JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Guimarães Rosa (I)

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, MG, em 27/6/1908. Escritor, médico, diplomata, poeta, romancista, contista e poliglota, é considerado um dos maiores escritores da literatura brasileira. Além de criar, dar forma e voz ao ser-tão expressivo na escrita, registrou um modo de ser-tão peculiar dos lugares mais afastados dos centros urbanos.

Filho de Francisca Guimarães Rosa e Flordualdo Pinto Rosa, começou a estudar línguas, sozinho, aos 7 anos (francês); aos 9 encarou o holandês; com uns professores; em seguida pega o alemão e prossegue. Mais tarde declarou: “Eu falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração”.

Este gosto pela linguagem propiciou-lhe um estilo literário marcado pela influência da falar popular e regional que, somados à erudição do autor, permitiu a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas. Seus contos e romances têm como ambiente o sertão brasileiro, onde os personagens utilizam uma linguagem “simples”, própria do interior, i,é do sertão.

Na infância, foi morar com os avós em Belo Horizonte, onde concluiu os primeiros estudos. O curso secundário se deu em São João del-Rei e retornou à capital. O tio Adonias, rico fazendeiro, patrocinou seus estudos no Colégio Arnaldo. Em 1925 ingressou na Faculdade de Medicina com apenas 16 anos. Ainda estudante, participou de um concurso literário da revista O Cruzeiro, em 1929. Enviou 4 contos: Caçador de camurças, Chronos kai anagke (tempo e destino), O mistério de Highmore Hall e Makiné. Todos foram premiados e publicados em 1929-30 e foram escritos com a intenção de ganhar uma bolada de 100 contos de réis.

Em 1930 casou-se com Lígia Cabral Pena, com quem teve duas filhas e no mesmo ano recebeu o diploma de médico. Passou a exercer a profissão em Itaguara, onde permaneceu por 2 anos.

Consta que foi aí que passou a ter contato com os elementos do sertão, servindo-lhe de referência e inspiração a sua obra. Em seguida serviu como médico voluntário durante a Revolução Constitucionalista de 1932, e depois tornou-se oficial-médico, por concurso, da Força Pública do Estado de Minas Gerais. Atuando em Passa Quatro (MG), manteve contato com o futuro presidente Juscelino Kubitschek, médico-chefe do Hospital de Sangue.

Em 1933 foi para Barbacena, ocupando o cargo de médico no 9º Batalhão de Infantaria. No ano seguinte decidiu seguir a carreira de diplomata; prestou o concurso do Itamarati e passou alguns anos atuando em países da Europa e América Latina. Foi cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo, na Alemanha, de 1938 a 1942, onde conheceu sua segunda esposa: Aracy de Carvalho, da Embaixada, que ficou notabilizada pela ajuda que prestou a muitos judeus para fugir do Holocausto durante a 2ª Guerra Mundial. Por esta ação humanitária e de coragem, ela ganhou o reconhecimento do Estado de Israel e é a única mulher brasileira homenageada no “Jardim dos Justos entre as Nações”, no memorial oficial de Israel para lembrar as vítimas judaicas do Holocausto.

De volta ao Brasil, serviu como diplomata nas embaixadas brasileiras do em Bogotá e Paris. Em 1937, recebeu um prêmio da ABL – Academia Brasileira de Letras, pelo livro de poesia Magma, considerado por ele mesmo uma obra menor. No mesmo ano, participou de outro concurso com o livro de contos Sagarana, que foi revisto e publicado em 1946. Aí incluiu o conto A hora e a vez de Augusto Matraga, adaptado para o cinema em 1965, sob a direção de Roberto Santos. A publicação deste livro garantiu-lhe um lugar de destaque no panorama da literatura brasileira, pela linguagem inovadora, pela singular estrutura narrativa e a riqueza de simbologia dos seus contos.

A partir dali o regionalismo estava novamente em pauta, mas com um novo significado e assumindo a característica de experiência estética universal. O nome “Sagarana” foi criado por ele mesmo, com a junção das palavras “saga”, que designa as epopeias escandinavas, e “rana”, que vem do tupi e quer dizer “semelhante a”, ou seja, “próximo a uma saga”. (continua no próximo domingo)

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AS BRASILEIRAS: Maria Odília

Maria Odília Teixeira nasceu em São Felix, BA, em 5/3/1884. Médica e professora, conhecida como a primeira médica negra do Brasil e primeira professora negra da Faculdade de Medicina da Bahia-FAMEB.

Filha de Josephina Luiza Palma, cuja mãe foi escravizada, e do médico José Pereira Teixeira, aos 13 anos foi estudar no Ginásio da Bahia, uma escola da elite soteropolitana em Salvador, formando-se professora. Em 1904, ingressou na FAMEB, tendo como tutor o irmão Joaquim Pereira Teixeira, ingressado no curso 2 anos antes. Formou-se médica em 1909, a única mulher numa turma de 47 alunos. Sua tese – Algumas considerações acerca da curabilidade e do tratamento das Cirrhoses Alcoólicas – também foi pioneira ao fugir de temas ligados à ginecologia e pediatria. Na época o estudo sobre o alcoolismo estava vinculado à raça.

Em seguida, passou a viver em Cachoeira, onde trabalhava sob a tutela do pai, do irmão ou de outro médico. Depois passou a atender a clientela, majoritariamente feminina, sozinha. Em 1914 foi convidada para lecionar na FAMEB na cátedra de Clínica Obstétrica. Em 1917, teve que deixar a docência para cuidar do pai doente. Após breve estadia em Cachoeira, mudou-se com a família para a cidade de Irará em busca da melhora do pai. Aí conheceu o advogado Eusínio Lavigne, com quem se casou aos 37 anos. Uma idade avançada para o casamento naquela época. A família do noivo não acreditou que ele ia se casar com uma negra e não compareceu no casamento.

Ela sentiu o preconceito da família do marido e da sociedade quando chegaram à Ilhéus. Pouco depois deixou a medicina para se dedicar à família com dois filhos. Por essa época, o marido, inspirado em ideias comunistas, ingressou na política e tornou-se intendente (prefeito) de Ihéus até 1937. Mesmo na condição de primeira-dama da cidade, ela permaneceu sofrendo preconceito. As filhas relatam que ela se manteve serena e mantendo a dignidade do cargo, mesmo diante do preconceito.

