Mesmo sendo tão alegre Tenho cotas de tristeza Não tenho a senha da mágica Que me garanta a certeza Que ares de felicidade Possam vir sem tempestade Soprando apenas nobreza.
Entre tristeza e alegria Vou labutando na lida Jamais ficarei amarga Os versos me dão guarida As estações que se alternam Acordam sonhos que hibernam, E dão luz a minha vida.
E se hoje o vento leste Que chega desatinado Resolver jogar por terra O meu castelo encantado Sem ligar pra insensatez Desenho tudo outra vez Refaço o sonho dourado.
De poeta e de louca Eu tenho minha quantia Tem horas que jogo pedra Noutras faço poesia Quando chega o aperreio Que fico de saco cheio Minha razão avaria.
Não sou mulher de motim De bando também não sou Penso com minha cabeça Seguir magote não vou Não sou mulher melindrada O papel da vitimada Minha garra dispensou.
Não compro briga dos outros Pra ficar em evidência Por favor não me acumule Tenho pouca paciência Pois quando o caso é comigo Não meto nenhum amigo Tomo logo providência
Nunca gostei de cobranças Não cobro amor a ninguém E para ser bem sincera Nem amizade também Sentimento é conquistado Jamais será fabricado Só se dá quando se tem.
Eu só conto minha história Porque tenho o que dizer E se você quer saber Tenho tudo na memória Agitada trajetória Foi a minha e bem vivida Sempre fui muito atrevida Não deixei nada escapar Quem não tem o que contar Que sentido tem a vida?
Atrás do morro do pico Aponta o sol radiante A neblina derretendo Presencio a todo instante A beleza do horizonte O raio do sol no monte Ilumina o meu semblante.
Do beiral do meu alpendre A cambaxirra cantou No pé de jacatirão O bem-te-vi se assanhou O gavião sorrateiro Abre as asas no coqueiro Vendo que o dia raiou.
Redes de aranhas tecidas Presas no arame farpado Trazendo beleza as cercas Esse trabalho rendado Só vendo quanta beleza Cenário da natureza Que é por Deus elaborado.
O canto da Seriema Ecoa ao amanhecer Despertador natural Canta mesmo pra valer É ave que faz zoada Parece até gargalhada Pois canta sem se conter.
Canários se reproduzem Eu vejo o bando passar Os melros sempre em grupo Encantam com seu cantar E no maior zum, zum, zum Um magote de Anum Balburdia faz ao voar.
Quando chega o fim do dia Volta pro ninho a trocal, E a garça voa em bando Num belo show, sem igual O sol desmaia cansado Anunciando alquebrado De cada dia o final.
Nova fauna, nova flora Eu vejo aqui no Sudeste O verde é permanente Diferente do Nordeste Ganho mais conhecimento Mas tenho meu pensamento Na minha vidinha agreste.
Já fui boa amazona Gostava de cavalgar Tinha um cavalo baixeiro Elegante no trotar Hoje não monto mais nada Vivo de crina abaixada E nem me atrevo a trepar.
Bastinha Job
Eu aprendi a trepar Não escorrego nem caio Me trepo até em jumento Carregado de balaio Aprendi lá no sertão Monto sem cair no chão Sem precisar de ensaio.
Dalinha Catunda
Tenho certeza que caio MINHA querida Dalinha A velhice é atestado Dessa invalidez só minha: Nas pernas não me sustento Não trepo nem em jumento Nisso você é rainha!
Bastinha Job
A idade não me aporrinha Cansaço inda não bateu Eu não vou cruzar as pernas Monto um baio que é só meu Meu sonho não é quimera Renasce na primavera Meu gosto não pereceu.
O velho trem da saudade Resolveu me visitar Na bagagem a lembrança É tanta, chega a pesar Abro a porta do vagão E deixo a recordação Pelos trilhos me guiar.
Êta saudade danada Que bateu, mas foi de mim Menina moça levada Batom da cor de carmim Faceira e desaforada Pela vida apaixonada Como eu gostava de mim.
Nas tertúlias da cidade Era a primeira a chegar Pra “tirar uma fornada” Com quem soubesse dançar Dançava bem um brecado Um bolero apaixonado E sem “macaco botar.”
Short curto, minissaia Era assim que eu me vestia Minha mãe era moderna E para minha alegria Gostava de costurar E a gente podia usar A roupa que bem queria.
Passear de bicicleta Era outra diversão Cidade do interior Ipueiras, meu sertão Banhos de açude e de rio Quando recordo sorrio Fui feliz em meu rincão.
Passei por cima de tudo Pra viver em liberdade Desdenhei até das leis Da nossa sociedade Liberta da hipocrisia E sem precisar de guia Vivi só minha verdade.
A mulher no seu trajeto Marcou bem sua conduta Abraçando profissões Nunca fugiu da labuta Porém muito consciente Ela sempre é presente Na base de cada luta.
Onde o progresso era lerdo Laborava sua mão Exercendo cada ofício Usando a intuição Mesmo sem ter faculdade Serviu a sociedade Sendo informal em ação.
Todo seu conhecimento É dote matriarcal Aprendeu fazer canteiro Com erva medicinal E lá nos tempos de então Servia a população Com plantas do seu quintal
Onde não havia médico Raizeira sempre tinha Mostrando conhecimento E os saberes que detinha Pra quem não tinha dinheiro O remédio era caseiro E não faltava mezinha.
Folhas para chás e emplastro Era comum ter na feira Como hortelã e mastruz Arruda, malva e cidreira Também raízes sortidas Que eram sempre vendidas Através da raizeira.
De poeta e de louca Eu tenho minha quantia Tem horas que jogo pedra Noutras faço poesia Quando chega o aperreio Que fico de saco cheio Minha razão avaria.
Não sou mulher de motim De bando também não sou Penso com minha cabeça Seguir magote não vou Não sou mulher melindrada O papel da vitimada Minha garra dispensou.
Não compro briga dos outros Pra ficar em evidência Por favor não me acumule Tenho pouca paciência Pois quando o caso é comigo Não meto nenhum amigo Tomo logo providência
Nunca gostei de cobranças Não cobro amor a ninguém E para ser bem sincera Nem amizade também Sentimento é conquistado Jamais será fabricado Só se dá quando se tem.