JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Monteiro Lobato (II)

Duas das atividades que mais o atraiam eram o petróleo e a indústria siderúrgica, sem deixar, porém, a literatura. Por essa época escreveu Mr. Slang e o Brasil (1927), As Aventuras de Hans Staden (1927), Aventuras do Príncipe (1928), O Gato Félix (1928), A Cara de Coruja (1928), O Circo de Escavalinho (1929) e A Pena de Papagaio (1930). Muitos destes títulos foram reunidos e publicados em um único volume: Reinações de Narizinho (1931). Em 1928 visitou a Ford e a General Motores, em Detroit e organizou uma siderúrgica brasileira. Para isso, jogou na Bolsa de Valores de Nova Iorque e perdeu tudo com o estouro da Grande Depressão, a crise de 1929. Para cobrir o rombo, teve que vender as ações da Companhia Editora Nacional, em 1930.

De volta à São Paulo, em 1931, passou a defender o “tripé” para o progresso brasileiro: ferro, petróleo e estradas para escoar a produção. Aderiu com entusiasmo à campanha presidencial de Júlio Prestes, que no governo de São Paulo realizara explorações de petróleo. “Sua política na presidência significará o que de mais precisa o Brasil: continuidade administrativa!”. Mas a “Revolução de 1930”, i.é, o golpe de estado em 3 de outubro, liderado por Getúlio Vargas, com o objetivo derrubar o governo de Washington Luís e impedir a posse de Júlio Prestes, dá início ao seu infortúnio na área política.

Em 1931, fundou a Companhia Petróleos do Brasil e iniciou uma campanha para convencer a população e os governantes da existência de petróleo no país e necessidade de explorá-lo. Criou as empresas: Companhia Petróleo Nacional, Companhia Petrolífera Brasileira, Companhia de Petróleo Cruzeiro do Sul, e a maior de todas, em 1938: Companhia Mato-grossense de Petróleo, Assim, contrariou os interesses de muitos políticos brasileiros e de grandes empresas estrangeiras. Enquanto isso, prevalecia a política oficial do governo em negar a existência de petróleo no Brasil. A partir daí passou a enviar cartas ao presidente Vargas demonstrando o contrário, baseado em sólidas informações. Em 1940, em plena ditadura, ele reitera numa das cartas suas denúncias e acusa o Conselho Nacional do Petróleo de agir a favor dos “interesses do imperialismo perpetuando a nossa situação de colônia americana”. Na ocasião, enviou carta ao general Góis Monteiro, reiterando a “displicência do sr. Presidente da República, em face da questão do petróleo no Brasil, permitindo que o Conselho Nacional do Petróleo retarde a criação da grande indústria petroleira em nosso país”.

Bater de frente com o presidente da República e com o chefe do Estado-Maior do Exército em tempos ditatoriais, agravou sua situação política. Manteve por alguns anos dedicação à campanha do petróleo, enquanto se mantinha com edição livros traduzidos. Em 1936 ingressou na Academia Paulista de Letras e apresentou um dossiê O Escândalo do Petróleo, no qual acusava o governo de “não perfurar e não deixar que se perfure”. O livro esgotou várias edições em menos de um mês. Aturdido, o governo de Getúlio proibiu o livro e mandou recolher as edições. Vargas tentou conseguir sua adesão ao governo, convidando-o dirigir o Ministério da Propaganda, mas ele recusou.

Noutra carta ao presidente, fez severas críticas à política de minérios. O teor da carta foi considerado subversivo e desrespeitoso, fazendo com que fosse detido e condenado a 6 meses de prisão, de março a junho de 1941. Um grupo de intelectuais conseguiu um indulto do governo e a pena foi reduzida para 3 meses. Mas ele continuou fazendo oposição ao governo e denunciando as torturas praticadas pela polícia do Estado Novo. Em 1943 Caio Prado Jr. fundou a Editora Brasiliense e negociou com ele a publicação de suas obras completas. Em seguida recusou a indicação para a ABL-Academia Brasileira de Letras. Um título que ele tentou conquistar anos antes, mas foi preterido pelos acadêmicos da época.

Em 1945 participou do I Primeiro Congresso Brasileiro de Escritores, realizado, em São Paulo, organizado pela ABDE-Associação Brasileira de Escritores. O evento foi consagrado pela historiografia como um movimento da intelectualidade brasileira em favor da democracia, em franca oposição ao Estado Novo. A partir daí suas empresas foram liquidadas, enquanto na Itália se publicava Nasino, a edição italiana de Narizinho e aqui a obra foi transformada em radionovela para crianças pela Radio Globo. Seu último cargo público foi diretor do Instituto Cultural Brasil-URSS, mas logo foi obrigado a se afastar para ser operado às pressas de um cisto no pulmão. Em 1946 mudou-se para Buenos Aires. Mas, antes tornou-se sócio da Editora Brasiliense, que preparava as Obras Completas já traduzidas para o espanhol e editadas na Argentina. Não se ambientou ao clima porteño e retornou ao Brasil em 1947. Aos jornalistas que o aguardava no aeroporto, chamou o governo Eurico Gaspar Dutra de “Estado Novíssimo, no qual a constituição seria pendurada num ganchinho no quarto dos badulaques”. Em seu último livro – Zé Brasil – publicado pela Editorial Vitória, reelaborou seu personagem Jeca Tatu, transformando-o num trabalhador sem terra e esmagado pelo latifúndio.

Seu último gesto político se deu em 18/6/1947, após a cassação do Partido Comunista. Escreveu A Parábola do Rei Vesgo para um comício de protesto no Vale do Anhangabaú. O texto, narrando seu desencanto com a democracia restritiva do general Dutra, foi lido e aclamado pela multidão. Em abril de 1948 sofreu um espasmo vascular que afetou sua motricidade. Mesmo assim publicou mais 2 folhetos na revista Fundamentos: De Quem É o Petróleo na Bahia e Georgismo e Comunismo. Em 2/7/1948 deu sua última entrevista na Radio Record, à disposição na Internet, e sofreu o segundo espasmo, vindo a faleceu em 4/7/1948, aos 66 anos.

As homenagens pós morte foram muitas com seu nome dado a diversos logradouros públicos e escolas em todo o País. Mas, uma especial foi a nomeação da Biblioteca Infantojuvenil Monteiro Lobato, em 1955, e que se tornou o embrião da Rede de Bibliotecas Infantojuvenis da cidade de São Paulo. Seu legado foi registrado algumas biografias, com destaque à duas pelo enfoque centrado em seu próprio relato e uma centrada no empresário, pioneiro da indústria gráfica no Brasil: Reinações de Narizinho: uma biografia, de Marisa Lajolo e Lilia Moritz, publicada pela Cia. das Letrinhas, em 2019; Minhas memórias de Lobato, de Luciana Sandroni, publicada em 1997 pela Cia. das Letrinhas; Monteiro Lobato: intelectual, empresário e editor, de Alice Mitika Koshiyama, publicada pela Edusp, em 2006. Por fim, temos a clássica biografia Vida e obra de Monteiro Lobato, de Edgar Cavalheiro, em 2 volumes, publicada pela Gráfica Urupês, em 1962.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Monteiro Lobato (I)

José Bento Renato Monteiro Lobato nasceu em 18/4/1882, em Taubaté, SP. Advogado, promotor, empresário, jornalista, editor, tradutor, fotógrafo, pintor e o mais destacado escritor da literatura infantil brasileira. Na condição de empresário foi pioneiro no mercado editorial e criador do livro paradidático. Foi também o primeiro industrial do petróleo brasileiro.

