JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

AS BRASILEIRAS: Maria da Cruz

Maria da Cruz Porto Carreiro nasceu em Penedo, comarca de Alagoas, na época pertencente ao bispado de Pernambuco, em princípios do século 18. Sabe-se que era filha do capitão-mor de Sergipe del Rei, Pedro Gomes de Abreu, e ficou viúva do paulista Salvador Cardoso de Oliveira, em 1734, quando passou a administrar a grande propriedade da família no sertão de Minas Gerais, local hoje uma cidade que leva seu nome: Pedras de Maria da Cruz. Foi uma mulher que não consta na lista das heroínas brasileiras, mas liderou uma revolta -“Sedição de 1736”-, conhecida na historiografia como “Motins do Sertão” contra os impostos de Portugal, que durou 5 meses e abalou o sertão daquelas plagas.

Sua história confunde-se com o mito criado em seu entorno, tornando-a uma figura emblemática na História do Brasil. Porém conta com dados obtidos em registros cartoriais e arquivos históricos que asseguram certa veracidade. Foi citada por Guimarães Rosa, numa passagem do romance Grande Sertão: veredas: “Mas, dali por diante, eu queria encostar direto com as ordens de Titão Passos -Ele é meu amigo… Diadorim no meu ouvido falou- Ele é bisneto de Pedro Cardoso, transneto de Maria da Cruz”. Os primeiros dados biográficos encontram-se no livro História média de Minas Gerais, escrito em 1918 por Diogo de Vasconcelos e publicado pela Imprensa Oficial, apresentando-a como uma mulher independente, culta, corajosa e benemérita junto aos seus criados.

Tais dados são confrontados com outras histórias apresentando-a como “Maria da Cruz da Perversidade”, dado o rigor no trato com seus empregados e escravos. Estes dois retratos receberam um tratamento histórico mais apurado com a pesquisa realizada pelas historiadoras Angela Vianna Botelho e Carla Anastasia, que resultou no livro D. Maria da Cruz e a sedição de 1736, publicado em 2012 pela Editora Autêntica. Assim, é possível traçar um esboço biográfico mais condizente com a realidade. Na época Portugal intensificou os impostos cobrados dos garimpeiros nas “minas gerais”. Já havia imposto o “quinto dos infernos”, 20% da riqueza obtida na região e que resultou na “Revolta de Vila Rica”, comandada por Felipe dos Santos, em 1720.

Tal imposto não se aplicava ao sertão, que cobrava apenas 10% da produção local. Em 1735, a coroa portuguesa decidiu amentar os impostos no sertão, mas encontrou resistência na disposição de Maria da Cruz, que não admitiu a cobrança e liderou a “Sedição de 1736”. O primeiro motim eclodiu em março no Arraial de Capela das Almas. O segundo se deu em maio no sítio de Montes Claros. Em agosto deu-se a batalha final com 900 homens, a pé e a cavalo, e 500 índios cativos armados com arco e flecha, que entraram no Arraial de São Romão, onde se deu o embate. Após 4 meses de lutas e muitas mortes, foi presa junto com o filho Pedro Cardoso, um dos líderes da revolta. Foram levados para Vila Rica e pouco depois para uma fortaleza no Rio de Janeiro, devido a importância dos presos e da revolta causada.

Aí ficaram presos mais de um ano e foram transferidos para uma fortaleza mais segura em Salvador, em 1738. Mãe e filho foram julgados pelo Tribunal da Relação da Bahia. Todos os bens da família foram confiscados e a penalidade do filho foi o degredo para a África, em Moçambique, onde reconstruiu a vida como rico minerador e tornou-se capitão-mor do Zimbábue. A mãe foi condenada a pagar uma multa de 100 mil réis e 6 anos de desterro na África. No entanto, pelo fato de ser mulher, viúva e já ter sofrido a perda dos bens, além das prisões em Vila Rica, Rio de Janeiro e Salvador, foi realizado um movimento em sua defesa com uma carta de clemência enviada ao Rei Dom João V. A pena foi comutada e ela pode retornar ao povoado em 1739.

Mas o perdão real não impediu que seus bens permanecessem confiscados. No entanto, devido talvez à sua origem nobre e a intercessão de amigos e parentes distantes, a carta de perdão citava a possibilidade de reaver suas posses, assinalando que na “restituição às suas fazendas, use dos meios ordinários”. Assim, anos depois, foi contemplada com uma “carta de sesmaria”, em 1745, medindo “três léguas e meia em quadra”. Ou seja, se uma légua equivale a 6 km., sua propriedade passou a conter “apenas” 21 km². Naquela época ainda era um sítio de bom tamanho e aí passou a viver com os 6 filhos restantes: 4 homens e duas mulheres, até 23/6/1760, quando veio a falecer.

No livro de Diogo de Vasconcelos, ela é descrita como uma mulher bonita, alta e corajosa. Em sua descrição, o autor caprichou na letra e criou uma obra literária cativante: “O tranquilo esquecimento apagou seu nome conservado apenas no velho e obscuro arraial, à beira do grande rio”. Ao descrever a pessoa, também não deixou por menos: “têmpera varonil não lhe tirava a natural doçura, e as maneiras de seu trato, realçadas pela posição, atraíam-lhe o afeto dos parentes e o respeito de todos”. Ao descrever o ato da prisão, produziu um texto comovente. Saiu de casa ao som do “alarido e pranto das mulheres, e da consternação de todos, imperturbável, com passo firme, contendo a dor que a enlouquecia, dirigiu-se ao porto pela mão do filho e saltou a barca… jamais traiu a própria dignidade, recolheu-se, porém, ao baldaquim, cerrou as cortinas e só aí se desfez em pranto”.

Está visto que o autor, entre fatos colhidos e o mito criado, fez um retrato literário de dona Maria da Cruz, em 1918. Já o citado livro publicado em 2012, restabeleceu alguns pontos nebulosos da história clareando os fatos. Certamente este livro teve como fonte relevante a dissertação de mestrado, realizada por Alexandre Rodrigues de Souza, em 2011: “A dona do sertão: mulher, rebelião e discurso político em Minas Gerais no século XVIII”, apresentada na UFF-Universidade Federal Fluminense. A dissertação foi transformada em artigo – A rebelde do sertão. Maria da Cruz e o motim de 1736-, publicado na revista “Varia História”, vol. 29, nº 50, de agosto de 2013, e pode ser consultado no link https://www.scielo.br/scielo

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OS BRASILEIROS: Fernando de Azevedo

Fernando de Azevedo nasceu em São Gonçalo do Sapucaí (MG) em 2/4/1894. Sociólogo, crítico literário, jornalista, advogado, professor, editor, escritor e destacado pensador (e fazedor) na área da educação. Participou dos principais eventos de criação e estabelecimento da educação brasileira, tais como a criação do Ministério da Educação, em 1930; elaboração do “Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova”, em 1932; anteprojeto de criação da USP-Universidade de São Paulo, em 1934; concepção da primeira “Lei de Diretrizes e Bases da Educação”, em 1961, e promoção da Reforma Universitária, em 1968.

