JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Arnaldo Vieira de Carvalho

Arnaldo Augusto Vieira de Carvalho nasceu em Campinas, SP, em 5/1/1867. Médico pioneiro da saúde pública no Brasil, com a fundação da Faculdade de Medicina de São Paulo, e participação na criação do Instituto Butantan, Sociedade de Medicina e Cirurgia e Instituto do Câncer. Foi também pioneiro no desenvolvimento de uma cultura nacional como um dos fundadores da Sociedade de Cultura Artística, em 1912, presidindo-a até 1920.

Filho de Carolina Xavier Vieira de Carvalho e Joaquim José Vieira de Carvalho, professor de Direito, deputado do Império e senador estadual em 1891. Teve os primeiros estudos em sua cidade natal e ingressou na Faculdade Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro, onde se diplomou em 1888. Ao retornar a São Paulo, foi residir na Rua Ipiranga (atual Av. Ipiranga) no centro da cidade. Com proclamação da República, em 1889, os ideais de higiene e saúde passaram a ganhar destaque na administração pública.

Logo após o retorno, seu pai o indicou como médico da Hospedaria dos Imigrantes e influenciou em sua contratação para trabalhar na Santa Casa de Misericórdia. Em 1889 foi médico-adjunto, médico-cirurgião e vice-diretor clínico da Santa Casa. No período 1893-1913, foi diretor do Instituto Vacinogênico (atual Instituto Emílio Ribas) em 1894, foi chefe da clínica e diretor do hospital da Santa Casa e, entre 1895 e 1920, fundador da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo. Por essa época era um homem público, envolto em discussões políticas e urbanas e publicava artigos em jornais com o pseudônimo de “Epicarnus”. Foi uma das figuras de maior destaque no desenvolvimento da Medicina em São Paulo no final do século XIX e início do século XX, em um momento delicado da saúde pública brasileira.

Na época São Paulo contava com problemas sociais gravíssimos e ele não se conformava com o fato da cidade não contar com uma escola de medicina. Os interessados na área tinham que se deslocar até o Rio de Janeiro. Assim, ele encabeçou uma reivindicação de seus colegas para que fosse cumprida uma lei de 1891, que previa a criação de uma escola de medicina pública em São Paulo. Após uma longa deliberação entre os médicos e a administração do Estado, o então Presidente de São Paulo -Rodrigues Alves- assinou a Lei nº 1357, implantando a Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, em 1912, mais tarde incorporada à USP-Universidade de São Paulo. A aula inaugural se deu em 2/4/1913, ministrada pelo Dr. Edmundo Xavier, no salão nobre da Escola Politécnica.

Ele mesmo escolheu o corpo docente e foi seu primeiro diretor. Procurou a Fundação Rockfeller em busca de apoio na complementação da formação dos estudantes e a construção do hospital-escola ficou sob a responsabilidade do governo paulista, que só foi inaugurado em 1944, localizado atrás do edifício-sede da faculdade. Hoje é a única escola de medicina da América Latina que participa do grupo composto por 25 instituições acadêmicas de saúde e hospitais universitários da World Academic Alliance, responsável pela organização da Cúpula Mundial da Saúde, que discute soluções para os desafios da saúde global.

Sua atuação se deu no combate a algumas endemias e epidemias em território paulista, como o combate à varíola, doença responsável por grande número óbitos naquele momento; a febre amarela que se alastrava com grande velocidade entre os imigrantes; além da luta contra a epidemia de gripe espanhola, em 1918. Na ocasião, supervisionou a construção de hospitais de campanha, organizou cerca de mil leitos da Santa Casa e mobilizou professores e alunos da Faculdade de Medicina nos postos de atendimento espalhados pela cidade.

Faleceu em 5/6/1920, aos 53 anos, em decorrência de uma contaminação sofrida em uma cirurgia realizada na Santa Casa. Quando a nova sede da Faculdade foi inaugurada em 1931, seu busto em bronze foi erguido à frente do edifício, fazendo com que prédio ficasse conhecido como “a casa de Arnaldo”. No mesmo ano a Avenida Municipal, local em que a Faculdade se instalou, passou a ser denominada Avenida Dr. Arnaldo. Em 2020, no centenário de seu falecimento, sua memória foi lembrada em grandes solenidades através das instituições em que atuou e seguem, ainda hoje, ocupando papel de relevância no ensino, pesquisa e assistência médica em São Paulo.

Como biografia, contamos com o livro: Memória do Saber: Arnaldo Vieira de Carvalho, organizado por Maria Amélia M. Dantas e Márcia Regina B. da Silva e publicado pela Fundação Miguel de Cervantes/CNPq, em 2013. O livro conta com capítulo, onde André Mota nos mostra suas realizações como a “matéria-prima para construção social do ‘herói paulista da medicina brasileira’. Equiparado a Oswaldo Cruz, o herói republicano da medicina brasileira, o mito de Arnaldo foi incorporado às lutas simbólicas relativas à construção da identidade regional paulista. Contamos ainda com outro livro – A casa de Arnaldo: Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo -, de Berta Ricardo de Mazzieri, publicado em 2004 pela Editora Revinter, que se constitui na biografia de sua obra maior.

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AS BRASILEIRAS: Maria Rita Soares

Maria Rita Soares de Andrade nasceu em 3/4/1904, em Aracaju, SE. Advogada, jornalista, e magistrada, foi a primeira juíza federal do Brasil, em 1967, e primeira mulher a integrar o Conselho Federal da OAB-Ordem dos Advogados do Brasil.