Filho de Olímpia Augusta Lobato e José Bento Marcondes Lobato, foi alfabetizado em casa com a mãe professora e teve acesso a imensa biblioteca do avô materno Visconde de Tremembé. Aos 11 anos ingressou no Colégio São João e aos 14 já dominava o inglês e francês. Aos 16 anos perdeu o pai e aos 17 decidiu viver na capital. Queria ingressar num curso de belas artes, devido ao talento como desenhista. Mas ingressou na Faculdade de Direito, por imposição do avô. Junto com os colegas, fundou a “Arcádia Acadêmica”; tornou-se líder da turma e passou a presidir a “Arcádia”. Foi colaborador do jornal Onze de Agosto, da Faculdade, publicando artigos sobre teatro. Tais artigos resultaram, em 1903, na formação do grupo “O Cenáculo”, integrado por Godofredo Rangel, Tito Lívio Brasil e Ricardo Gonçalves entre outros.

Era um tipo anticonvencional e sem papas na língua. Por essa época venceu um concurso de contos, na Faculdade, com o texto Gens Ennuyeux. Aos 22 anos formou-se bacharel em Direito e retornou à Taubaté, onde passou a ocupar interinamente a promotoria da cidade. Conheceu “Purezinha” (Maria Pureza da Natividade de Souza e Castro), com quem casou-se em 1908. Aos 26 anos, o tino empresarial foi despertado com a associação num negócio de estradas de ferro e passou uma temporada vivendo em pequenas cidades da região. Passou a escrever regularmente, colaborando em jornais, como A Tribuna, de Santos, Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro e na famosa revista Fon-Fon, com caricaturas e desenhos. Os negócios, porém, não prosperavam.

Aos 29 anos, com o falecimento do avô, tornou-se herdeiro da Fazenda Buquira, para onde se mudou com a família. Dedicou-se à modernização da fazenda, mas não era propriamente um “homem do campo” A Fazenda serviu, posteriormente, de inspiração para os personagens de seus livros e se tornou centro de visitação turística. A casa-sede da fazenda ainda se encontra em seu estado original, à margem da rodovia atualmente denominada “Estrada do Livro”, que liga a cidade de Monteiro Lobato à Caçapava. A partir de 1912 sua fama foi se consolidando através de artigos publicados no jornal O Estado de São Paulo e se estabelece em 1914 com a publicação de um artigo – Velha praga – contra as queimadas praticadas pelos caboclos. O artigo repercutiu bem entre os leitores e contribuiu para sua mudança do interior para a capital, deixando de ser fazendeiro para tornar-se escritor-jornalista.

Em fins de 1917 publicou o artigo Paranoia ou mistificação, uma crítica arrasando a exposição de Anita Malfatti, gerando uma polêmica até a Semana de Arte Moderna de 1922. Os modernistas passaram a vê-lo como reacionário. Polemista e nacionalista, ele criticava os “ismos” importados da Europa: cubismo, dadaísmo, surrealismo etc., causando certo estranhamento com os modernistas. Em 1918 publicou o livro de contos Urupês, contendo seu personagem mais conhecido – Jeca Tatu – e considerado sua obra-prima. A tiragem ultrapassou os 100 mil exemplares, um fenômeno até para os dias atuais. Em seguida entrou no ramo editorial, comprando a Revista do Brasil; abriu espaço para novos talentos e tornou-se um intelectual engajado na causa do nacionalismo.

A revista prosperou levando-o à editoração de livros. Dizia que “livro é sobremesa: tem que ser posto debaixo do nariz do freguês”. Encarou o livro como um produto de consumo e caprichou na capa e produção gráfica, além de introduzir novas formas de distribuição. Assim, criou a editora Monteiro Lobato & Cia e entregou a direção da revista a Paulo Prado e Sergio Milliet. Importou novas máquinas impressoras para atender a demanda e ampliou o parque gráfico. Em 1921, atendendo um pedido do presidente de São Paulo, Washington Luís, publicou A menina do narizinho arrebitado e distribuiu gratuitamente 500 exemplares nas escolas.

Por essa época, o País enfrentou uma grande seca levando a uma crise energética. O Governo de Arthur Bernardes promoveu uma desvalorização da moeda, gerando um enorme rombo financeiro e muitas dívidas à editora. A saída foi decretar a falência da editora, em 1925, e criar outra – a Companhia Editora Nacional -, em sociedade com Octalles Marcondes Ferreira e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde foi dirigir a filial da Editora. A nova editora teve um impacto revolucionário na indústria editorial, conforme declarou: “Fui um editor revolucionário. Abri as portas aos novos. Era uma grande recomendação a chegada dum autor totalmente desconhecido – eu lhe examinava a obra com mais interesse. Nosso gosto era lançar nomes novos, exatamente o contrário dos velhos editores que só queriam saber dos ‘consagrados’”.

A editora começou a investir em títulos educacionais. Os livros tinham a garantia do “selo de qualidade” Monteiro Lobato, com bons projetos gráficos e enorme sucesso de público. Assim, alavancou a publicação de novos sucessos editoriais, especialmente com Narizinho e outras personagens, como Dona Benta, Pedrinho, Tia Nastácia, Visconde de Sabugosa e Emília. Além disso, por não gostar das traduções dos livros europeus para crianças, e sendo um nacionalista convicto, criou aventuras com personagens ligadas à cultura brasileira, recuperando inclusive costumes da roça e lendas do folclore. Desse modo, tornou-se pioneiro na literatura didática com o ensino de história, geografia, matemática, física e gramática como parte de suas histórias.

Antes do auge da editora ocorre nova mudança em sua vida, participando mais efetivamente na política. Enviou uma carta ao recém-empossado presidente Washington Luís -seu amigo paulista-, defendendo os interesses da indústria editorial. O contato reatado rendeu-lhe a nomeação para adido comercial nos EUA, em 1927. Assim, mudou-se para Nova Iorque e deixou a Editora sob a direção de seu sócio. Nos EUA ficou encantado com o progresso e confirmou a tese do presidente: “Governar é abrir estradas”. Na correspondência mantida com o presidente, aconselhava-o a desenvolver atividades semelhantes no Brasil.

(Continua no próximo domingo)

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AS BRASILEIRAS: Tomie Ohtake

Tomie Ohtake nasceu em Kioto, Japão, em 21/11/1913. Artista plástica e uma das mais importantes representantes do abstracionismo informal, com uma vasta obra nas áreas da pintura, gravura e escultura blica. É considerada a “Dama das artes pláticas brasileira”.

Filha de Kimi e Inosuke Nakakubo, veio visitar um irmão no Brasil, em 1936, e ficou impressionada com a intensidade da luz amarela, do calor e da umidade ao desembarcar no porto de Santos. Em seguida conheceu seu conterrâneo Ushio Ohtake; casaram-se e decidiu viver em São Paulo, no bairro da Mooca. Tiveram dois filhos -Ruy e Ricardo-, que deram continuidade a sua obra. Iniciou na pintura, em 1952, com o artista Keisuke Sugano. Em seguida integou o Grupo Seibi e passou a produzir obras no contexto da arte figurativa. Mais tarde definiu-se pelo abstracionismo.

