JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Anna Teófila Filgueiras Autran nasceu em Salvador, BA, em 28/12/1856. Jornalista, escritora, poeta e uma das pioneiras do movimento feminista no Brasil. Sacramento Blake, autor do Dicionário Bibliográfico Brasileiro, de 1883, ficou impressionado com sua precocidade: “Não conheço no céu da inteligência pátria uma estrela que mais cedo brilhasse, sem deixar nunca de ostentar seu brilho”.

Descendente de uma família aristocrata, filha do médico Henrique Autran da Matta e Albuquerque e Eduarda de Amorim Filgueiras Almeida, ficou órfã da mãe com um ano de idade e foi criada pelo pai e pela irmã. Aos 4 anos já demonstrava facilidade em decorar versos, orações e textos curtos; aos 5 aprendeu a ler; aos 9 concluiu os primeiros estudos com louvor. A partir dos 10 anos passou a escrever seus primeiros poemas. A primeira publicação se deu aos 12 anos com uma poesia – As duas donzelas -, publicada no jornal “O Americano”, de 16/5/1869. No mesmo ano e jornal publicou outra poesia – Salva meu peito -, em 20/6/1869.

Dessa época em diante as publicações de poesias são mais frequentes, passando em seguida a publicação de artigos sobre a condição da mulher no contexto da sociedade patriarcal. Em 1971 enviou uma série de artigos para o “Diário da Bahia” sobre a temática “A mulher e a literatura”, reivindicando a participação feminina literatura e direitos da mulher no contexto social. Com apenas 15 anos apresentou textos recheados de citações de autores estrangeiros e conhecimentos sobre história, filosofia e religião, mostrando sólida formação cultural. Seus artigos defendendo fervorosamente os direitos da mulher incomodou um conhecido jornalista –Belarmino Barreto-, com quem foi travada uma longa polêmica com réplicas e tréplicas, que durou alguns meses, nas páginas do “Jornal da Bahia”, em 1871. Devido a polêmica foi alvo de críticas e até da acusação de apostasia na imprensa. No entanto, não deixou os insultos sem resposta e foi à forra com artigos de defesa e combate.

O fato de ser uma menina de apenas 15 anos envolvida numa discussão pública com um jornalista causou certo alvoroço e ficou nos anais da história da imprensa local. O fato envolveu certo número de mulheres, que se sentiram representadas pela garota, e a notícia repercutiu fora do circuito baiano. Passou a ter seus poemas e artigos publicado em diversos jornais e revistas do Rio de Janeiro, Recife e Lisboa, demonstrando o espírito aguerrido. Era uma agitadora em defesa dos movimentos republicano e abolicionista. Chegou a alforriar os escravos de sua família bem antes de 1888. Seus ideais giravam em torno da ideia de que a mulher era tão capaz quanto os homens; que não só a emoção era atributo de seu sexo; e que o direito à educação deveria ser assegurado igualmente aos homens e mulheres.

Para ela não havia incompatibilidade entre o exercício profissional e a dedicação aos estudos com o projeto de constituir família. Pelo contrário, via nisso um benefício para o lar, conforme escreveu: “Como negar-se à mulher o direito de ilustrar-se para cultivar igualmente a sua inteligência?… Se encararmos o lado da maternidade, quem melhor do que ela poderá ser a mestra de seus filhos? Quem melhor do que ela poderá convencê-los da verdade?… E o que será precisa para isso? Que ela tenha bastante ilustração e eloquência; e tanto uma como outra encontra-se na literatura. A mulher, justamente por ser mãe de família, é que deve ser douta… Madame Sevignè tendo sido uma grande escritora, não deixou de ter sido uma boa mãe de família”.

Em 1877 reuniu os melhores textos de poesia e prosa e publicou o livro Devaneios, onde a crítica ao patriarcado é mais contundente e o chamado à participação da mulher na literatura é mais explícito: “Quereis saber porque a mulher vos parece menos inteligente do que o homem, e mais fraca ainda do que ele? É porque a sociedade condenou-a á ignorância e ao esquecimento… Entretanto ela é quase sempre condenada, quando pugna pelos seus direitos, e tida por um fenômeno, quando se mostra igualmente ao homem pela sua sabedoria e valor… Achamos que a literatura, longe de ser prejudicial à mulher, lhe é de grande utilidade e merecimento. (…) E não será um anacronismo privar a mulher da luz da ciência e dos conhecimentos literários?. (…) A literatura não pode ser fatal à mulher, e sim um meio de aperfeiçoá-la, e melhor educar os seus filhos. (…) Quererá a sociedade impedir que ela seja romancista, poetisa e literata, como Stael, Sand e Sevigné?”.

Como se vê, atuou com desenvoltura em duas áreas correlatas: literatura e educação, ressaltando a necessidade de participação da mulher em ambas numa época em que o patriarcalismo imperava como verdade quase absoluta. Pouco depois passou a morar no Rio de Janeiro, onde veio a falecer em 10/8/1933 despercebidamente aos 77 anos.

3 pensou em “AS BRASILEIRAS: – Ana Autran

  1. Brito,

    Seu texto sobre Ana Autran, que eu particularmente não conhecia, encantada em 10/8/1933 despercebidamente aos 77 anos, é um primor de conhecimento literário e informes pedagógicos.

    Seu resgate desses personagens desconhecidos – e publicados no Jornal da Besta Fubana para o mundo saber – é uma ode ao conhecimento e à inteligência feminina.

    Por meio dos seus textos se percebe que o Brasil não preserva a memória daqueles que lhe deram o melhor de si: conhecimentos.

    Parabéns, amigo.

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