JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Sebastião Bernardes de Souza Prata nasceu em Uberlândia, MG, em 18/10/1915. Ator, produtor de cinema, cantor, compositor, poeta e um dos grandes comediantes brasileiro. Inaugurou a indústria cinematográfica no País com mais de 100 filmes em meados do século passado. Digamos, então, que ajudou a criar o cinema brasileiro enquanto indústria. Claro que também é arte, e tanto é que na fase seguinte dá-se o “Cinema Novo”, destacado em todo o Mundo na arte cinematográfica. Aí Grande Otelo pontifica mais um vez no clássico “Macunaíma”, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, em 1969.

Destacou-se na área do humor e passou a vida driblando a tragédia: teve o pai assassinado e a mãe alcoólatra, de quem separou-se aos 10 anos. Mais tarde (1949), já consagrado como ator, sua mulher suicidou-se após matar o filho de 6 anos, enteado do ator. Era uma criança desinibida, metia-se na conversa dos adultos e cantava para eles, principalmente para os hóspedes do Grande Hotel de Uberabinha (atual Uberlândia), mediante o pagamento de um tostão por música. Pouco depois fugiu de casa com um grupo de teatro mambembe e passou a viver em São Paulo. Voltou a fugir e após idas e vindas do Juizado de Menores, foi adotado pela família do político Antonio de Queiroz. Teve inicio certa estabilidade na vida, vindo a estudar no Liceu Coração de Jesus, mas seu caminho estava traçado para o Teatro.

Em 1927 entrou na Companhia Negra de Revistas, tendo Pixinguinha como maestro, e dá inicio a carreira artística. Em 1932 ingressou na Companhia Jardel Jércolis e devido ao talento no palco, recebeu o apelido “Grande Otelo”, adotado como nome artístico. Jardel foi pioneiro do “Teatro de Revista” e incluiu-o numa turnê pela América Latina, Portugal e Espanha. Na volta, passou a atuar nos principais cassinos do Rio e São Paulo, particularmente do Cassino da Urca, onde era a grande estrela. Em 1942 estava no elenco do filme “It’s all true”, de Orson Welles, que o considerou o maior ator brasileiro. Tornou-se um dos personagens-símbolo da alma brasileira com 118 filmes, dezenas de peças de teatro e programas de TV de grande sucesso exercitando a autoparódia típica do bom humor carioca.

Seu nome alcançou repercussão internacional talvez a maior depois de Carmen Miranda. Nas “chachadas” do cinema atuava em dupla com diversos comediantes, particularmente com Oscarito. Era um ator que representava sem parecer representar e tinha plena convicção de seu trabalho. Em 1946 concedeu uma entrevista ao jornalista Carlos Eduardo dos Santos, do Recife, e declarou: “Meu trabalho é fazer graça para os outros rirem”. Sua atuação no palco contribuiu decisivamente para a criação de uma linguagem própria de teatro musical, expressada através do “Teatro de Revista”, um modelo genuinamente brasileiro. A estreia no cinema se deu em 1935, com “Noites cariocas”. Mas é pouco divulgada sua atuação como compositor de sambas clássicos, como “Praça onze”, junto com Herivelto Martins, seu compadre e principal parceiro musical.

No período 1939-1961 gravou 8 discos e tinha a música como um segundo talento. Adorava a condição de sambista tanto quanto a de ator. A partir da década de 1960, passou a atuar na televisão, em novelas de grande sucesso, como “Uma Rosa com Amor” e “Mandala”, entre outras. Outro talento pouco conhecido é sua veia poética, expressa mais tarde ao publicar o livro Bom dia manhã, coletânea de poemas e músicas, organizada por Luiz Carlos Prestes Filho, em 1993, lançado pela editora Topbooks. O livro foi apresentado por Jorge Amado, abordando a genialidade do artista, e prefaciado por Antônio Olinto, numa análise da essência poética e do pensamento do autor. Foi homenageado em diversas ocasiões, como no desfile da Escola de Samba Beija-Flor, com o enredo “Grande constelação de estrelas negras”, em 1983.

Sua cidade natal prestou-lhe significativa homenagem dando-lhe o nome ao Teatro local e realizou grande evento por ocasião do seu centenário, em 2015. No inicio da década de 1990, lamentou-se de sua condição financeira: “Fiz muita gente ficar rica e fiquei pobre”. Necessitando trabalhar, foi convidado por Chico Anísio para integrar o elenco da “Escolinha do Professor Raimundo”, na TV Globo. Seu último trabalho foi uma participação na novela “Renascer”, em 1993. Em seguida viajou à Nantes, França, para receber homenagem no festival que exibia um documentário sobre artistas negros brasileiros. Mas não chegou a receber a homenagem. Ao desembarcar no aeroporto Charles de Gaulle, sofreu um infarto fulminante e veio a falecer em 26/11/1993, aos 78 anos.