Iniciou na vida artística aos 39 anos, incentivada pelo pintor Keiya Sugano, num gesto de abertura de um novo território para si e para o outro. De forma independente e sem aderir à narrativa hegemônica da arte, fez seus estudos e seguiu produzindo durante décadas. Criou, investigou, experimentou e produziu pinturas, desenhos, gravuras, escultura. A carreira atingiu plena efervescência a partir dos 50 anos, quando realizou mostras individuais e conquistou prêmios na maioria dos salões brasileiros. Em sua trajetória vê-se obstinação da pesquisa, o rigor na produção e uma atitude livre, sem nunca se filiar, seja a uma ideia, movimento, grupo, linguagem ou manifesto. Uma artista que fez da sua própria casa um lugar de acolhimento e cruzamento de pessoas de diferentes gerações, perspectivas e origens.

Naturalizou-se brasileira em 1968, quando já tinha acumulado experiência na serigrafia, litogravura e gravura em metal. Nas décadas de 1950 e 1960 participou de diversas exposições nacionais e internacionais e foi agraciada com o Prêmio “Panorama da Pintura Brasileira” do MAM-Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1972 foi convidada a participar da Bienal em Veneza e manteve afinidade com a obra do pintor Mark Rothko, “na pulsação obtida em suas telas pelo uso da cor e nos refinados jogos de equilíbrio”. Na década de 1980 foi influenciada pelo surgimento de outros artistas, como Tomoo Handa, Kazuo e Wakabayashi entre outros da comunidade nipônica. Em 1987 recebeu o “Prêmio Mulher do Ano na Arte”,
pelo Conselho Nacional de Mulheres do Brasil e Academia Brasileira de Letras. Em 1995 foi agraciada com o “Prêmio Nacional de Artes Plásticas” pelo Ministério da Cultura.

Destacou-se também no trabalho com esculturas em grandes dimensões, ocupando espaços públicos e teve uma sala especial na 23ª Bienal Internacional de São Paulo, em 1995. Atualmente tem 27 de suas obras públicas expostas em algumas cidades brasileiras, a maior parte em São Paulo, com destaque para a obra em concreto armado instalada na Av. 23 de Maio, os painéis da Estação Consolação do Metrô e a pintura em parede cega no centro (Ladeira da Memória). Entre 2009 e 2010, suas esculturas alcançaram também os jardins do Museu de Arte Contemporânea de Tóquio e a província de Okinawa, no Japão. Em 2012, foi convidada pelo Mori Museum, em Tóquio, para produzir uma obra pública instalada no jardim do Museu.

Em sua extensa trajetória, participou de 20 bienais internacionais: 6 em São Paulo, além das bienais de Veneza, Tóquio, Havana e Cuenca. Seu currículo conta com mais de 120 exposições individuais em todo o mundo e umas 400 coletivas no Brasil e no exterior, sendo detentora de 28 prêmios. Em 1995 recebeu o “Prêmio Nacional de Artes Plásticas” do MinC-Ministério da Cultura. Em 2000, foi criado o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, mantido pelos filhos, tornando-se um grande centro irradiador das artes plásticas. Em meados de 2010 foi convidada pelo arquiteto Oscar Niemayer para fazer a uma tapeçaria de 800 m² decorando uma das paredes do Auditório Simón Bolívar, no Memorial da América Latina, em São Paulo. Infelizmente um incêndio, em 2013, destruiu 90% do auditório e a tapeçaria.

Em 2012 criou uma série de pinturas azuis, nas quais, mais uma vez, fica evidente o seu interesse em renovar-se ao inventar uma nova pincelada – a pincelada como forma, sem que a tela perca o movimento e a profundidade característicos de sua produção. Segundo ela mesma: “A transparência e a profundidade se tornaram elementos fundamentais no meu trabalho. A criação de um espaço, com profundidade e transparência, é trabalhada por meio de pinceladas de cores em que os intervalos entre elas dão visão para um segundo e um terceiro planos. Quando falo das camadas de tinta, são justamente as camadas que não são planas, mas pinceladas que vão se sobrepondo para criar determinada dimensão para o fundo da tela.”

Em 2013, seu centenário foi comemorado com 17 exposições pelo Brasil, destacando 2 no Instituto Tomie Ohtake: Gesto e razão geométrica, com curadoria de Paulo Herkenhoff, e Tomie Ohtake: correspondências e influxo das formas, com curadoria de Agnaldo Farias e Paulo Miyada, realizadas respectivamente em fevereiro e agosto. Anualmente o Instituto realiza o “Prêmio Territórios Tomie Ohtake”, destinado a incentivar as artes plásticas.

Seu legado e biografia foram publicadas alguns livros: Tomie: cerejeiras na noite, de Ana Miranda, baseado em depoimentos da artista, publicado em 2006 pela Cia. das Letrinhas; Tomie Ohtake: Construtiva, de Paulo Herkenhoff, pela Edições Pinakoteke, em 2013; Tomie Ohtake, de Lígia Rego e Ligia Santos, pela Editora Moderna, em 2016. Em dezembro de 2014, a cineasta Tizuka Yamasaki lançou o documentário Tomie, retratando o universo da artista, mesclando momentos íntimos com depoimentos críticos de Paulo Herkenhoff, Agnaldo Farias e Miguel Chaia. Dos 100 aos 101 anos realizou cerca de 30 pinturas e faleceu em 12/2/2015, aos 101 anos.

Clique aqui e veja documentário biográfico com Tomie Ohtake

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Aurélio Buarque de Holanda

Aurélio Buarque de Holanda Ferreira nasceu em Passo de Camaragibe, AL, em 3/5/1910. Escritor, filólogo, lexicógrafo, advogado, professor, tradutor e crítico literário. Professor precoce de português, lecionou por quase 30 anos no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Seu apego a língua portuguesa e o gosto pelas palavras, levou-o a criar seu próprio dicionário, em 1975, o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, conhecido como Dicionário Aurélio ou apenas “Aurelião”

Filho de Maria Buarque Cavalcanti Ferreira e Manuel Hermelindo Ferreira, teve os primeiros estudos em Maceió, onde ingressou no Liceu Alagoano e no magistério aos 15 anos, quando passou a se interessar pela língua e literatura. Pouco depois, mudou-se para o Recife para estudar Direito, concluindo o curso em 1936. Nesta época integrou o grupo de intelectuais composto por José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz entre outros. Retornou à Maceió e passou a lecionar no Colégio Estadual de Alagoas e dirigir a Biblioteca Municipal, em 1937-1938.

Mudou-se para o Rio de Janeiro e continuou lecionando Português e Literatura no Colégio Anglo-Americano até 1940. Neste ano ingressou como professor no Colégio Pedro II, onde permaneceu até 1969, lecionando no Ensino Médio de 1949 a 1980. Este período foi interrompido apenas por um ano e meio, quando assumiu a cadeira de Estudos Brasileiros na UNAM-Universidade Autônoma do México em 1954-1955. Colaborou na imprensa carioca e foi secretário da Revista do Brasil de 1939 a 1943.

