JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

Therezinha de Godoy Zerbini nasceu em São Paulo, SP, em 16/4/1928. Advogada, assistente social, fundadora e líder do MFPA-Movimento Feminino pela Anistia, em 1975, que precedeu o CBA-Comitê Brasileiro pela Anistia, em 1978, finalmente conquistada em 1979. Era casada com o general Euryale de Jesus Zerbini, irmão do médico Euryclides Zerbini, primeiro cirurgião da América Latina a realizar um transplante de coração. Casou-se em 1951, quando ele era comandante da Força Pública e ela assistente social no Hospital do Mandaqui.

Sua luta política teve inicio com o Golpe Militar de 1964, quando o marido foi preso por defender a ordem constituída. Ele foi um dos 4 generais e único com comando de tropa, a assumir uma posição legalista contrária aos golpistas. Em 3/3/1964 foi chamado ao Ministério da Guerra, apresentou-se ao novo Ministro, Costa e Silva, e encaminhado ao I Exército. Lá foi informado da prisão e enviado ao Forte de Copacabana, onde ficou por 45 dias. Foi o 1º dentre os militares a perder os direitos políticos por 10 anos e reformado em seguida. Dona Therezinha só ficou sabendo da prisão após alguns dias e do seu paradeiro após um telefonema para o presidente Castelo Branco: “Não estou ligando para que soltem meu marido. Quero apenas saber onde ele se encontra”.

Libertado e fora do Exército, o general decidiu realizar um sonho antigo: estudar filosofia. Entrou na USP-Universidade de São Paulo, onde conheceu Frei Tito de Alencar, dominicano do movimento estudantil, de quem se tornou amigo. Em 1968, Frei Tito pediu ajuda a Dona Therezinha na realização de um evento de estudantes, sem especificar do que se tratava. Ela encaminhou o pedido a um amigo do marido, dono de um sítio em Ibiúna (SP), que acabou sediando o 30º Congresso da UNE-União Nacional dos Estudantes, que se encontrava na clandestinidade. A prisão dos 706 estudantes -536 homens e 170 mulheres- se deu em outubro de 1968. Frei Tito foi solto em seguida, mas passou a ser vigiado pelo aparato repreensivo. A 2ª prisão ocorreu em novembro de 1969 e as investigações levaram à Dona Therezinha, que foi conduzida no mês seguinte ao DOPS-Departamento de Ordem Política e Social para interrogatório e logo liberada. Mas ficou enquadrada na Lei de Segurança Nacional.

Em 11/2/1970 recebeu a visita dos policiais da OBAN-Operação Bandeirantes em sua casa. Para preservar o marido e os filhos, assumiu o papel de dona de casa cordata e inofensiva, inclusive oferecendo-lhes café. Mas não houve jeito, foi levada para a cadeia na Rua Tutóia, onde passou 5 dias ouvindo gritos dos presos torturados, mais uma semana no DOPS e em seguida levada para o presídio Tiradentes, onde passou mais 6 meses e conviveu com a então guerrilheira Dilma Rousseff. Em 1975, declarado Ano Internacional da Mulher, aproveitou para criar o MFPA-Movimento Feminino pela Anistia, unindo-se à luta pela redemocratização do Pais. Foi um passo decisivo para o movimento, com a morte do jornalista Vladimir Herzog e a primeira grande manifestação popular de protesto, em São Paulo. No mesmo ano lançou o manifesto do MFPA, conseguindo 16 mil assinaturas de apoio e empenhou-se nas denúncias de presos políticos e torturas, que eram negadas pela ditadura.

Em seguida foram formados os Comitês Femininos pela Anistia nas principais cidades do País. Era um movimento legalizado com estatuto e registro em cartório, constituído por mulheres de classe média, que fazia oposição “por dentro” do regime, alertando-o sobre sua própria justificativa inicial: preservar a democracia, que agora estava ameaçada pelo totalitarismo. Em 1978 o movimento foi ampliado transformando-se no CBA-Comitê Brasileiro pela Anistia com apoio da OAB-Ordem dos Advogados do Brasil. A reivindicação passou a ser anistia ampla, geral e irrestrita. Em março, com a visita do presidente dos EUA Jimmy Carter a Brasília, ela conseguiu driblar a segurança e entregou uma carta a Rosalyn Carter, em nome das mulheres brasileiras, denunciando as prisões arbitrárias, a tortura e o pedido de anistia. Com a promulgação da “Lei da Anistia”, em 1979, ela passou a trabalhar ao lado de Leonel Brizola na criação do PDT-Partido Democrático Trabalhista, quando Brizola perdeu a sigla PTB para Ivete Vargas. Dirigiu o núcleo do PDT em São Paulo até 2002, aos 80 anos.