Seus pais –Francisco Eugênio de Azevedo e Sara Lemos de Almeida- propiciaram-lhe robusta formação escolar. Estudou no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, RJ, e recebeu aulas nas áreas de letras clássicas, língua e literatura grega e latina, além de poética e retórica. Em seguida mudou-se para São Paulo e ingressou na Faculdade de Direito. Nunca exerceu a advocacia e dedicou-se, desde os 22 anos, integralmente à educação como professor de latim e psicologia no Ginásio do Estado, em Belo Horizonte; de latim e literatura na Escola Normal de São Paulo; de sociologia educacional no Instituto de Educação da USP; de sociologia e antropologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e professor emérito desta faculdade.

Paralelo ao exercício do magistério, atuou na direção de diversos órgãos e serviços educacionais: Diretor geral da Instrução Pública do Distrito Federal (1926-30) e do Estado de São Paulo (1933), Presidente da Associação Brasileira de Educação (1938), Diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo (1941-42), Secretário de Educação e Saúde do Estado de São Paulo (1947), Diretor do Centro Regional de Pesquisas Educacionais (1956-61) Secretário Municipal de Educação e Cultura de São Paulo (1961) e fundou e dirigiu a Sociedade Brasileira de Sociologia (1935-60). Uma pessoa pode ter ocupado tantos cargos na vida pública cumprindo apenas uma função burocrática. Não é o seu caso, uma vez que projetou alguns destes órgãos na administração pública e na estrutura social.

Em 1931 fundou e dirigiu, por uns 15 anos, na Companhia Editora Nacional a “Biblioteca Pedagógica Brasileira”, incluindo a série “Iniciação Científica” e a “Coleção Brasiliana”, que deu novo impulso à Editora. Acredita-se que seu crescimento se deu em paralelo ao desenvolvimento do ensino secundário a partir da década de 1940 com a ampliação da rede de ginásios e intensificado na década de 1950 com a criação novas escolas. Não por acaso, a Editora foi adquirida pelo IBEP-Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas, em 1980, constituindo-se num dos maiores grupos editoriais do País. Como jornalista atuou no “O Estado de São Paulo” com artigos abordando a educação pública e temas fundamentais do ensino em todos os níveis, iniciando uma campanha por uma nova política de educação e criação de universidades no Brasil. Em 1933, enquanto Diretor Geral da Instrução Pública em São Paulo, promoveu reformas fundamentais, consubstanciadas no Código de Educação.

Junto com Anísio Teixeira, defendia com fervor que a formação do professor escolar tinha que ser feita em nível universitário. Quando a USP foi criada, em 1934, ele incluiu o Instituto de Educação, que ficava na Praça da República, como uma das unidades daquela universidade. Acreditava que só assim podia-se falar numa ciência pedagógica adaptada ao Brasil. Foi pioneiro ao disseminar o dito “Educação é um direito do povo e um dever do Estado”. Em 1970, aos 76 anos fez a doação de sua biblioteca e arquivo ao IEB-Instituto de Estudos Brasileiros, localizado na USP, com mais de 16 mil itens entre livros, fotos, correspondência, recortes e documentos em geral. Em junho de 2019, foi realizado o evento “Educação no IEB: Interfaces possíveis com o acervo Fernando de Azevedo”, reunindo especialistas de diversas universidades do País. Além desse encontro, foi realizada a exposição “Em Defesa da Educação Pública: Fernando de Azevedo no IEB (1927-1968)”, que permaneceu aberta ao público por 4 meses.

Publicou 26 livros, com destaque para: Páginas latinas (1927), A reconstrução educacional do Brasil (1932), Novos caminhos e novos fins (1934), A cultura brasileira, (em 3 volumes 1943), A educação e seus problemas (1952), Sociologia educacional (1959), Figuras do meu convívio (1961) e A cidade e o campo na civilização industrial e outros ensaios (1962). Tais obras lhe garantiram uma cadeira na ABL-Academia Brasileira de Letras, em 1967. Seu legado garantiu também algumas homenagens e condecorações: Prêmio Machado de Assis, da ABL (1943), Cruz de Oficial da Legião de Honra, da França (1947), Prêmio Visconde de Porto Seguro (1964) e Prêmio Moinho Santista em Ciências Sociais (1971).

Em 2010 teve seu nome incluído na “Coleção Educadores”, do MEC-Ministério da Educação e Cultura, numa obra publicada por Maria Luiza Penna, regatando sua trajetória e relevantes aspectos de seu trabalho. Em termos biográficos mais precisos, ressalta-se o artigo – Fernando de Azevedo: o sociólogo -, publicado por Maria Isaura Pereira de Queiroz, na Revista do IEB-Instituto de Estudos Brasileiros, nº 37, de 1994. Os interessados em conhecê-lo através dele mesmo, podem recorrer às suas memórias: História da minha vida, publicada em 1971, três anos antes de seu falecimento em 18/9/1974.

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Clique na imagem abaixo para assistir ao vídeo “A importancia da Fernando de Azevedo para a educação, por Antônio Cândido”

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AS BRASILEIRAS: – Ana Autran

Anna Teófila Filgueiras Autran nasceu em Salvador, BA, em 28/12/1856. Jornalista, escritora, poeta e uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil. Sacramento Blake, autor do Dicionário Bibliográfico Brasileiro, de 1883, ficou impressionado com sua precocidade: “Não conheço no céu da inteligência pátria uma estrela que mais cedo brilhasse, sem deixar nunca de ostentar seu brilho”.

Descendente de uma família aristocrata, filha do médico Henrique Autran da Matta e Albuquerque e Eduarda de Amorim Filgueiras Almeida, ficou órfã da mãe com um ano de idade e foi criada pelo pai e pela irmã. Aos 4 anos já demonstrava facilidade em decorar versos, orações e textos curtos; aos 5 aprendeu a ler; aos 9 concluiu os primeiros estudos com louvor. A partir dos 10 anos passou a escrever seus primeiros poemas. A primeira publicação se deu aos 12 anos com uma poesia – As duas donzelas -, publicada no jornal “O Americano”, de 16/5/1869. No mesmo ano e jornal publicou outra poesia – Salva meu peito -, em 20/6/1869.

Dessa época em diante as publicações de poesias são mais frequentes, passando em seguida a publicação de artigos sobre a condição da mulher no contexto da sociedade patriarcal. Em 1971 enviou uma série de artigos para o “Diário da Bahia” sobre a temática “A mulher e a literatura”, reivindicando a participação feminina literatura e direitos da mulher no contexto social. Com apenas 15 anos apresentou textos recheados de citações de autores estrangeiros e conhecimentos sobre história, filosofia e religião, mostrando sólida formação cultural. Seus artigos defendendo fervorosamente os direitos da mulher incomodou um conhecido jornalista –Belarmino Barreto-, com quem foi travada uma longa polêmica com réplicas e tréplicas, que durou alguns meses, nas páginas do “Jornal da Bahia”, em 1871. Devido a polêmica foi alvo de críticas e até da acusação de apostasia na imprensa. No entanto, não deixou os insultos sem resposta e foi à forra com artigos de defesa e combate.

