JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Woodrow Wilson da Matta e Silva nasceu em 18/7/’1916, em Garanhuns, PE. Médium umbandista e fundador da primeira “Escola Iniciática de Umbanda Esotérica” do Brasil. Considerado codificador da religião, escreveu alguns tratados mediúnicos com o objetivo de esclarecer e unificar a doutrina religiosa. O adjetivo “esotérica” busca se diferenciar das ramificações existentes na umbanda, sem confrontá-las, realizando um estudo de seus componentes e estrutura.

Seu pai, admirador do presidente dos EUA na época, deu-lhe o nome que ninguém sabia pronunciar. Aos 5 anos a família mudou-se para o Rio de Janeiro e aos 9 a mediunidade começa a se manifestar através de visões de entidades. Nada compreendia do que via e/ou sentia, pois até ali nunca teve formação religiosa; os pais não seguiam religião alguma. Ao 15 anos, morando no centro do Rio e trabalhando como auxiliar de serviço num jornal carioca, teve as primeiras manifestações do Preto-velho “Pai Cândido”. Pouco depois, as incorporações foram regularizadas e passou a atender as pessoas com conselhos e orientações. Pouco depois, já familiarizado com as “visitas” semanais de “Pai Cândido”, os fenômenos e visões desapareceram.

Em 1933, aos 17 anos, foi orientado a encontrar um local para desenvolvimento de sua mediunidade. Passou a visitar diversas “Tendas Espíritas” já existentes na época. Porém, seu mentor espiritual dizia-lhe que deveria ter sua própria casa de auxílio espírita. Em seu 7º livro – Umbanda e o poder da mediunidade – relata que “sempre tive uma tendência irrefreável, desde muito jovem, 16, 17 anos de idade, que me impulsionava a ver as chamadas ‘macumbas cariocas’. Claro está que não estava ainda conscientizado do “por que” de semelhantes impulsos”. Em 1937 mudou-se para o bairro Pavuna, montou um pequeno “Terreiro” e tornou-se “Pai-de-Santo”, com o nome de “Mestre Yapacani”. A partir de 1954, a entidade “Pai Guiné” passou direcionar sua vida mediúnica. Recebeu deste Preto-velho a mensagem “7 Lágrimas de Pai Preto”, que viria a se tornar um dos marcos da renovação da Doutrina Umbandista. Trata-se de uma oração mostrando a realidade do dia-a-dia de um Terreiro e as diferentes pessoas que o procuram em busca de auxílio espiritual. Pouco depois passou a escrever para o “Jornal de Umbanda”, artigos como “A lei dentro da umbanda”, “A magia da umbanda”, “A ponta do véu”, Aos aparelhos umbandistas: Alerta!”, Invocação de umbanda” etc.

Tais artigos preparavam, sem que ele tivesse uma clara consciência do que estava por vir: a obra que viria transformar todo o entendimento que se tinha até então sobre a umbanda. Por essa época teve visões mediúnicas, onde via um “Velho Payé” folheando um grande livro, junto a um colegiado de mentores espirituais, indicando que o momento de escrever obras doutrinárias se aproximava. Assim, em 1956 foi publicada a obra Umbanda de todos nós (A lei revelada), numa edição bancada por ele mesmo. O livro sacudiu o meio umbandista e teve a 1ª edição de 3.500 exemplares esgotada em pouco tempo. A 2ª edição saiu por uma editora conceituada, a Livraria Freitas Bastos. Até aí Seu Matta ainda não sabia que estava iniciando sua missão como escritor codificador da Umbanda.

No ano seguinte publicou Umbanda: sua eterna doutrina, trazendo complexos mapas explicativos e conceitos esotéricos nunca divulgados. A obra é uma continuidade, um aprofundamento da anterior. “Seu Matta” era um pai-de-santo incomum naquele ambiente: tinha convicções firmes, opiniões contundentes e era um crítico severo de alguns rituais praticados na Umbanda. Combatia os rituais de matança de animais, uso de bebidas alcoólicas em excesso nos terreiros e as vaidades fetichistas. Em 1958 “recebeu” um preto-velho, chamado “Pai Guiné de Angola”, que veio para auxiliar seu guia espiritual “Pai Cândido”. Na ocasião foi riscado o ponto com as “Ordens e Direitos de Trabalho”

O 3º livro – Lições de Umbanda (e Quimbanda) na palavra de um preto-velho – veio em 1961 e foi mais bem sucedido junto ao público que os anteriores. Apresenta o diálogo entre um discípulo chamado Cícero com o Preto-Velho. O estilo do livro na forma de diálogo certamente ficou mais compreensível para o público e ocasionou a necessidade de mais esclarecimentos. Desse modo, Seu Matta continuou sua missão com o 4º livro, publicado em 1963: Mistérios e Práticas da Lei de Umbanda, aprofundando os conceitos referentes a magia, mediunidade e oferendas numa linguagem mais acessível. No ano seguinte veio a 5ª obra: Segredos da Magia de Umbanda e Quimbanda (1964), onde apresenta uma abordagem prática de alguns rituais da magia de umbanda. No mesmo ano lançou a 6ª obra: Umbanda e o poder da mediunidade, explicando a necessidade de restauração da umbanda no Brasil e mostrando suas verdadeiras origens.