Em 1937, o marido foi destituido do cargo e preso durante a ditadura do Estado Novo, no Governo Vargas. Os ideais políticos por uma sociedade mais solidária e menos desigual continuaram ao longo de sua vida. Uma nova prisão por motivos políticos viria ocorrer anos depois, em 1964, na ditadura militar. Logo que foi solto, a família mudou-se para Salvador, onde veio a falecer em 1970, aos 86 anos. Deixou filhos, netos e bisnetos, que também se tornaram médicos.

Partilhava os ideais políticos do marido e interferiu numa polêmica que ele manteve com um desafeto politico. Em 1960, Ruy Santos, que chegou ao cargo de senador da Bahia, publicou o livro Teixeira Moleque, pela editora José Olympio, desmerecendo os feitos de seu pai. Ao tomar conhecimento do fato, Maria Odília escreveu-lhe uma longa carta avisando sobre as providências que iria tomar. Não temos notícia sobre algum processo movido por ela contra o inimigo político de seu pai.

Deixou um legado para a Medicina que ultrapassa a pesquisa histórica e tornou-se referencia de conduta profissional para seus familiares. Uma terceira bisneta médica -Paula Lavigne- afirma que “Acredito que toda a minha paixão pelo cuidar veio da minha bisa Odília. Formar-se em Medicina sendo mulher negra há tanto tempo não deve ter sido fácil. Muita luta, muita força e muito amor”. Outra bisneta – Luciana Lavigne – oftalmologista, emenda: “um estimado apreço e reconhecimento por sua honrosa história e trabalho, e isso se faz presente diariamente em minha vida profissional”.

Seu filho, também médico, José Leo Lavigne, conta que “minha mãe, sem nunca ter saído do Brasil, falava cinco línguas fluentemente, e não concebia como os professores ousavam ensinar o português, sem ao menos dominar o grego e o latim”.

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BRASILEIROS: Sergio Buarque de Holanda

Sergio Buarque de Holanda nasceu em 11/7/1902, em São Paulo, SP. Historiador, escritor, sociólogo, crítico literário e jornalista. Não foi propriamente político, mas ajudou a fundar o PT-Partido dos Trabalhadores. Também não foi músico, mas foi pai de Chico Buarque de Holanda e ficou tão conhecido do público quanto seu primo “Aurelião”, como é conhecido o Dicionário da Língua Portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda.

Filho de Heloisa Gonçalves Moreira de Holanda e do farmacêutico Cristóvão Buarque de Holanda, é reconhecido como um dos intérpretes do Brasil, com seu livro Raízes do Brasil, publicado em 1936 e considerado um dos clássicos da historiografia e da sociologia brasileira. Teve os primeiros estudos na Escola Caetano de Campos e Ginásio São Bento, onde foi aluno de Afonso d’Escragnolle Taunay. Publicou seu primeiro artigo – Originalidade literária -, em 1920, no Correio Paulistano e mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1921. Em seguida passou a colaborar, também, com a revista Cigarra e Revista do Brasil. Participou do Movimento Modernista de 1922, designado por Mario e Oswald de Andrade como representante da revista Klaxon no Rio.

Formou-se advogado pela Faculdade Nacional de Direito, em 1925, e passou a trabalhar como jornalista nas revistas Ideia Ilustrada e O Mundo Literário. Em 1926 mudou-se para Cachoeiro do Itapemirim, ES, para trabalhar como editor-chefe do jornal O Progresso e dá-se uma grande mudança em sua formação intelectual, afastando-se do projeto modernista. Retornou ao Rio de Janeiro para trabalhar no Jornal do Brasil, onde foi correspondente em Berlim no período 1929-1931. De volta ao Brasil, passou a lecionar na Universidade do Distrito Federal. Na Revolução Constitucionalista, de 1932, chegou a ser preso por defender os insurgentes. Em 1935 publicou na revista Espelho o artigo Corpo e alma do Brasil, um esboço do livro que estava em gestação.

Em 1936 casou-se com Maria Amélia de Carvalho Cesário Alvim e no mesmo ano publicou seu livro mais conhecido, o ensaio Raízes do Brasil pela editora José Olympio. Trata-se de uma investigação das origens da formação do povo brasileiro, baseado nas teorias sociológicas de Max Weber. O livro aborda o conceito do tipo brasileiro como um “homem cordial”, um sujeito que almeja a intimidade no relacionamento pessoal e rejeita o formalismo social. Tal conceito foi sofrendo modificações ao longo das edições posteriores. Porém, ficou marcado na caracterização do “tipo” brasileiro tendo como virtude a hospitalidade, a generosidade e a expansividade emocional. Uma destas marcas é a dificuldade em distinguir entre as instâncias públicas e privadas, principalmente entre o Estado e a família.

Continuou lecionando História na Universidade do Distrito Federal até sua extinção em 1939 e passa a dirigir a seção de publicações do INL-Instituto Nacional do Livro, onde traduziu algumas obras clássicas. Em 1944 passou a dirigir a seção de consultas da Biblioteca Nacional e a publicar livros: História do Brasil, com Otávio Tarquínio de Souza; Cobra de vidro e Monções, em 1945. Neste ano mudou-se para São Paulo, onde presidu a Associação Brasileira de Escritores e participa do famoso “Congresso de Escritores”, um encontro dos críticos ao governo ditatorial de Getúlio Vargas.

A partir de 1946 passa a dirigir o Museu Paulista e lecionar História Econômica do Brasil na Escola de Sociologia e Política de São Paulo e ingressou no PSB-Partido Socialista Brasileiro, 1947. No período 1953-1955 viveu na Itália e assumiu a cátedra de estudos brasileiros da Universidade de Roma. De volta ao Brasil, foi lecionar História da Civilização Brasileira, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Aí tornou-se Mestre, em 1958, com a dissertação Visão do Paraíso; os motivos edênicos no descobrimento e na colonização do Brasil, logo publicada em livro. No mesmo ano ingressou na Academia Paulista de Letras.

