JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Mário Sette

Mário Rodrigues Sette nasceu em Recife, PE, em 19/4/1886. Escritor, professor, cronista, tradutor, jornalista, radialista, memorialista, dramaturgo e agitador cultural do Recife em pricípios do século XX. Teve papel destacado na construção de uma cultura histórica republicana em Pernambuco.

Filho de Ana Emília Luna Sette e Antonio Rodrigues Sette Jr., foi alfabetizado em casa e fez o curso primário na escola de seu avô materno. Aos 11 anos ficou órfão do pai e a família foi morar em Santos, SP. Após uma temporada, sua mãe casou-se de novo e a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso secundário e foi redator do jornal estudantil A Semana, do Colégio Pedro II.

Aos 15 anos, não convivendo bem com o padastro, decidiu voltar ao Recife e foi morar na casa de um tio. A juventude foi levada na “boêmia” junto aos estudantes da Academina de Direito, frequentando o Café 15 de Novembro, a Livraria Francesa, entre outros “points” da cidade, e retomou o namoro com a menina que conhecia desde criança. O casamento se deu em 1927; tiveram 3 filhos e viveram em Olinda e Recife. Ainda solteiro colaborou em jornalecos humorísticos e também em grandes jornais, como A Província e Diário de Pernambuco.

Já casado, trabalhou na ferrovia Great Western e nas Lojas Paulistas, atual Casas Permbucanas. Apartir de 1909 foi funcionário público dos Correios de Pernambuco e continuou colaborando com outros jornais, como o Jornal Pequeno e, mais tarde, com a famosa revista Fon-fon, do Rio de Janeiro. Seu primeiro livro – Ao clarão dos obuses – publicado em 1916, foi bem recebido pela crítica e teve 2 edições. O segundo – Rosas e espinhos – lançado em 1918, também recebeu boa acolhida do público e da crítica. O terceiro – Senhora de engenho – em 1921, marcou sua consagração na literatura nacional.

A 1ª edição foi esgotada em 15 dias, um best-seller com 7 edições, com a 3ª publicada pela editora de Monteiro Lobato, numa tiragem de 5 mil exemplares. O livro garantiu-lhe uma vaga na Academia Pernambucana de Letras. Em 1925 ingressou no magistério e passou a lecionar História e Língua Francesa em inúmeros colégios particulares do Recife. Nas décadas de 30 e 40, suas publicações passam a tratar mais da reconstituição histórica, social e pitoresca do Recife em fins do século XIX e princípios do XX.

Dentre estas obras encontram-se Maxabombas e maracatus (1935) e Arruar (1948), sobre a qual Gilberto Freyre escreveu: “Quem lê Arruar... se é pernambucano, fica mais pernambucano; se brasileiro de outro Estado, mais amigo de Pernambuco e do Recife; se estrangeiro, mais simpático à gente pernambucana e à cidade que não é apenas capital de um Estado, mas metrópole de uma região”.

Em 1943 transpôs para o teatro seu livro Senhora de engenho e pediu ao seu amigo Capiba para compor a valsa Maria Betânia, nome da protagonista. A música fez mais sucesso do que a peça, pois extrapolou para outros estados, como a Bahia, onde Caetano Veloso aproveitou para sugerir o nome de sua irmã recém nascida. Pouco depois tornou-se radialista ativo no comando de alguns programas, dos quais destaca-se “A Hora da Saudade”, na Rádio Jornal do Commércio.

Faleceu em 25/3/1950 e teve sua vida e legado esmiuçados numa tese de doutorado em História, defendida por Amanda Alves Miranda Cavalcanti, em 2023, na UFPE-Univesidade Federal de Pernambuco, com um título apropriado: Mário Sette, o condutor de travessias históricas pelo Recife, à disposição no link https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/54168

Outro link, de consulta mais breve é o site Mário Sette – Um conceito de pernambucanidade (mariosette.com.br)

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Conceição Tavares

Maria da Conceição de Almeida Tavares nasceu em Portugal em 24/4/1930 e naturalizou-se brasileira em 1957. Matemática, economista, política, professora e escritora. Atuou com destaque na politica ecônomica brasileira desde o Plano de Metas, do governo Kubitschek, em 1960, até o governo Lula 3, em 2024. Foi deputada federal pelo PT-Partido dos Trabalhadores, em 1995-1999, e autora de diversos livros sobre desenvolvimmento econômico.

Filha de Maria Augusta de Almeida Caiado e Fausto Rodrigues Tavares, anarquista durante a era Salazar em Portugal. Iniciou o curso de Engenharia na Universidade de Lisboa, mas logo transferiu-se para as Ciências Matemáticas. Fugindo da ditadura salazarista, mudou-se para o Brasil em 1954. No Rio de Janeiro, passou a participar da política através das atividades e debates da SBPC-Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.

Não conseguindo a equivalência de diplomas para poder lecionar em universidades brasileiras, foi trabalhar como estatística no atual INCRA-Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. No ano em que naturalizou-se, ingressou no curso de Economia da Universidade do Brasil, atual UFRJ, e no ano seguinte tornou-se Analista de Matemática do BNDES-Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social até 1960. Neste periodo integrou o GEIMAPE-Grupo Executivo da Indústria Mecânica Pesada, um dos grupos no período do Governo Kubitschek.

O grupo era ligado ao Conselho do Desenvolvimento, órgão central ligado à presidência da República, encarregado de elaborar e coordenar os programas setoriais da política econômica do Governo. Em seu trabalho teve influência de 3 economistas renomados: Celso Furtado, Caio Prado e Ignácio Rangel. Publicou centenas de artigos, muitos deles reunidos em livros. No ensaio Além da estagnação (1972), demonstrou que era possível atingir elevado crescimento econômico, conforme o “milagre econômico” da época, embora com aumento ainda maior da concentração de renda.

Em fins dos anos 1960 chefiou o escritório da CEPAL-Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe no Brasil e foi designada para ocupar o escritório central da CEPAL, no Chile, onde também foi convidada a lecionar na Escolatina, ligada a Universidade do Chile, em 1968. Assim, escapou da prisão ou punição, com o AI-5. Em 1972 licensiou-se da CEPAL para iniciar uma pós-graduação na Sorbonne, em Paris e retornou ao Chile para trabalhar na assessoria econômica do governo de Salvador Allende. Em fins do ano seguinte foi lecionar na UNAM-Universidade Autônoma do México e voltou a trabalhar no escritório da CEPAL.

