JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Anísio Teixeira

Anísio Spínola Teixeira nasceu em Caetité, Bahia, em 12/7/1900. Advogado, escritor e essencialmente educador, foi pioneiro na implantação da escola pública no Brasil. Filho do médico Deocleciano Pires Teixeira, líder político de Caetité. Os primeiros estudos se deram em colégios jesuítas. Cogitou entrar para essa Ordem Religiosa, mas foi dissuadido pelo pai, que já havia projetado uma carreira política para o garoto. Dotado de inteligência excepcional, aos 17 anos foi convidado por Teodoro Sampaio à proferir palestra no Instituto Histórico e Geográfico da Bahia.

Em 1918 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde concluiu o curso de Direito e retornou à Salvador. Foi convidado pelo governador Góes Calmon a assumir o cargo de Inspetor Geral do Ensino, em 1924, e enfrentou com determinação o problema da educação. No ano seguinte partiu para a Europa com a finalidade de conhecer o sistema educacional de alguns países e na volta implementou várias reformas no ensino. Assim, deu início a uma profícua carreira de pedagogo e administrador público. Em 1927 foi conhecer o ensino público nos EUA e tomou contato com as ideias do filósofo e pedagogo John Dewey. De volta à Salvador quis fazer algumas mudanças no sistema de ensino, mas foi impedido pelo novo governador. Pediu demissão do cargo e viajou de novo para os EUA, onde fez curso de pós-graduação, na Universidade de Columbia, com John Dewey, em 1928, que exerceu uma influência decisiva em sua carreira de educador. Sua ideia fundamental era ampliar o sistema educacional, privilegiando a formação do professor.

Tornou-se discípulo do filósofo americano e traduziu para o português dois dos seus livros. Publicou seu primeiro livro, “Aspectos americanos de educação”, em 1928. Três anos depois mudou-se para o Rio de Janeiro e ocupou o cargo de diretor da Instrução Pública do Distrito Federal, com a missão de reorganizar o ensino público. Neste cargo instituiu a integração da “Rede Municipal de Educação”, abrangendo desde o ensino fundamental até a universidade. No mesmo ano acumulou o cargo de presidente da ABE-Associação Brasileira de Ensino e junto com Fernando de Azevedo, Lourenço Filho entre outros, elaborou o “Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova”, em 1932, um documento propondo uma escola gratuita, laica e obrigatória, e que sofreu forte oposição da Igreja Católica. Os pressupostos da “Escola Nova” tinham como princípio a ênfase no desenvolvimento do intelecto e na capacidade de julgamento no lugar da memorização. Em seguida assumiu a Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro. Na condição de amigo íntimo do prefeito Pedro Ernesto Batista, foi apoiado na criação de novos estabelecimentos de ensino e criou a UDF-Universidade do Distrito Federal, em 1935.

Em termos políticos não aderiu formalmente a ALN-Aliança Libertadora Nacional, uma frente que reunia diversos setores de esquerda. Porém, publicava artigos polêmicos no jornal “A Manhã”, órgão oficioso da ALN. Devido a este envolvimento foi demitido da Prefeitura em novembro de 1935, sob acusação de participar da “Intentona Comunista”. Durante o “Estado Novo”, foi perseguido pelo governo de Getúlio Vargas e voltou a residir em Salvador. Passou a lidar com a mineração, atividade de alguns parentes e a curtir mais os amigos, como Monteiro Lobato, com quem publicou mais um livro: “Educação para a democracia” e fazer traduções. Depois, foi morar em Paris por um breve período e foi nomeado conselheiro da Unesco, em 1946. No ano seguinte, de volta ao Brasil, foi convidado pelo governador Otávio Mangabeira para assumir a Secretaria de Educação e Saúde da Bahia. Dentre outras realizações, construiu na Liberdade, o mais populoso e pobre bairro de Salvador, o “Centro Educacional Carneiro Ribeiro”, mais conhecido por “Escola Parque”, pioneiro ao implantar a educação em tempo integral, e que serviu de modelo para os futuros CIEPs (Centros Integrados de Educação Pública), criados por Darcy Ribeiro no Rio Janeiro .

Em 1951 criou e dirigiu a Campanha Nacional de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (atual CAPES, que deixou de ser uma campanha para virar uma coordenação), com a finalidade de “assegurar pessoal especializado em quantidade e qualidade para atender às necessidades dos empreendimentos públicos e privados que visam ao desenvolvimento do país”. No ano seguinte, dirigiu o INEP-Instituto de Estudos Pedagógico e criou o CBPE-Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais. Em meados da década de 1950 tornou-se uma personalidade conhecida em âmbito nacional com seu livro “A educação e a crise brasileira”, publicado em 1956. Foi presidente da SBPC-Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência em duas gestões: 1955-57 e 1958-59. No final da década, participou ativamente dos debates para a implantação da Lei Nacional de Diretrizes e Bases, promulgada em 1961. Logo que Juscelino Kubitschek assumiu o compromisso de fundar Brasília, convidou-o para organizar o plano educacional da nova capital, enquanto Darcy Ribeiro, Ministro da Educação e Cultura, foi designado para criar a UnB-Universidade de Brasília. O jovem Darcy logo tornou-se seu discípulo e deixou-o como reitor da UnB quando assumiu a chefia da Casa Civil, em junho de 1963. Em abril de 1964, com o Golpe Militar, foi obrigado a deixar o País e foi morar nos EUA.

No inicio foi contratado como professor visitante da Universidade de Columbia, em 1964. No ano seguinte passou a lecionar na Universidade de Nova Iorque e depois na Universidade da Califórnia. De volta ao Brasil, em 1966, trabalhou na Fundação Getúlio Vargas, colaborando na criação do Instituto de Estudos Avançados em Educação, centrado na formação de pessoal em nível de pós-graduação. Era um visionário apaixonado pela educação, que planejava a longo prazo. Em princípios da década de 1970, foi incentivado por amigos a entrar para a Academia Brasileira de Letras e passou a visitar alguns amigos acadêmicos na busca de votos. Após a visita ao amigo Aurélio Buarque de Holanda, Anísio desapareceu. A família passou a procurá-lo e foi informada pelos militares que ele se encontrava detido. Na ditadura do governo Médici era comum o desaparecimento de desafetos políticos e o discurso de Anísio era um incômodo: “Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a da escola pública”

Após longa busca pelos quartéis, seu corpo foi encontrado no fosso de elevador do prédio onde residia Aurélio Buarque de Holanda. Não havia sinas de queda, nem hematomas. A versão oficial foi de que sofreu um acidente em 11/3/1971. Apesar do laudo de morte acidental, há suspeitas de que tenha sido vítima das forças de repressão do governo Médici. 41 anos depois, o professor João Augusto de Lima, numa palestra na UnB, declarou: “Em dezembro de 1988, Luiz Viana Filho me confessou que Anísio Teixeira foi preso no dia que desapareceu e levado para o quartel da Aeronáutica, numa operação que teve como mentor o brigadeiro João Paulo Burnier, figura conhecida do regime militar e que tinha o plano de matar todos os intelectuais mais importantes do Brasil na época”. Dois meses antes, o deputado Rubens Paiva também havia “desaparecido” e sua morte pelas forças da repressão só foi confirmada mais de 40 anos depois. A “Comissão Nacional da Verdade” criou em 2012 a Comissão Anísio Teixeira de Memória e Verdade e investigou o caso até 2015. Até agora não se chegou a confirmação de assassinato.

Desde o fim da ditadura militar, sua memória e legado vêm sendo resgatados. Começou em grande estilo com sua estampa impressa na cédula de mil Cruzeiros Reais, em 1/10/1993. Em 1998 foi criada, em Caetité, a Fundação Anísio Teixeira, na casa onde nasceu, cujo objetivo, é preservar e divulgar seu pensamento e obra, além de promover o desenvolvimento regional do ponto de vista da educação e da cultura. A entidade abriga Centro de Memória, Biblioteca Pública, Cine-Teatro, Oficina de Arte-Educação, Sala de Cultura Digital e um pátio externo para eventos culturais e educativos. A fundação é presidida por sua filha Anna Cristina Teixeira Monteiro de Barros e o dia de seu nascimento, 12 de julho, é feriado municipal. A CAPES concede anualmente o “Prêmio Anísio Teixeira” à quem contribuiu para o desenvolvimento da pesquisa e formação de recursos humanos no Brasil e é considerado uma das mais importantes condecorações na área de educação.

Em termos bibliográficos, deixou um legado precioso, que até hoje vem sendo consultado: Pequena introdução à filosofia da educação: a escola progressiva ou a transformação da escola (1968); Educação no Brasil (1969), Educação e o mundo (1977), publicados pela Cia. Editora Nacional; Ensino superior no Brasil: análise e interpretação de sua evolução até 1969 (1989), publicado pela Editora da FGV e Educação não é privilégio. 5ª ed. (1994), Educação para a democracia: introdução à administração educacional. 2ª ed. (1997), Educação é um direito. 2ª ed. (1996) e Educação e universidade (1998), publicados pela Editora da UFRJ. A Universidade Federal da Bahia mantém a Biblioteca Virtual Anísio Teixeira à disposição do publico na Internet. Clique aqui para acessar.

Atualmente seu nome denomina duas instituições dedicadas à educação e à formação de professores: INEP-Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Brasília) e IAT-Instituto Anísio Teixeira (Salvador).

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Pe. Anchieta

José de Anchieta nasceu em 19/3/1534, nas Ilhas Canárias, Espanha. Padre jesuíta, gramático, dramaturgo, poeta, historiador e patrono da cadeira nº 1 da Academia Brasileira de Música. Reconhecido como o Apóstolo do Brasil e um dos fundadores das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, foi declarado co-padroeiro do Brasil, em 2015, na 53ª Assembleia Geral da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e canonizado em 2014, após um processo que durou 417 anos, contando as interrupções.