De 1960 a 1972 coordenou o projeto editorial “História Geral da Civilização Brasileira”, em 11 volumes, junto com Pedro Moacyr Campos e Boris Fausto e publicada pela DIFEL-Difusão Europeia do Livro. Dos 11 volumes, 7 foram redigidos por ele mesmo. Em 1961 foi condecorado pelo governo francês como “Officier de l’Ordre des Arts et des Lettres”. Logo foi convidado para assumir a presidência do recém-fundado Instituto de Estudos Brasileiros da USP, em 1962. Em seguida foi professor convidado em universidades do Chile e participou de diversas missões culturais da UNESCO em países da América Latina.

Em 1969 decidiu encerrar a carreira docente, em protesto contra a aposentadoria compulsória de muitos colegas da USP, quando foi decretado o AI-5 pela ditadura militar. Como escritor, recebeu os prêmios “Juca Pato”, da UBE-União Brasileira de Escritores e o “Jabuti”, da Câmara Brasileira do Livro (1979) e publicou seu último livro: Tentativas de mitologia, pela Ed. Perspectiva. Participou da fundação do PT-Partido dos Trabalhadores, em 1980, recebendo a 3ª carteira, após Mário Pedrosa e Antônio Cândido. A partir daí a saúde foi declinando e veio a falecer em 24/4/1982.

Seu nome na Historiografia brasileira foi ressaltado na edição do livro Sergio Buarque e o Brasil, organizado por Antônio Cândido e publicado pela Fundação Perseu Abramo, em 1998. Em termos biográficos, temos Sérgio Buarque de Holanda: escrita de si mesmo e memória, de Raphael Guilherme de Carvalho, publicado pela Editora da UFPR, em 2021 e Raízes do Brasil: uma cinebiografia de Sergio Buarque de Holanda, dirigida por Nelson Pereira dos Santos, em 2001.

Clique aqui e veja alguns vídeos sobbre Sergio Buarque de Holanda

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AS BRASILEIRAS: Maria da Penha

Maria da Penha Maia Fernandes nasceu em 1/2/1945, em Fortaleza, CE. Farmacêutica e ativista do direito das mulheres, foi vítima da violência doméstica, tornando-a paraplégica. Batalhou para que seu agressor fosse condenado com base na lei que recebeu seu nome, promulgada em 7/8/2006. Sua atuação fez com que este crime saísse da área dos juizados especiais, que julgam crimes de menor potencial ofensivo, modificando a competência para julgá-los

Em 1983, seu marido, o colombiano e professor universitário Marco Antonio Heredia Viveros, deu-lhe um tiro em suas costas, enquanto dormia, e deixou-a paraplégica. Sua alegação foi que o tiro ocorreu devido a uma tentativa de assalto e não foi preso. Ela passou por duas cirurgias, internações, tratamentos e retornou para sua casa 4 meses depois. Após ser mantida por 15 dias em cárcere privado, o marido, tentou assassiná-la pela segunda vez, agora por eletrocussão durante o banho.

Com apoio da família e amigos, ela pode sair de casa sem que isso pudesse configurar abandono do lar, correndo o risco de perder a guarda dos filhos, dando-lhe apoio jurídico. Assim, foi iniciado um processo contra o agressor, que durou 8 anos. Com isto, configurou-se mais um ato de violência, cometido agora pelo Poder Judiciário. Em 1991, ocorreu o primeiro julgamento. O agressor foi sentenciado a 15 anos de prisão, mas devido a recursos impetrados pela defesa, saiu do fórum em liberdade.

Sua luta em busca de justiça continuou foi intensificada com seu relato publicado no livro Sobrevivi… posso contar, publicado em 1994, em Fortaleza pela editora Armazém da Cultura. Com a lentidão da justiça, somente 2 anos depois deu-se o segundo julgamento. O agressor foi condenado a 10 anos e 6 meses de prisão. No entanto a defesa recorreu alegando irregularidades processuais e mais uma vez a sentença não foi cumprida. Em artigo publicado em 2003, a advogada Carmem Campos apontou as várias deficiências desta prática jurídica, que, na maioria dos casos, gerava arquivamento massivo dos processos, insatisfação das vítimas e banalização da violência doméstica.

A partir daí o caso Maria da Penha ganhou dimensão nacional, impulsionado pela divulgação do livro e sua participação na imprensa através de entrevistas. O caso foi levado às organizações não governamentais CEJIL-Centro para a Justiça e o Direito Internacional e CLADEM-Centro Latino-americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher, que lhe perguntaram se ela aceitava denunciar o Estado brasileiro à CIDH/OEA-Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos.

A denúncia foi aceita, em 1998, e o caso assumiu o caráter de litígio internacional, o qual trazia uma grave questão de violação dos direitos humanos e deveres protegidos por documentos que o próprio Estado assinou. Mesmo assim, o Estado brasileiro permaneceu omisso e não se pronunciou em nenhum momento durante o processo. Assim, em 2001, após receber quatro ofícios da CIDH/OEA (1998 a 2001) − e silenciando diante das denúncias −, o Estado foi responsabilizado por negligência, omissão e tolerância em relação à violência doméstica praticada contra as mulheres brasileiras. A história de Maria da Penha significava mais do que um caso isolado: era um exemplo do que acontecia no Brasil sistematicamente sem que os agressores fossem punidos.