Ao embarcar, em 1974, no aeroporto do Galeão para uma reunião no Chile, foi detida e presa por alguns dias pelos agentes da Ditadura Militar. Foi libertada por intervenção direta dos ministros Severo Gomes e Mário Henrique Simonsen, junto ao presidente Ernesto Geisel. Na década de 1980, assessorou o PMDB enquanto lecionava no Instituto de Economia da Unicamp-Universidade de Campinas e implantava os cursos de mestrado e doutorado. Por esta época trabalhou na elaboração do Plano Cruzado, em 1986, e chegou a chorar de emoção, em rede nacional, por considerar que o plano não era prejudicial aos assalariados.

Nos anos 1993-2004 comandou a coluna semanal “Lições Contemporâneas” no jornal Folha de São Paulo, com algumas críticas ao Plano Real. Em 1994 foi eleita deputada federal pelo PT-Partido dos Trabalhadores. Ao longo de 60 anos formou uma geração de economistas e líderes políticos, dentre os quais: José Serra, Carlos Lessa, Luciano Coutinho, Luis Gonzaga Beluzzo, Aloísio Teixeira, Edward Amadeo, Dilma Rousseff. Era uma respeitada economista, muitas vezes vista como temperametal, dado o caráter incisivo de suas afirmações: “Se você não se preocupa com justiça social, com quem paga a conta, você não é um economista sério. Você é um tecnocrata”, trecho de uma entrevista no programa Roda Viva, da TV Cultura.

Dentre seus livros, vale destacar Da substituição de importações ao capitalismo financeiro: ensaios sobre economia brasileira (1975) Ed. Zahar; Desajuste global e modernização conservadora (1996) Ed. Paz e Terra e Acumulação de capital e industrialização no Brasil (1998) Unicamp. Foi agraciada com diversos prêmios e comendas: Grande Oficial da Ordem de Rio Branco; Medalha de Honra da Inconfidência; Grau de Comendador, Governo de Portugal; Medalha Bernardo O’Higgins, Governo do Chile; Prêmio Visconde de Cairu, da UFRJ; Prêmio Jabuti; Medalha Pedro Ernesto entre outros.

Faleceu em 8/6/2024 e segundo a publicação inglesa A biographical dictionary of dissenting economist, do ano 2000, ela é uma das quatro mulheres selecionadas entre os 100 mais importantes economistas heterodoxos mundiais do século XX e a única mulher da América Latina. Um bom apanhado de sua vida e obra ficou registrado no livro Maria da Conceição Tavares: vida, ideias teorias e política, organizado por Hildete Pereira de Melo, publicado em 2019 pela Fundação Perseu Abramo.

Clique aqui e veja vídeo sobre Conceição Tavares.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Linduarte Noronha

Linduarte Noronha nasceu em Ferreiros, PE, em 1930. Advogado, jornalista, professor, crítico de cinema e cineasta. Foi precursor do “Cinema Novo”, na opinião dos cineastas, incluindo Glauber Rocha, seu representante mais expressivo. Trabalhou como jornalista e crítico de cinema nos jornais da Paraíba, onde se tornou cineasta.

Ainda jovem foi ao Rio de Janeiro para conhecer o INCE-Instituto Nacional do Cinema Educativo (1936-1966). Entrou em contato com seu presidente, Humberto Mauro, contou-lhe suas ideias, pretensões e pediu-lhe emprestado uma câmera e outros apetrechos. O pioneiro do cinema brasileiro achou interessante e o rapaz saiu de lá com uma câmera Bell & Howell, voltou à João Pessoa e passou a filmar sob a chacota dos colegas da redação. Seu primeiro curta-metragem teve origem numa reportagem que fez, em 1958, sobre o trabalho das mulheres numa olaria do sertão, As oleiras do Olho d’Água na Serra do Talhado.

O segundo curta Aruanda, lançado em 1959, é um documentário de 20 minutos e conta a história da fundação de um quilombo, retratando a vida do ex-escravizado Zé Bento com a família em busca de uma vida melhor. A palavra “aruanda” tem um significado próprio na Umbanda: um lugar utópico, o paraíso da liberdade perdida. A trilha sonora foi definida em conformidade com as imagens, com a escolha genial da comovente canção folclórica “Ô mana deixa eu ir”, recriada por Villa-Lobos. Depois disso, o cinema brasileiro mudou completamente e inaugurou uma nova estética cinematográfica. Segundo alguns críticos, o filme está para o moderno cinema brasileiro como o romance A Bagaceira está para nosso modernismo literário.

Na época, o Nordeste, sua realidade, seus mitos, texturas, asperezas, locações e personagens, abria novo capítulo na cinematografia nacional. O filme Aruanda deu origem a uma escola de documentários na Paraíba, a partir dos colegas da equipe de Noronha: Vladimir Carvalho, João Ramiro Mello, Rucker Vieira, Jurandy Moura, entre outros. O então jovem crítico baiano Glauber Rocha comparou-o ao cineasta Roberto Rosselini, o papa do neorrealismo italiano. Quando viu o filme, Glauber ficou extasiado: “Como fui burro! Como fui burro!” repetia numa referência ao fato de ter começado com o curta O pátio (1959), que pouca coisa teria a ver com os caminhos trilhados posteriormente.

Glauber pressentiu que o mapa da mina estava ali e lastimou o fato de não ter seguido aquela pegada. Jean-Claude Bernardet, confirmou dizendo que o filme era “simultaneamente documento e interpretação da realidade”. E disse mais: “a fita é importante porque, além de ser uma provocação e um estímulo, além de tratar de assunto brasileiro, o faz de uma maneira que pode se tornar um estilo e dar ao cinema brasileiro uma configuração particular (fora de qualquer emprego de folclore, exotismo, naturalismo, etc.), o que este, ao que eu saiba, nunca possuiu, nem de longe.”

Outro renomado crítico, Paulo Emilio Sales Gomes, dizia que o filme era um manifesto. Na década seguinte, o Cinema Novo e o documentário nacional aplicariam suas lições. Nessa época realizou mais um filme em parceria com Rucker Vieira: Cajueiro nordestino (1962), inspirado numa monografia de Mauro Mota, retratando o ciclo do caju e sua importância para as comunidades da periferia de João Pessoa. Em 1963, criou o Departamento de Cinema da UFPB-Universidade Federal da Paraíba, onde lecionou até se aposentar na década de 1990. Enquanto lecionava, realizou o primeiro longa-metragem de ficção do cinema da Paraíba: Salário do medo, em 1971. Costumava dizer que “o verdadeiro cinema brasileiro só poderá alcançar, um dia, a universalidade, quando se voltar ao elemento antropológico”.