Nesta época desponta o escritor com o livro de contos Dois mundos, publicado em 1942 e premiado em 1944 pela ABL-Academia Brasileira de Letras. Conta-se que poderia ter sido um grande escritor, caso não tivesse abraçado a carreira de lexicógrafo. Em 1941 foi convidado para colaborar, como revisor do Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa, editado pela Civilização Brasileira. Em 1944 trabalhou no Dicionário Enciclopédico do Instituto Nacional do Livro, e foi tomando gosto pela lexicografia. Pouco depois iniciou no Suplemento Literário do Diário de Notícias, a seção “O Conto da Semana”, tendo Paulo Rónai como colaborador. Tal parceria resultou na edição dos 5 volumes da coleção Mar de histórias, uma antologia do conto mundial, iniciada em 1945, pela Editora Nova Fronteira. A coleção conta hoje com 10 volumes.

A partir de 1950, manteve na revista Seleções do Reader’s Digest, a seção “Enriqueça o seu vocabulário”, que em 1958 resultou na publicação de um livro com este título. Assim, foi lançado o germe de seu dicionário, que viria a ser publicado em 1975. A partir daí iniciou uma jornada de palestras por todo o País para falar dos mistérios e sutilezas da língua portuguesa, que ele enriqueceu com tantos brasileirismos, “fazendo do brasileiro comum um consulente de dicionário e um usuário consciente do seu idioma”. No plano internacional, foi convidado a dar inúmeras conferências sobre linguística em diversos países. O estrondoso sucesso de vendas suscitou uma ferrenha disputa judicial pela coautoria e por direitos autorais, que foi parar no STF-Supremo Tribunal Federal 4 décadas após seu lançamento. Toda a questão foi esmiuçada no livro Por trás das palavras: as intrigas e disputas que marcaram a criação do Dicionário Aurélio, o maior fenômeno do mercado editorial brasileiro, do jornalista Cezar Mota, publicado pela Editora Máquina de Livros, em 2020.

O nome “Aurélio” passou a ser considerado como sinônimo de dicionário e os editores sugeriram sua inclusão como verbete no próprio dicionário. Porém sua modéstia vetou a inclusão do verbete com este sentido. Tendo em vista o sucesso editorial, dois anos após foi lançado o Minidicionário da Língua Portuguesa, também chamado de “Miniaurélio”, uma espécie de “dicionário de bolso”. 10 anos depois e ainda decorrente do sucesso editorial, foi lançado em 1989 o Dicionário Aurélio Infantil da Língua Portuguesa, com ilustrações de Ziraldo. A edição original, de 1975, teve mais de um milhão de exemplares vendidos até 1987, quando saiu a 2ª edição, contendo cerca de 115 mil vocábulos. Uma quantidade abaixo da média, segundo o próprio Aurélio, já que o português falado no Brasil possui cerca de 400 mil palavras.

Assim, o Aurélio tornou-se o dicionário padrão na sociedade brasileira, estabelecendo a norma linguística e lexicológica mesmo que esta não tenha sido a intenção do autor. Em 1961 ingressou na ABL-Academia Brasileira de Letras, vindo a participar de diversas entidades, como Academia Brasileira de Filologia, do Pen Clube do Brasil, da Comissão Nacional do Folclore, do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, e da Hispanic Society of America. Faleceu em 28/2/1989 e em 2015 foi homenageado no bicentenário de Maceió, com uma estátua em bronze na orla de Ponta Verde. Em 2022, recebeu a homenagem de sua cidade natal com um monumento no trevo de entrada da cidade.

Aurélio Buarque de Holanda teve ascendentes holandeses – originários de Pernambuco – dos dois lados da família. Do lado Buarque de Holanda, descende de Arnaud Florentz Boeyens Van Holland e da ascendência da família Wanderley, sobrenome que não herdou, descende de Caspar Von Niehoff Van der Ley. Aurélio era primo de segundo grau de Chico Buarque; sua mãe, Maria Buarque, era sobrinha de Cristovão Buarque de Holanda, portanto prima de Sérgio Buarque de Holanda, que era o pai de Chico Buarque de Holanda. Não deixa de ser curioso o fato de não termos ainda a publicação de uma biografia para chamar de sua, mesmo diante do “boom” editorial que o tema tem suscitado atualmente. Navegando na Internet encontrei apenas um folheto de 39 páginas – Vida e obra de Aurelio Buarque de Holanda Ferreira -, publicado em 1982 por uma editora desconhecida, de autoria de Gilberto de Macedo.



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AS BRASILEIRAS: Maria Aragão

Maria José Camargo Aragão nasceu em 10/2/1910, em Pindaré Mirim, MA. Médica, professora, jornalista e ativista política destacada na luta contra a ditadura brasileira, em 1964, e na defesa dos direitos da mulher. Sua história tem origem na extrema pobreza e foi uma referência na condição de líder do Partido Comunista no Maranhão.

Filha de Maria José Camargo Aragão e Emídio Aragão, descendentes de africanos. A mãe era analfabeta, porém obstinada na educação dos filhos. Com esta finalidade, a família mudou-se para São Luís, onde ela concluiu os primeiros estudos. Em seguida fez o curso “Normal” no Liceu Maranhense e formou-se professora. Mas alimentava o sonho de se tornar médica, o que parecia quase impossível diante de tantas dificuldades. Em princípios da década de 1930, sua mãe adoeceu e o médico indicou um tratamento mais apropriado, que só podia se realizar no Rio de Janeiro.

Em julho de 1934, a família mudou-se para o Rio com a mãe doente, vindo a falecer pouco depois. O sonho de se tornar médica foi retomado e no mesmo ano e ingressou na Universidade do Brasil, atual UFRJ. Com poucos recursos, passou por uns perrengues e, por pouco, não desistiu do curso. “Eu quis estudar Medicina, porque eu achava muito admirável um médico que era o amigo da gente, e a amizade ficou, porque ele foi nos visitar uma vez, algum de nós estava doente e ele não cobrou, porque viu nossa miséria, e eu achei aquilo muito bonito. Eu tinha sempre a vontade de ajudar, de que pudesse ser útil. A fome que nós passávamos era muito grande e eu achava que devia ter um jeito de se acabar com a fome, porque eu sabia que outras pessoas também passavam fome.” Revelou mais tarde num documentário.

Formou-se médica em 1942, iniciando como pediatra e foi trabalhar no Rio Grande do Sul, enfrentando o preconceito por ser mãe solteira. Sua vida sofreu uma guinada com a morte da filha, redirecionando sua carreira para a ginecologia. “Perder a filha pra mim foi uma das coisas mais dolorosas da vida, e eu pirei. Eu não conseguia trabalhar com criança, embora fosse pediatra e adorasse trabalhar com crianças, ainda hoje adoro crianças, e eu não conseguia trabalhar. Naquela época, eu entrava na sala do consultório, via aquelas crianças e saía pela porta dos fundos. Então, ia para rua andar, andar, andar… Eu ficava pensando: Isso não podia ser. Tinha perdido outra qualidade, que eu acho que é uma das minhas características, além de teimosa, de autossuficiência, é paixão pela vida, que eu conservo”.