A CIDH/OEA, além de responsabilizar o Estado, em 2001 pelo crime, deu 9 “recomendações” ao Governo brasileiro. A primeira foi “Completar, rápida e efetivamente, o processamento penal do responsável da agressão e tentativa homicídio em prejuízo da Senhora Maria da Penha Maia Fernandes”. A última foi “Incluir em seus planos pedagógicos unidades curriculares destinadas à compreensão da importância do respeito à mulher e a seus direitos reconhecidos na Convenção de Belém do Pará, bem como ao manejo dos conflitos intrafamiliares”. Entre as “recomendações”, há uma crítica a manutenção de impunidade por mais de 15 anos e a necessidade de ação reparatória e indenização civil

Assim, foram lançadas as bases para a elaboração da Lei, em 2002, através de um consórcio de ONGs feministas. Após muitos debates com o poder Legislativo, o Executivo e a sociedade, o Projeto de Lei nº 4.559/2004, da Câmara dos Deputados, chegou ao Senado Federal e foi aprovado por unanimidade em ambas as Casas. A Lei nº 11.340 foi sancionada em 7/8/2006 e o Estado do Ceará teve que pagar uma indenização à requerente. O Governo Federal nomeou a Lei com o nome Maria da Penha, como forma de reparação simbólica. 18 anos após, o presidente do STF-Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, fez um pedido de desculpas à Maria da Penha pela demora e por falhas da justiça brasileira.

A Lei Maria da Penha é considerada pela ONU como uma das três leis mais avançadas do mundo no combate à violência doméstica e familiar contra mulher. A mulher que a nomeia continua vigilante quanto a sua aplicação através do IMP-Instituto Maria da Penha, organização não governamental, criada em 2009 (https://www.institutomariadapenha.org.br) com sede em Fortaleza e representação no Recife. Recebeu inúmeras homenagens em seu País e no mundo: Ordem do Rio Branco (2009), Medalha da Abolição (2015), Prêmio Franco-alemão de Direitos Humanos (2013), Orden de Isabel la Católica (2011), International Women of Courage Award (2010) etc.

Os interessados em conhecê-la melhor podem acessar uma entrevista sua clicando aqui.

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OS BRASILEIROS: Dragão do Mar

Francisco José do Nascimento, conhecido como “Dragão do Mar” ou ainda Chico da Matilde, nasceu em 15/4/1839, em Aracati, CE. Jangadeiro e prático-mor, teve atuação destacada no Movimento Abolicionista, no Ceará, estado pioneiro na abolição da escravidão, em 25/3/1884.

Filho de Matilde Maria da Conceição e do pescador Manoel do Nascimento, falecido quando ele tinha 8 anos. Ainda criança trabalhou como menino de recados nos navios que faziam a rota Maranhão-Ceará. Trabalhou em alguns navios como embarcadiço até os 20 anos e depois como comandante em portos do Norte e Nordeste.

Pouco depois trabalhou na construção de portos e como chefe dos catraieiros, até ser nomeado prático-mor na Capitania dos Portos do Ceará. Aluguel de jangadas para transporte de pessoas e mercadorias foi outra de suas atividades exercidas em paralelo à luta abolicionista. O movimento abolicionista surgiu no Ceará em 25/3/1879 e foi a primeira província a abolir a escravidão, em 25/3/1884.

Em janeiro de 1881, Chico da Matilde junto com seus colegas jangadeiros se engajaram na luta contra escravidão e recusaram-se a transportar os escravos para os navios negreiros com destino ao Rio de Janeiro. “No porto do Ceará não embarcam mais”, teria dito na ocasião. Em agosto de 1881, houve nova tentativa de embarcar escravos para serem vendidos em São Paulo e Rio de Janeiro. Os jangadeiros, mais uma vez, liderados por Chico da Matilde e José Luis Napoleão, escravo liberto, impediram o transporte e o porto do Ceará foi considerado oficialmente fechado para o tráfico interprovincial.

Os movimento dos jangadeiros recebeu apoio de uma parte de elite cearense e das forças policiais no impedimento do transporte de escraavos. Na ocasião, Chico da Matilde foi elogiado pelo tenente coronel Sena Madureira. Também foi homenageado pelo desenhista Angelo Agostini com seu retrato na capa da Revista Ilustrada e a legenda “À testa dos jangadeiros cearenses, Nascimento impede o tráfico dos escravos da província do Ceará vendidos para o sul”. A homenagem maior se deu com a viagem, junto com a jangada, em 1884, até o Rio de Janeiro, com direito a desfile pelas ruas sendo ovacionado pela multidão.

A visita ao Rio foi registrada pelo jornalista Raimundo Caruso no livro Aventuras dos jangadeiros do Nordeste: “A jangada Liberdade, de Francisco José do Nascimento, era a clássica, de troncos. Símbolo de uma resistência popular vitoriosa no Ceará, foi levada à Capital do Império (…). A embarcação foi exibida nas ruas do Rio de Janeiro, sob os aplausos da multidão, e pouco depois é doada ao Museu Nacional, onde foi recebida como valiosa peça etnográfica (…). Em seguida a jangada foi transferida para o Museu da Marinha (…), de onde, queimada, feita em pedaços ou desmontada, desapareceu”.

Chico da Matilde, falecido em 5/3/1914, é considerado herói em Fortaleza, com uma estátua no pátio do “Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura”. Seu nome foi dado a uma escola pública no bairro do Mucuripe, além de nomear uma rua e o aeroporto de Aracati e uma praça em Canoa Quebrada. Em agosto de 2013, A Petrobrás lançou ao mar o navio petroleiro, batizado “Dragão do Mar” e em julho de 2017 seu nome foi inscrito no Livro dos Heróis e Heroinas da Pátria, através da Lei nº 13.468/2017. Na falta de uma biografia, contamos com o esboço biográfico O Dragão do Mar na Terra da Luz: a construção do herói jangadeiro, escrito por Patrícia Pereira Xavier, em sua dissertação de mestrado na PUC/SP, em 2010.

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AS BRASILEIRAS: Carolina Nabuco

Maria Carolina Nabuco de Araújo nasceu em 9/2/1890, no Rio de Janeiro, RJ. Escritora, tradutora e biógrafa. Passou a infância em Petrópolis e a adolescência nos Estados Unidos, onde o pai era embaixador do Brasil. Foi vítima de um dos mais famosos plágios da literatura anglo-brasileira, em fins da década de 1930.

Filha de Evelina Torres Ribeiro Nabuco e Joaquim Nabuco, diplomata, deputado geral do Império do Brasil e cofundador da ABL-Academia Brasileira de Letras. Seu primeiro livro – Joaquim Nabuco -, a biografia de seu pai, publicado em 1928, lhe garantiu o Prêmio de Ensaio da Academia Brasileira de Letras. O segundo – A Sucessora -, publicado em 1934, foi um sucesso de público e causou um problema internacional na história dos plágios de obras literárias.