Graduou-se em Direito pela UFBA-Universidade Federal da Bahia, em 1926, e foi a única mulher em sua turma. Enquanto estudava, manteve contatos com a feminista Bertha Lutz e envolveu-se na luta pelos direitos da mulher. Juntas, participaram do 2º Congresso Internacional Feminista, em 1931. No período 1926-1938, trabalhou como advogada em Aracaju; atuou no Ministério Público e no Conselho Penal e Penitenciário; professora de literatura no Colégio Atheneu Sergipense e de Direito Comercial na Escola do Comércio e assumiu ad hoc o cargo de Procuradora da República e Procuradora Geral do Estado.

Como jornalista, fundou e dirigiu a revista Renovação, de 1931 a 1934, de periodicidade mensal e única revista a analisar as propostas de educação feminista em Sergipe. Mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1938, onde foi consultora da FBPF-Federação Brasileira pelo Progresso Feminino; lecionou no Colégio Pedro II e na Faculdade Técnica de Comércio, da Universidade do Brasil. Junto com outras colegas, criou um escritório de advocacia para defender pessoas perseguidas pelo regime do Estado Novo.

Atuou também na defesa dos militares que haviam participado do movimento rebelde de Aragarças. Logo após o golpe militar de 1964, apoiou o Ato Institucional nº 1, junto com Balthazar da Silveira, provocando um racha no IAB-Instituto dos Advogados do Brasil. Em 1965 foi nomeada pela presidente Castelo Branco, como juíza federal, tornando-se a primeira juíza do Brasil, como titular pela 4ª Vara da Seção Judiciária do Estado da Guanabara.

Ao completar 70 anos, em 1974, foi aposentada compulsoriamente, e voltou a advogar e colaborar com artigos políticos, publicados no Jornal do Brasil. Faleceu em abril de 1998, aos 94 anos, deixando um vasto legado de relevantes conquistas no mundo jurídico. Sua carreira quebrou paradigmas e impactou na consolidação feminina no Poder Judiciário.

Em 2017 foi condecorada, em sessão solene, pelo CJF-Conselho da Justiça Federal, com uma placa de honra e a publicação especial comemorativa do Jubileu de Ouro da Justiça Federal. Em 24/2/2015, a Justiça Federal em Sergipe (JFSE) inaugurou o Fórum Maria Rita Soares de Andrade, abrigando as novas instalações da 8ª Vara Federal de Lagarto.

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OS BRASILEIROS: Luiz de Queiroz

Luiz Vicente de Sousa Queiroz nasceu em 12/6/1849, em São Paulo, SP. Agrônomo, empresário, precursor do agronegócio, fomentador da pesquisa científica e pioneiro no ensino superior na área agricola. Doou parte de suas terras ao Governo de São Paulo afim de criar a ESALQ-Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz em Piracicaba, em 1901.

Filho de Francisca de Paula Souza e Vicente de Souza Queiroz, o Barão de Limeira, e neto do Brigadeiro Luís Antonio, um dos maiores proprietário de terras de São Paulo. Teve os primeiros estudos na Europa, para onde se mudou aos 8 anos e estudou nas escolas de agricultura de Grignon, na França e Zurique, na Suíça. Retornou ao Brasil em 1873, aos 24 anos, e herdou a fazenda Engenho d’Água, na antiga Vila de Constituição, atual Piracicaba.

Em meados da década de 1870, construiu seu palacete, em estilo parisiense, próximo ao salto do rio Piracicaba, que veio habitar após o casamento com Ermelinda Ottoni. Aproveitou o potencial hidráulico do rio para mover as máquinas da “Fábrica de Tecidos Santa Francisca” recém criada e amealhou uma fortuna com o cultivo de algodão e a fábrica de tecidos. As máquinas que geravam energia para a fábrica passaram a fornecer luz pública na cidade, muito antes da capital paulista, e promoveu a arborização da cidade.

Instalou a primeira linha telefônica da região e acolheu os primeiros grupos de imigrantes, destinados a substituir a mão de obra escrava. Como membro do Partido Republicano, presidiu a comissão abolicionista de Piracicaba e pregava abolir a escravidão em curto prazo. Assim, entrou em choque com os conservadores, liderado por Prudente de Moraes, favorável a uma emancipação gradual e com indenização aos proprietários de escravos.

Após a abolição, embarcou para a Europa e retomou o contato com a agricultura pautada na tecnologia. Ao retornar para o Brasil, mobilizou esforços para introduzir a racionalização científica da agricultura. Neste ponto surge o ideal de criar uma escola para difundir o conhecimento agrícola e treinar mão-de-obra rural qualificada. Tal ideal resultou na criação da Escola Superior de Agricultura. Sua iniciativa de transformar o que era propriedade sua em bem público, a serviço do país, foi um gesto reconhecido mais tarde com seu nome dado à escola.

Nesta época, a economia cafeeira passa a tomar a dianteira e alavancar o progresso com novas tecnologias, ampliação de estradas, incluindo as estradas de ferro, do navio a vapor e o surgimento de novas cidades. Nesse contexto surge a necessidade de se ampliar as instituições de ensino no Brasil, de modo a formar novos quadros para o sistema produtivo. Em 1889, adquiriu a Fazenda São João da Montanha, de 319 hectares com plantação de cana-de-açúcar e vários engenhos antigos. Em 1891, viajou para os EUA e Europa na busca de um projeto de edificação para sua escola e adquirir equipamentos para a usina hidrelétrica e a rede de iluminação pública da cidade. Na ocasião, contratou o arquiteto Alfred B. Hutchings para projetar a planta geral da escola em Piracicaba. Assim, foi projetado um edifício-sede para a escola e o internato, com mais de 100 quartos para acomodar os estudantes.