Em 1944, impactada pela eloquência de Luiz Carlos Prestes num comício histórico, encontrou no Partido Comunista (PCB) um caminho para canalizar sua indignação. Retornou ao Maranhão, em 1945, e mergulhou de cabeça na organização e fortalecimento do partido em São Luís, enfrentando perseguições e difamações. Na época, o PCB chegou a ter mais de 2 mil militantes. Nas cidades do interior, a médica era tratada como prostituta ou besta-fera por alguns padres que incitavam a população contra ela. Mandavam tocar o sino a dobre de finados, símbolo da morte de alguém, quando ela chegava. Na cidade de Codó chegou a ser apedrejada.

Em 1962, viajou para a União Soviética, onde ficou um ano e três meses participando de cursos de formação política e visitou outros países do Leste europeu. De volta à São Luíz, passou a organizar o partido em bases mais sólidas Na década de 1960, sob o peso do regime militar instalado em 1964, enfrentou as oligarquias políticas e resistiu às perseguições e represálias impostas pela ditadura. Sua liderança no PCB, aliada à direção do jornal Tribuna do Povo, transformou-a num símbolo contra a repreensão. Manteve a atuação médica como bandeira de resistência, enfrentando humilhações ao atender pacientes em seu consultório sob a vigilância policial. Foi presa em diferentes momentos, inclusive sendo brutalmente torturada em 1973. Em 17 de maio foi interrogada pela Polícia Federal. “Esse interrogatório foi muito duro, foi muito duro, vendada, vendada, queriam saber quem era daqui quem era comunista, não sei, eu sei que lá tem oposicionista, comunista eu não sei, sabe.”

Em 1980, alinhou-se a Luiz Carlos Prestes na ruptura com o PCB e reafirmou seu compromisso com ideais libertários, juntando-se à Corrente Prestista. A partir de 1983, passou a integrar a direção da CUT-Central Única dos Trabalhadores do Maranhão, no cargo de Tesoureira. Em 1987 foi criada a Associação Brasileira de Mulheres Médicas-Seção do Maranhão, da qual foi a primeira presidente. Pouco depois foi reeleita na direção da CUT/MA e faleceu em 23/7/1991, aos 81 anos.

As homenagens, como a denominação da Praça Maria Aragão, no centro histórico foram previstas com ela ainda viva. Mas foram efetivadas com a criação do Instituto Maria Aragão, na Sociedade de Medicina e Cirurgia do Maranhão, em 19/10/2001, com a finalidade de preservar e servir de referencial para o estudo da vida social e política, favorecendo o resgate e a divulgação da história das lutas populares no Maranhão. Tais homenagens culminaram na inauguração do Memorial Maria Aragão, em 2004, projetado por Oscar Niemayer no Centro Histórico de São Luís. Como documento biográfico, temos o livro organizado por Euclides Moreira Neto: Maria por Maria – ou a saga da besta-fera nos porões do cárcere e da ditadura. Depoimento autobiográfico da médica militante comunista Maria José de Aragão, publicado pela EDUFMA, em 2017 e à disposição na Internet.

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OS BRASILEIROS: Lima Barreto

Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 13/5/1881, no Rio de Janeiro, RJ. Jornalista, escritor, cronista e um dos precursores da reportagem, junto com João do Rio. Suas 440 crônicas apresentam um retrato vívido do Rio de Janeiro em princípios do século XX, quando a cidade passava por uma radical transformação urbana, alterando a estrutura social da cidade.

Filho de Amália Augusta, filha de escravizada e agregada da família Pereira Carvalho e de João Henriques de Lima Barreto, filho de uma antiga escravizada. Moravam próximo ao Largo do Machado e o pai era tipógrafo e funcionário da Imprensa Oficial. A mãe foi professora e faleceu quando o garoto tinha 6 anos. Em 1907, aos 26 anos, fez suas primeiras publicações na revista Fon-Fon, da qual tornou-se secretário, a pedido do poeta e jornalista Mário Pederneiras.

Sentindo-se desvalorizado no serviço, logo demitiu-se e lançou sua própria revista Floreal. Sua textos tiveram espaço nas principais revistas populares ilustradas e periódicos anarquistas do início do século XX, tais como as revistas ABC e Careta. Em 1911 iniciou a publicação do romance Triste fim de Policarpo Quaresma no Jornal do Commercio e lançou o livro em 1915, tendo a edição bancada com seus próprios recursos. Por esta época, as crises de alcoolismo e depressão tornaram-se mais agudas, provocando sua primeira internação no Hospital dos Alienados, em 1914. Voltou a trabalhar em algumas revistas, em 1916, publicando artigos de viés político. Em seguida os problemas de saúde retornaram e ele teve que ser aposentado em 1918. No ano seguinte, publicou o romance Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá pela editora Revista do Brasil, de Monteiro Lobato. Os períodos de internação no hospício resultaram na composição de diversos diários e no romance inacabado Cemitério dos vivos.

Foi excluído da crítica oficial – no período 1909-1922 – com um silêncio implacável quanto aos seus escritos. Mesmo antes disso já não encontrava editores interessados em sua obra, levando-o a tentar a edição em Portugal. Assim, foi publicado o romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha, em 1907, pela Livraria Clássica de Lisboa. Sua posição combativa e crítica contundente, aliado ao preconceito de cor e ao alcoolismo, custaram-lhe a marginalidade e a indiferença da elite cultural. Tal fato pode se comprovar na descoberta e valorização de sua obra após sua morte, em 1/11/1922 aos 41 anos.

A maior parte de sua obra foi redescoberta e publicada após sua morte através do esforço de seu biógrafo Francisco de Assis Barbosa. Logo após seu falecimento, o editor Jacinto Ribeiro dos Santos publicou Os Bruzundangas, uma sátira da vida brasileira nos primeiros anos da República. Além deste, foram publicados Bagatelas, em 1923, e Clara dos Anjos, em série, na Revista Santa Cruz em 1923-1924. Outras obras, como Cemitério dos vivos, Diário íntimo e parte da correspondência pessoal, foram publicadas nas décadas de 1940 e 1950, a partir das pesquisas de Francisco de Assis Barbosa.

Seu talento como escritor foi reconhecido por Monteiro Lobato, conforme escreveu, em 1/19/1916, ao seu amigo Godofredo Rangel: “Conheces Lima Barreto? Li dele, na Águia, dois contos, e pelos jornais soube do triunfo do Policarpo Quaresma, cuja segunda edição já lá se foi. A ajuizar pelo que li, este sujeito me é romancista de deitar sombras em todos os seus colegas coevos e coelhos, inclusive o Neto. Facílimo na língua, engenhoso, fino, dá impressão de escrever sem torturamento – ao modo das torneiras que fluem uniformemente a sua corda-d’água”.

Outros críticos se manifestaram de modo diverso, porém reconhecendo o talento do autor. Antônio Cândido, ao observar sua concepção literária, considera que “de um lado favoreceu nele a expressão escrita da personalidade”, enquanto “de outro pode ter contribuído para atrapalhar a realização plena do ficcionista”. Ressalta o valor de sua “inteligência voltada com lucidez para o desmascaramento da sociedade e a análise das próprias emoções”, mas também afirma ser ele um escritor que não atingiu toda a sua potencialidade como narrador. Osman Lins afirmou que, para além de realizações estéticas desiguais, há “certas características de ordem literária e humana que atravessam todos os seus livros – ou, até, todas as suas páginas –, dando-lhes grande homogeneidade”, concluindo que “sua obra tão variada é um bloco coerente e em toda ela reconhecemos, inconfundível, nítida, a personalidade do autor”.