Após breve período de descanso, retornou em 1966 com outra obra sob orientação de uma corrente astral liderada por uma entidade que se identificou como “Caboclo Velho Payé”. A complexidade da obra levou mais de um ano para ser melhor explicada pelos mentores com imagens, quadros, diagramas e informações por via intuitiva. Em 1967 saiu a edição da Doutrina Secreta da Umbanda, complementando e ampliando conceitos tratados no livro Umbanda: sua eterna doutrina, publicado em 1957. Em seguida adquiriu um terreno contíguo a sua casa, em Itacuruçá, e instalou a “Tenda de Umbanda Oriental (TUO)”, onde seus “filhos-de-fé” passaram a frequentar por mais de 20 anos. Alguns destes filhos tornaram-se conhecidos em todo o País e um deles deu continuidade ao seu trabalho de aprofundar os estudos e procurar a unificação da umbanda como religião. Trata-se do paulista Francisco Rivas Neto, que também publicou alguns tratados e fundou a Faculdade de Teologia Umbandista-FTU, em São Paulo, em 2003, mantida pela Ordem Iniciática Cruzeiro do Sul.

Em 1969 veio à tona mais uma obra, segundo ele mesmo “de fôlego”: Umbanda no Brasil. São 368 páginas sintetizando os 7 livros anteriores. Em pouco tempo, o livro esgotou e Seu Matta se consolida como um dos autores mediúnicos mais respeitados no Brasil. Em 1970 publicou seu último livro: Macumbas e Condomblés na Umbanda, trazendo muitas fotos e o registro de vivências místicas e ritualísticas dos cultos afro-brasileiros. Mudou-se para Volta Redonda e passou a dar consultas e palestras na TUO 2 vezes por semana. Em 1977 foi convidado pelo cineasta Rogério Sganzerla para participar do documentário “Ritos Populares: Umbanda no Brasil”, exibido no 23º Festival de Cinema de Turim – Tribute to Rogério Sganzerla, (2005), na Mostra Cinema do Caos CCBB, no Rio de Janeiro (2005) e na “Ocupação Rogério Sganzerla” no Itau Cultural, em São Paulo (2010).

Não tão idoso, mas com a saúde abalada, decidiu voltar a morar em Itacuruçá, em 1984, junto a sua Tenda (TUO) e veio a falecer em 17/4/1988, aos 72 anos. Seus livros e sua trajetória mediúnica redefiniram a Umbanda e deram à religião fundamentos, normas e um sistema de ordenação lógico e racional, sedimentando o conhecimento dos devotos e fiéis que nela expressam sua fé. Além dos devotos, muitos umbandistas e Chefes de Terreiro de várias partes do Brasil procuravam sua Tenda em busca de ajuda ou de uma filiação espiritual que legitimasse a sua própria Entidade.

13 pensou em “OS BRASILEIROS: Matta e Silva

  1. Nas duas últimas biografias publicadas (Santa Dulce e Chico Xavier) tivemos a participação dos colegas D. Matt, Mauricio Assuero e Fernando Gonçalves), mestres do espiritualismo & espiritismo. Valeria a penas sabermos o que eles pensam da umbanda, a religião genuinamente brasileira.

    • Só mesmo os espíritos poderiam fazer o meu querido amigo e colunista deste jornal Fernando Gonçalves entrar e postar um comentário em outra coluna que não a dele.

      Como eu ficaria feliz se Fernando entrasse no JBF todos os dias, lesse todas as colunas e fizesse comentários.

      Falta de tempo não é, pois ele escreve e me manda dezenas de e-mails todos os dias.

      Eu agradeceria aos espíritos se ele lesse as colunas dos seus colegas de blog!!!

    • Prezado Brito:
      Considero a Umbanda uma das crenças religiosas mais populares do Brasil, que reverencia o Homão, Sua Mãe e muitos outros benfeitores da humanidade. A Umbanda é prática religiosa trazidas pelos irmão negros africanos bantos, que cultivam a crença na existência no Além Vida, sempre fazendo convergências salutares entre o Catolicismo e o Mediunismo. Quando exercia a presidência do Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco indiquei o nome do pai-de-santo Manoel do Nascimento Costa ao Governador Joaquim Francisco, que o nomeou para o Conselho para cumprir um mandato de seis anos.