Em seguida contratou o professor de agricultura do Michigan Agricultural College, Eugene Davenport, para dirigir a escola por um ano. No entanto, as mudanças cambiais e o custo do frete reduziu seu capital, obrigando-o a pedir ajuda ao governo do Estado, que lhe foi negado. Para não perder todo o investimento, iniciou uma campanha em meio à opinião pública sobre a importância de seu projeto. Ao final, conseguiu a participação do Estado no projeto mediante um acordo: ele transferiu a Fazenda São João da Montanha ao poder público, em 17/11/1892, com a condição de construir a escola de agronomia, no prazo de 10 anos. Caso não ocorresse, a propriedade voltaria para suas mãos ou de sua família.

Não chegou a ver o sonho concretizado, faleceu em 11/6/1898, aos 48 anos. Dizem que a perda de sua riqueza e a negligência do Estado na construção da escola, levaram-no à depressão e à morte prematura. Três anos depois foi inaugurada a “Escola Prática de Piracicaba”, em 3/6/1901, faltando apenas pouco mais de um ano para o vencimento do acordo com o Estado. O acordo foi selado com o governador Bernadino de Campos, ressaltando o esforço da iniciativa privada em benefício da agricultura, base da riqueza do Estado. Após o acordo, se desfez de boa parte de suas posses e mudou-se para a capital, em 1894, acompanhando de longe a construção da escola e publicando artigos na Revista Agrícola.

Em 1931 a escola recebeu o nome de seu idealizador e construtor, passando a se chamar Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz-ESALQ. Em 1934, saiu da Secretaria de Agricultura e passou a integrar a USP-Universidade de São Paulo. Em 1964, Os restos mortais do casal Queiroz foram transferidos para Piracicaba e foram sepultados de frente ao edifício central da Escola, onde foi construído um mausoléu com a inscrição “A Luíz Vicente de Souza Queiroz, o teu monumento é a tua escola”. Em 2004, Marly T. Germano Perecin publicou, digamos, a biografia da ESALQ: Os passos do saber: a Escola Prática Luiz de Queiroz, pela Editora da USP.

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AS BRASILEIRAS: Carolina Bori

Carolina Martuscelli Bori nasceu em 4/1/1924, em São Paulo, SP. Psicóloga, pesquisadora e professora, foi pioneira na área da psicologia experimental, em fins da década de 1940. Foi uma batalhadora pela consolidação da Psicologia como ciência e sua contribuição para a Educação em todos os níveis. Sua opção pela área experimental deu-se pela crença no rigor científico na área psicológica.

Filha de Maria Teresa Colombo e Aurelio Martuscelli, imigrantes italianos, teve os primeiros estudos numa escola alemã e na Escola Caetano de Campos. Graduou-se em Pedagogia pela USP-Universidade de São Paulo em 1947, especializando-se em Psicologia educacional no ano seguinte. Concluiu o mestrado em 1952 na New School For Social Research, de Nova Iorque, EUA. O doutorado foi concluído na USP, em 1954, com a tese Experimentos de Interrupção de Tarefas e a Teoria de Motivação de Kurt Lewin. Em 1969 recebeu o título de livre-docente pela USP.

Liderou várias campanhas sobre o exercício profissional do psicólogo e teve o registro número 1 no conselho regional da categoria, em 1971, sendo a única mulher dentre os constituintes. Batalhou pelo currículo mínimo para a graduação e pela implantação do curso de pós-graduação em Psicologia. Presidiu e participou de inúmeras comissões para criação de cursos de Psicologia e de pós-graduação em todo o país, defendendo a obrigatoriedade de uma porcentagem de disciplinas com trabalho de campo ou laboratório e solicitando auxílios às instituições de fomento. Na década de 1960, assessorou Darcy Ribeiro na criação do curso de Psicologia da Universidade de Brasília e na estrutura dos cursos de formação básica.

Intermediou contatos com a administração da USP para importar equipamentos e realizou congressos com grupos de colaboradores, enquanto divulgava os princípios de análise do comportamento pelo Brasil propiciando condições para a vinda do professor Fred Simmons Keller, praticante da Análise do Comportamento e um dos responsáveis pela introdução dessa abordagem psicológica no Brasil, em sua passagem pela USP em 1961.

Participou de diversas instituições, convivendo com cientistas do Conselho da SPBC e assumiu vários cargos, na condição de presidente da ABP-Associação Brasileira de Psicologia (1954-1955 e 1963-1965); ANPEPP-Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (1984-1986); Área da Comissão de Acompanhamento e Avaliação de Cursos de Psicologia do MEC; SBPC-Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (1986-1989); SBP-Sociedade Brasileira de Psicologia (1990-1994) e Comissão de Especialistas de Psicologia do MEC (1995-1996).

Orientou mais de cem teses e dissertações acadêmicas e trabalhou na formação de pesquisadores, produção e registro de conhecimentos. Traduziu livros básicos para a formação de alunos, numa época de poucas opções bibliográficas. Partia da formulação do problema para tomar decisões, buscar soluções e conseguir resultados. Participou das campanhas para o desenvolvimento da Psicologia e ciência no Brasil até sua morte, em 4/10/2004, aos 80 anos. Dentre as homenagens que recebeu, destacam-se o Prêmio “Fred Keller”, outorgado pela APA-American Psicological Association, em 1999 e comendadora da Ordem Nacional do Mérito Científico, em 1998. Desde o ano 2000, A SBPC concede anualmente o “Prêmio Carolina Bori Ciência e Mulher“ às cientistas destacadas em suas áreas.