Criado numa rica família basca, seu pai fazia oposição ao imperador Carlos V e por isto teve que se refugiar nas Ilhas Canárias. Aos 14 anos ingressou no curso de filosofia, na Universidade de Coimbra, e entrou na Companhia de Jesus em 1551. Foi enviado para o Brasil, em 1553, pelo próprio (santo) Inácio de Loyola, o fundador da Companhia. Aportou em Salvador e 3 meses depois foi para a capitania de São Vicente encontrar-se com o Pe. Manoel da Nóbrega. Juntos chegaram ao planalto de Piratininga em 24/1/1554 e no dia seguinte celebraram a primeira missa no povoado, que contava com apenas 130 pessoas. Assim deu-se a fundação de São Paulo na data comemorativa da conversão deste Apóstolo.

Aí foi criado o primeiro colégio dos jesuítas na América, onde passou a viver e trabalhar bastante na catequização dos índios. Ensinou-lhes a língua portuguesa e aprendeu linguagem tupi-guarani; compôs uma gramática própria; escreveu um catecismo e várias peças de teatro e hinos. Consciente da forte impressão que a música produzia nos índios, utilizava-se de canções para a catequese. Escrevia nos idiomas português, latim e tupi-guarani e sua primeira obra Arte da gramática da língua mais falada na costa do Brasil, foi publicada em Coimbra, em 1595. Em 1563, junto com o Pe. Nóbrega negociou a paz entre portugueses e os índios tamoios, que invadiram a colônia de São Vicente. Como prova de seu desejo de paz, entregou-se como refém aos índios e ficou alguns meses entre eles, enquanto a paz era negociada pelo Pe. Nóbrega com a Confederação dos Tamoios. Foi nesse período que escreveu seu famoso Poema à Virgem Maria nas areias da praia, em Ubatuba.

Conseguida a “Paz de Iperoig” com os índios, retomou às missões, sempre atento à educação e saúde dos índios e colonos. Ele mesmo padecia de tuberculose óssea, que lhe causou uma escoliose, agravada durante o noviciado. Além da atividade religiosa, teve participação política na luta contra os franceses que invadiram a baía da Guanabara. Em 1566 foi à Salvador convencer o governador Mem de Sá a enviar tropas para o Rio de Janeiro. Sobre este embate, escreveu “De gestis Mendi de Saa” (Os feitos de Mem de Sá), livro publicado em Coimbra, em 1563. Na ocasião foi ordenado sacerdote na Catedral de Salvador, aos 32 anos. No ano seguinte, partiu com o Pe. Nóbrega para o Rio de Janeiro para fundar mais um colégio, do qual foi reitor no período 1570-1573.

Em seguida retornou à São Vicente para catequisar os índios tapuias. Nesse meio tempo redigiu longos relatórios aos superiores sobre sua atividades, repletos de informações sobre os costumes indígenas, a flora, a fauna, o clima e a geografia brasileira. Tais escritos levaram-no a ser considerado um dos primeiros antropólogos e naturalistas do Brasil. Sua vasta obra só foi totalmente publicada no Brasil em meados do século XX. Em 1997, nas comemorações do IV Centenário do seu falecimento, foi publicado o catálogo “Anchieta: obras na Biblioteca Nacional”, onde constam as referências bibliográficas de 42 títulos de sua autoria, 88 títulos de ensaios e biografias e 190 artigos de periódicos sobre ele, excluindo as obras raras e musicais.

Em 1577 foi nomeado superior provincial da Companhia de Jesus no Brasil, onde permaneceu até 1588, e empreendeu diversas viagens pelo País, desde Cananeia até o Recife, para acompanhar as várias missões já instaladas. Tais missões se estenderam até o Paraguai e Argentina. Na época havia 140 missionários da Companhia no Brasil, os quais Anchieta visitava duas vezes por ano enquanto ia criando escolas e casas de caridade, como a Santa Casa de Misericórdia no Rio de Janeiro, fundada em 1582, para dar assistência aos doentes e às vítimas das frequentes epidemias. Após deixar o cargo de superior provincial, foi reitor do Colégio dos Jesuítas de Vitória até 1595. Com a saúde abalada, pediu dispensa de suas funções e foi viver em Reritiba (atual Anchieta), onde veio a falecer em 9/6/1597 e sepultado em Vitória.

Durante as solenidades do funeral foi reconhecido como o “Apóstolo do Brasil” e iniciado o processo de canonização, interrompido em 1634, quando foi decretado a espera de 50 anos para tal. Em 1647 o processo é retomado e 5 anos após foi declarado “Servo de Deus” pelo papa Inocêncio X. Novas interrupções surgem até 1736, quando suas “Virtudes Heróicas” foram declaradas pelo papa Clemente. Em 1773 a Companhia de Jesus é suspensa por 100 anos, devido a perseguição do Marquês de Pombal. O processo só foi reaberto no século seguinte e, finalmente, foi beatificado em 1980 pelo papa João Paulo II e canonizado em 2014 pelo papa Francisco, através de uma “canonização equivalente”. Isto se dá quando o Papa reconhece e ordena culto público universal a um Servo de Deus, sem passar pelo processo regular de canonização formal, porque a veneração ao santo já vem sendo feita desde os tempos antigos e continuamente pela Igreja.

Na homilia, o papa Francisco disse: “ele, juntamente com Nóbrega, é o primeiro jesuíta que Inácio de Loyola envia para a América. Um jovem de 19 anos… Era tão grande a alegria que ele sentia, era tão grande o seu júbilo, que fundou uma Nação: lançou os fundamentos culturais de uma Nação em Jesus Cristo”. O Santo Pe. Anchieta conta com 2 santuários: um na cidade onde nasceu, em San Cristóbal de La Laguna, Ilhas Canárias e outro na cidade de Anchieta, no estado do Espírito Santo, fundada por ele. Em 2015 o local, formado pela Igreja Nossa Senhora da Assunção e pelo Museu Nacional São José de Anchieta, foi declarado “Santuário Nacional”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASLEIRAS: Santa Paulina

Amabile Lúcia Visintainer nasceu em Vigolo Vattaro, Trento, Itália, em 16/12/1865. Religiosa fundadora da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, canonizada em 2002. Veio para o Brasil aos 10 anos e tornou-se a primeira santa brasileira, recebendo o nome de Santa Paulina do Coração Agonizante de Jesus.

Criada numa família humilde de 14 filhos, que em 1875 emigrou para o sul do Brasil e passou a viver na região de Santa Catarina no vilarejo de Vigolo, atual cidade de Nova Trento, onde ficaram todos os tiroleses. Desde jovem dedicou-se aos serviços religiosos de sua paróquia, sempre junto a sua amiga Virginia Rosa Nicolodi e fizeram a primeira comunhão em 1877. As duas amigas atraíram a atenção do padre jesuíta Augusto Servanzi, pela dedicação à paróquia e presteza no atendimento aos mais necessitados. Logo passaram a lecionar o catecismo às crianças, ajudar os doentes e na manutenção da capela. Em pouco tempo Amabile e Virginia passaram a ficar conhecidas de todos os tiroleses da região. Aos 14 anos, numa conversa com o Padre Servanzi, foi-lhe perguntado se gostaria de ser irmã. A resposta foi objetiva: “é a minha mais ardente aspiração”.

O padre se comprometeu a ajudá-la em seu empenho e tornou-se seu guia vocacional. Sua amiga Virginia logo foi envolvida no sonho de se dedicarem ao ideal religioso e se influenciaram mutuamente. Em pouco tempo as duas tornaram-se catequistas, sacristãs e enfermeiras, na condição de “freiras-leigas” no período 1880-1890. Em 1887, com o falecimento da mãe, sua jornada de trabalho foi redobrada com o serviço caseiro, sem abrir mão do serviço assistencial. No ano seguinte teve um sonho, onde a Virgem Maria lhe apareceu e ordenou que fizesse uma obra, na qual “trabalharás pela salvação de minhas filhas”. O sonho ocorreu mais duas vezes e ela se comprometeu com Nossa Senhora em “se esforçar o máximo que eu puder”. Em seguida, conversou com seu pai sobre os sonhos, envolveu o pároco na empreitada e construíram um barracão ao lado da capela, onde improvisaram um “hospital” e as duas amigas passaram a cuidar de doentes desamparados e da instrução de crianças carentes.

Logo surgiu uma mulher com câncer, em estado terminal, que foi amparada pelas amigas em 12/7/1890. A data marcou a fundação do “Ospedaletto di San Vigilio” (Hospitalzinho de São Virgilio), que viria a se tornar a primeira congregação religiosa feminina do Brasil. Em 1894, o “hospitalzinho” foi transferido para a cidade de Nova Trento, num terreno doado pelos benfeitores João Valle e Francisco Sgrott e a obra prossegue em bases mais sólidas ampliando o número de atendimentos. Em seguida as amigas fizeram um retiro espiritual de 8 dias, uma espécie de estágio seguindo instruções de Santo Ignácio de Loyola, antes de se dedicar à vida religiosa. Em 1895 a entidade foi reconhecida como instituição religiosa, social e assistencial pelo bispo de Curitiba e no mesmo ano juntou-se outra jovem –Teresa Maule-, que juntas fizeram os votos religiosos. Na ocasião Amabile adotou o nome de irmã Paulina do Coração Agonizante de Jesus e foi nomeada superiora da instituição. O trabalho e a dedicação destas jovens atraíram outras para o trabalho assistencial, que evoluiu para um orfanato e uma pequena indústria de seda como forma de sobrevivência e manutenção das obras de caridade.