Foi o crítico mais agudo de sua época, rompendo com o nacionalismo ufanista e pondo a nu a roupagem republicana que manteve os privilégios de famílias aristocráticas e dos militares. Definindo seu projeto literário como o de escrever uma “literatura militante” — apropriando-se da expressão de Eça de Queirós — sua obra está quase inteiramente voltada para a investigação das desigualdades sociais, da hipocrisia e da falsidade dos homens e das mulheres em suas relações dentro da sociedade. Em muitas obras, o método adotado para tratar desses temas é o da sátira, cheia de ironia, humor e sarcasmo. Foi severamente criticado por alguns escritores de seu tempo por seu estilo despojado e coloquial, que Manuel Bandeira chamou de “fala brasileira” e que acabou influenciando os escritores modernistas.

Foi Homenageado, no carnaval do Rio de Janeiro de 1982, pela Escola de Samba Unidos da Tijuca, com o samba-enredo Lima Barreto, mulato pobre mas livre e 15ª edição Flip-Festa Literária Internacional de Paraty, em 2017. Duas excelentes biografias dão conta de seu legado literário: A vida de Lima Barreto, de Francisco de Assis Barbosa, publicada em 2002 pela José Olympio Editora e Lima Barreto: triste visionário, de Lilia Moritz Schwarcz, pela Cia. das Letras em 2017.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Ana Jansen

Ana Joaquina Jansen Pereira, conhecida como Donana por seus escravizados, nasceu em São Luís, MA, em 1798. Empresária e politica, rica proprietária de terras. Foi uma personagem controversa na história. Conta-se que devido a crueldade com seus escravizados, foi criada uma lenda sobre seu espírito vagando pelas ruas de São Luís, conduzindo uma carruagem fantasma.

Filha de Rosa Maria Jansen Muller e Vicente Gomes de Lemos Albuquerque, uma família descendente de holandeses e portugueses instalada na Província do Maranhão. Na adolescencia teve um filho de pai desconhecido, tornando-se “desonrada”, e expulsa de casa pelo pai com o filho recém-nascido. Após passar por uns perrengues e grandes dificuldades, tornou-se amante por muitos anos do rico coronel Isidoro Rodrigues Pereira, pertencente à família mais rica da região. Deste relacionamento duradouro, surgiram alguns filhos, passando de amante a esposa após a morte da primeira mulher do coronel, que aceitou criar seu filho sem pai. Ele a sustentava, lhe deu casa e uma vida digna para criar seu filho. No entanto, era alvo de preconceito por criá-lo sozinha, morando na casa cedida pelo coronel.

O relacionamento era mal visto pela vizinhança na sociedade moralista da época, personificada acima de tudo por sua maior inimiga: Dona Rosalina Ribeiro, que conservava a moral e os bons costumes com muito rigor. Não admitia uma mulher não ser casada, ter filho de um homem que ninguém sabe quem é e ser amante de outro, ainda casado. Tal comportamento chocava as mulheres da época, que se casavam cedo e levavam uma vida de submissão ao marido. Após a morte de sua esposa, o coronel assumiu oficialmente a relação e permaneceram juntos por 15 anos, até a morte do marido, que deixou 6 filhos para criar. Aos poucos, ela passou a ser aceita e até respeitada pela sociedade local. Assim, tornou-se uma viúva rica e poderosa senhora proprietária de terras, escravos e líder política até que chegou a ficar conhecida como “Rainha do Maranhão”.

Empreendedora e ciente de seu poder econômico, assumiu o controle da Fazenda Santo Antônio e tempos depois conseguiu triplicar a fortuna herdada. Em seguida passou a ser uma das maiores produtoras de algodão e cana-de-açúcar do Império, além de possuir o maior número de escravos da região. Implantou um sistema de distribuição de água substituindo o anterior, cobrando a população pela prestação deste serviço por um periodo de 15 anos. Perseverante e ambiciosa, transformou o dinheiro em poder, assumindo a liderança política da cidade e reativando o esfacelado partido liberal Bem-te-Vi (nome do jornal do partido), passando a comandá-lo.

Além de empresária, era hábil na política, costurando acordos nos bastidores entre alguns líderes locais. Durante a revolta da Balaiada (1828-1841), conta-se na história que ajudou a financiar o exército comandado pelo Duque de Caxias, enviado para conter a revolta, uma das mais longas durante o Império. No âmbito local, manteve forte rivalidade política com o Comendador Meireles, líder do Partido Conservador. Seu temperamento forte, explosivo e competitivo, além de sua capacidade de liderança, alcançaram a corte de D. Pedro II, onde ficou conhecida como “Rainha do Maranhão”. Passou, também, a ficar famosa pela dureza com que tratava os inimigos e pelo autoritarismo extremado com seus funcionários e escravizados. Era voz corrente entre seus opositores de que não tinha piedade de quem atrapalhasse seus planos, e açoitava os negros que não a obedeciam, mutilando-os.

Embora haja certo consenso sobre sua crueldade, de acordo com o historiador Rodrigo do Norte, muitos dos relatos seriam exagerados. Ela não era mais cruel que a média dos escravagistas de sua época. Com a fama espalhada na região, tornou-se vaidosa e requereu o título nobiliárquico de Baronesa de Santo Antonio, local onde mantinha a fazenda principal, ao Imperador Dom Pedro II, que lhe foi negado. Após a morte do coronel Isidoro, seu marido, ela foi amante, por alguns anos, do Desembargador Francisco Vieira de Melo e teve mais 2 filhos. Assim, foi matriarca de uma família de 11 filhos. Ela não via nada demais em ser amante e nem ligava para o que as mulheres casadas diziam. Sempre aparecia grávida diante todos, que ficavam chocados

Mais tarde, já aos 60 anos, casou-se pela segunda vez oficialmente com o comerciante paraense Antônio Xavier e faleceu em 11/4/1869. Atualmente, em São Luís, existem ruas com o seu nome e uma lagoa em sua homenagem: a Lagoa da Jansen, um dos principais pontos de lazer da cidade. No folclore de São Luís, existe uma lenda sobre a carruagem de Ana Jansen. De acordo com esta lenda, por maltratar seus escravizados, ela foi condenada a vagar perpetuamente pelas ruas da cidade numa carruagem assombrada. O coche maldito partiria do cemitério do Gavião, em noites de quinta para sexta-feira. Um escravo sem cabeça conduziria a carruagem, puxada por cavalos também decapitados ou uma mula-sem-cabeça em outras versões.