Como o cinema que realizava não era uma atividade lucrativa, e precisando trabalhar, foi Procurador de Justiça e no período 1971-1991 foi presidente do IPHAEP-Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba. Aí batalhou pela preservação dos bens culturais, numa época em que não se dava valor algum ao patrimônio fossilífero. Teve um importante papel na defesa do Vale dos Dinossauros, hoje este patrimônio paleontológico é protegido pelo Governo.

Em 2008, o “Festival Internacional de Documentários – É tudo Verdade” prestou-lhe uma homenagem com a apresentação de seus filmes e seu retrato filmado por Geraldo Sarno, outro mestre do documentário brasileiro. Em 2010 foi homenageado pelos 50 anos de carreira no “Cine Fest Aruanda”, festival de cinema paraibano, que leva o nome do filme que entrou para a história do cinema brasileiro. O cineasta faleceu dois anos depois, em 30/1/2012. Pouco depois, a Fundação Cultural de João Pessoa deu nome à sua sala de cinema: “Cine Funjope Linduarte Noronha”.

Clique aqui para assistir o vídeo A linguagem do cinema – Linduarte Noronha

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Adalzira Bittencourt

Adalzira Cavalcanti de Albuquerque Bittencourt Ferrara nasceu em 2/11/1904, em Bragança Paulista, SP. Escritora, poeta, jornalista, advogada e pioneira do movimento feminista destacando o papel da mulher na literatura brasileira. Foi uma das fundadoras e primeira presidente da Academia Feminina de Letras do Rio de Janeiro, na década de 1940.

Ainda adolescente, fundou o jornal Miosótis, em Piracicaba, SP. Em seguida mudou-se para a capital paulista, onde concluiu o curso secundário e passou a escrever poemas. Seu primeiro livro de poesias, publicado em 1919, foi prefaciado pelo poeta Vicente de Carvalho. Aos 23 anos formou-se advogada pela USP-Universidade de São Paulo, a única mulher de sua turma, e no mesmo ano embarcou para a Europa, onde estudou Sociologia na Itália e Direito Internacional na Holanda.

Em Paris, conheceu o jornal La Jeunesse et La Paix Du Monde, do qual tornou-se colaboradora. Pouco depois viveu uma temporada em Buenos Aires, onde foi professora universitária. Em 1929, publicou seu primeiro romance: Sua Excelência o Presidente da República no Ano 2500, através do tornou-se conhecida no meio cultural. Trata-se de um enredo, uma utopia onde o feminismo venceu e libertou o país das calamidades causadas pelos homens.

O livro foi espelhado no romance de Monteiro Lobato – O choque de raças ou O presidente negro – Romance americano, lançado em 1926, uma utopia que mostra a divisão do eleitorado branco em 2228, com a eleição nos EUA de um presidente negro. Foi um grande sucesso editorial. Em 1932, fundou uma escola para menores abandonados e a liga infantil Pró-Paz, a primeira organização pacifista do Brasil. Seu interesse pela educação da criança, resultou mais tarde na criação do jornal Mensageiro do Lar das Crianças, em 1951.

Sempre atenta a produção bibliográfica das mulheres, organizou a Primeira Exposição do Livro Feminino, no Rio de Janeiro, em 1943. Sobre essa temática, publicou Mulheres e livros (1948), A mulher paulista na história (1954) e deixou uma obra inacabada: Dicionário bio-bibliográfico de mulheres ilustres, notáveis e intelectuais do Brasil. Outra área de interesse crucial em sua vida pessoal foi a educação. Defendia que a educação do futuro deve ser ativa, em consenso com as ideias do educador brasileiro Anísio Teixeira e do Manifesto da Escola Nova de 1932. São ideias progressistas na época. Porém, no futuro imaginado em seu romance, o exercício da memorização é uma prática vigente. Vê-se aqui uma fusão de propostas contraditórias e pouco compatíveis.

Sua obra é composta de 10 livros de poesia, 8 de polêmicas e atualidade e o romance que lhe deu notoriedade. Participou de várias comissões governamentais durante a ditadura do governo Vargas e militou no Partido Republicano Feminino, apoiada no ideário de Auguste Comte, que tinha a mulher como base natural da nação, como esposa e educadora dos futuros cidadãos do mundo. Integrou a primeira onda do feminismo no Brasil, rejeitando o feminismo importado e propondo um feminismo nacionalista.

Foi homenageada com seu nome dado à Biblioteca Pública de Bragança Paulista e faleceu em 28/10/1976. Não contamos com uma biografia exclusiva, mas é possível conhecer seu legado na área literária e sua participação na luta pela emancipação feminina no artigo – Ao Brasil dos meus sonhos: feminismo e modernismo na utopia de Adalzira Bittencourt -, publicado por Maria Bernardete Ramos, na revista Estudos Feministas vol. 10, nº 1, de 2002, à disposição no link periódicos ufsc.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Alceu Amoroso Lima

Alceu Amoroso Lima nasceu em 11/12/1893, no Rio de Janeiro, RJ. Também conhecido como Tristão de Athaíde, pseudônimo adotado aos 26 anos, foi escritor, crítico literário, professor, advogado, jornalista, pensador e líder católico. Publicou dezenas de livros sobre os mais variados temas e teve uma profícua carreira intelectual.

Filho de Camila da Silva Amoroso Lima e Manuel José de Amoroso Lima. Aprendeu a ler em casa, com o prof. João Kopke, teve os primeiros estudos no Colégio Pedro II e formou-se advogado pela Faculdade Nacional de Direito, em 1913. Iniciou como crítico literário n’O Jornal, em 1919, e publicou seu primeiro livro em 1922: Afonso Arinos, um estudo crítico. Ainda jovem viajou pela Europa com seus pais e voltou à Paris, em 1913, para estudar no Collège de France.

Aí teve aulas com Henri Bergson e, segundo seu relato, teve uma grande transformação em suas ideias, passando do “evolucionismo spenceriano” ao evolucionismo criador de Bergson, a partir da primazia do espírito. De volta ao Brasil, teve uma breve experiência como diplomata, mas logo deixou a carreira para substituir o pai na direção da fábrica de tecidos Cometa. Em seguida, optou pela vida literária. O pseudônimo Tristão de Athayde, adotado em 1957, “o nome ficou […] e hoje quase é possível dizer que tem o mesmo curso do verdadeiro”, declarou.