Um panorama geral de sua atuação foi realizado pela revista Psicologia: Ciência e Profissão, nº 32 de 2012: Contribuição para a formação de psicólogos: análise de artigos de Carolina Bori publicados até 1962. Outro artigo enfocando a pessoa, um ensaio biográfico, encontra-se na revista Psicologia: Reflexão e Crítica, vol. 11, nº 2. 1998: Carolina Matuscelli Bori: uma cientista brasileira.

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OS BRASILEIROS: Gilberto Freyre

Gilberto de Mello Freyre nasceu em 15/3/1900, em Recife, PE. Foi um dos “intérpretes” do Brasil. O verbete da Wikipedia diz que “foi um polímata brasileiro”, ou seja, alguém que detém um grande conhecimento em diversos assuntos. Sociólogo, escritor, antropólogo, geógrafo, historiador, jornalista, ensaísta, poeta e pintor. Foi o intelectual mais premiado na história do País e um dos mais importantes sociólogos do século XX, conclui o verbete.

Filho de Francisca de Mello Freyre e Alfredo Freyre, professor de Economia Política da Faculdade de Direito do Recife, teve os primeiros estudos em inglês, no jardim da infância, do Colégio Americano Batista Gilreath, que seu pai ajudou a fundar. Ainda jovem foi protestante batista, chegando a ser missionário. Aos 18 anos foi estudar nos EUA, na Universidade Baylor (Texas), onde se formou bacharel em Artes Liberais e na Universidade Columbia, onde conheceu Franz Boas, sua referência intelectual. Ao frequentar cultos nos EUA, desencantou-se com protestantismo batista e tornou-se ateu, embora mantivesse uma cosmovisão cristã e simpatizasse com o Xangô do Recife.

Em 1922 publicou sua dissertação de mestrado Social life in Brazil in the middle of the 19th century, na revista Hispanic American Historical Review, obtendo o título “Master of Arts”. Seu primeiro (e mais conhecido) livro Casa-grande & senzala (1933), é considerado uma das intepretações do Brasil. Embora o livro tenha lhe rendido o título de “ideólogo da democracia racial no Brasil”, o tema não foi abordado diretamente no livro. Ao contrário da acepção do termo erroneamente atribuído a ele, Freyre não via o Brasil como uma “democracia racial” no sentido de ausência de racismo. De certo modo, ele rechaça as doutrinas racistas de branqueamento do Brasil e demonstrou que o determinismo racial ou climático não influencia no desenvolvimento de um país. O livro é o primeiro de uma trilogia junto com Sobrados & Mucambos (1936), sobre a sociedade no Brasil imperial e Ordem & Progresso (1957), onde discute a sociedade brasileira durante a República.

Era dotado de estilo, uma verve literária incomum. Na década de 1920 escreveu um poema inspirado em sua primeira visita à Salvador, intitulado Bahia de todos os santos e de quase todos seus pecados. O poema deixou Manuel Bandeira tão animado, que declarou numa carta: “Teu poema, Gilberto, será a minha eterna dor de corno. Não posso me conformar com aquela galinhagem tão gozada, tão envergonhosamente lírica, trescalando a baunilha de mulata asseada!”. Os dois mantinham uma ativa troca de correspondência.

Como historiador deu certa relevância ao protagonismo de Portugal e foi pioneiro no estudo histórico e sociológico dos territórios colonizados pelos portugueses. Chegou a desenvolver um ramo de estudo/pesquisa, que chamou de “Lusotropicologia”, com a publicação do livro O mundo que o português criou (1940), ressaltando o papel dos portugueses na criação da “primeira civilização moderna nos trópicos”. É verdade que a ditadura portuguesa do governo Salazar, usou e abusou destes feitos para exaltar a pátria portuguesa no mundo e justificar seus atos, mas isso é outra história.

Antecedeu questões do atual multiculturalismo como política de uma ideal inclusão harmônica. Frente à questão, o historiador George Reid Andrews sintetizou sua posição: “Os proponentes do branqueamento tinham buscado europeizar o Brasil e torná-lo branco; Freyre, em contraste, aceitou que o Brasil não era nem branco nem europeu, e que nunca o seria. Em vez de a Europa dos trópicos, o Brasil estaria destinado a ser um novo mundo nos trópicos: um experimento exclusivamente americano no qual europeus, índios e africanos tinham se juntado para criar uma sociedade genuinamente multirracial e multicultural”. Como político, foi presidente do partido UDN-União Democrática Nacional e foi eleito deputado para a Assembleia Constituinte, em 1946. Faleceu em 18/7/1987 e deixou mais de 30 livros publicados com fecundos estudos sobre o povo brasileiro.

A lista de prêmios, títulos e honrarias que recebeu é grande, incluindo o “Prêmio Aspen”, consagrado a “indivíduos notáveis por contribuições excepcionalmente valiosas para a cultura humana”, Ordem Nacional da Legião de Honra, da França, Ordem do Império Britânico, Prêmio Internacional La Madonnina, Ordem Militar de Cristo, de Portugal, entre outros. No plano nacional, foi agraciado com outros tantos, como: Prêmio Moinho Santista, Medalha Joaquim Nabuco, Premio Jabuti, Prêmio Esso, Troféu Diarios Associados, Medalha Massagana, Ordem do Mérito dos Guararapes, de Pernambuco etc.