A congregação logo passou a ser reconhecida na região e foi se espraiando. Pouco depois, o padre Luigi Maria Rossi, pároco de Nova Trento e amigo das irmãs, foi transferido para São Paulo e passou a envidar esforços para trazer madre Paulina e suas irmãs afim de dar continuidade a incipiente congregação. Para isso, fez contatos com o bispo de São Paulo e figuras da sociedade paulista, tal como José Vicente de Azevedo, que tinha planos de criar uma instituição de auxílio às crianças descendentes de negros e idosos inválidos ex-escravos. Contatou também as irmãs da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor. Em 1903 as irmãs chegaram em São Paulo e foram instaladas no bairro do Ipiranga para estabelecer a congregação. Logo iniciaram a obra com o “Asilo Sagrada Família”, abrigando ex-escravos e suas famílias jogadas nas ruas após a abolição, em 1888. A obra progrediu bastante e rápido, dado o crescente número de famílias desamparadas. O progresso da Congregação foi se consolidando com a chegada de mais jovens religiosas.

Em meados da primeira década de 1900 entra em cena uma importante senhora da sociedade paulista, viúva, rica e disposta a se tornar benemérita da Instituição Sagrada Família, que mantém o Asilo. Trata-se de Ana Brotero de Barros, que passa a ajudar a instituição com recursos próprios e do governo, onde mantinha contatos políticos. Além disso, contribuiu para inserir a recente congregação no seio da sociedade paulistana. Com apoio do bispo Dom Duarte Leopoldo e Silva e do padre Rossi, mentor das irmãs da congregação, tornou-se presidente da Instituição Sagrada Família, em 1908, A partir daí surgiram divergências entre a madre-superiora da congregação (Madre Paulina) e a presidente da instituição, que estava mais interessada em ampliar as instalações físicas da entidade. Tais divergências levaram ao exilio da Madre Paulina, em 1909, pelo bispo de São Paulo, Dom Duarte, que a mandou para Bragança Paulista, onde foi atuar na Irmandade Santa Casa de Misericórdia e lá ficou por 9 anos.

No entanto não se desligou da congregação por completo, e passou a ajudar a substituta no cargo de madre superiora, sua amiga Irmã Vicenza. Claro que tal ajuda se fazia de modo informal, por cartas, sem que o bispo de São Paulo soubesse. Pois sua determinação era firme em manter a congregação independente de sua pessoa, como ficou confirmado numa destas cartas: “Só tenho a dizer isto: Estou contentíssima de que os outros consigam fazer o que eu, por justos planos divinos, não pude conseguir, sejam louvadas e eu fique à sombra e seja esquecida”. Após 9 anos de “exílio”, foi criado o Colégio Sagrada Família, junto a congregação como forma de subvencionar a instituição, em 1918. Nesta época a Sra. Ana Brotero não estava mais em cena; a congregação encontrava-se noutro patamar e exigindo uma administração mais condizente com seus objetivos. Neste instante, o mesmo bispo que a exilou, chama-a de volta à comandar os destinos da congregação.

Enquanto isso, sua doença (diabetes) progride até 1938, quando tem inicio um período de grandes sofrimentos físicos. Seu braço direito teve que ser amputado, seguido de outras amputações até ficar cega. Foram 4 anos de sofrimentos e de testemunho de fé. Ela permaneceu firme, louvando ao Senhor por tudo e sendo cada vez mais admirada pelas irmãzinhas. Por fim, veio a falecer em 9/7/1942. O papa João Paulo II celebrou sua beatificação em 8/10/1991, em visita a Florianópolis. A canonização se deu em 19/5/2002 pelo mesmo Papa. O Santuário Santa Paulina, em Nova Trento, foi idealizado logo após a beatificação. A construção numa área de 9 mil m² iniciou em 2003 e foi inaugurado em 22/1/2006, com um templo de 6.740 m². com capacidade para 3 mil pessoas sentadas e 3 mil em pé. Uma boa hagiografia da santa foi escrita pela Irmã Célia B. Cadorin: Ser para os outros: perfil biográfico de Madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus (Amábile Visintainer) 1865-1942, publicada pelas Edições Loyola, em 2001.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

MEMORIAL DOS BRASILEIROS: Frei Galvão

Antônio de Sant’Ana Galvão nasceu em Guaratinguetá, SP, em 10/5/1739. Frade e primeiro santo brasileiro, conhecido pelo seu poder de cura, é o padroeiro dos engenheiros, arquitetos e construtores. Sua canonização, em 11/5/2007, foi postulada pela Irmã Célia Cadorin, da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, com apoio do Cardeal-Arcebispo de São Paulo Dom Paulo Evaristo Arns. Além de religioso, foi pioneiro como acadêmico ao integrar a “Academia dos Felizes”, a primeira academia de letras do Brasil, em São Paulo, em 1770.

Criado numa família da aristocracia colonial portuguesa, seu pai – Antonio Galvão de França- era Capitão-Mor e comerciante. A mãe – Isabel Leite de Barros – era filha de fazendeiros, descendente do bandeirante Fernão Dais Paes. Passou a infância em Guaratinguetá e, aos 13 anos, foi estudar no Colégio de Belém (jesuíta) em Cachoeira (BA), onde já estudava seu irmão. Aí ficou até 1756 e queria ser padre jesuíta, mas a perseguição do Marquês de Pombal contra esta Ordem, acabou levando-o ao Convento Franciscano de Taubaté. Abdicou de um futuro promissor, tendo em vista a influência política e econômica da família, e entrou no Convento de São Boaventura de Macacu, em Itaboraí, RJ.

Aluno brilhante durante o noviciado, fez sua profissão de fé em 16/4/1761 e defendeu o título de “Imaculada” da Virgem Maria, na época um tema polêmico. Ordenou-se sacerdote no ano seguinte e mudou-se para São Paulo, onde continuou os estudos de teologia e filosofia no Convento de São Francisco. Na viagem, fez uma parada em Guaratinguetá e celebrou sua primeira missa na Matriz de Santo Antônio, onde foi batizado. Em 1768 foi nomeado professor e porteiro do Convento, importante cargo. Era também respeitado pela Câmara Municipal e admirado pelo governador da Capitania Dom Luis Antônio de Sousa Botelho e Mourão.

Em 1770, o governador querendo copiar as academias literárias que iniciavam na Europa, fundou a “Academia dos Felizes”, nossa primeira instituição dedicada às letras. Frei Galvão foi um dos primeiros convidados a integrá-la, onde declamou, em latim, 16 peças, 2 hinos, 1 ode e 12 epigramas de sua autoria louvando Santa Ana e o governador da Capitania de São Paulo. Tal participação foi registrada no artigo de Enio Aloisio Fonda – Academia dos Felizes (1770) e a poesia latina de Frei Antônio de Sant’Ana Galvão, religioso franciscano -, publicado na Revista de Estudos Brasileiros, nº 13, 1972. Como se vê, Frei Galvão também tinha seus dotes literários.

Por essa época, atuou como confessor no “Recolhimento de Santa Teresa”, onde conheceu a freira Irmã Helena Maria do Espirito Santo, que afirmava ter visões onde Jesus lhe pedia para fundar um novo “Recolhimento” Frei Galvão estudou as mensagens, consultou outros religiosos e concluíram como validas tais visões. A partir daí, contando com seus amigos no governo da província, projetou e deu inicio a construção do novo Recolhimento, chamado “Nossa Senhora da Luz”, fundado em 2/2/1774. Era um lar para meninas que queriam levar uma vida sem fazer votos. No ano seguinte tornou-se diretor e líder espiritual das irmãs. Pouco depois o governo da Província foi substituído, provocando o fechamento do convento. Mas as freiras se recusaram a abandonar o local e, devido à pressão popular e da igreja, o convento foi reaberto. Com a reabertura recebeu crescente número de novas irmãs, obrigando o Frei a fazer uma ampliação, incluindo a construção de uma igreja, inaugurada em 1802. Tal conjunto resultou no “Mosteiro da Luz”, que hoje abriga o Museu de Arte Sacra, uma das maiores coleções do País.

Tempos depois o filho do Capitão-mor da Província foi ofendido por um soldado, que foi condenado a morte. O Frei saiu em sua defesa e por isso foi expulso da cidade. Mais uma vez, a pressão popular revogou a ordem e trouxe o Frei de volta ao Mosteiro. Em 1781, foi nomeado mestre dos noviços em Macacu (RJ). Mas, o bispo de São Paulo, Manuel da Ressurreição, escreveu ao superior provincial: “nenhum dos habitantes desta cidade será capaz de suportar a ausência deste religioso por um único momento”. Assim, ele foi mandado de volta para São Paulo. Em seguida foi nomeado guardião do Convento de São Francisco (1798), sendo reeleito em 1801. Em princípios do século XIX esteve em Sorocaba numa reunião com os religiosos da cidade e foi constatado o progresso da cidade com seus tropeiros. Na ocasião foi lhe solicitado a erguer ali mais um convento e em 1811 fundou o Convento de Santa Clara, onde passou quase um ano.

De volta ao Convento de São Francisco, já idoso, pediu permissão ao bispo Mateus de Abreu Pereira e ao seu tutor para ficar no Mosteiro que ajudou a criar. Veio a falecer em 23/12/1822 e foi sepultado na igreja do Mosteiro, onde seu túmulo até hoje é visitado pelos fiéis favorecidos pela sua intercessão. Na época, a fama de santo já havia se espalhado por todo o País. As pessoas que foram ao seu velório, na ânsia de obter uma relíquia, foram cortando pedaços de seu hábito, que ficou reduzido até a altura dos joelhos. A primeira lápide do túmulo teve o mesmo destino, sendo aos poucos levada pelos devotos. As pedras da lápide eram colocadas em copos d’água para tratar os enfermos.