A Sucessora conta a história de Mariana, jovem recém-casada, que ao mudar-se para a mansão do marido, o milionário Roberto Steen, depara-se com um imponente retrato de sua primeira mulher, falecida poucos meses antes de se conhecerem. A partir daí ela passa por momentos de insegurança e conflitos e o romance prossegue. Animada com o sucesso editorial, ela decide traduzir o livro para o inglês e o enviou para uma agência literária de Nova York, com pedido que fizessem contato, também, com agentes na Inglaterra.

Em 1938 ela teve acesso ao romance Rebeca, de Daphne du Maurier, publicado na Inglaterra, e verificou semelhanças bem visíveis com seu romance A Sucessora. Entrou em contato com seus agentes literários perguntando sobre o contato com os editores ingleses e a resposta foi que não havia encontrado. Pouco depois, o New York Times Book Review publicou um artigo ressaltando as semelhanças entre os dois romances.

Rebeca também foi um sucesso editorial na Inglaterra, motivando uma adaptação para o teatro, em 1939, e para o cinema, em 1940, dirigido por Alfred Hitchcock, abrindo o Festival de Cinema de Berlim e concorrendo em 11 categorias. Conquistou duas estatuetas do Oscar, incluindo a de melhor filme, que foi estrelado por Joan Fontaine e Laurence Olivier. O fato repercutiu no Brasil e quando o filme chegou aqui, a United Artists procurou Carolina para que assinasse uma declaração, mediante uma compensação financeira, concordando que houve uma “coincidência” literária. A oferta não foi aceita.

O sucesso do filme causou grande repercussão aqui e no exterior. Em suas memórias, Carolina conta que a oferta em dinheiro para que reconhecesse a “coincidência” era de valor considerável. No entanto, além de não aceitar, também não processou a editora inglesa. A história toda foi esclarecida no ano 2000 com o livro da escritora Nina Auerbach, da Universidade da Pensilvânia, Daphne du Maurier, haunted heiress (herdeira assombrada), dizendo que Carolina enviou seu livro para um editor inglês, que seria o mesmo da romancista inglesa.

Entre nós, A Sucessora foi adaptada para a televisão, numa telenovela de Manoel Carlos, exibida 1978, em 126 capítulos e distribuída em cerca de 50 países. Neste ano, Carolina recebeu o Prêmio Machado de Assis, da ABL, pelo conjunto da obra e veio a falecer em 18/8/1981, aos 91 anos. Em 2019 a editora Instante lançou uma nova edição de A Sucessora.

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OS BRASILEIROS: Pe. José Maurício

José Maurício Nunes Garcia nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 22/9/1797. Religioso, compositor, cravista, organista, violonista e pioneiro da música clássica brasileira no período colonial. Segundo Andrade Muricy, ex-presidente da Academia Brasileira de Música, é “o maior compositor clássico das Américas”. Sua produção, em torno de 400 peças, é constituída em grande parte de música religiosa, tendo ainda composto música dramática, modinhas e música para orquestra.

Filho de Vitória Maria da Cruz Neto e Apolinário Nunes Garcia e neto materno de escravizado, ficou órfão de pai aos 6 anos e passou a estudar música influenciado pela mãe. Iniciou como aluno do prof. Salvador José, pardo e amigo da família, demonstrando grande facilidade. Aos 16 anos, escreveu sua primeira obra – Antífona Tota Pulcra Es Maria – e aos 17 participou da fundação de uma confraria de professores de música, Ingressou no sacerdócio aos 25 anos, com a intenção de, nesta condição, prosseguir na carreira musical.

Tornou-se mestre-de-capela da Catedral da Sé, contando com um grupo de instrumentistas e cantores. Neste cargo, ficou encarregado de compor para o calendário litúrgico e dirigir as obras. Assim, surgem diversos graduais, como Justus cum ceciderit (1799) e Alleluia, angelus Domini (1799). Teve uma sólida formação, que foi ampliada através de uma grande biblioteca de partituras e tratados musicais, trazida da Europa com a vinda da corte real, em 1808. Desse modo, conheceu as principais obras de Mozart e Haydn e pode aperfeiçoar sua técnica de instrumentação e escrita vocal.

Seu talento foi logo apreciado por D. João VI, que providenciou sua transferência para a Capela Real ocupando alto cargo. No ano seguinte, recebeu o hábito da Ordem de Cristo e em 1816 ficou incumbido de dirigir a missa pela elevação do Brasil a Reino Unido de Portugal. Apesar do apreço recebido pelo Rei, sua remuneração não foi devidamente revista. Em 1821, com o retorno de D. João VI à Lisboa, passou por uns perrengues financeiros, devido a turbulência política e econômica do processo de independência do Brasil. Os músicos da Capela Real sofreram um grande arrocho salarial.

O Pe. José Maurício, que nunca chegou a ter um piano ou um cravo, foi sendo levado gradativamente à miséria. Além disso, sua relação com os músicos foi prejudicada pelo preconceito. O fato de ser mulato interfere no seu reconhecimento como músico. A situação foi agravada com a vinda do antigo mestre-de-capela -Marcos Portugal-, que passa a usufruir mais privilégios que o padre brasileiro. Assim, enquanto conhece a música erudita praticada na Europa no fim do século XVIII, vive num mundo em que a cor da pela o prende a um mundo cruel e sem direitos.

Sua música procura solucionar, de algum modo, esse conflito. Junto a sua admiração pelos mestres europeus, como Mozart e Haydn, ele se torna um dos iniciadores da música popular no Brasil, com a publicação, após sua morte, das modinhas Beijo a Mão que Me Condena, No Momento da Partida, Meu Coração Te Entreguei (1837) e Marília, Se Não Me Amas, não Me Digas a Verdade (1840). São obras que ficaram menos conhecidas que as obras sacras, como o Requiem e o Ofício de Finados (1816) e as missas de Nossa Senhora do Carmo (1818) e de Santa Cecília (1826).

