Pátria.

Em 1895, realizou experiências com luz oxietérica e raios X em seu laboratório, junto com o cientista Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional. Em 1899 lançou uma série de postais executado com a técnica da fototipia. Em 1900 realizou a documentação fotográfica das comemorações do IV Centenário da descoberta do Brasil. Em 1907 publicou o álbum Avenida Central: 8 de março de 1903-15 de novembro de 1906. Trata-se do registro das transformações urbanas empreendidas pelo prefeito Francisco Pereira Passos, em princípios do século XX. Seus filhos Júlio e Luciano Ferrez passam a se dedicar mais ao cinema e criam a Companhia Cinematográfica Brasileira, tornando-se mais tarde na Casa Marc Ferrez Cinemas e Eletricidade. Por essa época surge uma nova tecnologia: a fotografia em cores naturais. Em 1915 viajou à Paris, visando incorporar esta novidade em seu ofício e fica por lá durante 5 anos. Retorna doente em 1920 e falece em 12/1/1923.

Seu grande acervo de fotos foi adquirido em 1998 pelo IMS-Instituto Moreira Salles, do seu neto, o historiador Gilberto Ferrez. Todo o acervo conta com mais de 5.500 imagens, sendo 4000 negativos originais de vidro. O IMS passou a organizá-lo e apresentá-lo num trabalho de recuperação e pesquisa, cuja mostra, “O Brasil de Marc Ferrez – Fotografias do Acervo do Instituto Moreira Salles”, reúne 350 imagens e foi apresentada ao público em algumas cidades brasileiras e no Museu Carnavalet, em Paris em 2005.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Eros Volúsia

Eros Volúsia, nome artístico de Heros Machado, nasceu no Rio de Janeiro em 1/6/1914. Dançarina e atriz de projeção internacional, com uma coreografia inspirada na cultura brasileira. Recusou seguir carreira em Hollywood e influenciou a dança de Carmen Miranda. Foi a criadora de um “bailado nacional”, num movimento que seguia as propostas modernistas da Semana de Arte Moderna de 1922, incorporando elementos culturais negros e indígenas na dança clássica.

Filha de poetas Gilka Machado e Rodolfo de Melo Machado e neta de Teresa Cristina Muniz, atriz de rádio e teatro e Hortêncio da Gama Souza Melo, outro poeta, foi a primeira baillarina a dançar samba de sapatilhas e primeira a dançar descalça no Theatro Municipal, do Rio de Janeiro. Foi também a primeira “dançarina-pesquisadora”, ao unificar o trabalho de estudo ao que registrava em seus passos de dança. Em 1928, aos 14 anos, ingressou no curso de bailado do Theatro Municipal. Neste ano, a grande bailarina russa Anna Pavlova esteve se apresentando no Brasil e elogiou o talento de Volúsia.

Sua primeira apresentação pública se deu no palco do teatro onde estudou, em 1929, onde participou de uma homenagem ao então presidente Washington Luiz. A bailarina apareceu dançando descalça, acompanhada por violão e batucadas. O que se caracterizou, naquele período, uma ousadia, tendo em vista as tradições daquele espaço. Ousadia que ela nunca abandonou em toda sua vida artística. Na época, Mário de Andrade disse que sua dança rompia com o “velho classicismo com suas poses acadêmicas ou os pinotes vulgares da coreografia lírica”.

A mãe e a avó tinham uma pensão no centro do Rio de Janeiro e a mãe já era uma importante poeta no estilo simbolista. O local era frequentado pela intelectualidade da época, tais como Artur Azevedo, Coelho Neto, Olavo Bilac, Carlos Gomes, Chiquinha Gonzaga e Darcy Vargas (primeira-dama do País) entre outros. Alcançou sucesso internacional com o filme Rio Rita (1942), uma comédia musical da Metro-Goldwyn-Maier com a dupla Abbott & Costello. A influência africana em sua dança começou cedo, conforme declarou em 1934: “Eu nasci defronte a uma macumba célebre, a macumba do João da Luz. Com quatro anos de idade fugia de casa para ir dançar no terreiro. As primeiras impressões nunca mais se apagaram da minha memória”.

No mesmo ano foi saudada pelo jornalista e poeta Carlos Maul como “A Bailarina do Brasil” e que ela “é brasileira até a medula… Tem nas veias o sangue das três raças formadoras da nacionalidade. Da linha materna vêm-lhe as virtudes do índio, a ingenuidade, a intrepidez, o instinto bom do habitante primitivo da floresta. O coração que é a riqueza do preto e a inteligência que a civilização desenvolveu no branco trouxe-os do ascendente paterno”. Em 1937, apresentou no Theatro Municipal o espetáculo “Eros Volúsia – Bailados Brasileiros”, junto com a orquestra sinfônica, regida pelo maestro Francisco Migone, tendo na plateia a nata da elite carioca e o presidente Getúlio Vargas aplaudindo bailados como Yara, Iracema, No terreiro da Umbanda e Lundu.

Em 1939 sintetizou suas experiências e ideias numa palestra – “A creação do bailado brasiliense” -, onde discorreu sobras origens da dança brasileira. Ao final do ano, o jornal Correio da Manhã publicou um artigo de João Itiberê da Cunha, crítico musical respeitado, elogiando a trajetória da artista e destacando que ela havia contribuido para recuperar e estilizar as danças tradicionais “primitivas” e “selvagens” brasileiras. Nesta época, Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde, convidou-a para assumir a direção do curso de balé do Serviço Nacional de Teatro. O objetivo era identificar e explorar a “verdadeira indentidade nacional”. O curso era gratuito e recebeu muitos alunos pobres e negros, como Mercedes Baptista, a primeira negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal. Foi também professora de Luz del Fuego, famosa e polêmica bailarina na década de 1950.

Na edição de 22/9/1941, a revista Life deu-lhe capa e apresentação: “o sangue das três cepas raciais dominantes no Brasil – portuguesa, índia e negra – ferve nas veias da flexível jovem Eros Volusia. Mas a dança que fez a bailarina do Rio de Janeiro veio diretamente das selvas africanas”. Não obstante o sucesso alcançado nos EUA, recusou alguns convites para continuar em Hollywood e retornou ao Brasil, vindo a participar de diversos fimes nacionais: Caminho do Céu (1943), Romance Proibido (1944) e Pra Lá de Boa (1949) e voltou a lecionar dança no Serviço Nacional de Teatro. Assim, ela teve relevante papel na construção de uma cultura nacional. Há quem diga que, embora ela tenha dado uma substancial contribuição nessa área, seu nome vem sendo cada vez mais esquecido.

De qualquer modo, foi homenageada com seu nome dado ao Centro de Documentação e Pesquisa Eros Volúsia da UnB-Universidade de Brasília, vinculado ao Departamento de Artes Cênicas, em 2002. Dois anos depois, faleceu em 1/1/2004 aos 94 anos. No ano seguinte, o professor de História e crítico de dança do Jornal do Brasil, Roberto Pereira, publicou a biografia Eros Volúsia: a criadora do bailado nacional, lançado pela editora Relume Dumará. Bem antes, em 1983, ela publicou sua autobiografia Eu e a dança, pela editora Revista Continente Editorial. Em 2007 foi publicada não uma biografia, mas um estudo relacionando a poesia de Gilka Machado, sua mãe, com sua dança: Poemadançando: Gilka Machado e Eros Volúsia, de Maria Soraia Silva, lançado pela Editora da UnB.