Alguns fenômenos místicos lhe são atribuídos, como telepatia, premonição, levitação e bilocação. Consta que ele se fazia presente em dois lugares diferentes ao mesmo tempo para cuidar de enfermos que pediam sua ajuda. Certa vez escreveu num pedaço de papel uma frase em latim do Ofício de Nossa Senhora (“Após o parto, permaneceste virgem: Ó Mãe de Deus, intercedei por nós”). Enrolou o papel no formato de uma pílula e deu-o a uma jovem com fortes dores renais. Logo após tomar a “pílula”, a jovem expeliu certa quantidade de cálculo renal e a dor cessou Imediatamente. Noutra ocasião deu outra “pílula” de papel à uma mulher que passava por um parto difícil e a criança nasceu sem maiores complicações. As “pílulas do Frei Galvão” ficaram famosas e ele ensinou as irmãs do Mosteiro a fabricá-las para distribuição gratuita, o que é feito até hoje no Mosteiro. Mas o local de peregrinação do fieis fica em Guaratinguetá, no Santuário Frei Galvão, inaugurado em 12/10/1983.

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OS BRASILEIROS: Matta e Silva

Woodrow Wilson da Matta e Silva nasceu em 18/7/’1916, em Garanhuns, PE. Médium umbandista e fundador da primeira “Escola Iniciática de Umbanda Esotérica” do Brasil. Considerado codificador da religião, escreveu alguns tratados mediúnicos com o objetivo de esclarecer e unificar a doutrina religiosa. O adjetivo “esotérica” busca se diferenciar das ramificações existentes na umbanda, sem confrontá-las, realizando um estudo de seus componentes e estrutura.

Seu pai, admirador do presidente dos EUA na época, deu-lhe o nome que ninguém sabia pronunciar. Aos 5 anos a família mudou-se para o Rio de Janeiro e aos 9 a mediunidade começa a se manifestar através de visões de entidades. Nada compreendia do que via e/ou sentia, pois até ali nunca teve formação religiosa; os pais não seguiam religião alguma. Ao 15 anos, morando no centro do Rio e trabalhando como auxiliar de serviço num jornal carioca, teve as primeiras manifestações do Preto-velho “Pai Cândido”. Pouco depois, as incorporações foram regularizadas e passou a atender as pessoas com conselhos e orientações. Pouco depois, já familiarizado com as “visitas” semanais de “Pai Cândido”, os fenômenos e visões desapareceram.

Em 1933, aos 17 anos, foi orientado a encontrar um local para desenvolvimento de sua mediunidade. Passou a visitar diversas “Tendas Espíritas” já existentes na época. Porém, seu mentor espiritual dizia-lhe que deveria ter sua própria casa de auxílio espírita. Em seu 7º livro – Umbanda e o poder da mediunidade – relata que “sempre tive uma tendência irrefreável, desde muito jovem, 16, 17 anos de idade, que me impulsionava a ver as chamadas ‘macumbas cariocas’. Claro está que não estava ainda conscientizado do “por que” de semelhantes impulsos”. Em 1937 mudou-se para o bairro Pavuna, montou um pequeno “Terreiro” e tornou-se “Pai-de-Santo”, com o nome de “Mestre Yapacani”. A partir de 1954, a entidade “Pai Guiné” passou direcionar sua vida mediúnica. Recebeu deste Preto-velho a mensagem “7 Lágrimas de Pai Preto”, que viria a se tornar um dos marcos da renovação da Doutrina Umbandista. Trata-se de uma oração mostrando a realidade do dia-a-dia de um Terreiro e as diferentes pessoas que o procuram em busca de auxílio espiritual. Pouco depois passou a escrever para o “Jornal de Umbanda”, artigos como “A lei dentro da umbanda”, “A magia da umbanda”, “A ponta do véu”, Aos aparelhos umbandistas: Alerta!”, Invocação de umbanda” etc.

Tais artigos preparavam, sem que ele tivesse uma clara consciência do que estava por vir: a obra que viria transformar todo o entendimento que se tinha até então sobre a umbanda. Por essa época teve visões mediúnicas, onde via um “Velho Payé” folheando um grande livro, junto a um colegiado de mentores espirituais, indicando que o momento de escrever obras doutrinárias se aproximava. Assim, em 1956 foi publicada a obra Umbanda de todos nós (A lei revelada), numa edição bancada por ele mesmo. O livro sacudiu o meio umbandista e teve a 1ª edição de 3.500 exemplares esgotada em pouco tempo. A 2ª edição saiu por uma editora conceituada, a Livraria Freitas Bastos. Até aí Seu Matta ainda não sabia que estava iniciando sua missão como escritor codificador da Umbanda.

No ano seguinte publicou Umbanda: sua eterna doutrina, trazendo complexos mapas explicativos e conceitos esotéricos nunca divulgados. A obra é uma continuidade, um aprofundamento da anterior. “Seu Matta” era um pai-de-santo incomum naquele ambiente: tinha convicções firmes, opiniões contundentes e era um crítico severo de alguns rituais praticados na Umbanda. Combatia os rituais de matança de animais, uso de bebidas alcoólicas em excesso nos terreiros e as vaidades fetichistas. Em 1958 “recebeu” um preto-velho, chamado “Pai Guiné de Angola”, que veio para auxiliar seu guia espiritual “Pai Cândido”. Na ocasião foi riscado o ponto com as “Ordens e Direitos de Trabalho”

O 3º livro – Lições de Umbanda (e Quimbanda) na palavra de um preto-velho – veio em 1961 e foi mais bem sucedido junto ao público que os anteriores. Apresenta o diálogo entre um discípulo chamado Cícero com o Preto-Velho. O estilo do livro na forma de diálogo certamente ficou mais compreensível para o público e ocasionou a necessidade de mais esclarecimentos. Desse modo, Seu Matta continuou sua missão com o 4º livro, publicado em 1963: Mistérios e Práticas da Lei de Umbanda, aprofundando os conceitos referentes a magia, mediunidade e oferendas numa linguagem mais acessível. No ano seguinte veio a 5ª obra: Segredos da Magia de Umbanda e Quimbanda (1964), onde apresenta uma abordagem prática de alguns rituais da magia de umbanda. No mesmo ano lançou a 6ª obra: Umbanda e o poder da mediunidade, explicando a necessidade de restauração da umbanda no Brasil e mostrando suas verdadeiras origens.

Após breve período de descanso, retornou em 1966 com outra obra sob orientação de uma corrente astral liderada por uma entidade que se identificou como “Caboclo Velho Payé”. A complexidade da obra levou mais de um ano para ser melhor explicada pelos mentores com imagens, quadros, diagramas e informações por via intuitiva. Em 1967 saiu a edição da Doutrina Secreta da Umbanda, complementando e ampliando conceitos tratados no livro Umbanda: sua eterna doutrina, publicado em 1957. Em seguida adquiriu um terreno contíguo a sua casa, em Itacuruçá, e instalou a “Tenda de Umbanda Oriental (TUO)”, onde seus “filhos-de-fé” passaram a frequentar por mais de 20 anos. Alguns destes filhos tornaram-se conhecidos em todo o País e um deles deu continuidade ao seu trabalho de aprofundar os estudos e procurar a unificação da umbanda como religião. Trata-se do paulista Francisco Rivas Neto, que também publicou alguns tratados e fundou a Faculdade de Teologia Umbandista-FTU, em São Paulo, em 2003, mantida pela Ordem Iniciática Cruzeiro do Sul.

Em 1969 veio à tona mais uma obra, segundo ele mesmo “de fôlego”: Umbanda no Brasil. São 368 páginas sintetizando os 7 livros anteriores. Em pouco tempo, o livro esgotou e Seu Matta se consolida como um dos autores mediúnicos mais respeitados no Brasil. Em 1970 publicou seu último livro: Macumbas e Condomblés na Umbanda, trazendo muitas fotos e o registro de vivências místicas e ritualísticas dos cultos afro-brasileiros. Mudou-se para Volta Redonda e passou a dar consultas e palestras na TUO 2 vezes por semana. Em 1977 foi convidado pelo cineasta Rogério Sganzerla para participar do documentário “Ritos Populares: Umbanda no Brasil”, exibido no 23º Festival de Cinema de Turim – Tribute to Rogério Sganzerla, (2005), na Mostra Cinema do Caos CCBB, no Rio de Janeiro (2005) e na “Ocupação Rogério Sganzerla” no Itau Cultural, em São Paulo (2010).

Não tão idoso, mas com a saúde abalada, decidiu voltar a morar em Itacuruçá, em 1984, junto a sua Tenda (TUO) e veio a falecer em 17/4/1988, aos 72 anos. Seus livros e sua trajetória mediúnica redefiniram a Umbanda e deram à religião fundamentos, normas e um sistema de ordenação lógico e racional, sedimentando o conhecimento dos devotos e fiéis que nela expressam sua fé. Além dos devotos, muitos umbandistas e Chefes de Terreiro de várias partes do Brasil procuravam sua Tenda em busca de ajuda ou de uma filiação espiritual que legitimasse a sua própria Entidade.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Santa Dulce

Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes nasceu em Salvador, BA, em 26/5/1914. Religiosa, adotou o nome de Irmã Dulce ao se tornar freira, em 1933, em homenagem a sua mãe falecida quando tinha 7 anos. O pai, Dr. Augusto Lopes Pontes, era dentista e professor da UFBA-Universidade Federal da Bahia. Ainda criança manifestou vocação religiosa e pedia orientação a Santo Antônio para saber se deveria casar ou ser freira. Aos 13 anos, tendo ajudado mendigos, enfermos e desvalidos, decidiu pela vida religiosa e procurou o Convento de Santa Clara do Desterro, mas, não foi aceita devido a idade. Voltou a estudar e foi transformando a casa dos pais num centro de atendimento aos necessitados.