Em 2007, o acervo Grande Otelo foi recebido oficialmente pela FUNARTE -Fundação Nacional de Arte e encontra-se à disposição do público para consultas. Quanto as biografias, a primeira – Grande Otelo: um artista genial – foi escrita por seu amigo Roberto Moura e publicada pela editora Relume Dumará, em 1996, com apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro. Trata-se de um relato mais íntimo expondo facetas pouco conhecidas do ator e do cidadão. Mais tarde, Sergio Cabral recompôs sua trajetória pessoal e profissional, resultando numa alentada biografia – Grande Otelo: uma biografia -, publicada em 2007 pela Editora 34. Temos também uma biografia focada mais na carreira cinematográfica e as relações raciais, É o que nos entrega o livro de Luiz Felipe Kojima Hirano: Grande Otelo: um intérprete do cinema e do racismo no Brasil, publicado pela Editora da UFMG, em 2019.

Com tanta biografia, ainda precisamos saber mais sobre o personagem e a pessoa, destacando o produto Grande Otelo da pessoa Sebastião. É o que vemos na tese defendida na UFU-Universidade Federal de Uberlândia, em 2016. São poucas vidas que resultam em tese acadêmica. A vida de Grande Otelo mereceu esta distinção e teve sua vida esmiuçada e analisada pelo historiador Tadeu Pereira dos Santos numa tese de 597 páginas: Entre Grande Otelo e Sebastião: tramas, representações e memória. Um trabalho de fôlego para “desentranhar, via caráter relacional o sujeito Sebastião dos seus personagens e do produto cultural Grande Otelo, percorrendo os âmbitos ficcional e real”.

A tese não resultou em livro, mas pode ser acessada na Internet. Basta clicar aqui.

7 pensou em “OS BRASILEIROS: Grande Otelo

  1. Grande Otelo é o Mané Garrincha, Sebastião Bernardes de Souza Prata é o Manuel Francisco dos Santos.

    Ambos brasileiros, mineiros e iguais na genialidade nas suas artes e na dificuldade do cidadão comum que eles eram conviver com o Mito criado em torno deles, das falsas amizades, da fama fugaz.

    Morreram sem ter o lugar que mereciam na memória brasileira.

    • Observação, Mané Garrincha não era mineiro, nasceu em Pau Grande, Magé – RJ, (eu ia falar do Pelé, depois mudei a comparação para com o Garrincha, que achei mais apropriada.)

  2. Li duas das biografias citadas e achava que conhecia um pouco nosso Grande Otelo. Mas agora vejo uma tese acadêmica que dá o titulo de Doutor ao seu postulante, falando das “personas” Grande Otelo e Sebastião.
    Fico grato ao colunista pela citação da tese e fornecer o link de acesso

  3. “Nunca gostei do ator Grande Otelo, sempre achei que ele foi superestimado e o seu comportamento artístico, sempre foi super valorizado, talvez por ser um artista negro, e que as pessoas ou críticos sempre procuram ” amaciar ” as suas críticas e relatar com relativa boa vontade os seus sucessos na carreira artística.

    Assisti muitos filmes desse ator e nunca vi nenhuma genialidade, apenas pretenção e muita boa vontade dos críticos. Assisti muitas vezes a sua apresentação nos teatros revistas do Rio, principalmente nas revistas do famoso Walter Pinto. A sua participação era somente entrar ” cambaleando ” no palco e contar meia duzia de piadas e sair cambaleando sem qualquer atuação digna de nota.

    A sua vida artística virou um mundo alcoólico depois que a sua mulher matou o filho e suicidou-se. A partir daí ele virou um ” borracho ” ambulante e nunca mais o vimos sóbrio. Não gosto do filme Macunaima, aceito algumas das suas participações nos filmes da Atlântida, mais por seu trabalho com o genial comediante Oscarito, que na verdade segurava todo o trabalho cômico .

    Quanto aquela famosa citação de Orson Welles, eu duvido muito ser verdadeira, pois o O.W. conhecia e trabalhou com sumidades artísticas internacionais e não iria fazer uma declaração deste teôr para um ator que trabalhava sempre com maneirismo ridículo e cheirando a cachaça”.
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    P.S. : O relato acima foi enviado à Redação, com autorização para publicar,pelo cativo leitor e colaborador da coluna: D. Matt, carioca da gema, que trocou de Copacabana indo pra Camboriú. .

  4. Mestre Brito,

    Valeu a homenagem. Não é fácil descrever um gênio, a quem se lhe pode atribuir mil e uma facetas.

    Talvez as tragédias da vida tivessem-lhe travado as veias cômicas, lúdicas e o grande ator e comediante tivesse que conviver com o fantasma do horror até o fim da vida.

    Todas as pertubações e tragédias da vida inibem a criatividade do ator, escritor, poeta, comediante!…

    Talvez com Grande Otelo não tenha sido diferente…

  5. Pois é Cicero
    Mesmo com as tragédias que passou, Grande Otelo conseguiu alegrar algumas gerações de brasileiros durante um bom tempo. Tal fato engrandece mais ainda o “pequeno” artista.

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