O fato de ser uma menina de apenas 15 anos envolvida numa discussão pública com um jornalista causou certo alvoroço e ficou nos anais da história da imprensa local. O fato envolveu certo número de mulheres, que se sentiram representadas pela garota, e a notícia repercutiu fora do circuito baiano. Passou a ter seus poemas e artigos publicado em diversos jornais e revistas do Rio de Janeiro, Recife e Lisboa, demonstrando o espírito aguerrido. Era uma agitadora em defesa dos movimentos republicano e abolicionista. Chegou a alforriar os escravos de sua família bem antes de 1888. Seus ideais giravam em torno da ideia de que a mulher era tão capaz quanto os homens; que não só a emoção era atributo de seu sexo; e que o direito à educação deveria ser assegurado igualmente aos homens e mulheres.

Para ela não havia incompatibilidade entre o exercício profissional e a dedicação aos estudos com o projeto de constituir família. Pelo contrário, via nisso um benefício para o lar, conforme escreveu: “Como negar-se à mulher o direito de ilustrar-se para cultivar igualmente a sua inteligência?… Se encararmos o lado da maternidade, quem melhor do que ela poderá ser a mestra de seus filhos? Quem melhor do que ela poderá convencê-los da verdade?… E o que será precisa para isso? Que ela tenha bastante ilustração e eloquência; e tanto uma como outra encontra-se na literatura. A mulher, justamente por ser mãe de família, é que deve ser douta… Madame Sevignè tendo sido uma grande escritora, não deixou de ter sido uma boa mãe de família”.

Em 1877 reuniu os melhores textos de poesia e prosa e publicou o livro Devaneios, onde a crítica ao patriarcado é mais contundente e o chamado à participação da mulher na literatura é mais explícito: “Quereis saber porque a mulher vos parece menos inteligente do que o homem, e mais fraca ainda do que ele? É porque a sociedade condenou-a á ignorância e ao esquecimento… Entretanto ela é quase sempre condenada, quando pugna pelos seus direitos, e tida por um fenômeno, quando se mostra igualmente ao homem pela sua sabedoria e valor… Achamos que a literatura, longe de ser prejudicial à mulher, lhe é de grande utilidade e merecimento. (…) E não será um anacronismo privar a mulher da luz da ciência e dos conhecimentos literários?. (…) A literatura não pode ser fatal à mulher, e sim um meio de aperfeiçoá-la, e melhor educar os seus filhos. (…) Quererá a sociedade impedir que ela seja romancista, poetisa e literata, como Stael, Sand e Sevigné?”.

Como se vê, atuou com desenvoltura em duas áreas correlatas: literatura e educação, ressaltando a necessidade de participação da mulher em ambas numa época em que o patriarcalismo imperava como verdade quase absoluta. Pouco depois passou a morar no Rio de Janeiro, onde veio a falecer em 10/8/1933 despercebidamente aos 77 anos.

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OS BRASILEIROS: Farias Brito

Raimundo de Farias Brito nasceu em São Benedito, CE, em 24/7/1862. Escritor, professor e destacado filósofo. Autor de uma das maiores obras filosóficas produzidas no Brasil. Realizou os primeiros estudos em Sobral. Porém, devido a seca, a família teve que mudar-se para Fortaleza, onde concluiu o curso secundário no Liceu do Ceará. Em seguida foi estudar no Recife, na Faculdade de Direito, tendo Tobias Barreto como professor. Diplomado em 1884, foi trabalhar como promotor e, por duas vezes, secretário no governo do Ceará.

Em 1889, mudou-se para Belém do Pará e lecionou na Faculdade de Direito até 1909, além de exercer a advocacia. Em seguida foi morar no Rio de Janeiro e passou a ocupar a cátedra de lógica no Colégio Pedro II. Na época, o Presidente da República escolhia o catedrático entre os dois primeiros colocados no concurso. O segundo colocado foi Euclides da Cunha, e foi nomeado devido a influência de amigos. Mas pouco depois foi assassinado, e Farias Brito assumiu o cargo, vindo a exercer o magistério pelo resto da vida. Faleceu em 16/1/1917.

Dotado de um espírito investigador e meditativo, tornou-se filósofo e espiritualista. Conforme Laudelino Freire “Nele, como em Platão havia duas feições primordiais: a investigação dos fenômenos do espírito e a inquirição das leis morais. Era o moralista antes de ser psicólogo, ou psicólogo para ser moralista”. Seu pensamento poderia ser resumido no seguinte: “Há pois a luz. Há a natureza e há a consciência. A natureza é Deus representando, a luz é Deus em sua essência e a consciência é Deus percebido”. Como se vê, ele inicia tendo Deus como um princípio que explica a natureza e serve de base ao mecanismo da ordem moral na sociedade. Costumava dizer “Se não sei o que sou, nem para que vim ao mundo, não posso saber uma norma de conduta.” Sua filosofia tinha como objetivo uma norma moral.

Foi o primeiro e, segundo alguns autores, talvez ainda hoje o único filósofo original do Brasil. Encarava seu estudo como uma missão social e costumava dizer: “Não me dirijo aos sábios, orgulhosos de seu saber positivo, mas aos que precisam de um ideal para a vida” Sua obra é composta de duas trilogias: Finalidade do mundo: A filosofia como atividade permanente do espírito humano (1895), A filosofia moderna (1899) e Evolução e relatividade (1905). Ensaios sobre a Filosofia do Espírito: A verdade como regra das ações (1905), A base física do espírito (1912) e O mundo interior (1914). Para ele, a filosofia não é apenas conhecimento abstrato; é também força social, força viva, capaz de exercer influência sobre a sociedade. E tal influência é real e decisiva, pois é da filosofia que nasce o sentimento moral. Faleceu em 16/1/1917, quando o estudo da fiolosofia ainda engatinhava no Brasil.

Para homenageá-lo, em 1953, o município de Quixará passou a ser denominado Farias Brito. Em Fortaleza, o tradicional Colégio São João passou a denominar-se Colégio Farias Brito, na década de 1990. Hoje é a Organização Educacional Farias Brito de Ensino, uma grande rede de ensino particular, atuando nos ensinos fundamental, médio e superior e, seguindo os ideais de seu patrono, ensina filosofia a partir da 1ª série do ensino fundamental, quando seus alunos aprendem filosofia antes mesmo de aprenderem a ler. É o patrono da cadeira nº 31 da Academia Cearense de Letras e foi, também, maçom filiado a Loja Porangaba, fundadora da Grande Loja Maçônica do Ceará.

Sua e obra e doutrina filosófica foi estudada por diversos autores: A formação filósofica de Farias Brito, de Laerte Ramos de Carvalho (Saraiva,1977); A metafísica de Farias Brito, de Vitorino Félix Sanson (Edcus, 1984); Farias Brito ou uma aventura do espírito, de Sylvio Rabello (José Olympio, 1941); Farias Brito e as origens do existencialismo no Brasil, de Aquiles Côrtes Guimarães (Tempo Brasileiro, 1979); As doutrinas políticas de Farias Brito, de Francisco Elias de Tejada (Leia, 1952); Farias Brito e a filosofia do espírito, de Alcantara Nogueira (Freitas Bastos, 1962 ); A ética e o direito em Farias Brito, de Paulo Condorcet (Liber Juris, 1995); A filosofia como atividade permanente em Farias Brito, de Thadeu Weber (La Salle, 1985); O pensamento de Farias Brito, de Carlos Lopes de Mattos (Herder, 1962).