A casa passou a ficar conhecida como “Portaria de São Francisco”. Em 1932 formou-se professora do curso primário e no ano seguinte entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, em São Cristovão, Sergipe. Em 13/8/1933, fez profissão de fé e recebeu o hábito de freira. Voltou à Salvador, passou a lecionar no colégio da Congregação e dar assistência aos pobres. Suas atividades não se restringiam apenas a ajudar. Tinha como objetivo criar instituições de auxílio e cooperação. Junto com o frei Hildebrando Kruthaup, fundou a União Operária São Francisco, em 1936, que deu origem ao Círculo Operário da Bahia. A finalidade da União era difundir cooperativas, promover a cultura dos operários e defender seus direitos. Era mantido com o dinheiro arrecadado por três cinemas construídos a partir de doações.

A inciativa deu suporte à inauguração do Colégio Santo Antônio, em 1939, para atender os operários e seus filhos. Hoje o Centro Educacional Santo Antônio (CESA) abriga mais de 300 crianças de 3 a 17 anos, com acesso a cursos profissionalizantes. No mesmo ano invadiu umas casas na Ilha dos Ratos para abrigar os doentes recolhidos nas ruas. Mas logo foram despejados e ela passou a perambular por lugares mais distantes na busca de lugar para abrigá-los. Sem outro espaço, encontrou um local desocupado no Convento, em 1949. Era um galinheiro desativado, que ela transformou em albergue, no qual alojou 70 pessoas. Em apenas 10 anos, esse galinheiro deu origem a Associação Obras Sociais Irmã Dulce-OSID, inaugurada em 1959 e no ano seguinte foi inaugurado o Albergue Santo Antônio. Hoje a OSID é um dos maiores complexos hospitalar com atendimento gratuito do Brasil, com 3,5 milhões de atendimentos ambulatoriais por ano a usuários do SUS-Sistema Único de Saúde.

Em 1983 foi ampliado, contando com 400 leitos. O Hospital Santo Antônio atende mais de cinco mil pessoas por dia. Para conseguir mão-de-obra especializada no atendimento, fundou a Associação Filhas de Maria Serva dos Pobres. Em 1980, na visita do Papa João Paulo II, foi convidada a subir ao altar para receber uma bênção especial. O Papa retirou do bolso um rosário, ofereceu-lhe e impulsionou seu trabalho: “Continue, Irmã Dulce, continue!”. Em fins de 1990, passou a sofrer com problemas pulmonares e enfrentou 16 meses de agonia. Foi internada no Hospital Português; em seguida foi transferida para uma UTI do Hospital Aliança, quando ordenou: “Quero morrer ao lado dos pobres”. Assim, foi para o Hospital Santo Antônio, onde passou toda a vida. Em 20/10/1991, recebeu a segunda visita do Papa João Paulo II, que lhe deu a extrema unção. Em 13/3/1992 veio a falecer aos 77 anos e foi sepultada no alto do Santo Cristo, na Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia.

Posteriormente, foi transferida para a Capela do Hospital Santo Antônio, em cumprimento ao seu desejo. Considerada uma das mais importantes e influentes ativistas humanitárias do século XX, foi indicada pelo presidente José Sarney e pela rainha Silvia da Suécia, para receber o Prêmio Nobel da Paz, em 1988. Em 2001, foi eleita a “Religiosa do Século XX” numa eleição promovida pela revista “Istoé”. Em 2012, ficou entre as 12 maiores personalidades brasileiras de todos os tempos, numa pesquisa feita pelo SBT-Sistema Brasileiro de Televisão. Em 2014, o Governo da Bahia instituiu a data de 13 de agosto como o Dia Estadual em Memória à Bem Aventurada Dulce dos Pobres. Em 2018 as “Obras Sociais Irmã Dulce-OSID” foi considerada a melhor organização não governamental da Região Nordeste e uma das melhores do Brasil.

No ano seguinte foi canonizada pelo Papa Francisco, mas para o povo de Salvador já era Santa Dulce desde o falecimento, em 1992. O processo de beatificação iniciou em 2000 e passou a tramitar na Congregação para as Causas dos Santos do Vaticano. A validação jurídica do virtual milagre presente no processo foi emitida pela Santa Sé em junho de 2003, quando ela recebeu o título de Serva de Deus, outorgado pelo Papa João Paulo II. Em 2009, a Congregação anunciou voto favorável reconhecendo-a como ”Venerável”. Tal votação obteve a unanimidade do colégio de cardeais, bispos e teólogos após a análise da “Positio”, um relato biográfico e resumos dos testemunhos dos milagres relatados no processo. Em seguida o Papa Bento XVI aprovou decreto de reconhecimento de suas virtudes. Em 2010 foi realizada a exumação e transferência das “relíquias” para sua capela definitiva, na Igreja da Imaculada Conceição, ao lado da OSID.

A beatificação se deu em maio de 2011, pelo mesmo Papa, por intermédio de Dom Geraldo Magella, em Salvador, último passo para a canonização. A partir daí passará a se chamar “Santa Dulce dos Pobres”, um adjetivo bem apropriado agregado ao seu nome. A canonização se deu em 13/10/2019, com base em 2 milagres certificados. O 1º ocorreu em 2001. Uma paciente, após o parto, apresentava um quadro de hemorragia não controlável e passou por 3 cirurgias num período de 18 horas sem que o sangramento estancasse. Só estancou ao término de uma corrente de orações, proposta por um sacerdote, pedindo a intercessão de Irmã Dulce. O 2º milagre foi a cura de um homem que passou 14 anos cego e passou a sentir fortes dores, devido a uma conjuntivite. Pouco antes de dormir, pediu a Irmã Dulce para que a dor fosse aliviada. Acordou no dia seguinte não apenas aliviado da dor, mas enxergando normalmente. O milagre intrigou os médicos, devido ao fato de mesmo após voltar a enxergar, os exames apontaram lesões que deveriam impedir o sentido da visão.

São quatro as exigências do Vaticano para reconhecimento do milagre e consequente canonização: (1) o fato tem que ser “preternatural”, ou seja, a ciência não consegue explicar; (2) instantâneo, ocorrer logo após a oração/pedido; (3) duradouro e (4) perfeito. A OSID, através de sua Assessoria de Memória e Cultura, contabilizou o recebimento de cerca de 10 mil relatos de graças alcançadas por intermédio da Irmâ Dulce. Sua canonização foi a terceira mais rápida da História (27 anos), atrás apenas de Madre Teresa de Calcutá (19 anos) e do Papa João Paulo II (9 anos). A celebração e festa da canonização em Salvador ocorreu num domingo ensolarado (20/10/2019) na Arena Fonte Nova. No ano seguinte e em todos os outros seu nome é festejado na Bahia todo dia 13 de agosto. Logo após a cerimônia, foram criados o Santuário Santa Dulce dos Pobres, no bairro Roma e a Paroquia de Santa Dulce dos Pobres, no bairro do Saboeiro, em Salvador.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Chico Xavier

Francisco de Paula Cândido Xavier nasceu em 3/4/1910, Em Pedro Leopoldo, MG. Médium, filantropo e reconhecido como o maior líder espírita, contribuiu para tornar o Brasil a pátria do Espiritismo no mundo. Criado numa família humilde de 8 irmãos, ficou órfão da mãe – Maria João de Deus- aos 5 anos. Sem condições de criar os filhos, o pai – João Cândido Xavier- distribuiu-os entre os parentes. Chico foi entregue à sua madrinha, que se mostrou bastante cruel com surras e garfos encravados na barriga, alegando que o “menino tinha o diabo no corpo”. Nesse período já manifestava mediunidade de vidência e teve momentos de consolo em conversas com o espírito de sua mãe católica, que recomendava paciência, resignação e fé.

O pai se casou de novo e a família voltou a se reunir. Na escola escreveu redação para concurso comemorando o centenário da Independência, em 1922, e ganhou menção honrosa. Valeria muito agora sabermos como Chico faria outra redação agora no bicentenário da Independência. Em 2022. As pessoa que têm contato com ele, bem poderiam lhe pedir uma “redação”. Concluiu o curso primário em 1924 e nunca mais frequentou escola. Ainda criança trabalhou em diversas atividades no comércio e continuou tendo visões e comunicações espirituais O pai, não sabendo lidar com o “caso”, encaminhou-o ao pároco, que se tornou conselheiro na solução dos “problemas”, reforçando seu catolicismo. Porém, sem abdicar da religião católica, as visões/comunicações solidificaram o caráter espírita das comunicações mediúnicas.

Em 1927 passou a ler e estudar Kardec e logo fundou o Centro Espírita Luiz Gonzaga. Por essa época começaram a se manifestar alguns poetas da língua portuguesa. No ano seguinte tais poemas foram publicados n’O Jornal, do Rio de Janeiro, e Almanaque de Notícias, de Portugal. Em 1930 prestou concurso e ingressou no serviço público federal como auxiliar de escrevente no Ministério da Agricultura. Em 1931 encontrou seu mentor espiritual Emmanuel, que o informou de sua missão: publicar uma série de 30 livros e que para isso lhe seriam exigidas 3 condições: disciplina, disciplina e disciplina. Em seguida publicou o primeiro livro: Parnaso de além túmulo (1932) pela FEB-Federação Espírita Brasileira. A coletânea de poemas ditados por grandes autores brasileiros e portugueses causou grande repercussão na imprensa e opinião pública.