Ana Jansen ficou muito conhecida no Maranhão, fazendo com que a hsitória de sua vida fosse mitificada ao longo do tempo, levando a exageros ampliados pelo folclore. Diante de tais exageros, duas historiadoras -Elizabeth Souza Abrantes e Sandra Regina Rodrigues Santos- empreenderam uma pesquisa embasada em fatos e documentos, que resultou no livro A Senhora do Maranhão: uma biografia de Ana Jansen, publicado pela editora da UEMA, em 2023. A biografia foi resenhada e publicada – SALVE ANA, SALVE DONANA: um olhar sobre a biografia da Senhora do Maranhão, Ana Jansen – por Nila Michele Bastos Santos na revista Outros Tempos, vol. 21, nº 37, 2024, que pode ser acessada clicando aqui.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Emiliano Mundurucu

Emiliano Felipe Benício Mundurucu nasceu em 1791, em Pernambuco. Militar e ativista político, é considerado a primeira pessoa na história dos EUA a desafiar a segregação racial em um tribunal. Foi também o primeiro negro a ingressar em uma loja maçônica de Boston que até então só aceitava brancos.

O sobrenome “Mundurucu” foi incorporado ao seu nome em 1823, seguindo um costume entre revolucionários nas colônias americanas de adotar nomes de povos originários das Américas como manifestação de uma nova identidade nacionalista e independente da Europa. Os mundurucus são um grupo indígena brasileiro que habita as áreas do sudoeste do estado do Pará.

Emiliano participou da Revolução Pernambucana de 1817 e foi major do batalhão de pardos durante a Confederação do Equador, em 1824. Chegou a ser indicado pelo governo regencial para comandar o Forte do Brum, mas não assumiu o posto devido à resistência movida pelo preconceito racial da elite pernambucana. Foi um militar muito influenciado pela revolução haitiana (1791-1804) Acreditava que uma grande revolta dos negros deveria ser realizada no Brasil, tal como se deu no Haiti. Assim, ficou conhecido e chamado de “haitianista”, causando temor nas elites.

O historiador Marco Morel, em seu livro A Revolução do Haiti e o Brasil escravista (Jundiaí, SP: Editora Paco, 2017), conta que Emiliano ensaiou uma ação militar no Recife enquanto recitava versos que exaltavam o então líder haitiano Henri Christophe. Em 1824, durante a Coonfederação do Equador, foi preso junto com figuras como Frei Caneca e recebeu sentença de morte. No entanto, conseguiu fugir e refugiou-se em Boston. Em 1825 fez uma breve visita ao Haiti e no ano seguinte desembarcou na Venezuela e alistou-se no exército do bolivarianos, onde ficou apenas um ano e retornou à Boston em 1827.

Em Massachusetts, em 1832, foi vítima de segregação racial ao embarcar num vapor com sua mulher Harriet e sua filha de 1 ano. Foram impedidos pelo capitão do navio de ocupar um espaço restrito às pessoas brancas. Ele argumentou que havia comprado a passagem mais cara, que lhe daria direito àquela área, mas o capitão do navio negou, alegando que sua esposa era negra, e eles tiveram que viajar num espaço menos confortável. Mundurucu advertiu o capitão: “go and get a writ out immediately”, algo como “Nos vemos no tribunal”. Ele ajuizou uma ação contra o capitão Edward Barker, por quebra de contrato, e o caso foi noticiado em alguns jornais dos EUA

O historiador Lloyd Belton registrou: “É incrível que um imigrante negro brasileiro tenha sido a primeira pessoa na história dos EUA a desafiar a segregação em um tribunal. E é ainda mais incrível que ninguém saiba quem ele é… a atitude desafiadora de Mundurucu inspirou diretamente outros ativistas negros”. No julgamento ele foi representado por juristas de peso, entre eles, David Lee Child, renomado abolicionista. Em 1833, o júri condenou o cap. Baker a pagar uma indenização de US$ 125 dólares a Mundurucu, mas o capitão conseguiu reverter a decisão na Corte Judicial Suprema de Massachussets.

Após o episódio, o navio Telegraph passou a ter a segregação racial escrita e exposta, definindo que os negros só podiam comprar as passagens mais baratas e confinadas em local mais exposto do navio. Segundo a historiadora Caitlin Fitz, Mundurucu foi pioneiro na ação judicial impetrada, decorrente de sua atitude tomada durante a viagem no navio. Ela lembra que a partir daí os ativistas passaram a ter argumentos mais amplos contra o racismo nos processos judiciais, ou seja, indo além da queixa de quebra de contrato.

Em 1837 foi anistiado no Brasil e retornou à Pernambuco, onde tentou reconquistar seu posto no Exército e assumir o comando do Forte do Brun. Sua posse foi impedida pelo presidente da província Vicente Tomás P.F. Camargo, alegando que ele não era qualificiado para tal comando. Assim, foi travada uma polêmica através de cartas publicadas no Diário de Pernambuco, onde ele afirma o interesse em “deprimir minha reputação tanto civil, quanto militar”. A polêmica se extendeu por alguns meses, através da imprensa, e ele decidiu retornar aos EUA em 1841, onde se tornou um eminente abolicionista e faleceu, em Boston, em 1863, aos 72 anos.

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JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Maria Isaura de Queiroz

Maria Isaura Pereira de Queiroz nasceu em 26/8/1918, em São Paulo, SP. Socióloga, escritora e tradutora, conhecida como a grande dama da sociologia brasileira. Foi pioneira no estudo do povo do interior do Brasil, produzindo obras clássicas sobre o sertanejo, o caipira, a vida no campesinato e analise do “mandonismo local”.

Filha de Maria Moraes Barros Pereira de Queiroz e Manoel Elpídio Pereira de Queiroz, foi sobrinha da primeira deputada brasileira Carlota Pereira de Queiroz, na década de 1930. Teve os primeiros estudos na Escola Normal Caetano de Campos e ingressou no curso de Ciências Sociais da Faculdade de Ciências e Letras da USP-Universidade de São Paulo, concluído em 1949. Emendou um mestrado em Sociologia, Antropologia e Política na USP, em 1951 e um doutorado em Sociologia na École Pratique des Hautes Études, em 1959, com bolsa do governo francês.

Foi aluna – e herdeira intelectual – de Roger Bastide que, em 1938, inaugurou os estudos sociais na USP, com a criação da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, onde lecionou até se aposentar, em 1978, como professora emérita. Lecionou também na École des Hautes Études, em 1963-64; no Institut des Hautes Études d’Amerique Latine, na Universidade de Paris em 1961-1970; Université Laval, em Quebec, em 1964, e na Université des Mutantes, no Senegal, em 1979.

Membro da SBPC-Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência por mais de 40 anos. Sua obra abrange 3 temas: reforma e revolução por meio dos movimentos religiosos, messiânicos e do mandonismo na política; estudos rurais com base no campesinato e a cultura brasileira, destacando as histórias de vida, relações de gênero e o carnaval.

Principais livros: A Guerra santa no Brasil: o movimento messiânico no Contestado (1957), O messianismo no Brasil e no mundo (1965), Réforme et Révolution dans les société traditionnelles (1968), Os Cangaceiros : les bandits d’honneur brésiliens (1968), Images messianiques du Brésil (1972), O campesinato brasileiro (1973), O mandonismo local na vida política brasileira (1969), além dos ensaios: Cultura, sociedade rural e sociedade urbana no Brasil (1978), Carnaval brasileiro: o vivido e o mito (1992).