Considerada comunista pelos órgãos de segurança e feminista pela imprensa, ela mesma declarou nunca ter aderido a nenhum desses movimentos. Não foi à toa que deu o nome “feminino” ao movimento. Numa entrevista em 2006 disse: “O primeiro confronto que eu tive não foi nem com os gorilas. Foi com as feministas aqui de São Paulo. Porque elas queriam se apropriar do Movimento Feminino pela Anistia. Elas diziam que a luta do MFPA era feminista. Eu digo: Não, vocês estão equivocadas. A luta do Movimento Feminino pela Anistia é uma luta de cidadania, da mulher cidadã. Não tem nada de feminista. Nós não estamos lutando por avanços. Depois cada um vai fazer o que quiser”. Junto com este posicionamento, havia o fato de não se filiar ao PT e nas eleições presidenciais de 2010, que elegeu Dilma Rousseff, ela foi a 5ª pessoa a assinar o “Manifesto pela Defesa da Democracia”, lançado por intelectuais e políticos contrários ao PT. Por não participar do hegemônico partido da esquerda na época, seu nome ficou meio apagado no espectro politico nacional.

Devido a tal opção foi pela esquerda petista de “ultrapassada”, “burguesona” e até “folclórica”. Assim, foi excluída das mais importantes coletâneas memorialísticas de personagens na luta pela anistia. Felizmente não deixou que essa exclusão apagasse seu nome da História e deixou registrada sua luta no livro Anistia: semente da liberdade, uma coletânea de entrevistas, publicado em 1979, pela Editora Salesianas. Mais tarde outros pesquisadores cuidaram de reafirmar sua trajetória política. Em 2012, o jornalista Paulo Moreira Leite lançou o livro A mulher que era o general da casa: histórias da resistência civil à ditadura, pela editora Arquipélago. Perguntado porque escreveu o livro, a resposta foi sucinta: “Therezinha Zerbini merece ser lembrada pelo papel que desempenhou na resistência civil ao golpe. (…) É bom saber que, em plena ditadura, uma senhora de traços ainda belos, dois filhos para cuidar, assumiu seu lugar em nossa história e foi capaz até de vender uma joia de família para pagar as despesas de uma viagem internacional onde defendeu a anistia aos presos políticos brasileiros”.

Em 2014 recebeu uma homenagem da Prefeitura de São Paulo por sua luta contra a ditadura. Foi a última homenagem que recebeu em vida, vindo a falecer em 14/3/2015. Pouco depois a homenagem foi concretizada com seu nome dado a um viaduto na zona central de São Paulo, em substituição ao nome “31 de Março”, que homenageava o Golpe Militar de 1964.

Clique aqui para ver vídeo de entrevista com Therezinha Zerbini

11 pensou em “AS BRASILEIRAS: Therezinha Zerbini

  1. Caro colunista

    Tenho apreciado suas minibiografias e reparei que a vida de Dona Therezinha inicia aos 23 anos, em 1951 quando casou com o general. E antes? Estudou onde? O que fez da vida até aí?

    • Caro Sanguinete

      Suas interrogações são minhas também. Não tive acesso à uma biografia mais completa e na Internet não encontrei referências ao período anterior a 1951. Creio, mas posso estar enganado que a falta destes dados biográficos pode estar ligado ao fato de ter sido relegada pelos pesquisadores da esquerda predominante na época .
      Como disse o Padre José Paulo logo abaixo minhas “mal traçadas linhas” não pode abarcar a primeira fase de sua vida. .

    • Padre José Paulo

      Gratíssimo por mais este estímulo. Reconheço que as linhas não foram bem traçadas, conforme a reclamação do leitor Sanguinete.
      A única explicação que posso dar foi a pressa em publicar a minibiografia diante dos tempos difíceis que atravessamos e da falta de nomes que possam espelhar melhor nossa história recente. Faltou uma melhor explanação da vida de nosso ilustre biografada. Espero que este breve relato se constitua noutro estímulo para a realização de uma melhor biografia.

  2. Caro Domingos, a história real nos mostra que o movimento revolucionário de 64 não foi um “golpe militar” e sim um Contra Golpe, pois se não fosse este, hoje estaríamos em um Regime Comunista ao estilo cubano.