Na introdução do livro, deixou claro suas intenções: “Não venho ao campo da publicidade para fazer um nome, porque a dor há muito já me convenceu da inutilidade das bagatelas que ainda são estimadas neste mundo”. A partir daí sua fama atravessou fronteiras. O presidente da FEESP-Federação Espírita do Estado de São Paulo, Teodoro Sacco, contou que ele recusou oferta da União soviética, em 1938, interessada em fazer uma conotação do aspecto social da doutrina espírita ao aspecto socializante do marxismo. Ele ficaria lá durante 6 meses e seria remunerado com 500 mil contos de réis, uma fortuna na época. Chico consultou Emmanuel e a resposta foi sucinta: “Se você quiser pode ir, mas eu vou ficar por aqui”. Receber propostas e ajudas foi uma constante em sua vida. Em fins da década de 1940 recebeu vultosa quantia (repassada à FEB para uso caritativo) do empresário Fred Figner, fundador da Casa Edison, pioneiro das gravações de música no Brasil, com o qual manteve amizade. Em 1949, Chico psicografou o livro “Voltei”, ditado pelo “Irmão Jacob”, o espírito de Figner, falecido em 1948. O livro teve várias reedições.

Uma de suas psicografias foi parar nos tribunais e resultou no livro Psicografia perante os tribunais, do advogado Miguel Timponi. Em 1937 publicou o livro Crônicas de além-túmulo, ditado pelo espírito de Humberto de Campos, sem problema algum com a família do escritor. No ano seguinte publicou Brasil: coração do mundo, pátria do evangelho, ditado pelo mesmo autor, numa tiragem de 200 mil exemplares. O sucesso de vendas aguçou o interesse da família em receber os direitos autorais, levando o caso para a Justiça. Após muita discussão jurídica ficou decidido que não cabia ao tribunal se pronunciar sobre a existência ou não da mediunidade. Para concluir, alegou uma obviedade: os direitos autorais só têm validade para as obras escritas pelo autor em vida. Após esse quiproquó, publicou mais alguns livros ditados pelo autor, que passou a se chamar apenas “Irmão X”.

Vale ressaltar que ele foi o “autor” brasileiro de maior sucesso comercial da história com quase 500 títulos publicados, alguns deles traduzidos em diversos idiomas. São mais de 50 milhões de exemplares vendidos, sobre os quais não tinha direito autoral, pois ele não era o autor, reiterava. Tais direitos foram cedidos, em cartório, e encaminhados para cerca de 2 mil instituições de caridade. Em 1943 foi publicado o mais vendido: Nosso Lar, o primeiro de uma série, ditados pelo espírito do médico André Luiz, um clássico da literatura espírita com mais de 2 milhões de exemplares É também o espírito mais conhecido “recebido” pelo médium e um divisor de águas em sua vida. Devido ao fato de ter sido médico em vida, suas obras tratam da saude humana, explicitando mecanismos e reflexões sobre as causas das doenças, fazendo com que a Ciência fosse mobilizada para verificar a veracidade das informações. O resultado da investigação foi publicado na revista “Neuroendocrinology Letters” vol. 34(8):745-755, 2013. Os 5 autores do artigo compararam o conhecimento médico recente com 12 obras de André Luiz, identificando nelas várias informações corretas altamente complexas sobre a fisiologia da glândula pineal, que só puderam ser confirmadas cientificamente cerca de 60 anos após a publicação das obras. Os cientistas ressaltaram que o fato de o médium possuir baixa escolaridade e não ter envolvimento no campo da saúde levanta questões profundas sobre as obras serem ou não fruto de comunicação espiritual.

A vidência do médium suscitou também casos engraçados, como o ocorrido com os repórteres David Nasser e Jean Manzon, em 1944, numa reportagem para a revista “O Cruzeiro”. Fingindo serem estrangeiros e com nomes falsos, foram entrevistar e testar se Chico era ou não um farsante. Foram bem atendidos e receberam, de presente, dois livros com dedicatória, que nem repararam. Ao chegarem em casa, Manzon telefonou para Nasser: “Você já viu o livro que o Chico nos deu?”. Foi ver a dedicatória: “Ao meu irmão David Nasser, de Emmanuel”. O mesmo foi escrito no livro dedicado à Jean Manzon. Em 1959 mudou-se para Uberaba, MG, onde passou a atender no centro “Comunhão Espírita Cristã” até 1975, quando fundou o “Grupo Espírita da Prece”. Por essa época conheceu o médium e médico Waldo Vieira, com quem estabeleceu parceria na publicação de 17 livros. Em 1965 os dois viajaram para Washiinton, EUA, afim de diulgar o espiritismo. Auxiliados pelo presidente do “Christian Spirit Center”, Salim Salomão Haddad, estudaram inglês e lançaram o livro The word of the spirits (tradução de Ideal espírita).

Na década de 1970 seu nome já era conhecido em todo o território nacional. A fama foi alavancada com uma entrevista ao vivo na TV Tupi, em 28/7/1971, no programa “Pinga-Fogo”, com diversos jornalistas e estudiosos, muitos deles, não adeptos do espiritismo. O programa, famoso pelo teor de inquirição feita aos entrevistados, teve a maior audiência na história da TV brasileira, obrigando a emissora a continuar a entrevista noutro programa em 21/12/1971. Nesta época sua saúde, já prejudicada com problemas no pulmão, passou a sofrer de angina. Na década seguinte, com mais de 10 mil cartas psicografadas, recebia todos que vinham em caravanas de todos os cantos do País e do exterior para ter notícias de seus parentes falecidos. Algumas destas cartas desvendaram crimes cometidos e foram aceitas como provas judiciais, livrando inocentes da prisão.

Com sua simplicidade e altruísmo tornou-se mitificado em vida. Em 1981 e 1982 foi indicado para receber o Prêmio Nobel da Paz através de uma lista encabeçada por Augusto César Vanucci, então diretor da Rede Globo, contando com a adesão de 2 milhões de assinaturas. Mesmo doente do pulmão, agravado com a angina, viveu até os 92 anos e faleceu em 30/6/2002. Costumava dizer que iria “desencarnar” num dia alegre em que o País estivesse em festa para que não sentissem sua partida. De fato, o País estava em ebulição naquele dia com a conquista da Copa do Mundo. Faleceu 9 horas após o Brasil vencer a Alemanha num placar de 2 x 0, tornando-se pentacampeão mundial de futebol. Mesmo assim, 120 mil pessoas não comemoraram o título e foram ao seu velório em Uberaba.

Foi homenageado em vida e pós-morte em diversas ocasiões. Recebeu título de cidadão honorário de mais de 100 cidades. Em 1999, o Governo de Minas Gerais instituiu a “Comenda da Paz Chico Xavier”, outorgada anualmente aos que trabalham pela paz e pelo bem estar social. As casas onde morou foram transformadas em museus. Em 2006, numa votação popular através da revista Época, foi eleito o “O Maior Brasileiro da História“. Em 2009, a rodovia BR 050 recebeu seu nome. Em 2010, ano do seu centenário, recebeu selo e cartão postal dos Correios; a Casa da Moeda do Brasil lançou “Medalha Comemorativa”; a Câmara dos Deputados realizou sessão solene; foi lançado “Chico Xavier – O Filme”, baseado na biografia As vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior. Em 2016, a Prefeitura de Uberaba criou o “Memorial Chico Xavier”, aberto a visitação publica. Trata-se de um prédio com galerias de exposição, biblioteca, auditório e praças contemplativas.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Faustino Esposel

Faustino Monteiro Esposel nasceu em 24/10/1888, no Rio de Janeiro. Médico sanitarista, neurologista, psiquiatra, professor e esportista na condição de presidente do Flamengo em 3 mandatos e 5 vezes campeão do futebol carioca. Foi um dos pioneiros na pesquisa e estudos da neurologia, além de esportista e conseguir um lugar privilegiado para estabelecer a atual sede e uniforme do Flamengo. É surpreendente tal disposição e maior ainda ao vermos sua reaparição em Espírito 10 anos após na “pele” de André Luiz, conforme certificado por meio do médium –vale a redundância- Chico Xavier.

Filho de João Paiva dos Anjos Esposel e de Maria Joaquina Monteiro Esposel, realizou os primeiros estudos na Escola Alemã; no externato do Mosteiro de São Bento e diplomou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1910, defendendo a tese “Arteriosclerose Cerebral”, obtendo a nota máxima. Pouco depois foi contemplado com uma viagem à Europa, onde foi aluno de Joseph Babinski e Jules Déjerine, dois “papas” da neurologia. Por essa época, candidatou-se a médico do Hospital Nacional de Alienados, dirigido por Juliano Moreira e foi classificado em 1º lugar.

Participou ativamente da Sociedade Brasileira de Neurologia e Psiquiatria em seus primórdios e integrou a “Missão Médica” brasileira, composta por 86 médicos, que foi à Europa em 1918 para auxiliar os feridos na I Guerra Mundial. Representou o Brasil em diversos congressos e reuniões de médicos na Europa e América do Sul e foi secretário-geral da 2ª Conferência Latino-Americana de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal, realizada em 1931, no Rio de Janeiro.

Era um estudioso da mente e, ao mesmo tempo, adepto da educação física e aficionado pelo esporte. Assim, encontrou tempo para, além da dedicação à medicina e ao magistério, dedicar-se também aos esportes como dirigente de associações atléticas. Na época em que o futebol ainda não era uma “paixão nacional”, foi presidente do Flamengo em 3 mandatos (1920-1922; 1924-27 e 1928) e venceu 5 campeonatos cariocas. Como dirigente e com algum trânsito político, conseguiu dos prefeitos Antônio Prado Jr. e Alaor Prata, uma área de 34 mil m² às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas para instalar a nova sede do clube. O uniforme que o Flamengo veste hoje foi criado em sua gestão.

De vez em quando licenciava-se do cargo para outros afazeres, como em setembro de 1926, numa viajem à Europa para uma série de conferências. No ano seguinte, entrou para a Academia Nacional de Medicina, apresentando memória intitulada “Em torno do sinal de Babinsky”. Como professor, destacou-se nos cargos de livre-docente e assistente de Clínica de Doenças Nervosas na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro; professor substituto da Seção de Neurologia e Psiquiatria da mesma; professor de Neurologia na Faculdade Fluminense de Medicina; professor substituto de Medicina Pública na Faculdade de Direito Teixeira de Freitas e docente de Higiene da Escola Normal do Rio de Janeiro.