Em termos biográficos, temos Farias Brito: o homem e a obra, de Jonathas Serrano, publicado pela Cia. Editora Nacional, em 1939, considerada uma obra clássica na área. Em 2008, Julio Filizola Neto defendeu tese de doutorado abordando o núcleo de seu pensamento e analisando as críticas vigentes: Farias Brito, um filósofo brasileiro: vida, pensamento e críticas historiográficas, apresentada na Faculdade de Educação da UFCE-Universidade Federal do Ceará e pode ser consultada clicando aqui.

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AS BRASILEIRAS: Zilda Arns

Zilda Arns Neumann nasceu em Forquilhinha, SC., em 25/8/1934. Médica pediatra e sanitarista, filantropa, fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa, da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e irmã de Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo. Foi indicada várias vezes ao Prêmio Nobel da Paz, em reconhecimento ao seu trabalho de assistência social junto às famílias e crianças de todo o mundo, em 2006.

Filha de Gabriel Arns e Helene Steiner, uma família de descendentes alemãs, com 12 irmãos: 7 professores e 4 religiosos. Formou-se em medicina pela UFPR-Universidade Federal do Paraná e fez cursos de especialização em Pediatria Social, Educação Física e Medicina Sanitária. O que levou-a à pediatria foi o grande número de crianças internadas com doenças de fácil prevenção, como diarreia e desidratação. Logo passou a trabalhar no Hospital Pediátrico César Pernetta, em Curitiba. Casou-se em 1955 com Aloísio Bruno Neumann e teve 6 filhos. Em fins da década de 1970 assumiu muitos compromissos profissionais e passava toda a semana em São Paulo, visitando a família em Curitiba nos fins de semana. Em 18/2/1978, seu marido sofreu um infarto fulminante, aos 46 anos, após salvar uma das filhas de afogamento na praia de Betaras. Durante um bom tempo, ela se lastimou por não estar presente na ocasião e sentiu-se culpada pela tragédia.

Em seguida passou a se dedicar mais ao trabalho comunitário junto à periferia no planejamento e organização de postos de saúde, muitos deles funcionando em casas paroquiais e entidades religiosas. Em 1980, o cientista Albert Sabin esteve em Curitiba, e ficou impressionado com seu trabalho. Convidou-a para coordenar a campanha de vacinação antipoliomielite na cidade de União da Vitória, que enfrentava uma epidemia de paralisia infantil. Na ocasião, ela desenvolveu uma técnica de trabalho, depois adotada pelo Ministério da Saúde em todo o País. Pouco depois iniciou um trabalho em Florestópolis, que apresentava uma taxa de mortalidade infantil de 127 crianças por mil habitantes. Após um ano, o índice caiu para 28 crianças. Para isso dedicou-se à educação higiênica das famílias pobres e ensino na preparação do “soro caseiro”, uma fórmula simples e de baixo custo, que ajudou bastante no controle da diarreia infantil. Na época o “soro caseiro” foi considerado um avanço da Medicina, devido a simplicidade da fórmula.

Ainda em 1980 foi designada para dirigir o Departamento de Saúde Materno-Infantil da Secretaria de Saúde do Paraná, onde instituiu os programas de planejamento familiar, prevenção do câncer ginecológico, saúde escolar e aleitamento materno. Em princípios da década, James Grant, diretor da UNICEF, convenceu o cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, de que a Igreja poderia ajudar a salvar milhares de crianças que morriam de desidratação e incentivou-o a iniciar uma campanha nacional contra a mortalidade infantil. Não faltaria recursos, garantiu, mas era preciso um líder. Sem tempo nem agenda para a empreitada, sugeriu o nome de sua irmã. Pouco depois, a CNBB convidou dona Zilda para criar a Pastoral da Criança, tendo em vista seu trabalho realizado em Florestópolis.

Ao longo de 25 anos, a Pastoral atendeu mais de 1 milhão e 400 mil famílias pobres mais de 1 milhão e 800 mil crianças menores de 6 anos em 4060 municípios do Brasil. Um trabalho realizado por mais de 260 mil voluntários, baseado num tripé: visita domiciliar às famílias, dia do peso (ou Dia de Celebração da Vida) e reunião mensal de avaliação e reflexão. Anos depois, recebeu mais um convite da CNBB: fundar e coordenar a Pastoral da Pessoa Idosa, em 2004. Em pouco mais de 10 anos, essa Pastoral contabilizava o atendimento a mais de 100 mil idosos, através de 12 mil voluntários de 570 municípios e 141 dioceses em 25 estados brasileiros.

Além de coordenar os trabalhos destas pastorais, foi representante titular da CNBB no Conselho Nacional de Saúde e membro do CDES-Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. Sua atuação nas pastorais da criança e do idoso extrapolou as fronteiras do País e se expandiu por mais de 20 países da América Latina, Ásia e África. O reconhecimento internacional de seu trabalho se vê nos títulos e comendas recebidas: Menção especial pelo UNICEF-Brasil, como personalidade brasileira de destaque no trabalho em prol da saúde da criança (1988); Prêmio Internacional OPAS em Administração Sanitária (1994); Medalha Direitos Humanos da Entidade Judaica B’nai B’rith (1999); Prêmio USP de Direitos Humanos (2000); Comenda Ordem do Rio Branco, grau de Comendador (2001); Eleita “Heroína da Saúde Pública das Américas” pela OPAS (2002); Opus Prize (EUA) em 2005. Foi também cidadã honorária de 11 estados e 32 municípios brasileiros, além de doutora honoris causa de 5 universidades. Na imprensa internacional era conhecida como “a Madre Teresa brasileira”.

Em 2010 sua agenda contava com diversas viagens internacionais em missão humanitária com palestras e seminários. A viagem para o Haiti foi adiada 4 vezes diante de tantos convites, mas foi realizada em 12 de janeiro, quando proferiu palestra procurando motivar os lideres e voluntários da Pastoral da Criança, em Porto Príncipe. Ao término da palestra permaneceu na Igreja Sacre Coeur para atender às perguntas da plateia. Nesse instante ocorreu o terremoto, fazendo o prédio desabar atingindo-a junto com outros religiosos. Em sua palestra destacou o respeito e cuidados com as crianças, concluindo: “Não existe ser humano mais perfeito, mais justo, mais solidário e sem preconceitos que as crianças… Como os pássaros, que cuidam de seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe de predadores, ameaças e perigos, e mais perto de Deus, devemos cuidar de nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los”. Estas foram suas últimas palavras.

Ao receber a notícia, seu irmão o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns ficou comovido por um instante, mas logo se recompôs e exclamou: “Que morte linda!”. Depois soltou uma nota: “Zilda morreu de uma maneira muito bonita, por defender uma causa em que sempre acreditou”. No mesmo ano sua irmã Otília Arns publicou um livro, uma biografia familiar – Zilda Arns: a trajetória da médica missionária -, contando a história dos antepassados e depoimentos de seus familiares. Em 2016 Frei Diogo Luís Fuitem fez uma justa homenagem, em nome da Igreja, e lançou Dra. Zilda Arns: uma vida de doação, publicado pela Edições Loyola. Pouco depois Ernesto Rodrigues lançou Zilda Arns: uma biografia (2018), publicado pela Editora Rocco, um “retrato nítido e sem retoques”, que não representa apenas um jargão editorial.