  2. Religião, seja qual for, se faz bem ao coração, faz bem ao viver… Que Brito continue nos brindando com esses iluminados seres que transformaram vidas Brasil afora…

  3. Caro Amigo Brito.

    É muita generosidade sua me chamar de mestre do espiritualismo etc..
    Não o sou, apenas um estudioso que está sempre procurando
    aumentar os seus conhecimentos. nada mais.

    Parte da obra do seu biografado, Matta e Silva me foi apresentada por um
    grande amigo meu, chefe e pai doutrinador de centenas de irmãos, em seu
    muito bem dirigido centro umbandista ” Sagrado Coração de Jesus ” na
    cidade de Blumenau SC. , que tem como guia espiritual o Orixá ” Exu Sete
    encruzilhadas ” de grande poder espiritual e é muito amado naquela cidade.
    Esse Centro de Umbanda, poderia ou deveria ser usado como exemplo
    de como administrar um centro umbandista com seriedade, cordialidade
    e muita competência.
    Esse amigo um dia me apresentou dois livros sobre a decodificação da
    Umbanda e pediu-me que os lesse e depois dar a minha opinião sobre o seu conteúdo, mesmo sabendo que eu sou espiritualista kardecista.

    O conteúdo dos livros foi muito esclarecedor e fiquei ciente de grande parte
    da ritualistica da seita e também dos seus propósitos de ajuda espiritual
    à todas as pessoas carentes, sejam, elas espiritas ou não. Também nos esclarece
    as diferenças de doutrina, práticas e rituais da Umbanda caritativa da
    quimbanda que se propõe a trabalhos mais pesados e muitas diferenças
    de ritual, haja vista que esta última se utiliza de sacrificios de animais para
    criar ou desmanchar trabalhos espirituais.

    A quimbanda é mais semelhante ao Candonblé, porem com a diferença que
    no Candonblé as forças atuantes, ” não são espiritos de pessoas que viveram
    na terra ” e sim espiritos e forças da natureza, como Rios. Florestas, Raios e Trovões, mar, fogo etc.., que são cultuados e invocados com rituais próprios,
    e muitos ocultos da vista dos presentes. Utilizam também a força de sacrificios
    que sempre foram utilizados pela humanidade, desde os primórdios dos tempos.

    A umbanda utiliza como seus benfeitores do além, espiritos que estão
    na categoria de ” Orixás ” que foram procedentes dos africanos que
    introduziram no Brasil as suas crenças e para serem melhor aceitos, passaram
    e denominar cada orixá com paridade a um santo católico, ou seja São Jorge (Ogum), São Pedro (Xangô ,) Santa Bárbara (Inhansã ) e todos os
    demais orixás tem um santo católico como modelo etc..

    O Kardecismo usa muito pouco ritual, sua mais forte expressão é a prece
    e ensinamentos sobre a evolução dos espiritos, encarnados e também desencarnados que muitas vezes são transferidos para outra dimensão, sem a menor idéia de onde estão e sem qualquer entendimento das leis divinas.
    Por isso mesmo é muito importante o ensinamento do ” O que somos ? ” “Para onde vamos ? ” e qual a possibilidade de evolução ?
    Nós os seres humanos nunca morremos. A morte na verdade não existe, o que morre é essa roupa de carne que vestimos aqui na terra a qual estamos
    ligados por fortes cordões , Quando termina a nossa tarefa aqui na terra
    ,somos desligados da matéria e partimos para outras dimensões, umas mais escuras, outras mais iluminadas, dependendo as vezes, mais do nosso grau de
    compreensão do que do nosso desenvolvimento espiritual.

    Chico Xavier escreveu um livro fantástico, chama-se ” VOLTEI ” no qual
    um irmão de doutrina “( chamado Jacob ) conta em detalhes todos os
    movimentos e situações que um ser terreno tem que passar, ao ser desligado
    da vida terrestre. Esse processo, segundo o relato do irmão Jacob, é demorado
    e para aqueles com algum conhecimento espiritual leva até 3 dias para ser
    completado . As pessoas muito materialistas, e apegadas aos seus bens
    terrenos podem levar até anos para conseguir desligar-se dos cordões de
    aprisionamento à matéria.

    Os livros de Matta e Silva são muito esclarecedores sobre a evolução e
    consequências do nosso proceder aqui e dos resultados acolá.

    • Maravilha! Isso é que é generosidade
      .pedimos simples comentário e d.matt nos dá uma conferência sucinta sobre umbanda quimbanda espiritismo além de uma apreciação criteriosa sobre a obra de seu matta é Silva. Cabra bom !!

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