Como médico esteve à frente de cargos como chefe de Serviço na Policlínica e Sanatório de Botafogo; adjunto do Hospital da Misericórdia; médico da Associação dos Empregados do Comércio. Um velhinho, zelador de um prédio do Rio, que o conheceu, disse agora há pouco que ele era um médico prestativo que atendia gratuitamente pessoas carentes. Na condição de católico, militou na União Católica Brasileira e foi congregado mariano.

Após o falecimento, em 16/9/1931, passou por uns perrengues no plano espiritual e reapareceu como o Espírito de André Luiz. Amargou a “vida” no “umbral” por uns 8 anos; aprendeu um bocado de coisas; trabalhou outro bocado e foi promovido a “Cidadão do Nosso Lar”. Nesta condição foi-lhe concedida a missão de esclarecer os viventes como a vida continua no plano espiritual, como se organiza e como se dão as relações sociais no “outro mundo”, digamos assim.

Seu reaparecimento se deu em 1941, “recebido” (incorporado) pelo médium Chico Xavier. Pouco depois foi publicado o “romance” contando como se dão as coisas no “Nosso Lar” O fato gerou enorme celeuma no meio espírita. Cogitava-se que André Luiz, em vida, seria Oswaldo Cruz; depois cogitou-se que seria Carlos Chagas entre outros. Porém, após exaustiva pesquisa conduzida pelo jornalista e ex-dirigente de um centro espírita no Rio de Janeiro, Luciano dos Anjos, o espírito denominado André Luiz, médico carioca em vida, foi o Dr. Faustino Monteiro Esposel. Tal informação foi confirmada pelo médium Chico Xavier, que tornou-se um dos maiores “receptores” do espírito André Luiz.

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OS BRASILEIROS: Franco da Rocha

Francisco Franco da Rocha nasceu em Amparo, SP, em 23/8/1864. Médico psiquiatra, escritor, jornalista, ornitólogo e um dos pioneiros no tratamento de doenças mentais no Brasil. Foi também precursor da psicanálise, tendo inspirado e amparado Durval Marcondes, considerado fundador do movimento psicanalítico brasileiro, além de ter idealizado, fundado e dirigido o Hospital Psiquiátrico do Juqueri, durante 25 anos (1898-1923).

Diplomado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1890, concluiu o curso como interno (médico-residente) na Casa de Saúde Doutor Eiras. Vale ressaltar que Juliano Moreira e ele foram os primeiros médicos a se dedicarem integralmente à pesquisa e tratamento das doenças mentais no Brasil e construírem as duas primeiras instituições permanentes de tratamento destas doenças no Rio de Janeiro e em São Paulo respectivamente. Tais instituições foram criadas quase ao mesmo tempo em dezembro de 1852: “Hospício D. Pedro II”, no dia 5, no Rio de Janeiro e “Asilo Provisório de Alienados da Capital de São Paulo”, no dia 14. No Rio de Janeiro, o “hospício” logo foi instalado em majestoso prédio próximo ao centro da cidade; já em São Paulo foi instalado provisoriamente e só veio a ter sede definitiva em 1896, através do empenho de Franco da Rocha.

Com apoio dos governos de Cerqueira César e Bernardino de Campos, Dr. Franco conseguiu instalar a sede projetada pelo arquiteto Ramos de Azevedo, num amplo espaço de 170 hectares às margens do Rio Juqueri nos arredores da zona norte da capital. A construção e o desenvolvimento do Hospício Juqueri transformou radicalmente a região, tornando-a no Município de Franco da Rocha, criado em 1934. Em meados do século XX chegou a ser o maior hospital psiquiátrico da América Latina. O “Hospício” foi inaugurado em 1898 e no ano seguinte ele se mudou para o local junto com a esposa -Leopoldina Lorena Ferreira- e tiveram 6 filhos. Passou boa parte da vida residindo naquele espaço bucólico, onde desenvolveu o gosto pela ornitologia, vindo a escrever um opúsculo sobre o pássaro tico-tico. Foi o primeiro professor de Neuriatria e Psiquiatria da Faculdade de Medicina de São Paulo, proferindo sua aula inicial, em 1919, sobre a psicanálise freudiana. Assim, foi pioneiro na introdução de Freud no Brasil. No ano seguinte publicou o livro O Pansexualismo da Doutrina de Freud, republicado em 1930 como A Doutrina de Freud. O tema despertou o interesse de seu aluno Durval Marcondes, que obteve seu apoio na iniciativa de fundar, em 1927, a primeira instituição latino-americana voltada ao estudo e a divulgação da psicanálise: a Sociedade Brasileira de Psicanálise-SBP, da qual, além de cofundador, foi o primeiro presidente. Mais tarde, quando se aposentou, as relações entre Marcondes e o meio psiquiátrico tornaram-se mais difíceis, o que veio favorecer posteriormente que a SBP acolhesse membros não médicos.

No Juqueri, instituiu o regime de liberdade para os doentes mentais. Na rotina hospitalar, introduziu a terapêutica ocupacional laborativa nas diversas modalidades, especialmente no setor agrícola. Implantou pela primeira vez na América do Sul, em 1908, o sistema de assistência familiar, com a instalação de pacientes em ambiente doméstico, aos cuidados de sitiantes da região no perímetro do hospício. Pouco depois acrescentou 5 colônias autônomas, um pavilhão para menores anormais e um laboratório de Anatomia Patológica. Depois insistiu para que fosse construído um Manicômio Judiciário, reservado aos alienados criminosos, concretizado mais tarde, em 1927. Na área de estudos, pesquisou a psicose maníaca-depressiva e a paranoia, também estudada por Juliano Moreira e Afrânio Peixoto. Passou em revista o quadro da epilepsia psíquica, na ausência de crises motoras, acarretando tantas vezes reações violentas e anti-sociais e as manifestações polimorfas da histeria.

Segundo os colegas, “tinha pelos insanos uma profunda meiguice, uma ilimitada paciência, uma enorme dose de simpatia e piedade”. Segundo ele próprio: “Desdobrar a minha atividade em proveito dos infelizes que carecem de conforto, foi para mim um grande prazer durante a parte mais forte da minha existência”. Costumava advertir: “Nunca se deve contrariar o delírio dos doentes. Devemos sempre nos adaptar ao seu meio, a fim de lhes inspirar confiança. Às vezes é até de boa técnica delirar com eles”. Certa vez, uma paciente delirante, no saguão do Hospício, relutava em ser internada. Declarava que ”daquele salão de baile na Corte, onde se encontrava, ela, uma princesa, só poderia retirar-se dançando ao som daquela música que a orquestra executava”. Ele atendeu-a pacientemente e com uma reverência, pediu-lhe: “Dá-me a honra, alteza, desse minueto?. A paciente satisfeita e feliz, de braço dado com ele, em movimentos de dança, entrou no Hospício. Em 1928, por iniciativa de discípulos e amigos, foi erguido seu busto de bronze no saguão do Hospital. Conta-se, que um velho negro, dos mais antigos do Hospital, sempre se ajoelhava e orava diante do busto de Franco da Rocha. Quando o advertiram de que o busto não era de um santo, mas do diretor, respondeu: “Bem sei disso. Mas é isso mesmo, ele é santo e é o nosso santo. Por isso, não deixo de rezar cada vez que posso junto dele”.

Alguns estudiosos afirmam que, embora muito citado, poucos se debruçaram sobre sua produção intelectual, limitando-se a uma análise superficial de sua biografia, a qual teria sido marcada pela fundação e administração do Hospital do Juqueri. Porém, é na sua produção de livros, artigos e ensaios publicados em revistas nacionais e estrangeiras que se encontra uma fértil seara emblemática de sua eloquência e sagacidade, a qual sugere sua atuação como mais um pensador social dentre os nomes da medicina brasileira na passagem do século XIX para o XX. Segundo Yolanda C. Forghieri, ele foi um dos pioneiros da Psicologia Social no Brasil, tendo estudado as desordens mentais das multidões, os transtornos psíquicos relacionados à raça negra, as epidemias de loucura religiosa. É considerado, também, um dos formuladores da nossa Psiquiatria Forense, pontificando acerca das questões médico-legais relacionadas com os distúrbios da mente. Tais contribuições ficaram registradas no livro Esboço de psiquiatria forense, publicado em 1904 e traduzido para o alemão.

Como escritor não deixou muitos livros; preferia uma comunicação mais direta com o público. Era um jornalista vocacionado e divulgou noções de psiquiatria e áreas correlatas, através de numerosos artigos na imprensa leiga, colaborando nos jornais “O Estado de São Paulo” e “Correio Paulistano”, durante 30 anos. Mas não descuidava da área científica e contribuiu com um capitulo no Tratado Internacional de Psicopatologia, organizado por P. Marie, publicado em princípios do século passado, além de inúmeros artigos nas revistas técnicas nacionais e estrangeiras. Após sua aposentadoria, em 1923, passou a colaborar mais permanente com os jornais e revistas e faleceu em 8/11/1933.