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OS BRASILEIROS: Dom Evaristo Arns

Dom Frei Paulo Evaristo Arns nasceu em Forquilhinha, S.C., em 14/9 1921. Frade franciscano, cardeal, escritor, jornalista, filósofo, teólogo e arcebispo-emérito de São Paulo, ficou conhecido pela coragem na luta por justiça social, direitos humanos e reestabelecimento da democracia no País na década 1970 em diante. Descendente de uma família de imigrantes alemães com 12 irmãos, incluindo: 1 frade, 2 irmãs freiras e Zilda Arns, médica e coordenadora internacional da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa.

Ingressou na Ordem Franciscana, em 1939, e ordenou-se presbítero em 1945, em Petrópolis. Durante o noviciado cursou a Faculdade de Filosofia de Curitiba e Faculdade de Teologia de Petrópolis. Aí também lecionou no Instituto Teológico Franciscano e na Universidade Católica. Visando se aprimorar no magistério, foi estudar filosofia na Universidade de Sorbonne, em Paris, onde concluiu o doutorado com a tese “A técnica do livro em São Jerônimo”, em 1952. De volta ao Brasil, lecionou em cidades do interior de São Paulo e retornou à Petrópolis, onde passou uns 10 anos lecionando na faculdade onde estudara e ajudando na redação da revista “Vozes”. Foi nomeado bispo pelo Papa Paulo VI, em 1966, e indicado para auxiliar o cardeal Dom Agnelo Rossi na Arquidiocese de São Paulo. Passou 4 anos como vigário episcopal integrando padres, religiosos e leigos; criou a Missão do Povo de Deus; multiplicou os ensinos do Concilio Ecumênico Vaticano II e estimulou a criação das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Na condição de bispo auxiliar, foi designado membro do secretariado do Vaticano para os não-crentes, em 1968, e foi eleito secretário nacional de educação da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Em seguida substituiu Dom Agnelo Rossi no cargo de arcebispo metropolitano de São Paulo, em 1970.

No auge do período da ditadura brasileira, a política foi marcada pela luta armada entre os grupos de oposição e o governo, com torturas e abusos políticos. Já em 1969, apoiou ou os frades dominicanos presos sob a acusação de envolvimento com o guerrilheiro Carlos Mariguela. No ano seguinte, diante das torturas ao padre Giulio Vicini e a assistente social Iara Spadini, exigiu dos militares que ambos fossem examinados por médicos. O comandante do II Exército negou o pedido, fazendo-o a recorrer ao governador Abreu Sodré, que também recusou. As relações do clero com os militares começou a azedar de vez com a prisão de dom Aloísio Lorscheider, em outubro de 1970, pelo DOPS. Foram 4 horas de interrogatório, tempo suficiente para mobilizar o alto clero, com envio de carta ao presidente Médici, lamentando a “deterioração dos vínculos, e também ao Papa Paulo VI. A imprensa do Vaticano noticiou o fato e causou impacto internacional. Foi quando se criou a “Comissão Bipartite”, fórum de discussão reservado, que funcionou até 1974, afim de acertar as arestas entre a Igreja e o Estado.

Em seguida foi proibido de visitar presos políticos numa greve de fome, no dia de Pentecostes em 1971, e fez afixar em centenas de igrejas uma carta na qual lamentava que “Neste país cristão, quando estão em jogo vidas humanas, aquele que de Deus recebeu o múnus de pastor seja impedido de cumprir sua missão específica, aliás garantida por nossa Carta Magna”. Em 1972, esteve à frente do lançamento do documento “Testemunho de Paz”, denunciando os sequestros e torturas nas prisões. O documento teve sua divulgação proibida e foi intimado pelo Estado-Maior do Exército. Ouviu do general Antônio Carlos Muricy que o documento fazia acusação grave e que ele poderia ser processado por isso. Sua resposta foi: “aceito o processo, contanto que seja público e que sejam dadas garantias às testemunhas que, nos hospitais e outros lugares, acompanharam pessoas que foram torturadas e morreram”. Em 1972, criou a Comissão Brasileira de Justiça e Paz para denunciar os abusos do regime militar. Nessa época, peregrinava pelos quartéis, usando sua influência para libertar dezenas de presos políticos. No ano seguinte foi sagrado cardeal e continuou a luta pelos direitos humanos, colecionando rusgas com os militares e reprovações de setores mais conservadores da Igreja.

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AS BRASILEIRAS: Mãe Menininha do Gantois

Maria Escolástica da Conceição Nazaré nasceu em Salvador, BA, em 10/2/1894. Mãe-de-santo (Iyalorixá) mais conhecida do Brasil. Descendente de escravos africanos da Nigéria, foi designada ainda criança para comandar o Terreiro do Gantois, fundado em 1849 por sua bisavó Maria Julia da Conceição. Cultuada em Salvador, Jorge Amado disse: “A mais doce das criaturas, a mais nobre das senhoras, a mais bela das Oxuns, a mãe da bondade”. Dorival Caymmi também não deixou por menos e cantou: “a estrela mais linda, o sol mais brilhante, a beleza do mundo, a mão da doçura, o consolo da gente, a Oxum mais bonita”.

O Terreiro do Gantois foi tombado como patrimônio histórico pelo IPHAN em 2002 e está localizado no alto do bairro Federação, em Salvador. Trata-se de um terreno arrendado de uma família de traficantes de escravos de origem belga e mantém a tradição do matriarcado, com dirigentes femininas, sucessão hereditária e linhagem consanguínea. Mãe Menininha foi a 4ª Iyalorixá na cadeia sucessória, empossada aos 28 anos, em 18/2/1922. “Quando os orixás me escolhera eu não recusei, mas balancei muito para aceitar”. Na época era casada com o advogado Álvaro MacDowell de Oliveira e teve 2 filhas, ambas iniciadas desde cedo, conforme a tradição da Casa. Sua história confunde-se com a história do candomblé na Bahia. Falava o idioma ioruba e detinha o conhecimento das línguas jeje e bantu, conferindo-lhe o domínio de orações, cantigas e poemas de cunho litúrgico.

Na época a perseguição da polícia aos cultos africanos era implacável e foi arrefecendo a partir da década de 1930. Porém ainda restava uma Lei de Jogos e Costumes condicionando a realização de cultos à autorização policial e limitação de término às 22 horas. Ela foi uma das principais articuladoras contra tais proibições e restrições. Dizia ao Delegado: “Isso é uma tradição ancestral, doutor. Venha dar uma olhadinha o senhor também”. A Lei foi extinta em meados da década de 1970. Bem antes disso ela abriu as portas do Gantois aos brancos e católicos. Conforme o Prof. Cid Teixeira, da UFBA, ela “como um bispo progressista da Igreja Católica, modernizou o candomblé sem permitir que ele se transformasse num espetáculo para turistas”. Com sua diplomacia conquistou adeptos importantes e seu legado maior foi imprimir respeitabilidade à sua religião.