Não obstante ser lhe atribuído cerca de 400 obras, apenas 240 composições sobreviveram: umas 20 missas, 15 credos, 12 antífonas, 30 graduais, 28 hinos, 10 matinas e ofícios de defuntos, 7 Te Deum, 6 novenas, numerosos salmos e vésperas, sequências, ladainhas etc. além de umas poucas obras profanas. Além de compor, tocar e cantar, foi também professor no curso gratuito que manteve durante 38 anos no centro do Rio de Janeiro. Faleceu em 18/4/1830 e foi o compositor mais prolífico de sua época. Hoje é um dos nomes mais representativos da música brasileira de todos os tempos e o mais importante compositor de sua geração. Uma consistente biografia escrita por Cleofe Person de Mattos – Padre José Maurício: uma biografia – teve uma 2ª edição publicada pela Biblioteca Nacional, em 2019, e uma versão em PDF encontra-se disponível na Internet.

Em meados do século XIX houve um movimento de recuperação e resgate da “música nacional”, incluindo a música sacra, tendo o Pe. José Mauricio em destaque. Sua reabilitação deve-se ao trabalho de alguns apreciadores de seu talento musical, como Manuel de Araújo Porto-Alegre, primeiro biógrafo do compositor, que publicou em 1856 Apontamentos sobre a vida e a obra do Padre José Maurício Nunes Garcia, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Outro entusiasta neste resgate foi o Visconde de Taunay (1843-1899), que defendeu no Parlamento e na imprensa a restauração da obra e a construção de uma memória histórica em torno do padre compositor, vinculando-o à música germânica e contrapondo-o à ópera italiana. Seus artigos, reunidos em livro, em 1930, foram publicados originalmente no período 1880-1898 nas principais revistas brasileiras da época.

Além de escrever sobre José Maurício, Taunay conseguiu que o governo brasileiro adquirisse a grande coleção de manuscritos que Bento das Mercês havia recolhido e com a ajuda de Alberto Nepomuceno publicou o Requiem de 1816 em versão reduzida para canto e teclado. Um trecho de Manuel Duarte Moreira de Azevedo, outro entusiasta do fim do século, é ilustrativo do fervor de seus admiradores neste momento em que ele era “redescoberto” e iniciava-se um processo de mitificação da sua figura e realizações, onde já aparecia como um mestre consumado.

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AS BRASILEIRAS: Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa nasceu em Lambari, MG, em 15/7/1901. Escritora, professora e tradutora das línguas inglesa, francesa, alemã, espanhola e essencialmente poeta. Foi destacada representante da lírica modernista e primeira mulher a ingressar na Academia Mineira de Letras. Junto com sua amiga Cecília Meireles foi uma das principais poetas de sua geração.

Filha de Maria de Vilhena e do deputado federal João de Almeida Lisboa, formou-se professora na cidade de Campanha e mudou-se para o Rio de Janeiro, em 1926. Mais tarde mudou-se para Belo Horizonte (1935), onde lecionou no ensino secundário e foi professora da PUC/MG e UFMG. Seu primeiro livro de poesias – Fogo fátuo – saiu em 1924. Porém, ela desconsidera o fato e indica Enternecimento, publicado em 1929, como sua obra de estreia. Trata-se de uma obra de forte caráter simbolista, que lhe rendeu o Prêmio Olavo Bilac de Poesia da ABL-Academia Brasileira de Letras.

Em meados de 1945, aderiu ao Modernismo sob a influência de seu amigo e mentor Mario de Andrade, com quem trocava correspondência e sobre o qual escreveu dois livros: A face lívida, quando Mário faleceu em 1945 e Flor da morte, em 1949, seu livro mais conhecido. Manteve estreitos contatos com grandes poetas de sua época, como Manuel Bandeira, Cecília Meireles, a chilena Gabriela Mistral e Carlos Drummond Andrade, que declarou “Muitas pessoas poderiam ter em casa um livro seu […] como têm um toca-discos, um televisor, um gravador, um eletrodoméstico de lazer ou de serviço. E não têm. As tiragens de livros de poesia são limitadas. E fazem tanta falta os poetas como Henriqueta Lisboa!” Em setembro de 1943 recepcionou Gabriela Mistral, que vivia em Petrópolis na condição de consulesa do governo chileno, numa visita oficial a Belo Horizonte, com o beneplácito do prefeito Juscelino Kubitschek e do secretário de educação Cristiano Machado. Foram 10 dias de passeios, visitas e palestras da escritora chilena, que sacudiram a cidade. A visita foi uma retribuição às visitas que Henriqueta lhe fizera no Rio de Janeiro. As duas poetas mantiveram uma amizade que se desdobrou em cartas, viagens, traduções e convívio intelectual.

Publicou vários livros de poesia, os quais junto com suas traduções e ensaios críticos, estão reunidos na obra Henriqueta Lisboa: obra completa, organizado por Reinaldo Marques e publicado em 2020 pela Editora Peirópolis. Deixou um legado literário composto de 20 obras, com destaque para Prisioneira da noite (1941); Flor da morte (1949); Além da imagem (1963); Nova Lírica (1971); O alvo humano (1973); Miradouro e outros poemas (1976); Pousada do ser (1982) e Poesia geral (1985). É Cidadã Honorária de Belo Horizonte, por decreto municipal em 1972. Foi também uma das poetas mais homenageada e premiada em sua época.

Amealhou mais de 30 comendas, prêmios e titulações, 9 delas em caráter post-mortem após seu falecimento em 9/10/1985: Prêmio Othon Bezerra de Melo, da Academia Mineira de Letras (1950); 1º Prêmio da Câmara Brasileira do Livro (1952), Medalha de Honra da Inconfidência Mineira (1955), Prêmio Presenza d’Italia in Brasile (1970), Prêmio Poesia 1976, pela APCA, Grande Medalha da Inconfidência (1980), Prêmio Machado de Assis, da ABL e Pen Club do Brasil (1984) e Prêmio Jabuti (2010), pela Câmara Brasileira do Livro, com a obra Correspondência Mário de Andrade & Henriqueta Lisboa.