Sob a influência de Chesterton, Maritain e Jackson de Figueiredo, foi convertido ao catolicismo e escreveu uma carta aberta à Sergio Buarque de Holanda – Adeus à disponibilidade -, em 1928, significando “a primazia do literário ao ideológico. Do primado da crítica estética à crítica filosófica”. A partir daí inicia no movimento católico leigo no Brasil com disposição: “ao converter-se, não me recolhi a um porto, mas parti para o alto mar”. Na década de 1930 teve intensa produção editorial e ingressou na ABL-Academia Brasileira de Letras, em 1935. Foi catedrático de literatura na Faculdade Nacional de Filosofia, um dos fundadores da PUC/RJ e ministrou cursos sobre civilização brasileira na França (Sorbonne) e nos EUA.

Por indicação de Dom Sebastião Leme, substituiu Jackson de Figueiredo na presidência do Centro Dom Vital e na direção da revista A Ordem. Por esta época alimentou simpatias com o Integralismo, com artigos na imprensa, mas pouco depois reconheceu o equívoco, a partir da obra de Jacques Maritain Humanismo integral (1936). Não era um adepto da militância política e menos ainda da partidária, mas participou ativamente da criação da LEC-Liga Eleitoral Católica, em 1934, por iniciativa de Dom Sebastião Leme, que lhe pediu para estudar o problema das novas posições da Igreja em face dos problemas sociais, então recolocados em exame de maneira bastante incisiva pela Encíclica Quadragésimo Anno, de 1931.

Em fins da década de 1940 viajou pela Argentina e Uruguai palestrando sobre a Democracia Cristã na América Latina, organizando o “Movimento de Montevidéu” Pouco antes havia participado da criação do PDC-Partido Democrata Cristão, em 1945, junto com Franco Montoro. Escritor prolífico, foi também editor na Editora Agir, que ajudou a fundar em 1944. Em 1950 foi convidado para o cargo de Diretor Cultural da União Pan-Americana e logo se tornou Secretario Geral da OEA, com sede em Washington. Sua adesão ao movimento social católico foi intensificada a partir do Concílio Vaticano II, convocado pelo Para João XXIII no período 1962-1965.

A adesão a corrente renovadora da Igreja causou-lhe algumas críticas, que foram respondidas: “Pelo fato de colocar-me entre os renovadores da Igreja, sou chamado de progressista e de inocente útil. Mas a verdade é que a Igreja, no decorrer dos últimos 50 anos, tem evoluído gradativamente no sentido daquilo que chamo de humanismo, isto é, de uma colocação do primado do bem comum, em que o indivíduo se subordina à coletividade e a coletividade, por sua vez, se subordina à pessoa, à liberdade e à justiça. É aí que considero possível um entendimento entre as duas correntes antagônicas”.

Em 1964, com o golpe militar, alinhou-se a Dom Hélder Câmara contra a ditadura e tornou-se um dos mais respeitáveis críticos do regime político implantado no País, através da imprensa. Em 1967 comentou um livro sobre tortura, do deputado Márcio Moreira Alves: “Entre nós a revolução de 64 recolocou a tortura política em evidência. Márcio teve o desassombro… de ir aos fatos, de ouvir as vítimas, de arrancar os véus que impediam ver através dos muros das penitenciárias. E só agora pôde revelá-los em livro, que a Censura oficial procurou impedir que se divulgasse”.

No inicio da década de 1970, mostrou-se favorável à Teologia da Libertação, liderada pelo frade franciscano Leonardo Boff: “Considero a chamada Teologia da Libertação… que ela representa para mim a verdadeira e mais positiva concepção do papel capital que a Igreja de hoje, fiel às suas tradições mais primitivas da era patrística, pode e deve representar neste momento crucial, em que se chocam as concepções mais puramente antagônicas do futuro da humanidade, entre o crepúsculo da burguesia e a aurora do proletariado, entre a crise do capitalismo e a crise do socialismo, em tão grande parte herdeiro dos próprios males do capitalismo.”

Faleceu em 14/8/1983, aos 90 anos e, na condição de oblato beneditino, foi velado no Mosteiro de São Bento. No mesmo ano, a Comissão de Justiça e Paz, de São Paulo, liderada por Dom Paulo Evaristo Arns, criou o “Prêmio Alceu Amoroso Lima”, concedido pela Universidade Candido Mendes juntamente com o Centro Alceu Amoroso Lima pela Liberdade. Deixou um legado de 78 livros publicados sobre os mais variados temas e pode ser melhor conhecido através do site alceuamorosolima.com.br.

A Universidade Cândido Mendes mantém o CAALL-Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade, com o objetivo de manter e divulgar seu legado. Pouco antes de completar 90 anos, cuidou de suas memórias e organizou o livro Memorando dos 90: entrevistas e depoimentos, publicado pela editora Nova Fronteira, em 1984. Outro livro revelador – Cartas do pai: de Alceu Amoroso Lima para sua filha, Madre Maria Teresa – foi lançado em 2003 pelo IMS-Instituto Moreira Salles.

Clique aqui e veja entrevista histórica com Alceu Amoroso Lima

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Maria Esther Bueno

Maria Esther Andion Bueno nasceu em 11/10/1939, em São Paulo, SP. Conhecida como a “Bailarina do Tênis” devido a elegância do estilo de jogo, de certo modo atendeu ao desejo do pai, que queria vê-la dedicada ao balé. Grande dama do tênis brasileiro; melhor tenista do século XX da América Latina; uma das melhores tenistas da História; obteve 589 títulos internacionais.

Iniciou aos 6 anos no Clube de Regatas Tietê, ao lado de sua casa, com algum sucesso na disputa de provas de natação, mas logo mudou para o tênis. Aos 11 anos disputou o 1º campeonato; aos 14 conquistou o Brasileiro Infantil e 2 meses depois ganhou o Brasileiro de Adultos; aos 15 conquistou medalha de bronze de duplas nos Jogos Pan-Americanos do México, ao lado de Ingrid Charlotte Metzzner; aos 17 sagra-se bicampeã do torneio Orange Bowl, na Flórida, e aos 18 conquista seu 1ª título internacional adulto: o torneio de Fort Lauderdale.

No mesmo ano (1957), foi vice-campeã em Coral Gables e venceu 6 torneios em duplas. No ano seguinte, ao lado de Althea Gibson, ganhou o torneio de duplas de Wimbledon. Em 1959, aos 19 anos, ganhou o torneio de Grand Slam ao vencer Darlene Hard e pôs fim a 21 anos de domínio norte-americano em Wimbledon, assumindo a liderança do Rank Mundial. No dia seguinte, o jornal O Estado de São Paulo publicou: “A vitória de Estherzinha é festejada em todo o Brasil como um feito que supera o dos craques do futebol que se tornaram campeões mundiais há exatamente um ano, na Suécia.”