Em 1964 fundou o CERU-Centro de Estudos Rurais e Urbanos, ligado ao Departamento de Sociologia da USP, no qual se distinguiu por longo tempo, seja como presidente, seja como diretora de pesquisas. Sua finalidade é desenvolver pesquisas, organizar encontros de estudiosos das mais diversas áreas das ciências sociais e oferecer treinamento a estudantes de graduação e pós-graduação em ciências sociais. Edita uma revista e realiza encontros anuais, cujo tema do 49º Encontro Nacional de Estudos Rurais e Urbanos, em 2023, foi “Memórias & Patrimônios: as relações entre sujeitos, histórias e sociedades”.

Como socióloga, foi mais reconhecida fora do Brasil. Seus trabalhos foram traduzidos na Europa. Eric Hobsbawn, qu e muito a respeitava, traduziu para o inglês um de seus trabalhos. Teve destacada atuação logo após o Golpe Militar de 1964. Quando Florestan Fernandes foi preso, ela se encontrava no Canadá. Ali sua voz foi ouvida e repercutiu nos meios intelectuais. O Presidência da República, general Castelo Branco, alarmado com as repercussões, determinou que se apurasse quem era Florestan, para entender o acontecido. No movimento estudantil de 1968, os alunos da Faculdade de Filosofia organizaram a grande passeata contra a ditadura. O diretor da Faculdade fechou as portas da escola para que os estudantes fossem impedidos de nela reentrar. Ela colocou uma cadeira contra a porta, para impedir que fosse fechada; sentou-se e com seu guarda-chuva em riste, informou ao professor Erwin Rosenthal: “Os estudantes combinaram que vão bater pique aqui. E vão fazê-lo.”

Foi premiada no XI Concurso Mario de Andrade, do Departamento de Cultura do Município de São Paulo, em 1957; vencedora do Prêmio Jabuti de Ciências Sociais, da Câmara Brasileira do Livro, com o livro O messianismo no Brasil e no mundo, em 1966, e o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, do CNPq, em 1998. O prêmio foi entregue pelo seu colega, o presidente da República Fernando Henrique Cardoso. Na época esta premiação era a mais alta condecoração científica do País. Ficou conhecida como a socióloga que tentou decifrar o Brasil e faleceu em 29/12/2018, aos 100 anos

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Guimarães Rosa II

Não deixa de ser um prenúncio do que viria 12 anos depois com a publicação de sua obra-prima Grande sertão: Veredas, em 1958. Considerada uma das grandes obras da literatura brasileira, segundo os críticos, a obra “renova a linguagem narrativa, sobretudo as noções de tempo, espaço e personagem. O andamento do enredo não segue a cronologia linear. Os episódios têm ritmo aparentemente caótico, sem obedecer à sequência temporal própria do romance realista, e o espaço é dimensionado pelo fluxo de viagem”.

Para escrevê-lo, o autor realizou duas viagens: em 1945, foi ao interior de Minas Gerais rever as paisagens de sua infância, e em 1952, acompanhou a condução de uma boiada pelo sertão mineiro que marcaria sua vida e sua obra. Junto com 8 vaqueiros e levando 300 cabeças de gado, percorreu em 11 dias os 240 quilômetros que separam Três Marias e Araçaí, na região central de Minas Gerais. A viagem foi toda feita a cavalo e durou 11 dias. Munido de pequenas cadernetas e lápis de duas pontas pendurado no pescoço, ele perguntava tudo aos vaqueiros e anotava na caderneta.

O próprio Rosa qualificou esta obra como uma “autobiografia irracional”, marcada por elementos regionalistas, existencialistas e religiosos. Ainda, segundo os críticos, sua prosa faz uso de “uma linguagem levada ao limite por meio de recursos como a fusão de fala popular, expressões regionais, neologismos, palavras indígenas e construções inusitadas de frases que, por vezes, se chocam com a própria sintaxe da língua portuguesa. O escritor traz à tona a complexidade da experiência humana com uma linguagem única e inventiva. Explora as formas de narrar subvertendo a cronologia linear e cria cenários tão profundamente brasileiros quanto imaginativos e oníricos”.

Diante de tantas análises e questões sobre seu estilo literário, ele chegou a ensaiar uma reposta: “Escrevo, e creio que este é o meu aparelho de controle: o idioma português, tal como o usamos no Brasil; entretanto, no fundo, enquanto vou escrevendo, eu traduzo, extraio de muitos outros idiomas. Disso resultam meus livros, escritos em um idioma próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros. A gramática e a chamada filologia, ciência linguística, foram inventadas pelos inimigos da poesia”. Mas poderia responder de modo diferente, como o fez noutra oportunidade, de modo mais poético: “Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens”.

Sua literatura recupera também o universo onírico da cultura popular, o gosto pela história e o estilo assombroso dos “casos”, de enredo curto e cheio de surpresas. “Em muitos desses textos breves, o sertão continua vestido de Idade Média, com cavaleiros corteses, e mulheres-damas, que jamais perdem a condição de senhora a quem se serve por amor e por quem se guerreia, e para quem se empreende a travessia dos medos. Nas narrativas, porém, os tipos medievais aparecem travestidos de jagunços, fazendeiros, prostitutas, beatos e loucos”.

Sua obra foi estudada em muitas teses e dissertações acadêmicas e por diversos críticos sob diversos ângulos, com destaque para alguns livros: WILLI BOLLE (2004), com grandesertão.br: o romance de formação do Brasil. Editoras Duas Cidades/Ed. 34; EDUARDO COUTINHO (1991), com Guimarães Rosa. Editora Civilização Brasileira; WALNICE NOGUEIRA GALVÃO (1986), com As formas do falso: um estudo sobre a ambiguidade no Grande sertão: veredas. Editora Perspectiva; ETTORE FINAZZI-AGRÒ (2001), com Um lugar do tamanho do mundo: tempos e espaços da ficção em João Guimarães Rosa. Editora da UFMG; FRANCIS UTÉZA (1994), com João Guimarães Rosa: metafísica do Grande sertão. Editora da USP, entre outros.

A partir de 1961, passou a escrever uma coluna semanal de contos no jornal O Globo e no mesmo ano ganhou o Prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto da obra. Muitos dos contos publicados são compilados nas coletâneas Primeiras Estórias (1962) e Tutameia (1967), seu último livro, uma nova coletânea de contos e nova efervescência no meio literário, novo êxito de público. A obra, aparentemente hermética, divide a crítica. Uns veem o livro como “a bomba atômica da literatura brasileira”; outros consideram que em suas páginas encontra-se a “chave estilística da obra de Guimarães Rosa, um resumo didático de sua criação”. Por esta época suas obras são continuamente editadas e reeditadas em todo o mundo, e seu nome foi indicado para o Prêmio Nobel de Literatura, numa iniciativa de seus editores alemães, franceses e italianos.

Foi eleito por unanimidade para a ABL em 1963, mas não tomou posse. Supersticioso, temendo ser tomado por uma forte emoção no momento de sua consagração, adiou a cerimônia de posse por quatro anos. Em 1967, na cerimônia de posse, chegou a afirmar, em tom de despedida, como se soubesse o que se passaria ao entardecer do domingo seguinte: “…a gente morre é para provar que viveu.” e faleceu 3 dias depois, em 19/11/1967, vitimado por um infarto fulminante, prematuramente aos 59 anos, no auge da carreira literária e diplomática.