Foi homenageada, também, com seu nome dado a duas premiações: ”Prêmio Literário Henriqueta Lisboa”, pela Secretaria de Cultura de Minas Gerais, em 1987 e “Prêmio Henriqueta Lisboa”, pela FNLIJ-Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, em 2006.

Segundo Reinaldo Marques, professor da Faculdade de Letras da UFMG, no ensaio Henriqueta Lisboa: tradução e mediação cultural, à disposição na Internet, ela “vivenciou de forma lúcida e agônica esse aspecto mediador da tradução, conforme testemunha todo o seu trabalho de tradutora de poesia. Um trabalho que envolvia a leitura, o estudo, a vivência do mundo e da técnica dos autores a serem traduzidos”. Tal forma lúcida e agônica pode ser vista na tradução que fez do “Purgatório” da Divina Comédia, de Dante Alighieri, ao contemplar outras traduções.

Outro aspecto a ser ressaltado, em sua trajetória, é a dedicação à literatura infanto-juvenil. Não por acaso, recebeu o diploma de membro fundadora da Academia Brasileira de Literatura Infantil e Juvenil e Personalidade do Ano Internacional da Criança, em 1979. Três de seus livros receberam o “Selo Altamente Recomendável” da FNLIJ-Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil: Literatura oral para a infância e a juventude (2003), Antologia de poemas portugueses para a juventude (2005) e O menino poeta (2009).

Seu sobrinho, o economista e membro da ABL, Edmar Lisboa Bacha, guarda boas memórias da tia: “Tia Henriqueta foi uma pessoa especial. Não só por sua poesia, que é admirada mundo afora. Também por sua figura frágil que parecia ser feita de porcelana, e sua personalidade a um tempo forte e reclusa. Ao contrário de minha mãe, Maria de Jesus Lisboa Bacha, que adorou a experiência do Sion, Henriqueta a detestou, mas tanto assim que da madre superiora ganhou a alcunha de la petite orguilleuse, a pequena orgulhosa. Irritava-se quando a chamavam de “poetisa”, e me dizia algo assim: “só mesmo homens para quererem se apoderar de um substantivo terminado em ‘a’, como ‘poeta’, para relegar as mulheres poetas a um diminutivo ‘poetisa’”.

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OS BRASILEIROS: João do Rio

João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto nasceu em 5/8/1881, no Rio de Janeiro, RJ. Jornalista, escritor, cronista, tradutor, teatrólogo e pioneiro da crônica-reportagem no Brasil. Foi um dos principais retratistas da sociedade carioca no início do século XX, focado nos costumes, hábitos e rituais de seus membros mais requintados, bem como dos mais pobres. Transformou a crônica social num gênero literário cultivado pela imprensa diária.

Filho de Florência dos Santos Barreto e do prof. Alfredo Coelho Barreto, teve os primeiros estudos no Colégio São Bento e no Ginásio Nacional, atual Colégio Pedro II. Seu primeiro texto foi publicado aos 17 anos, no jornal A Tribuna, uma crítica sobre a peça Casa de Bonecas, de Ibsen. No período 1900-1903 colaborou em diversos jornais: O Paiz, O Dia, Correio Mercantil, O Tagarela e O Coió, até chegar na Gazeta de Notícias, indicado por Nilo Peçanha e permanece até 1913. Aí adotou o pseudônimo João do Rio, em 16/11/1903, através do qual ficou famoso.

A fama iniciou com o texto de abertura do álbum sobre o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, lançado pelo Photo Musso, em 1913, onde divergiu de seu amigo Arthur Azevedo, ao elogiar o pano de boca do Theatro, pintado por Eliseu Visconti, cuja concepção foi muito atacada por seu amigo. Tal querela ajudou-o a ficar conhecido no público e firmar um novo tipo de jornalismo na imprensa brasileira. Até então, o exercício do jornalismo e da literatura por intelectuais era visto como “bico”, um passatempo de funcionários públicos. Foi diretor da revista Atlântida: mensário artístico literário e social para Portugal e Brazil (1915-1920), ajudou a fundar o jornal A noite e colaborou na revista Serões (1901-1911).

Em 1904 fez algumas reportagens sobre a Umbanda e o Candomblé, seguidas da publicação do livro As Religiões no Rio, inovando na temática e no modo de enfoque, adotando o “jornalismo investigativo”. Foi um bestseller na época, relançado mais tarde pela Editora Nova Aguilar (1976) e pela Editora José Olympio (2006). O livro serviu de base para todos os pesquisadores que escreveram sobre o assunto e antecipou em mais de 25 anos as publicações de Nina Rodrigues sobre o tema. Seu pioneirismo na aliança do jornalismo com a literatura contribuiu para seu ingresso na ABL-Academia Brasileira de Letras, em 1910. Era um profissional bem relacionado no meio jornalístico. Em 1911 seu colega Irineu Marinho pediu-lhe emprestado 20 contos de réis para fundar o jornal A Noite.

Seu comportamento e vestimenta era a de um “dândi de salão”, como diziam e diziam também que era homossexual. Assim, na condição de mulato foi um alvo perfeito para toda sorte de racistas e homofóbicos. Foi amigo íntimo da bailarina Isadora Duncan, que conheceu em Lisboa, e conta-se a história que ela, na temporada que passou no Rio, interpelou-o sobre sua orientação sexual. A resposta foi “Je suis trés corrompu” (Sou completamente corrupto). Pode-se dizer que ele foi o introdutor no Brasil da obra de Oscar Wilde, com a tradução de vários livros.

Em 1920 fundou o jornal A Pátria, onde defendeu os “poveiros”, pescadores lusos oriundos de Póvoa de Varzim, que abasteciam de pescado a cidade do Rio. Havia a ameaça de uma lei exigindo que a pesca fosse exercida por brasileiros, obrigando a naturalização dos lusos para poder continuar na profissão. Devido a esta defesa da colônia portuguesa, arrebanhou muitos inimigos e muitas ofensas morais, chegando a levar uma surra de nacionalistas enfurecidos. Portugal soube retribuir a simpatia de seu gesto com seu nome dado a uma rua no centro da cidade de Póvoa de Varzim.