Por essa conquista, recebeu um prêmio de 15 dólares em voucher, “que você trocava por meia ou munhequeira, porque era totalmente amador e não podia ter prêmio em dinheiro”, declarou. Em 1960 alcançou o bicampeonato do torneio simples em Wimbledon e saiu na capa da revista Cruzeiro, de janeiro de 1961, ao lado de Pelé, Éder Jofre e o bicampeão de pesca submarina Bruno Hemanny. Em seguida participou do tradicional torneio da Austrália (atual Australian Open), onde teve poucas derrotas e algumas vitórias e faturou mais 3 torneios na Europa e 2 na América do Sul. Em duplas ganhou os 4 eventos do Grand Slam e outros 11 troféus, sendo a primeira mulher a conquistar o Grand Slam de tênis em duplas. Por isso foi novamente indicada nº 1 do ranking feminino.

Sua vida foi uma enorme coleção de premiações em torneios. Em 1961 teve um breve intervalo de 8 meses, devido a uma hepatite. Mas retomou a carreira no ano seguinte com 4 troféus de simples, vice na Itália, vitória de duplas nos EUA. Em 1963 retoma sua performance com 17 troféus de duplas, campeã em Wimbledon e Medalha de Ouro nos Jogos Pan Americanos de São Paulo. Em 1964 volta a ocupar o 1º lugar do Ranking Mundial e entrou no Guiness Book por ter vencido a tenista Carole Caldwell Graebner, no final do US Open, em apenas 19 minutos.

O final da carreira plena de vitórias, começou em 1965 com uma contusão no joelho esquerdo, que já vinha incomodando-a, e precisou de uma cirurgia e 4 meses de recuperação. Mesmo assim, conseguiu o tricampeonato na Itália e o vice em Wimbledon e Austrália neste ano. Em 1966 faturou mais alguns prêmios, como o tetracampeonato nos EUA e mais 4 títulos de simples e 2 de duplas. No ano seguinte, sua carreira foi praticamente encerrada, devido a uma contusão no braço direito. Na época não havia o “tie-brake” e ela jogou por mais de 10 horas seguidas, causando-lhe uma “epicondite”, inflamação no tendão do cotovelo, o tal “cotovelo de tenista”. Em 1968, os médicos disseram-lhe que o estrago era grande e ela não poderia voltar jogar.

“Um depoimento revela o profissionalismo de sua carreira: “Quando estava no auge em Wimbledon, acumulei três competições ao mesmo tempo (simples, duplas e duplas mistas) e cheguei a jogar 120 games num mesmo dia. Treinei pela manhã e joguei das 14h até 22h. Tive um problema muito sério, não podia mexer a mão. Fiz quinze cirurgias. Não tive coragem de dizer “não vou jogar mais”. Não podia deixar o público esperando. Você se sente na obrigação de jogar”. A partir daí, as paradas são mais constantes, mas em 1968 ainda faturou seu último título de Grand Slam e mais 2 torneios em 4 finais.

Após várias cirurgias na década de 1970, voltou a jogar sem o vigor de antes. Ainda assim, conquistou o Aberto do Japão de 1974, seu último título internacional. Em 1976, aos 36 anos, disputou Roland Garros e Wimbledon e chegou às quartas, seu pior resultado. No ano seguinte deu-se a última temporada: chegou à final em Dublin, caiu na 3ª rodada em Wimbledon e na 2ª do US Open. Pouco depois, em São Paulo foi eliminada na 2ª partida e anuncia o abandono definitivo das quadras, em 1978. Em seguida teve seu nome incluído no International Tennis Hall of Fame e ganhou uma estátua de cera no Museu Madame Tussands.

Recebeu diversas homenagens, como a “Raccheta D’Oro”, em 2006 em Roma e no mesmo ano foi convidada pelo US Open para a cerimônia de renomeação da instituição nacional do tênis nos EUA. A partir daí participou de diversos torneios internacionais como comentarista e faleceu em 8/6/2018, aos 78 anos. Segundo Gwen Robyns, no livro In Wimbledon: the Hidden dream “ela parecia um gato siamês exótico quando se movia pela quadra. Maria era sinuosa, sensual e feminina. Eles a chamavam de Rainha de Wimbledon”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Dom Hélder Câmara

Hélder Pessoa Câmara nasceu em Fortaleza, CE, em 7/2/1909. Religioso franciscano, bispo e arcebispo emérito de Olinda e Recife. Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos e indicado várias vezes ao Prêmio Nobel da Paz, teve atuação destacada na redemocratização do País.

Filho de Adelaide Pessoa Câmara e Eduardo Torres Câmara Fº, manifestou vocação sacerdotal ainda criança. Teve os primeiros estudos em casa, com a mãe professora, e ingressou no Seminário Diocesano de Fortaleza, aos 14 anos, em 1923, onde eram abominados o Iluminismo, a Revolução Francesa e o Comunismo. Ao final do curso sofreu uma crise vocacional e pensou em não prosseguir na carreira religiosa. Mas foi persuadido pela mãe e pelo reitor Pe. Tobias a continuar.

Foi ordenado padre em 1931, aos 22 anos, com autorização especial da Santa Sé, por não ter a idade mínima exigida. Logo após sua primeira missa, foi designado a coordenar os Círculos Operários e iniciar a organização da JOC-Juventude Operária Católica. No ano seguinte foi fundada a Legião Cearense do Trabalho, a fim de combater o individualismo e recuperar o cooperativismo. A Legião se declarava anticapitalista, anticomunista e antiburguesa e a JOC seguiu esta orientação ideológica. Em pouco tempo reuniu 2 mil rapazes pobres com a oferta de alfabetização e recreação.

Em 1932 foi criada a AIB-Ação Integralista Brasileira, liderada por Plínio Salgado, cujo lema “Deus, Pátria e Família” atraiu-o para o movimento. Assumiu o cargo de Secretário do Setor de Estudantes da AIB no Ceará, animado com um dos textos intitulado “Cristo e o Estado Integral”. Dedicou-se ativamente ao movimento político e mais tarde desligou-se da AIB após perceber suas implicações ideológicas, em meados de 1937. Em seguida aderiu ao humanismo integral de Jacques Maritain. Seu empenho visava maior participação da igreja no meio social, reduzir a pobreza e alavancar a educação, chegando a ser Secretário de Educação do Ceará. Pouco depois foi transferido para o Rio de Janeiro, onde teve como diretor espiritual o Pe. Leonel Franca, criador da primeira universidade católica do País, a PUC/RJ.