A Fundação Gilberto Freyre abriga a Casa-Museu Magdalema e Gilberto Freyre, no bairro Apipucos, Recife, onde viveu por mais de 40 anos. Aberto à visitação pública, mantém variado acervo de objetos colecionados e ordenados pela família Freyre. São peças de origem africana, azulejos portugueses com peças da arte popular brasileira, porcelanas orientais com prataria inglesa e portuguesa, além de vasto acervo bibliográfico e uma rica pinacoteca. Clique aqui para acessar.

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AS BRASILEIRAS: Alice Canabrava

Alice Piffer Canabrava nasceu em 22/10/1911, em Araras, SP. Historiadora, professora e pesquisadora, revolucionou o método de pesquisa da história econômica do Brasil, modificando a forma de levantar dados e informações sobre a construção da economia nas Américas. O método consiste em buscar registros da época dos acontecimentos circunstanciais de seu objeto de pesquisa.

Filha de Otilia Pìffer e Clementino Canabrava, cursou o ginásio no Colégio Stanfford e ingressou na Escola Normal Caetano de Campos, tornando-se professora do ensino primário. No início da década de 1930 cursou História e Geografia na FFLCH-Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Aluna destacada, foi convidada como professora assistente de História da América. Tal convite incentivou-a realizar os cursos de mestrado e doutorado em História.

Nestes cursos foi influenciada por professores que promoviam a adoção de métodos interdisciplinares que facilitavam a interconexão entre história, geografia e economia, que vieram marcar sua abordagem ao longo da carreira acadêmica. O período de rápida industrialização nas décadas de 1930 e 1940, durante o governo de Getúlio Vargas levou-a considerar as mudanças no contexto nacional e buscar uma compreensão do desenvolvimento econômico do País através de uma perspectiva histórica.

Recebeu influência da “Escola dos Annales”, de Paris, com ênfase no aspecto econômico-social e tornou-se uma referência nessa área de estudo. Explorando questões referentes ao comércio, à circulação de riquezas e aos impactos econômicos, tal abordagem fortaleceu o campo da história econômica no Brasil. Concluiu o doutorado com a tese O comércio português no Rio da Prata, 1580-1640, Em 1946 obteve o título de livre-docente com a tese A indústria do açúcar nas ilhas inglesas e francesas do Mar das Antilhas (1697-1755).

Em 1951 foi nomeada professora titular de História Econômica do Brasil na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo-FEA da USP, onde se tornou a primeira mulher da USP a conquistar a posição de catedrática por concurso com a tese O Desenvolvimento da Cultura do Algodão na Província de São Paulo. Na década de 1940, no Brasil, a História Econômica ainda não era uma disciplina bem definida. As duas teses que ela apresentou à cátedra de História da América na FFCLH/USP, obtendo os títulos de doutora e livre-docente, podem ser consideradas pesquisas em História Econômica.

Em 1961, foi uma das fundadoras da Associação dos Professores Universitários de História-ANPUH) e participou do “Encontro Internacional de Estudos Brasileiros”, em 1971, onde foi debatido importantes questões sobre a historiografia brasileira. Na década de 1970 contribuiu em duas áreas: reflexões sobre Von Martius, Varnhagen e Capistrano de Abreu, e a análise da estrutura da propriedade da terra, escravidão e riqueza na capitania de São Paulo, utilizando métodos da história quantitativa. Nessas reflexões, defendeu a ideia que a acumulação de riqueza em São Paulo se dava a partir de uma dinâmica interna, desprendendo-se da visão de Caio Prado. Por tais contribuições, recebeu o título de Professora Emérita da USP, em 1985, após sua aposentadoria 1981.

A metodologia e enfoque de seus estudos moldaram as dinâmicas sociais e econômicas do colonialismo europeu nas Américas. Segundo o historiador Sergio Buarque de Holanda “Se os modernos estudos de história econômica, tais como, entre nós, vem praticando especialmente Alice P. Canabrava, podem ser responsabilizados até certo ponto pela renúncia às vastas sínteses em proveito de trabalhos monográficos, ninguém negará que tendem a oferecer, por outro lado, algumas vantagens claras. Entre elas a de contribuírem para desfazer as ilusões raciais, políticas ou nacionais que por tanto tempo vem perseguindo certos espíritos”

Faleceu em fevereiro de 2003 e deixou um legado considerável na área dos estudos de História. Sua tese de doutorado, transformada em livro – O comércio português no Rio da Prata 1580-1640 -, publicado em 1984 pela Editora Itatiaia, revelou as vias clandestinas pelas quais a prata extraída das minas de Potosí, localizadas na Bolívia, fluía para o Brasil durante o período colonial. Esse trabalho foi amplamente elogiado pela crítica nacional e internacional, devido à sua profundidade e originalidade, bem como ao uso intensivo de fontes primárias de informação.

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OS BRASILEIROS: Angelo Agostini

Angelo Agostini nasceu em 8/4/1843, em Vercelli, Itália. Caricaturista, ilustrador, desenhista, crítico de arte, pintor e gravador. É o mais importante artista gráfico no período do Segundo Reinado, pioneiro da revista em quadrinhos e desenhista da queda do Império e a consolidação da República no Brasil.