No período em que foi sacerdotisa, o Terreiro recebia com frequência diversas autoridades, políticos e artistas em busca conselhos e orientações. Por outro lado, nunca deixou de frequentar a missa aos domingos e convenceu os bispos da Bahia a permitir a entrada nas igrejas de mulheres vestidas com as roupas tradicionais do candomblé. Indagada sobre o sincretismo religioso, respondia com simplicidade: “Deus? O mesmo Deus da Igreja é o do candomblé. A África conhece o nosso Deus tanto quanto nós, com o nome de Olorum. A morada Dele é lá em cima, e a nossa cá embaixo”,

Junto a direção do Terreiro, acumulava outros cargos, como Presidente de Honra, orientadora e fundadora da UBEPCA-União Brasileira dos Estudos e Preservação dos Cultos Africanos e Presidente da Sociedade Gueledé. Foi homenageada em diversas ocasiões: Comenda da Ordem das Artes e das Letras, do Ministério da Cultura da França; Comenda Sic Illa ad Arcam Reversa Est – Medalha 2 de Julho (Independência e Liberdade Sempre/1823); Comenda Legião do Mérito Presidente Antônio Carlos e a Comenda Regente Feijó entre outras.

Tal como todas as mães-de-santo, ela fazia questão de manter o Terreiro como uma casa de caridade e mantinha seu próprio sustento sem nunca cobrar pelos serviços prestados. Mantinha tabuleiro de frutas na rua, quitanda, dona de restaurante, além de costureira e doceira. Após dirigir o Terreiro por 64 anos, faleceu em 13/8/1986 e os filhos deixaram seu quarto intacto, com os objetos de uso pessoal e ritualísticos e mobiliário. Em 1992, o aposento foi transforado em “Memorial Mãe Menininha”, tornando-se uma das atrações do Terreiro e um espaço de educação patrimonial. Conta com mais de 500 peças referentes à história, cujo acervo foi arrolado e documentado em livro bilíngue, publicado em 2010.

No carnaval de 1976 foi homenageada pela Escola de Samba Mocidade Alegre de Padre Miguel, com o enredo “Mãe Menininha do Gantois”, onde esteve presente, apesar da idade. Em 2017, no carnaval paulista, A Escola de Samba Vai-Vai, apresentou o enredo “No Xirê do Anhembi, a Oxum mais bonita surgiu… Menininha, mãe da Bahia – Ialorixá do Brasil”. Em 2006 foi publicado o livro Mãe Menininha do Gantois: uma biografia pela Editora Corrupio. Foi um trabalho de pesquisa, coordenado por Cida Nóbrega e Regina Echeveria, que levou 6 anos recolhendo depoimentos de amigos, colaboradores e reunindo reportagens, artigos e livros escritos sobre o Gantois e Mãe Menininha. Atualmente o Terreiro do Gantois é comandado pela Mãe Carmen, sua filha de sangue mais jovem.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Grande Otelo

Sebastião Bernardes de Souza Prata nasceu em Uberlândia, MG, em 18/10/1915. Ator, produtor de cinema, cantor, compositor, poeta e um dos grandes comediantes brasileiro. Inaugurou a indústria cinematográfica no País com mais de 100 filmes em meados do século passado. Digamos, então, que ajudou a criar o cinema brasileiro enquanto indústria. Claro que também é arte, e tanto é que na fase seguinte dá-se o “Cinema Novo”, destacado em todo o Mundo na arte cinematográfica. Aí Grande Otelo pontifica mais um vez no clássico “Macunaíma”, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, em 1969.

Destacou-se na área do humor e passou a vida driblando a tragédia: teve o pai assassinado e a mãe alcoólatra, de quem separou-se aos 10 anos. Mais tarde (1949), já consagrado como ator, sua mulher suicidou-se após matar o filho de 6 anos, enteado do ator. Era uma criança desinibida, metia-se na conversa dos adultos e cantava para eles, principalmente para os hóspedes do Grande Hotel de Uberabinha (atual Uberlândia), mediante o pagamento de um tostão por música. Pouco depois fugiu de casa com um grupo de teatro mambembe e passou a viver em São Paulo. Voltou a fugir e após idas e vindas do Juizado de Menores, foi adotado pela família do político Antonio de Queiroz. Teve inicio certa estabilidade na vida, vindo a estudar no Liceu Coração de Jesus, mas seu caminho estava traçado para o Teatro.

Em 1927 entrou na Companhia Negra de Revistas, tendo Pixinguinha como maestro, e dá inicio a carreira artística. Em 1932 ingressou na Companhia Jardel Jércolis e devido ao talento no palco, recebeu o apelido “Grande Otelo”, adotado como nome artístico. Jardel foi pioneiro do “Teatro de Revista” e incluiu-o numa turnê pela América Latina, Portugal e Espanha. Na volta, passou a atuar nos principais cassinos do Rio e São Paulo, particularmente do Cassino da Urca, onde era a grande estrela. Em 1942 estava no elenco do filme “It’s all true”, de Orson Welles, que o considerou o maior ator brasileiro. Tornou-se um dos personagens-símbolo da alma brasileira com 118 filmes, dezenas de peças de teatro e programas de TV de grande sucesso exercitando a autoparódia típica do bom humor carioca.

Seu nome alcançou repercussão internacional talvez a maior depois de Carmen Miranda. Nas “chachadas” do cinema atuava em dupla com diversos comediantes, particularmente com Oscarito. Era um ator que representava sem parecer representar e tinha plena convicção de seu trabalho. Em 1946 concedeu uma entrevista ao jornalista Carlos Eduardo dos Santos, do Recife, e declarou: “Meu trabalho é fazer graça para os outros rirem”. Sua atuação no palco contribuiu decisivamente para a criação de uma linguagem própria de teatro musical, expressada através do “Teatro de Revista”, um modelo genuinamente brasileiro. A estreia no cinema se deu em 1935, com “Noites cariocas”. Mas é pouco divulgada sua atuação como compositor de sambas clássicos, como “Praça onze”, junto com Herivelto Martins, seu compadre e principal parceiro musical.

No período 1939-1961 gravou 8 discos e tinha a música como um segundo talento. Adorava a condição de sambista tanto quanto a de ator. A partir da década de 1960, passou a atuar na televisão, em novelas de grande sucesso, como “Uma Rosa com Amor” e “Mandala”, entre outras. Outro talento pouco conhecido é sua veia poética, expressa mais tarde ao publicar o livro Bom dia manhã, coletânea de poemas e músicas, organizada por Luiz Carlos Prestes Filho, em 1993, lançado pela editora Topbooks. O livro foi apresentado por Jorge Amado, abordando a genialidade do artista, e prefaciado por Antônio Olinto, numa análise da essência poética e do pensamento do autor. Foi homenageado em diversas ocasiões, como no desfile da Escola de Samba Beija-Flor, com o enredo “Grande constelação de estrelas negras”, em 1983.

Sua cidade natal prestou-lhe significativa homenagem dando-lhe o nome ao Teatro local e realizou grande evento por ocasião do seu centenário, em 2015. No inicio da década de 1990, lamentou-se de sua condição financeira: “Fiz muita gente ficar rica e fiquei pobre”. Necessitando trabalhar, foi convidado por Chico Anísio para integrar o elenco da “Escolinha do Professor Raimundo”, na TV Globo. Seu último trabalho foi uma participação na novela “Renascer”, em 1993. Em seguida viajou à Nantes, França, para receber homenagem no festival que exibia um documentário sobre artistas negros brasileiros. Mas não chegou a receber a homenagem. Ao desembarcar no aeroporto Charles de Gaulle, sofreu um infarto fulminante e veio a falecer em 26/11/1993, aos 78 anos.