Em 1939 foi nomeado chefe do Instituto de Pesquisas Educacionais da Secretaria Geral de Educação e Cultura e atuou noutras áreas, como na Fundação Nacional de Imigração, em apoio à imigração de refugiados no pós-guerra. Nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro, em março de 1952, foi ordenado bispo no mês seguinte. No mesmo ano conseguiu aprovação do Monsenhor Giovanni Batista Montini, subsecretário de estado do Vaticano e futuro papa Paulo VI, na criação da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, da qual foi secretário-geral até 1964.

O Monsenhor Montini apoiou também a criação do CELAM-Conselho Episcopal Latino-Americano, em 1955, com sede em Bogotá. A 1ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano foi realizada no Rio de Janeiro, tendo Dom Hélder como articulador. Na condição de presidente e vice-presidente do CELAM, participou de todas as conferências até 1992. Com sua capacidade de articulação foi possível a realização do XXXVI Congresso Eucarístico Internacional, em 1955, no Rio de Janeiro, contando com a presença de cardeais e bispos de todo o mundo. A partir daí passou a ajudar os pobres com a Cruzada São Sebastião, da qual resultaram alguns conjuntos habitacionais. Em 1959, fundou o Banco da Providência, auxiliando as pessoas mais carentes.

Participou do Concílio Ecumênico Vaticano II, em 1961, na condição de padre conciliar em 4 sessões do concílio e foi um dos propositores do “Pacto das Catacumbas”, em 1965, que teve forte influência na “Teologia da Libertação”, movimento católico caracterizado pela preocupação social com os pobres e a libertação política do povo oprimido. Por essa época, diante da conturbada situação sociopolítica, suas atividades entraram em conflito com as posições do Cardeal Dom Jaime Câmara, tornando difícil sua permanência no Rio de Janeiro. Em 12/3/1964, a poucos dias do Golpe Militar, foi designado arcebispo de Olinda e Recife, cargo exercido até 1985.

Nesta diocese estabeleceu uma administração em setores pastorais; criou o Movimento Encontro de Irmãos; o Banco da Providência; a Comissão de Justiça e Paz e fortaleceu as comunidades eclesiais de base. Exerceu forte resistência o ditadura militar e tornou-se líder contra o autoritarismo, pregando no Brasil e no exterior uma fé cristã compromissada com os mais pobres. Foi perseguido pelos militares e acusado de comunista. Após o AI-5, em 1968, foi proibida qualquer referência ao seu nome. Aos 75 anos renunciou ao cargo e passou o comando da Arquidiocese a Dom José C. Sobrinho, em 1985; continuou no Recife, vivendo nos fundos da Igreja das Fronteiras e faleceu aos 90 anos, em 27/8/1999, e foi sepultado no interior na Catedral da Sé de Olinda.

Em seu centenário, em 2009, A CNBB, Arquidiocese de Olinda e Recife, Instituto dom Hélder Câmara, PUC/PE entre outras entidades, promoveram homenagens visando manter viva sua memória e legado. Recebeu 32 títulos de doutor honoris causa em todo o mundo; foi cidadão honorário de 28 cidades no Brasil e no exterior. Nos EUA recebeu o Prêmio Martin Luther King e na Noruega o Prêmio Popular da Paz. Foi indicado 4 vezes ao Prêmio Nobel da Paz. Seu acervo histórico é mantido no Instituto Hélder Câmara, em Recife. Em 2002 foi instituído o Prêmio Dom Hélder Câmara de Imprensa pela CNBB. Em 2010 o Senado Federal criou a Comenda de Direitos Humanos Dom Hélder Câmara, para agraciar personalidades destacada nessa área. Em 2017, a Lei nº 13.581 declarou-o Patrono Brasileiro dos Direitos Humanos.

Em 2014 foi anunciada a abertura do processo de beatificação e no ano seguinte o Vaticano deu parecer favorável através da Congregação para as Causas dos Santos, recebendo o título de Servo de Deus. Em 2018, após 3 anos de investigação foi concluído o processo e remetido à Congregação. Em 2022, durante o 18º Congresso Eucarístico Nacional, foi anunciado que a documentação recebeu aprovação dos membros da Congregação e que está sendo elaborado a positio para que Dom Hélder possa ser declarado venerável. Porém, na Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, ele já se encontra no calendário do santos e sua festa litúrgica é comemorada em 27 de agosto.

Dom Hélder deixou um legado de 13 livros traduzidos em diversos idiomas, dentre os quais: Revolução dentro da paz (1968). Mil razões para viver (1979) e Espiral de violência (1978). Sua trajetória religiosa foi exposta no livro de Ivanir Antonio Rampon no livro O caminho espiritual de Dom Helder Câmara, publicado pelas Edições Paulinas, em 2015.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Magda Tagliaferro

Magdalena Maria Yvonne Tagliaferro nasceu em Petrópolis, RJ, em 19/1/1893. Pianista franco-brasileira, foi uma referência mundial na arte de tocar piano. Criou uma concepção de sonoridade feminina no teclado, sem esquecer a missão pedagógica. Dizia que “não há gênio no mundo que resista à falta de estudo”.

Filha Louise Hergenröder e Joseph Paul Tagliaferro Tagliaferro, músico e professor de canto e piano, teve sua primeira apresentação pública aos 9 anos. Aos 12 realizou uma turnê pelo Brasil e no ano seguinte foi para França estudar no Conservatório de Música de Paris, dirigido por Grabriel Fauré. Lá conviveu com Ravel e Polenc e teve como mestres Raoul Pugno e Alfred Cortot, sobre o qual ela declarou: “Ele abriu minha imaginação musical de um modo extraordinário”. Conta-se que ele, casado, apaixonou-se pela aluna.

Era uma menina prodígio e conquistou seu primeiro prêmio – medalha de ouro – aos 14 anos (1907). O primeiro disco foi gravado em 1928 e no mesmo ano recebeu a comenda “Legião de Honra da França”. Por esta época apresentava-se regularmente nos palcos da Europa, EUA e Brasil. Em 1937 foi nomeada catedrática do Conservatório onde estudara e desenvolveu uma nova técnica de ensino. Criou o que se chama hoje de “Aula Pública”, visando a educação dos alunos e a formação do público simultaneamente.

A partir daí desenvolveu uma expressiva carreira internacional, apresentando-se com importantes orquestras: Filarmônica de Viena, Concertgebouw de Amsterdam, Filarmônica de Berlim, Orquestra da Suiça Romanda etc. Atuou com os principais maestros: Wilhelm Furtwan, Pierre Pierné, Ernest Ansermet, Charles Munch, Leopold Stokowski, Lorin Maazel, Pierre Monteux e os brasileiros Heitor Villa-Lobos, Eleazar de Carvalho e João de Souza. Durante a II Guerra Mundial deu-se o fechamento do Conservatório de Paris e ela retornou ao Brasil com suas aulas e concertos. Foi convidada pelo Ministro da Educação Gustavo Capanema, em 1942, a ministrar seu curso anual de interpretação artística, com aulas em São Paulo, Porto Alegre, Salvador e outras cidades.