Ainda criança mudou-se para Paris, onde concluiu os estudos de desenho. Aos 16 anos, passou a viver em São Paulo com sua mãe, a cantora lírica Raquel Agostini. Aos 21 iniciou a carreira de cartunista e, junto com Sizenando Barreto Nabuco de Araújo (1842-1892) e do poeta Luís Gama (1830-1882), funda o semanário liberal Diabo Coxo, contando com sátiras sobre a Guerra do Paraguai e pequenos artigos com críticas às ordens religiosas. No ano seguinte lançou o Cabrião, cuja sede chegou a ser depredada, devido as críticas ao clero e à elite escravocrata. Fechou no ano seguinte e foi o primeiro órgão de imprensa no país a sofrer processo judicial.

Em seguida, mudou-se para o Rio de Janeiro e passa a colaborar no periódico O Arlequim e na revista Vida Fluminense, em 1869, que publica pela primeira vez a história (em quadrinhos) infantil Nhô Quim, publicada também em outras revistas. Os personagens são caipiras recém-chegados à cidade e convivem ao mesmo tempo com um mundo que se estrutura à margem da corte e com todos os tipos e entidades da mitologia rural brasileira.

Em 1876 fundou a Revista Ilustrada, uma das primeiras a exercer concretamente a autonomia de imprensa no 2º Reinado. Não aceita patrocínios e vive da venda de sua tiragem. Aqui publicou a célebre série de caricaturas do imperador Dom Pedro II. Seu traço aprofunda o realismo se aproximando de uma imagem quase fotográfica. A revista se engaja na campanha abolicionista e serve de veículo para posições anticlericais e republicanas. Segundo Joaquim Nabuco, a “Revista Ilustrada era a Bíblia Abolicionista do povo que não sabia ler”. O editor passa a atuar regularmente como crítico de arte, defendendo pintores que demonstram discordância com os preconceitos da Academia Imperial de Belas Artes.

Saiu em defesa dos artistas do Grupo Grimm, demostrando simpatia pelo comportamento antiesquemático daqueles paisagistas. Em 1879, editou a série de caricaturas “Salão Fluminense-Escola Brazileira”, em que satiriza as obras enviadas para os salões de belas-artes, incluindo as obras do pintor Victor Meirelles: “A Batalha dos Guararapes” e de Pedro Américo: “A Batalha do Avaí”. Durante a campanha abolicionista, publica a série de caricaturas “Cenas da Escravidão”, denunciando as diversas formas de tortura aplicadas aos negros cativos.

Em 1889 mudou-se para Paris e lá permanece até 1895. No retorno ao Rio de Janeiro, fundou a revista Dom Quixote; inicia a publicação das Aventuras de Zé Caipora; e passa a se dedicar mais às histórias em quadrinhos. Por esta época passou a se dedicar, também, à pintura e participou de todas as exposições gerais de belas artes até sua morte, em 28/1/1910. Segundo Nelson Werneck Sodré, “foi um artista extraordinário que engrandeceu suas criações com o sentido político que lhes deu”. Para o crítico Quirino Campofiorito “sua presença como pintor é bastante modesta, destacando-se sobretudo como desenhista e caricaturista. Foi feroz e decidido trabalhador pelo Abolicionismo e pela República, como jornalista brilhante e corajoso”.

O Salão Internacional do Humor de Piracicaba outorga anualmente o “Trofeu Angelo Agostini”, uma premiação promovida pela ACQ-Associação de Caricaturistas e Quadrinistas. Trata-se do maior prêmio dos quadrinhos no Brasil (https://bit.ly/TroféuAngeloAgostini). O dia 30 de janeiro entrou no calendário oficial do Brasil como “Dia do Quadrinho Nacional”, devido ao fato dele ter publicado ter publicado As aventuras de Nhô-Quim, o primeiro quadrinho brasileiro nesta data, em 1869.

Gilberto Maringoni publicou, em 2011, a biografia Angelo Agostini: a imprensa ilustrada da Corte à Capital Federal, pela editora Devir, com base em sua tese de doutorado, defendida em 2006 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Sociais da USP.

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AS BRASILEIRAS: Laura Alvim

Laura Agostini de Vilalba Alvim nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 2/11/1902. Dedicada ao mecenato cultural, fez a doação de sua casa ao governo do Estado com a finalidade de se criar um Centro Cultural, em 1983. O objetivo foi concretizado em 1986 com a fundação da Casa de Cultura Laura Alvim, na Praia de Ipanema. Foi considerada a primeira “garota de Ipanema”, devido a sua beleza e popularidade de fino trato.

Filha de Laura Agostine de Vilalba Alvim e Dr. Álvaro Freire de Vilalba Alvim, introdutor do Raio-x no país e neta de Angelo Agostin, o primeiro cartunista do Brasil. Em 1910 seus pais foram morar na Av. Vieira Souto, praia de Ipanema, na época um imenso areal. Trata-se de um grande sobrado de 3 andares num terreno de mil m², o metro mais caro do Rio de Janeiro. Tornou-se um ambiente de efervescência cultural, nas décadas de 1930-1940, frequentada por Burle Marx, Ernesto Nazareth, Bibi Ferreira, Burle Marx, Álvaro Moreira, Rosalina Coelho Lisboa, Isadora Duncan, Fernanda Montenegro e Tônia Carrero entre outras do meio artístico e cultural.