Era um homem culto, dominava diversos idiomas e leitor voraz de obras literárias e sociológicas. Manteve contatos com a turma de Semana de Arte Moderna de 1922 e chegou a receber Mario de Andrade no Juqueri para umas experiências musicais com os pacientes. Foi através desse convívio com os escritores e artistas que ingressou Academia Paulista de Letras em 1930. O sociólogo Paulo Silvino Ribeiro publicou em 2010, nos “Cadernos de História da Ciência” extenso artigo: Franco da Rocha e publicação de suas ideias: uma análise do meio social na explicação etiológica da loucura, onde sintetiza sua atuação e sua representatividade no cenário nacional: “Se a medicina contribuiu para a institucionalização das Ciências Sociais no Brasil, é certo que a Psiquiatria seria um dos ramos que a representou neste processo, tendo na figura de Franco da Rocha um dos principais nomes nos estudos psiquiátricos na passagem do século XIX para o XX”.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Juliano Moreira

Juliano Moreira nasceu em Salvador, BA, em 6/1/1872. Médico psiquiatra e pioneiro ao incorporar a teoria psicanalítica no ensino da medicina. Reconhecido como “fundador da psiquiatria brasileira” por ter revolucionado as concepções e métodos da psiquiatria no Brasil. A revista alemã “Psychiatrische Neurologische Wochenschritf” nº 27, de out./1910, publicou a galeria dos grandes psiquiatras do mundo, onde ele foi o único americano participante.

Filho do português Manuel Moreira do Carmo Jr. e da descendente de escravos Galdina Joaquim do Amaral, empregada doméstica do Barão de Itapuã -Luís Adriano Alves de Lima Gordilho-, renomado médico baiano. São escassas as informações sobre sua infância, mas sabe-se que desde o nascimento conviveu com a família do Barão, um dos diretores da FAMEB-Faculdade de Medicina da Bahia. Na condição de “afilhado” do Barão, pode ingressar no curso de medicina aos 14 anos. No 5º ano (1890) foi interno da Clínica Dermatológica e Sifilográfica e no ano seguinte graduou-se com a tese “Sífilis maligna precoce”, divulgada e elogiada no exterior, no “Journal des Maladies Cutanées et Syphilitiques” e nos “Annales de Dermatologie e Syphiligraphie”. Foi o primeiro pesquisador a identificar a leishmaniose cutâneo-mucosa,

No período 1893-1903 foi alienista e médico-adjunto do Asilo São João de Deus, vinculado à Santa Casa. Em 1896 participou do concurso para professor da FAMEB, enfrentando uma banca examinadora composta de escravocratas. Sob aplausos, apresentou sua tese oral “Disquinesias Arsenicais” e o texto sobre “Meopatias Progressivas”. As provas foram acompanhadas com a presença maciça de estudantes que temiam algum ato que o impossibilitasse de vencer o concurso. No dia do resultado do concurso, o Terreiro de Jesus fervilhava de gente à frente dos portões da Faculdade. Quando viram o resultado, ele obteve 15 notas máximas. Com apenas 24 anos superou concorrentes poderosos e tornou-se o mais jovem professor da FAMEB. A festa de comemoração do mérito sobre o preconceito se estendeu até o Pelourinho.

Participou da “Escola Tropicalista da Bahia” e contribuiu por 10 anos na redação da revista “Gazeta Médica da Bahia”. Liderou uma turma de jovens médicos na fundação da Sociedade de Medicina e Cirurgia e da Sociedade de Medicina Legal da Bahia, numa luta constante conta o “racismo científico”. Acreditava-se que a miscigenação era a causa da degeneração do brasileiro; que essa mistura e o clima tropical eram causadores das doenças, incluindo as mentais. Juliano combatia tais ideias evolucionistas dominantes, afirmando a necessidade de eliminar preconceitos de cor e casta, e promover um trabalho de higienização mental dos povos. Chegou a ter duros embates com seu colega Nina Rodrigues, que seguia o pensamento vigente. Defendia suas ideias de forma educada e cortês utilizando a ciência em defesa das minorias excluídas, sem o sentimento de inferioridade que sua mestiçagem pudesse sugerir. Mantinha um ritmo de trabalho intenso além de contribuir com diversas revistas nacionais e estrangeiras especializadas.

No período 1895-1902 fez uma série de viagens à Europa para tratar de uma tuberculose crônica, aproveitando a ocasião para alguns estágios e visitas à clinicas psiquiatras e manicômios. Em 1900 participou do Congresso Médico Internacional, em Paris, e no ano seguinte foi eleito, mesmo ausente, Presidente de Honra do IV Congresso Internacional de Assistência aos Alienados, em Berlim. Em 1903, tendo Rodrigues Alves como presidente, foram empreendidas profundas reformas no País. O baiano José Joaquim Seabra foi nomeado Ministro do Interior e Justiça; o Barão do Rio Branco assume a pasta das Relações Exteriores. O País passava por mudanças estruturais.

Pereira Passos, prefeito do Rio, iniciou uma “revolução” urbanística e sanitária na Capital Federal, tendo Oswaldo Cruz na linha de frente, impondo a vacinação obrigatória, que resultou na “Revolta da Vacina” em 1904. Foi nesse contexto que ele esteve no Rio de Janeiro e não voltou mais à Salvador. Numa articulação de Afrânio Peixoto com o Ministro Seabra, foi convidado, aos 30 anos, para dirigir o Hospital Nacional de Alienados. Dá inicio a uma nova fase na história da saúde mental no Brasil. Enquanto Oswaldo Cruz comanda uma “revolução” na saúde contra as epidemias, ele comanda outra na saúde mental contra o tratamento desumano praticado nos asilos. Sua primeira providência foi mudar a vetusta sala do Diretor para uma simples sala no térreo e passa a morar no Hospital. Recebia todos que o procuravam, sem cerimônia. Em 1914 recebeu um paciente famoso -o escritor Lima Barreto-, de quem recebeu o comentário: “Na 2ª feira, antes que meu irmão viesse, fui à presença do Dr. Juliano Moreira. Tratou-me com grande ternura, paternalmente, não me admoestou, fez-me sentar a seu lado e perguntou-me onde queria ficar. Disse-lhe que na seção Calmeil. Deu ordens ao Santana e, em breve, lá estava eu.”

Como medida institucional, manteve contatos com o Ministro Seabra no intuito de garantir assistência aos necessitados. Com isto foi promulgado o Decreto nº 1132, de 22/12/1903, (Lei Federal de Assistência a Alienados). No âmbito interno do hospital, promoveu mudanças significativas: retirou grades das janelas e eliminou as camisas de força; implantou oficinas artísticas; construiu um pavilhão dedicado ao trabalho dos internos; organizou uma biblioteca para uso dos pacientes e funcionários; mudou o foco da psiquiatria francesa, copiada integralmente, para a alemã, adaptada à nossa cultura etc. Com dedicação integral e intensa ao trabalho, descuidava-se de sua saúde comprometida por uma tuberculose crônica.

Em 1905, junto com Afrânio Peixoto e outros, fundou a revista “Arquivos Brasileiros de Psiquiatria, Neurologia e Ciências Afins”. 2 anos após, junto com 40 colegas, fundou a Sociedade Brasileira de Neurologia Psiquiatria e Medicina Legal, cujo objetivo era “fazer uma grande propaganda em favor da melhora da sorte dos alienados”. Em seguida representou o Brasil no Congresso de Medicina de Portugal, onde manteve contatos com Julio Dantas, médico que defendeu a tese “Pintores e Poetas Rilhafoles”, inspirado nas manifestações artísticas dos pacientbes em hospitais psiquiátricos. Trouxe estas experiências para o Brasil, que mais tarde viriam incentivar os trabalhos de Nísia da Silveira.

Participou de diversos congressos médicos na Europa: Milão (1907), Ansterdam (1908), Viena (1908), Londres (1909) Budapeste (1910) Em 1911 foi nomeado diretor da Assistência Médico-Legal de Alienados e na sua gestão (acumulada com a direção do Hospital) criou o Manicômio Judiciário e envidou esforços para a aquisição do terreno, construção e fundação da Colônia Juliano Moreira. Em 1925 comandou uma comitiva recepcionando Albert Einstein em Visita ao Hospital. Em 1928 foi convidado por 4 universidades japonesas para fazer conferências e foi condecorado com a “Ordem do Tesouro Sagrado” pelo Imperador Hiroito. No mesmo ano criou a Seção Rio de Janeiro da Sociedade Brasileira de Psicanálise, fundada em 1927 pelo Neuropsiquiatra Franco da Rocha, em São Paulo

Impressionante sua capacidade de trabalho, mesmo doente. Dirigiu o Hospital durante 27 anos, até 1930 e ainda encontrou tempo para fundar e dirigir a Academia Brasileira de Ciências no período 1926-29. Com a instauração do “Estado Novo”, em 1930, foi destituído da direção do hospital e aposentado. Seu legado é de 112 artigos científicos publicados no âmbito nacional e internacional, comprovados na dissertação de Vera Portocarrero “Juliano Moreira e a descontinuidade histórica da psiquiatria” (2003) e na pesquisa realizada pelo IFB-Instituto Franco Basaglia “Fontes primárias e secundárias relativas a Juliano Moreira”. Faleceu em 2/5/1933, pobre, contando com ajuda de amigos na tentativa de sobreviver a doença que o castigara durante anos. Em sua homenagem, o Governo da Bahia criou em 1936 o Hospital Juliano Moreira, onde é mantido um projeto de museu dedicado à sua memória: “Memorial Prof. Juliano Moreira”.

No dia seguinte ao falecimento, o Jornal do Brasil publicou o necrológio “O Brasil (…) não pode avaliar o que perde com o desaparecimento, ontem, do sábio Juliano Moreira. Grande entre os maiores psiquiatras do país, com um renome e uma fama que ultrapassaram as fronteiras brasileiras para fulgurar nos centros científicos mais adiantados do mundo. Juliano Moreira devotou à ciência toda a sua vida e toda a sua dedicação (…) mais tarde, teremos então ideia de quanto perdemos com a sua morte”. Nas biografias que temos publicado aqui, é comum reclamarmos a falta de uma filmografia sobre os ilustres brasileiros. No caso de Juliano Moreira, reclamamos, também, a falta de uma biografia.