Em 1949 voltou a viver em Paris e pouco depois foi condecorada com o título de Commandeur da Legião de Honra da França. Numa temporada no Brasil, criou em São Paulo a Fundação Magdalena Tagliaferro, promovendo cursos e concursos com bolsas de estudos para novos artistas. Pouco depois, com o incentivo de Alfred Cortot, levou o curso para a França. Sua pedagogia foi dissecada no livro – A arte pianística de Magda Tagliaferro – publicado em inglês, japonês e português por sua ex-aluna Asako Tamura, em 1997. No Brasil, abriu o 1º Festival de Inverno de Campos de Jordão, em 1970, e 2 anos depois foi condecorada com a comenda “Ordem do Rio Branco”. Em seguida foi agraciada pelo Governo de São Paulo com a “Ordem do Ipiranga”, no grau Grande Oficial, em 1976.

Em 1979, após seu segundo concerto no Carnegie Hall, em Nova Iorque, escreveu sua autobiografia Quase tudo… Memórias de Magdalena Tagliaferro, publicada pela Ed. Nova Fronteira. Foi jurada dos principais concursos internacionais de piano: Concurso Chopin, em Varsóvia; Concurso Tchaikovsky, na União Soviética; Concurso Rainha Elizabeth, na Bélgica; e o Concurso da Academia de Verão do Mozarteum, em Salzburgo. Segundo Fábio Caramuru, solista da OSESP e seu aluno, ela dizia que “o brasileiro é o povo mais musical que existe no mundo, é uma musicalidade natural que dá de dez a zero na do europeu”.

Os especialistas eram unânimes em afirmar que ela “além de trazer as técnicas interpretativas do impressionismo francês, ao mesmo tempo, a pianista transmitia ao povo brasileiro um estilo mais leve e humanizado de ensinar piano”. Em 1981, gravou um disco com seu aluno Daniel Varsano (1953-1988), interpretando obras de Fauré para duo de pianos, álbum que recebeu o Grand Prix de l’Académie du Disque Français.

Sua última homenagem se deu em 1985, com a outorga da comenda “Ordem Nacional do Mérito” pelo presidente José Sarney no palco onde fez sua última apresentação. Manteve uma intensa atividade pedagógica e artística até o final da vida em 9/9/1986, aos 93 anos. Um bom apanhado de sua longa vida pode ser apreciado na pesquisa realizada pelo maestro Édson Leite, patrocinada pela FAPESP, para sua tese de doutoramento na ECA/USP, em 1999, que resultou no livro Magdalena Tagliaferro: testemunha do seu tempo, publicado pela Ed. Annablume em 2001.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Euclides da Cunha

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em 20/1/1866, em Cantagalo, RJ. Engenheiro, geógrafo, militar, jornalista, poeta e escritor célebre com a obra Os Sertões, um clássico da literatura brasileira.

Teve os primeiros estudos nos colégios Caldeira, Anglo-Americano e Aquino, onde publicou alguns artigos no jornal O Democrata, fundado por ele e seus colegas, em 1884. Pouco depois ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, onde foi aluno de Benjamin Constant e passou a colaborar na Revista da Família Acadêmica. Em seguida teve sua matrícula trancada devido ao protesto numa visita do ministro Tomás Coelho. Retornou à Escola Militar em 1889, com a Proclamação da República; conclui curso na Escola Superior de Guerra, em 1891, e no ano seguinte foi promovido a 1º tenente, passando a lecionar na Escola Militar.

Em plena campanha republicana foi convidado a colaborar no jornal A Província de São Paulo. Em 20/12/1888 fez sua estreia com o artigo A pátria e a dinastia. Em meados de 1890 casou-se com Ana Emílio Ribeiro, com quem terá uma vida marcada por constantes viagens a trabalho e teve seu primeiro filho em 1893. Em seguida teve que interromper a colaboração no jornal, devido a uma forte pneumonia, e volta a trabalhar como engenheiro na Estrada de Ferro Central do Brasil. A pneumonia logo se torna tuberculose, obrigando-o a deixar o Exército no posto de tenente.

Volta a colaborar no jornal O Estado de São Paulo em 1897. Pouco depois foi cobrir a 4ª Expedição contra Canudos, como correspondente. Por esta época foi nomeado adido do estado-maior do Ministro da Guerra e torna-se sócio correspondente do Instituto Geográfico e Histórico de São Paulo. Após 4 meses de licença para cuidar da saúde, foi morar em Descalvado, onde começa a escrever Os Sertões. Em 1898 reassume seu cargo na Superintendência de Obras Públicas em São Paulo. Retoma sua colaboração no Estadão e publica Excerto de um livro e trechos de Os Sertões, quando defende a tese: “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, cuja energia contrasta com a debilidade dos mestiços do litoral.

Conclui Os Sertões, em 1902, e assina contrato a editora Laemmert para a edição de 1.200 exemplares, cobrindo metade dos custos editoriais. Após um trabalho insano de revisão, o livro é distribuído nas livrarias e recebido com aplausos do público e restrições da crítica. No ano seguinte, a 1ª edição se esgota em poucos meses, culminando com seu ingresso na ABL-Academia Brasileira de Letras. Em seguida vende os direitos da 2ª impressão do livro para a o editor Massow e passa a escrever artigos nos jornais sobre os conflitos na fronteira Bolívia-Brasil e defende uma solução diplomática que permita a incorporação do território do Acre.

Outra trincheira jornalística defendida é o combate contra as secas do Nordeste, propondo uma “guerra dos cem anos”, que inclua a exploração científica da região, a construção de açudes, poços e estradas de ferro e o desvio das águas do rio São Francisco para as regiões afetadas, um projeto que veio a se concretizar mais de 100 anos depois. Em 1905 realizou uma grande viagem na Amazônia, chefiando a missão oficial do Ministério das Relações Exteriores, navegando cerca de 6.400 km. e alguns trechos a pé. Na viagem contraiu uma malária e retornou ao Rio de Janeiro, em 1906. Ao chegar encontra a esposa grávida do cadete Dilermando de Assis. A criança faleceu 7 dias após o nascimento.