Na década de 1950, ela comprou a parte dos irmãos herdeiros; tornou-se única proprietária a passou viver só, pois nunca se casou, mesmo recebendo dezenas de propostas. Na década de 1950 passou a dedicar-se ao projeto de transformar a casa num grande centro cultural, numa espécie de homenagem ao pai, que morreu em 1928. Anos depois, com a morte da mãe, passou a viver só com uma governanta cearense. Em fins da década seguinte, em meio a uma reforma, a casa se encheu de novo. Dessa vez, o casarão passou a ser habitado pelos parentes da governanta que vinham do Nordeste.

Conta-se que cerca de 60 pessoas chegaram a morar nos cômodos mal-acabados até encontrar moradia e emprego. Ficou conhecida como “A República do Ceará”, abrigando de recém-nascidos a idosos. Vendeu os terrenos que o pai possuía no Leblon, ficando sem dinheiro tocar seu antigo projeto. Sua situação foi agravada por uma doença na pele e tornou-se reclusa, pois já não se sentia tão bonita e apresentável para receber as pessoas. Com pouco recursos, alugou alguns quartos do casarão e dormia no porão. No entanto, não abandonou o sonho de transformar o casarão num importante centro cultural.

Em 1983, aos 81 anos, providenciou um atestado de sanidade mental e doou sua casa ao Estado com a condição, expressa em contrato, de transformar a casa num centro cultural. Faleceu em 22/3/1984 e dois anos depois foi inaugurada a “Casa de Cultura Laura Alvim, contando com o empenho de Darcy Ribeiro, Vice-governador e Secretário da Cultura, no Governo de Leonel Brizola. A casa hoje é mantida pela FUNARJ-Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio de Janeiro, com cláusulas assegurando que o imóvel só pode abrigar o centro cultural.

Em 2016, a empresa suíça de relógios Omega se instalou na casa durante as olimpíadas e paraolimpíadas e financiou uma grande reforma, modificando e modernizando sua estrutura. O espaço conta com 3 salas de cinema, 2 teatros, galeria de exposições, bistrô para alimentação, salas multiuso, ampla área para eventos e um estúdio para gravação e produção musical. O espaço também oferece aulas de teatro, artes visuais e workshops, auxiliando na formação de jovens artistas e uma sala expondo o “Memorial Laura Alvim” contando sua história através de seus pertences.

O espaço segue à risca a proposta de sua idealizadora de servir de palco para diferentes expressões artísticas. Graças a determinação de Laura Alvim, a orla de Ipanema (Av. Vieira Souto) não conta hoje com mais um grande edifício arranha-céu, tendo em seu lugar um belo sobrado, transformado em obra pública dedicado à cultura.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Cesar Lattes

Cesare Mansueto Giulio Lattes nasceu em 11/7/1924, em Curitiba. Um dos maiores cientistas brasileiros. Físico, codescobridor do “méson pi”, que deu o Prêmio Nobel de Física de 1950 a Cecil Frank Powell, líder do grupo de pesquisa, e fundamental para o desenvolvimento da física atômica. Exerceu forte liderança na criação do CNPq-Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.

Filho de Carolina Maroni Lattes e Giuseppe Lattes, imigrantes italianos, completou o ensino médio no Colégio Dante Alighieri e se graduou em física aos 19 anos pela USP-Universidade de São Paulo. Teve como professor e mentor o cientista Gleb Wataghin, mestre de uma geração de físicos, como Mário Schenberg, Jayme Tiomno, Oscar Sala e Sônia Ashauer.

Conviveu com os cientistas pernambucanos Mário Schenberg, José Leite Lopes e Leopoldo Nachbin, e costumava brincar dizendo que para ser um grande cientista, só havia duas alternativas: nascer em Pernambuco ou se casar com uma pernambucana. Foi o que ele fez em 1947 ao se casar com a matemática Martha Siqueira Neto, com quem teve 4 filhas e foi o amor de sua vida em mais de 50 anos. Quando ela faleceu, em 14/10/2002, ele declarou “Minha vida acabou”. De fato, foi o que se deu logo após, com problemas cardíacos e pulmonares, que se acumularam até o falecimento em 8/3/2005.

Embora fosse o principal pesquisador e primeiro autor do artigo que descreve o “méson pi”, apenas Cecil Frank Powell -líder do grupo- foi agraciado com o Nobel de Física, não obstante ele ter merecido a premiação devido ao “seu desenvolvimento do método fotográfico de estudo dos processos nucleares e suas descobertas em relação a mésons feitas com este método”. O que impediu que ele recebesse o prêmio foi a determinação da política do Comitê do Nobel, até 1960, de conceder o prêmio apenas ao líder do grupo de pesquisa.

Mais tarde ele declarou: “Sabe por que eu não ganhei o prêmio Nobel? Em Chacaltaya, quando descobrimos o méson-pi, se publicou: Lattes, Occhialini e Powell. E o Powell, malandro, pegou o prêmio Nobel pra ele. Occhialini e eu entramos pelo cano”. Realmente, ele é o primeiro autor citado no artigo, que levou ao Prêmio Nobel. Powell é o último, conforme a referência bibliográfica: Lattes, C.M.G.; Muirhead, H.; Occhialini, G.P.S.; Powell, C.F. (1947). Processes involving charged mesons. Nature. 159 (4047): 694–697. Tal façanha marcou o início de um novo campo de estudos: a física das partículas elementares. Chegou a haver rumores que Niels Bohr teria deixado uma carta intitulada “Por que César Lattes não ganhou o Prêmio Nobel – Abra 50 anos após a minha morte”. No entanto, durante as buscas feitas no Arquivo Niels Bohr, em Copenhague, a carta não foi encontrada.