    Não sei qual eram as intenções do General Zerbini e sua esposa, no entanto está claro que eles estiveram do lado errado da história. Ela mesmo foi apagada pela esquerda que estaria no poder caso o Golpe Comunista prevalecesse.

    Estima-se que em todo o regime militar morreram cerca de 300 militantes comunistas engajados em uma luta armada urbana ou na selva. Sumiram algumas dezenas, porém em condições nunca verificadas, pois militantes que desertassem eram sumariamente mortos pelos companheiros.

    Em Cuba morreram 100 mil (estimativa modesta), no Chile e Argentina dezenas de milhares morreram ou desapareceram. A nossa contra revolução, À despeito de torturas (era uma guerra) e assassinatos não foi tão violenta quanto estas que citei. Olha que não falo da Rússia, China, Cambodja, que aí falaríamos de dezenas de milhões de mortos.

    Castelo Branco, este sim foi um herói nacional, a meu ver (sua história valeria uma coluna sua), não me lembro de tê-la escrito, se já o fez, peço escusas. .

    • Eis um texto muito interessante. https://ambitojuridico.com.br/edicoes/revista-74/a-tortura-no-mundo-a-eficacia-dos-direitos-humanos-posta-em-xeque/

      Uma pena que os autores “se esqueceram” de penetrar no que ocorre a prisioneiros nos regimes “democráticos” das ditaduras ou pseudoditaduras espalhadas pelo mundo (ontem e hoje).

      Quanto a Humberto de Alencar Castello Branco sigo o relator. Inclusive, por ser tão fã do Humbertão, MORO na avenida que leva seu nome em SBC.

      Abração, João!!!!!!!

      • Sancho, v. anda sumido! Não vá nos abandonar como o Goiano fez, o que foi uma pena.

        Há uma grande luta pela frente.

        Um abraço, amigo.

    • Caro João
      A História nos mostra que o sucedido em 1964 foi uma sequência de golpes. Houve golpe, contra golpe e golpe dentro do golpe com o AI-5.
      A sugestão de incluir Castelo Branco no Memorial merece consideração. Sua intenção ao assumir a presidência era arrumar a casa e voltar para o quartel o mais breve possível. Não queria que o “linha dura” Costa e Silva o sucedesse na presidência e sua preferencia era Ernesto Geisel.
      Era contra o envolvimento político de militares no governo.
      Porém com sua morte em 1967 tais posicionamentos foram por terra com o AI-5, o tal do “golpe dentro do golpe”.
      Assim foi instalada a “ditadura” no Brasil e deu no que deu.

      • Caro Brito, dê o nome que quiser, uma coisa eu nunca vou deixar de pensar; que o movimento de março de 1964 foi necessário, pois do contrário caminhávamos celeremente para uma ditadura comunista.

        Toda a sociedade conservadora clamava pela atitude que foi tomada. O Congresso, do qual Ulisses Guimarães fazia parte referendou a alteração do Governo, uma vez que a PR estava vaga.

        O que se sucedeu depois disso foram tramas internas, que levaram à morte suspeita do Marechal C. Branco num acidente de avião nos céus do Ceará, onde o outro avião sobreviveu. A guerrilha urbana e da selva se intensificou, radicalizaram os atentados terroristas e se instaurou uma guerra, onde exageros acontecem.

        Veja um paralelo com os dias de hoje: com base em um combate à pandemia, o STF deu poderes supraconstitucionais a governadores e prefeitos que estão agindo como pequenos ditadores e espancando pessoas de bem e retirando direitos fundamentais. Imagine naquela época com o combate a uma guerrilha.

        Ainda espero que faças o perfil do C. Branco, se v. puder.

        Abraço

  3. Muito bom artigo, Brito.
    Trata-se de uma merecida homenagem.
    Eu a conheci pessoalmente, no início dos anos 70.
    Lembro-me de uma ocasião quando deu uma conferência apinhada no TUCA, da PUC-SP, sempre a defender o estado de Direito, as liberdades democráticas e os direitos humanos. Presentes também inúmeros agentes da ditadura à paisana e oficiais do exército, em uniforme, para fins de intimidação. Ela não arredou pé de seus princípios. Foi uma fortaleza moral.
    O Brasil ainda lhe deve justiça.
    Abraços e parabéns,

  4. Grato, Durval

    Eu também a conheci numa reunião, junto com o jornalista Marcos Faerman, na época em que organizávamos o PDT. Realmente foi uma mulher de fibra

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