O bom relacionamento com Portugal vem de 1913, quando se tornou sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Após sua morte ergueram um pequeno monumento na Praça João do Rio, em Lisboa, com suas palavras: “Nada me devem os portugueses por amar e defender portugueses, porque assim amo, venero e quero duas vezes a minha pátria”. No Brasil, o nome Paulo Barreto ganhou apenas uma rua inexpressiva no bairro de Botafogo, mas quase ninguém sabe que se trata do conhecido João do Rio.

Faleceu em 23/6/1921, vitimado por um enfarte do miocárdio fulminante, dentro de um táxi. A notícia correu toda a cidade rapidamente e levou cerca de 100 mil pessoas no cortejo até o cemitério São João Batista. Seu túmulo é considerado um dos mais belos trabalhos de arte funerária. Sua vida e legado estão registrados em 2 biografias: João do Rio: uma biografia, de João Carlos Rodrigues, publicadas pela Ed. Topbooks, em 1996 e João, João do Rio, uma edição voltada ao público infantojuvenil, de Fabiano Ormaneze, publicada pela Ed. Mostarda, em 2023. A FLIP-Feira Literária de Paraty de 2024, anunciou que nesta 22ª edição, de outubro, João do Rio será o autor homenageado.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Janete Costa

Janete Ferreira da Costa nasceu em Garanhuns, PE, em 3/6/1932. Arquiteta, designer, colecionadora e destacada curadora de diversas exposições de arte popular. Colocou o artesanato brasileiro num patamar até então não reconhecido na decoração de interiores e exposições artísticas no Brasil e no exterior, valorizando a arte popular e o trabalho do artesão de modo expressivo no mundo das artes.

Filha Carmen Viana da Costa e Francisco Ferreira da Costa, passou parte da infância e adolescência em João Pessoa, PB e aos 20 anos foi para Recife, onde fez o curso de Arquitetura da EBAP-Escola de Belas Artes de Pernambuco. Casou-se em 1954 com o arquiteto Maurício Leitão Santos e tiveram 3 filhos, todos ligados às artes e arquitetura. Em seguida mudou-se para a praia de Icaraí, em Niterói, e abriu uma loja de móveis e decoração, comercializando peças de designers brasileiros. Em 1961 concluiu o curso de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ-Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1969 deu-se o segundo casamento com Acácio Gil Borsoi, do qual nasceu mais uma filha, também arquiteta.

Em 1979, a convite de Gilberto Freyre, deu palestra no Seminário de Tropicologia sobre “Design Interior nos Trópicos”. Enquanto mantinha o interesse no artesanato, trabalhou como arquiteta de interiores atuando em mais de mil projetos: residências, escritórios e edifícios públicos e, particularmente, hotéis, devido ao fato de darem maior visibilidade aos seus projetos. Buscava sempre garantir o sentido da brasilidade em torno de suas obras. Por essa época foi premiada pelo IAB-instituto de Arquitetos do Brasil, seção de Pernambuco e concluiu um curso de especialização em planejamento de ambientes interiores, no Instituto Joaquim Nabuco, em Recife.

Seu olhar apurado sobre o artesanato consistiu em lapidá-lo um pouco mais na criação de um projeto chamado “Interferências”, reunindo arquitetos e designers num trabalho em conjunto com os artesãos e artistas populares, com novos olhares e detalhes, sem mexer em sua natureza. “Interferir sem ferir”, era seu lema. Este renovado enfoque artístico lhe rendeu a “Medalha de Ordem do Mérito Guararapes”, concedida pelo Governo do Estado de Pernambuco, em 2006; a “Medalha João Ribeiro” da ABL-Academia Brasileira de Letras, em 2007, e o prêmio “Mulheres influentes do Brasil”, na categoria Arquitetura e Decoração.

A influência do artesanato aliada ao interesse pela arquitetura e decoração de interiores projetou-a em âmbito nacional, quando foi curadora da exposição “Viva o Povo Brasileiro”, em 1992, no MAC-Museu de Arte Contemporânea de Niterói. Fez a curadoria de diversas exposições em outros estados, como o Museu da Casa Brasileira e Pinacoteca do Estado de São Paulo, bem como em Portugal, na Fundação Ricardo do Espirito Santo e outros países, como a França e Inglaterra.

Em 1993 lançou o livro Janete Costa: Interiores, publicado pela Ed. Index, expondo sua concepção sobre a importância do artesanato na arte brasileira. Suas obras foram registradas no livro de arte Janete Costa: arquitetura, design e arte popular, publicado em edição bilingue pela CEPE Editora, em 2021. Segundo sua concepção há diferenças entre arte popular e artesanato. Arte popular é aquela feita pelo artista, geralmente peças únicas e assinadas por ele mesmo; já o artesanato, são as peças produzidas em grupos, em maiores quantidades e sem assinatura.

Dentre seus trabalhos destacam-se as curadorias sobre o designer Joaquim Tenreiro no MAC/Niterói, Pinacoteca do Estado de São Paulo e em Lisboa; design de interiores do Hotel Pergamon; Exposição “Meninas Gerais”, no Museu da Casa Brasileira; arquitetura de interiores dos hotéis Ceasar Park e Ceasar Business, de São Paulo; mostra de arte popular no Espaço Brasil em Paris, em 2005; restauração de edifícios históricos, como o Teatro Arthur Azevedo, em São Luíz (MA) e o Solar do Jambeiro, em Niterói. Após seu falecimento, outros trabalhos foram concluídos por seus filhos: projeto para o Hotel Verde Green, em João Pessoa (PB) e a museografia do Museu do Homem do Nordeste da Fundação Joaquim Nabuco.

Em 2005 foi acometida por um câncer de estômago, com o qual lutou por mais de 3 anos e faleceu em 28/11/2008. No ano seguinte a seção pernambucana do IAB lançou um prêmio em sua homenagem. Recebeu, também, homenagens de alguns espaços onde atuou: Espaço Janete Costa no Museu do Homem do Nordeste (PE); Galeria Janete Costa no Parque Dona Lindu (PE) e Museu Janete Costa de Arte Popular em Niterói (RJ).