Em 2007, o acervo Grande Otelo foi recebido oficialmente pela FUNARTE -Fundação Nacional de Arte e encontra-se à disposição do público para consultas. Quanto as biografias, a primeira – Grande Otelo: um artista genial – foi escrita por seu amigo Roberto Moura e publicada pela editora Relume Dumará, em 1996, com apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro. Trata-se de um relato mais íntimo expondo facetas pouco conhecidas do ator e do cidadão. Mais tarde, Sergio Cabral recompôs sua trajetória pessoal e profissional, resultando numa alentada biografia – Grande Otelo: uma biografia -, publicada em 2007 pela Editora 34. Temos também uma biografia focada mais na carreira cinematográfica e as relações raciais, É o que nos entrega o livro de Luiz Felipe Kojima Hirano: Grande Otelo: um intérprete do cinema e do racismo no Brasil, publicado pela Editora da UFMG, em 2019.

Com tanta biografia, ainda precisamos saber mais sobre o personagem e a pessoa, destacando o produto Grande Otelo da pessoa Sebastião. É o que vemos na tese defendida na UFU-Universidade Federal de Uberlândia, em 2016. São poucas vidas que resultam em tese acadêmica. A vida de Grande Otelo mereceu esta distinção e teve sua vida esmiuçada e analisada pelo historiador Tadeu Pereira dos Santos numa tese de 597 páginas: Entre Grande Otelo e Sebastião: tramas, representações e memória. Um trabalho de fôlego para “desentranhar, via caráter relacional o sujeito Sebastião dos seus personagens e do produto cultural Grande Otelo, percorrendo os âmbitos ficcional e real”.

A tese não resultou em livro, mas pode ser acessada na Internet. Basta clicar aqui.

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AS BRASILEIRAS: Therezinha Zerbini

Therezinha de Godoy Zerbini nasceu em São Paulo, SP, em 16/4/1928. Advogada, assistente social, fundadora e líder do MFPA-Movimento Feminino pela Anistia, em 1975, que precedeu o CBA-Comitê Brasileiro pela Anistia, em 1978, finalmente conquistada em 1979. Era casada com o general Euryale de Jesus Zerbini, irmão do médico Euryclides Zerbini, primeiro cirurgião da América Latina a realizar um transplante de coração. Casou-se em 1951, quando ele era comandante da Força Pública e ela assistente social no Hospital do Mandaqui.

Sua luta política teve inicio com o Golpe Militar de 1964, quando o marido foi preso por defender a ordem constituída. Ele foi um dos 4 generais e único com comando de tropa, a assumir uma posição legalista contrária aos golpistas. Em 3/3/1964 foi chamado ao Ministério da Guerra, apresentou-se ao novo Ministro, Costa e Silva, e encaminhado ao I Exército. Lá foi informado da prisão e enviado ao Forte de Copacabana, onde ficou por 45 dias. Foi o 1º dentre os militares a perder os direitos políticos por 10 anos e reformado em seguida. Dona Therezinha só ficou sabendo da prisão após alguns dias e do seu paradeiro após um telefonema para o presidente Castelo Branco: “Não estou ligando para que soltem meu marido. Quero apenas saber onde ele se encontra”.

Libertado e fora do Exército, o general decidiu realizar um sonho antigo: estudar filosofia. Entrou na USP-Universidade de São Paulo, onde conheceu Frei Tito de Alencar, dominicano do movimento estudantil, de quem se tornou amigo. Em 1968, Frei Tito pediu ajuda a Dona Therezinha na realização de um evento de estudantes, sem especificar do que se tratava. Ela encaminhou o pedido a um amigo do marido, dono de um sítio em Ibiúna (SP), que acabou sediando o 30º Congresso da UNE-União Nacional dos Estudantes, que se encontrava na clandestinidade. A prisão dos 706 estudantes -536 homens e 170 mulheres- se deu em outubro de 1968. Frei Tito foi solto em seguida, mas passou a ser vigiado pelo aparato repreensivo. A 2ª prisão ocorreu em novembro de 1969 e as investigações levaram à Dona Therezinha, que foi conduzida no mês seguinte ao DOPS-Departamento de Ordem Política e Social para interrogatório e logo liberada. Mas ficou enquadrada na Lei de Segurança Nacional.

Em 11/2/1970 recebeu a visita dos policiais da OBAN-Operação Bandeirantes em sua casa. Para preservar o marido e os filhos, assumiu o papel de dona de casa cordata e inofensiva, inclusive oferecendo-lhes café. Mas não houve jeito, foi levada para a cadeia na Rua Tutóia, onde passou 5 dias ouvindo gritos dos presos torturados, mais uma semana no DOPS e em seguida levada para o presídio Tiradentes, onde passou mais 6 meses e conviveu com a então guerrilheira Dilma Rousseff. Em 1975, declarado Ano Internacional da Mulher, aproveitou para criar o MFPA-Movimento Feminino pela Anistia, unindo-se à luta pela redemocratização do Pais. Foi um passo decisivo para o movimento, com a morte do jornalista Vladimir Herzog e a primeira grande manifestação popular de protesto, em São Paulo. No mesmo ano lançou o manifesto do MFPA, conseguindo 16 mil assinaturas de apoio e empenhou-se nas denúncias de presos políticos e torturas, que eram negadas pela ditadura.

Em seguida foram formados os Comitês Femininos pela Anistia nas principais cidades do País. Era um movimento legalizado com estatuto e registro em cartório, constituído por mulheres de classe média, que fazia oposição “por dentro” do regime, alertando-o sobre sua própria justificativa inicial: preservar a democracia, que agora estava ameaçada pelo totalitarismo. Em 1978 o movimento foi ampliado transformando-se no CBA-Comitê Brasileiro pela Anistia com apoio da OAB-Ordem dos Advogados do Brasil. A reivindicação passou a ser anistia ampla, geral e irrestrita. Em março, com a visita do presidente dos EUA Jimmy Carter a Brasília, ela conseguiu driblar a segurança e entregou uma carta a Rosalyn Carter, em nome das mulheres brasileiras, denunciando as prisões arbitrárias, a tortura e o pedido de anistia. Com a promulgação da “Lei da Anistia”, em 1979, ela passou a trabalhar ao lado de Leonel Brizola na criação do PDT-Partido Democrático Trabalhista, quando Brizola perdeu a sigla PTB para Ivete Vargas. Dirigiu o núcleo do PDT em São Paulo até 2002, aos 80 anos.

Considerada comunista pelos órgãos de segurança e feminista pela imprensa, ela mesma declarou nunca ter aderido a nenhum desses movimentos. Não foi à toa que deu o nome “feminino” ao movimento. Numa entrevista em 2006 disse: “O primeiro confronto que eu tive não foi nem com os gorilas. Foi com as feministas aqui de São Paulo. Porque elas queriam se apropriar do Movimento Feminino pela Anistia. Elas diziam que a luta do MFPA era feminista. Eu digo: Não, vocês estão equivocadas. A luta do Movimento Feminino pela Anistia é uma luta de cidadania, da mulher cidadã. Não tem nada de feminista. Nós não estamos lutando por avanços. Depois cada um vai fazer o que quiser”. Junto com este posicionamento, havia o fato de não se filiar ao PT e nas eleições presidenciais de 2010, que elegeu Dilma Rousseff, ela foi a 5ª pessoa a assinar o “Manifesto pela Defesa da Democracia”, lançado por intelectuais e políticos contrários ao PT. Por não participar do hegemônico partido da esquerda na época, seu nome ficou meio apagado no espectro politico nacional.