Não recebeu a premiação, mas entre 1949 e 1954, foi indicado 7 vezes ao Prêmio Nobel de Física. Além de sua atuação na criação do CNPq, em 1951, teve papel destacado na criação do CBPF-Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, em 1949, e do IMPA-Instituto de Matemática Pura e Aplicada, em 1952. Teve participação fundamental no Instituto de Física da USP, onde implantou o laboratório de emulsões nucleares, e na UNICAMP, dirigindo o Departamento de Cronologia, Raios Cósmicos e Altas Energias do Instituto de Física e montou o laboratório de Síncroton.

Apesar de ser crítico de Einstein, suas pesquisas foram fundamentais para o desenvolvimento da ‘Teoria da Relatividade’, pois foram precursoras para a concepção dos ‘quarks’, apresentando fundamentos das teorias sobre a criação e a expansão do universo. Suas contribuições não se restringem ao meio acadêmico. Entre 1945 e 1956, houve uma forte interseção entre ciência e política. Os pesquisadores tinham a noção de que a ciência, para progredir, tem que partir de preceitos políticos capazes de arregimentar apoio logístico e financeiro em questões estratégicas para o desenvolvimento nacional.

De 1950 a 1959, esteve presente na Comissão de Raios Cósmicos da União Internacional de Física Pura e Aplicada, demonstrando a necessidade de integração em parcerias e cooperação entre nações em prol do desenvolvimento científico. Recebeu várias homenagens nacionais e internacionais em reconhecimento ao legado de suas contribuições. Numa das homenagens, o CNPq deu seu nome à “Plataforma Lattes”, uma base de dados de currículos e instituições nas áreas do conhecimento. Trata-se do registro da vida profissional dos pesquisadores, elemento indispensável à análise de mérito e competência dos pleitos apresentados às agências de fomento no Brasil.

Dentre tantas homenagens de instituições científicas, vale citar uma bem popular, como o samba-enredo da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira: “Ciência e Arte”, numa parceria de Cartola e Carlos Cachaça, em 1947. A canção foi regravada em 1999 por Gilberto Gil no álbum Quanta Live, premiado com o “Grammy” na categoria World Music. Contamos ainda com a excelente biografia – Cesar Lattes: uma vida – visões do infinito, de Maria Góes e Tato Coutinho, publicada pela editora Record, em 2024. Neste ano seu nome foi inscrito no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”. Para conhecer melhor o caráter humano do cientista, vale a pena ver a entrevista concedida por suas filhas. Para ler, clique aqui.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Julia Wanderley

Júlia Augusta Wanderley de Souza Petrich nasceu em 26/8/1874, em Ponta Grossa, PR. Professora e educadora, pioneira no magistério feminino. Aos 16 anos requereu ao Governo do Estado autorização para cursar a Escola Normal, só frequentada na época por meninos. Foi a primeira mulher nomeada pelo Governo do Paraná a exercer o magistério.

Filha e Laurinda de Souza Wanderley e Afonso Guilhermino Wanderley, um dos pintores do interior da Catedral de Curtitiba. Ainda criança, mudou-se com a família para Curitiba, onde teve aulas com professores particulares antes de frequentar o colégio. Em 1890 ingressou no curso secundário, concluindo-o no Ginásio Paranaense. Nesta época liderou o movimento para o ingresso de moças no educandário até então permitido somente para homens. Recebeu o diploma de professora normalista em novembro de 1892.

Em seguida tornou-se regente da Cadeira de Instrução Primária de Curitiba. A partir de 1894, passou a dirigir a Escola Tiradentes. No ano seguinte casou-se com o comerciante Frederico Petriche e passou a atuar imprensa local com artigos no jornal Operário Livre sobre pedagogia e questões sociais. Ficou conhecida pelos colegas como “advogada do professorado”, devido a defesa e importância que atribuia à profissão. De formação católica e idéias socialistas, adotou o pseudônimo de Augusta de Souza para assinar muitos de seus artigos

Segundo o fundador da UFPR-Universidade Federal do Paraná, Dr. Vítor Ferreira do amaral: “Era o tipo mais completo de professora que conheci, durante os anos em que fui diretor da Instituição. Inteligência lúcida, de uma intuição que quase atingia as raias da adivinhação, com uma cultura não vulgar e uma decidida vocação pedagógica que a tornava querida e admirada de seus discípulos e a colocava em destaque entre as suas colegas como primus inter pares.”

Em 1915, foi nomeada membro efetivo do Conselho Superior do Ensino Primário e ditetora da Escola Intermediária de Curitiba, onde lecionou por 25 anos. Faleceu em 5/4/1918 e recebeu diversas homenagens. Em 1927 foi inaugurado na Praça Santos Andrade, frente ao Museu da UFPR, seu busto. Seu nome foi dado à ruas de Ponta Grossa e Curitiba, bem como um colégio estadual e o grêmio do Instituto de Educação do Paraná.

Como atividade de lazer, gostava de fotografar e manteve uma grande ccoleção do fotos sobre a sociedade paranaense, contando com imagens do cotidiano, do povo, dos costumes, das atividades laborais, dos eventos e outros temas assuntos. Muitos dados que os historiógrafos do Paraná hoje utilizam foram obtidos através da pesquisa desse vasto material iconográfico. Em 2013, Silvete Aparecida Cripa de Araújo escreveu sua biografia: Professora Julia Wanderley: uma mulher-mito (1874 – 1918), publicada na: Série Pesquisa da Editora da UFPR.