Em 1907 publicou o livro Contrastes e confrontos, em Portugal, e sua esposa tem outra criança – Luís Ribeiro da Cunha -, registrado como seu filho, mas que adotará mais tarde o sobrenome Assis, seu pai biológico. No ano seguinte publicou no Jornal do Commércio, a crônica A última visita, sobre a visita de um anônimo estudante a Machado de Assis em seu leito de morte. Com o falecimento deste, em 29/9/1908, ocupou a presidência da ABL por breve período e passa o cargo para Rui Barbosa. Pouco depois passou a lecionar no Colégio Pedro II, assumindo a cadeira de Lógica.

Em 1909 não temos notícias sobre sua vida. Porém, seu relacionamento com a esposa não ia bem. Não aceitando seu caso extraconjugal de anos antes, entra em conflito com o cadete Dilermando de Assis e vem a falecer numa troca de tiros em 15/8/1909. A tragédia não acaba aí e prossegue até 1916, quando o, agora 2º tenente Dilermando mata o aspirante naval Euclides da Cunha Filho, que tentou vingar a morte do pai. Nos dois casos, Dilermando foi absolvido pelo mesmo veredicto: legítima defesa.

Sua obra-prima Os Sertões é considerada o primeiro livro-reportagem brasileiro. O livro desfez sua visão anterior, que via a Guerra de Canudos, como tentativa de restauração da Monarquia e passa a ver o movimento como uma seita messiânica de sertanejos famintos, liderada pelo religioso Antônio Conselheiro. Assim, muda seu relato para denunciar uma carnificina, que liquidou todos os componentes num combate que durou 11 meses, com a morte de cerca de 20 mil sertanejos e 5 mil soldados, em 4 expedições, e a destruição total do Arraial de Canudos.

Além do culto à sua memória realizada anualmente com a “Semana Euclidiana” em Cantagalo (RJ), São José do Rio Pardo (SP) e São Carlos (SP) e encontrar-se inscrito no “Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria”, a vida e obra de Euclides da cunha tem sido explorada em diversos formatos: filmes, documentários e teatro. Um resumo conciso pode ser visto no site http://euclidesite.com.br. São diversas também as biografias: A vida dramática de Euclides da Cunha (1938), de Eloy Pontes, pela Ed. José Olympio; A glória de Euclides da Cunha (1940), de Francisco Venancio Fº, pela Cia. Editora Nacional; Euclides da Cunha (1966), de Sylvio Rabello, pela Ed. Civilização Brasileira; Retrato interrompido da vida de Euclides da Cunha (2003), de Roberto Ventura, pela Cia. das Letras.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Emília Viotti

Emília Viotti da Costa nasceu em 28/2/1928, em São Paulo, SP. Historiadora e professora, ficou conhecida como “grande dama da historiografia nacional”. Seu livro Da senzala à colônia (1966) é considerado referência obrigatória no estudo deste período. Lançou novos rumos na análise histórica da diáspora africana e da escravidão no Brasil e América Latina.

Filha de um português com uma brasileira com formação política, empresarial e artística. Seu avô foi presidente das províncias do Paraná e Maranhão e senador pelo estado de São Paulo, em meados do século XIX. Concluiu o curso de história pela USP-Universidade de São Paulo, em 1951. Em seguida cursou história medieval, moderna e contemporânea na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ituverava, SP, em 1951-1953. Continuou os estudos de história na École Pratique des Hautes Études, em Paris, no período 1953-1956, através de uma bolsa de estudos concedida pelo governo francês.

De volta ao Brasil, retomou os estudos na USP, onde concluiu os cursos de mestrado e doutorado e foi professora de 1964 a 1969. Defendeu tese de livre-docência intitulada Escravidão nas áreas cafeeiras, aspectos econômicos, sociais, políticos e ideológicos da transição do trabalho servil para o trabalho livre, renovando as pesquisas sobre a Abolição. Em 1968 fez severas críticas a reforma universitária promovida pelo governo ditatorial; realizou palestras sobre “A Crise da Universidade” e debateu o tema, em programa de TV, com o Ministro da Educação, Tarso Dutra. Foi presa no ano seguinte junto com outros colegas; aposentada compulsoriamente pelo AI-5 e afastada da USP.

Não podendo mais lecionar aqui, mudou-se para os EUA, onde foi professora de história da América Latina nas universidades de Yale, Tulane e Illinois no período 1973-1999. Retornou ao Brasil e passou integrar o Conselho Consultivo da USP, enquanto lecionava na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Mais tarde recebeu o título de professora emérita desta faculdade e da Universidade de Yale, onde foi também diretora do Programa de Estudos da Mulher e do Conselho de Estudos Latino-Americanos.

Além do citado Da senzala à colônia, publicou Da Monarquia à República: momentos decisivos, pela Editora Unesp, analisando o processo que levou à República, na tentativa de compreender a subsequente marginalização de amplos setores da população brasileira; Coroas de glória, lágrimas e sangue, pela Cia. das Letras, uma reconstrução das maiores revoltas de escravos, ocorrida na Guiana inglesa em 1823. Seu último livro O Supremo Tribunal Federal e a construção da cidadania (2001), pela Editora Unesp, colocou o poder judiciário em primeiro plano ao analisar a história política do Brasil.

Sua carreira acadêmica no exterior permitiu formar pesquisadores norte-americanos que se tornaram importantes brasilianistas, entre eles John French e Barbara Weinstein, que foi fazer seu doutorado em Yale sobre a Argentina e, com as aulas de Emília, acabou optando por pesquisar o Brasil e declarou: “Ela me mostrou que o país oferecia um campo rico para investigar questões da história do trabalho e que era impossível entender a classe operária sem estudar a trajetória dos empresários”.

O filósofo Jézio Gutierre considera que uma das suas preocupações centrais foi entender questões contemporâneas do Brasil olhando para aspectos do passado. “Emília se incomodava com historiadores que se debruçavam sobre a história antiga sem pensar nas consequências à vida contemporânea”. É desta perspectiva que Emília via e estudava a História.

De uma conversa com sua colega, a historiadora Zilda Márcia Grícoli Iokoi, a respeito das manifestações que sacudiram o Brasil em 2013 e 2015, brotou a preocupação, levantada por Emília, que as escolhas feitas por cidadãos de um país estão ligadas diretamente à concepção de mundo da qual se dispõe. A partir daí, para entender como esse processo de seleção se dá, nasceu o livro A escrita do historiador: cosmovisões em conflitos, organizado pela colega historiadora e lançado pela Editora Unesp em 2018. A reunião de artigos presta uma homenagem à professora Emília Viotti da Costa, que, falecida em 2017, não pôde ver o trabalho concluído. Segundo sua colega “Para ela, as questões eram mais amplas e resultado de desigualdades mais profundas, de resquícios coloniais”.