Devido a tal opção foi pela esquerda petista de “ultrapassada”, “burguesona” e até “folclórica”. Assim, foi excluída das mais importantes coletâneas memorialísticas de personagens na luta pela anistia. Felizmente não deixou que essa exclusão apagasse seu nome da História e deixou registrada sua luta no livro Anistia: semente da liberdade, uma coletânea de entrevistas, publicado em 1979, pela Editora Salesianas. Mais tarde outros pesquisadores cuidaram de reafirmar sua trajetória política. Em 2012, o jornalista Paulo Moreira Leite lançou o livro A mulher que era o general da casa: histórias da resistência civil à ditadura, pela editora Arquipélago. Perguntado porque escreveu o livro, a resposta foi sucinta: “Therezinha Zerbini merece ser lembrada pelo papel que desempenhou na resistência civil ao golpe. (…) É bom saber que, em plena ditadura, uma senhora de traços ainda belos, dois filhos para cuidar, assumiu seu lugar em nossa história e foi capaz até de vender uma joia de família para pagar as despesas de uma viagem internacional onde defendeu a anistia aos presos políticos brasileiros”.

Em 2014 recebeu uma homenagem da Prefeitura de São Paulo por sua luta contra a ditadura. Foi a última homenagem que recebeu em vida, vindo a falecer em 14/3/2015. Pouco depois a homenagem foi concretizada com seu nome dado a um viaduto na zona central de São Paulo, em substituição ao nome “31 de Março”, que homenageava o Golpe Militar de 1964.

Clique aqui para ver vídeo de entrevista com Therezinha Zerbini

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OS BRASILEIROS: Sílvio Romero

Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero nasceu em 21/4/1851, em Lagarto, SE. Advogado, escritor, crítico literário, poeta, historiador, filósofo, jornalista e político. Ainda garoto, mudou-se para o Rio de Janeiro onde completou os primeiros estudos no Ateneu Fluminense. Em seguida partiu para o Recife e entrou na Faculdade de Direito, concluindo o curso em 1873. Foi um destacado participante da “Escola do Recife”, um movimento intelectual, filosófico, jurídico, poético… ao lado de Tobias Barreto.

Em 1875 elegeu-se deputado por sua província, quando já atuava como crítico literário de vários jornais do Recife e Rio de Janeiro. Seus dois primeiros livros foram publicados em 1878: A filosofia no Brasil e Cantos do fim do século (poesias). Lecionou filosofia no Colégio Pedro II entre 1881 e 1910. Neste período manteve estreito convívio com os intelectuais cariocas, junto aos quais fundou a Academia Brasileira de Letras, em 1897.

Seu apego a literatura resultou na publicação da Introdução à História da Literatura Brasileira, em 5 volumes, em 1882. No entanto perdeu o interesse pela poesia, encerrado em 1883 com a publicação de Últimos harpejos. No mesmo ano publicou mais dois livros, fruto de seu interesse pelo folclore: O elemento popular na literatura do Brasil e Cantos populares do Brasil. A partir de 1891, passou a colaborar com artigos para o jornal carioca “Diário de Notícias”, dirigido por seu amigo Rui Barbosa. No mesmo ano, foi nomeado membro do Conselho de Instrução Superior por Benjamim Constant. Foi um dos primeiros pensadores a se interessar por Antônio Conselheiro, o qual via como missionário vulgar que agregara em torno de si fanáticos depredadores. Seu amigo Euclides da Cunha, tendo sido enviado para Canudos, foi responsável pelo esclarecimento dos fatos ainda nebulosos para muitos intelectuais da época.

Entre 1900 e 1902 foi deputado federal pelo Partido Republicano, trabalhando na comissão encarregada de rever o Código Civil na função de relator-geral. Seu posicionamento ideológico pregava um “evolucionismo spenceriano, no qual os fatores biológicos dariam um suporte maior à sua crítica sociológica”. Em termos literários não tinha posições definidas: “Em mim o caso literário é complicadíssimo e anda tão misturado com situações críticas, filosóficas, científicas e até religiosas, que nunca pude me separar delas”. Não obstante sua competência, era conhecido pelo embate violento e intolerante contra outros escritores, intelectuais e políticos, gerando numerosas polêmicas com pessoas conhecidas como Lafayette Rodrigues Pereira, José Veríssimo, Teófilo Braga etc.

Segundo Antônio Cândido, é considerado como “uma das fontes básicas do pensamento e da literatura nacional”. Como resultado de sua investigação nesse campo, publicou Estudos sobre a Poesia Popular Brasileira (1888). O interesse pelo aprendizado sociológico inspirou a publicação dos Estudos de Filosofia do Direito (1895) e dos Ensaios de Sociologia e Literatura (1901). De 1890 a 1911, publicou, entre outros títulos, o ensaio Machado de Assis (1897), em que faz violenta crítica e mereceu resposta de José Verissimo, em defesa de Machado. Crítico polêmico, sarcástico, violento em suas afirmações, é considerado hoje, ao lado de Veríssimo e Araripe Júnior, um dos criadores da crítica literária no Brasil.

Foi um pesquisador prolífico com mais de 70 livros publicados. Sua força estava nas ideias de âmbito geral e no profundo sentido de brasilidade que imprimia em tudo que escrevia. Sua contribuição à historiografia literária brasileira é uma das mais importantes de seu tempo. Sua obra principal é A História da Literatura Brasileira, publicada em 1888, em que expõe “o essencial do que desejava dizer sobre a cultura e mesmo a sociedade de seu país”. A primeira parte do livro é dedicada aos “elementos de uma história natural de nossas letras, as condições de nosso determinismo literário, com as aplicações da geologia e da biologia às criações do espírito”, A segunda parte, por sua vez, “apresenta, em largos traços, o resumo histórico das quatro grandes fases de nossa literatura: período de formação (1500-1750); período de desenvolvimento autônomo (1750-1830); período de transformação romântica (1830-1870); período de reação crítica (de 1870 em diante)”.

Como crítico, condenou o indianismo de autores como Gonçalves Dias e José de Alencar que, segundo ele, apresenta uma visão precária da formação histórica do Brasil, uma vez que há pouca informação sobre a vida real dos indígenas e, portanto, não é possível reconstituí-la com exatidão em romances históricos ou poemas épicos. O sentido da crítica, para ele, não é apenas fazer uma ampla análise e revisão de valores, letras e artes, conforme observa Antônio Candido, mas também de demolir aquilo que julga anacrônico ou contrário à evolução cultural. O caráter muitas vezes polêmico de suas opiniões é decorrência dessa noção da crítica como um elemento para a reforma social e intelectual do país.

O mapeamento que fez da literatura brasileira, de suas origens até o século XIX, é o mais completo e detalhado que se fizera até então, colocando seu autor na posição de fundador dos estudos literários brasileiros. Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e de diversas outras associações literárias. Faleceu em 18/6/1914.