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SAM PECKINPAH – O POETA DA VIOLÊNCIA

Peckinpah nos bastidores das filmagens de Pat Garrett & Billy the Kid

Sam Peckinpah sempre foi um diretor polêmico desde seus primeiros filmes The Deadly Companions, traduzido no Brasil por Parceiros da Morte (1961); Ride The High Country, traduzido no Brasil para Pistoleiros do Entardecer (1962); Major Dundee, traduzido no Brasil para Juramento de Vingança (1965), dentre outras obras-primas da sua filmografia.

Pat Garrett & Billy the Kid (1973), como outros filmes de Peckinpah, foi assolado por problemas. A produção do filme ficou conhecida pelas batalhas nos bastidores entre Peckinpah e os chefões do estúdio Metro-Goldwyn-Mayer. Devido às muitas confusões, logo após o término das filmagens, o diretor perdeu o controle sobre o longa e o corte e a edição foram assumidos inteiramente pelo estúdio. O filme foi substancialmente reeditado, resultando em uma versão truncada lançada nos cinemas e amplamente rejeitada pelo elenco, pela equipe técnica e pelo próprio diretor. Esta versão também foi bastante criticada pelo público. A “versão prévia” de Peckinpah (também conhecida como versão do diretor), só foi lançada em home vídeo 15 anos depois, em 1988. Esta, levou a uma reavaliação do filme, com muitos críticos aclamando-o como um clássico maltratado e um dos melhores filmes da época.

A começar por James Coburn que aceitou trabalhar no filme, porque queria interpretar o legendário xerife Garrett. Era para ser dirigido por Monte Hellman, que alcançara êxito com Two-Lane Blacktop. Quando Peckinpah foi chamado para a direção, sua intenção era transformar a história num fecho da revisão do Velho Oeste que ele havia começado em Ride the High Country e continuado em The Wild Bunch.

Peckinpah reescreveu o roteiro de Wurlitzer, alterando a relação de Billy e Garrett, o que abalou o escritor. Peckinpah queria Bo Hopkins para o papel de Billy, mas acabou acertando com o cantor de música country Kris Kristofferson (sem barba). Kris trouxe para o elenco sua então esposa Rita Coolidge e o cantor Bob Dylan.

Peckinpah procurou homenagear atores lendários do gênero western, contratando para o filme Chill Wills, Katy Jurado, Jack Elam, Slim Pickens e Paul Fix. Jason Robards, que trabalhou com o diretor em seu conturbado filme de 1970, The Ballad of Cable Hogue, também fez uma pequena ponta.

O filme foi rodado em Durango, México, por pressão dos produtores. As dificuldades da realização e montagem acabaram por prejudicar o resultado final, e Peckinpah não obteve o retorno do público e da crítica que merecia. Nos últimos anos foram lançadas versões mais próximas do que o diretor desejava, fazendo com que o filme fosse valorizado.

Peckinpah consagrou-se como um dos mais vigorosos e hábeis cineastas estadunidenses pela utilização estética da violência e da brutalidade na maioria das suas obras. Ele desenvolveu um cinema cheio de realismo, onde a característica principal não era a violência que os filmes continham e sim a forma como ele a manipulava em função de seus personagens.

Encantou-se jovem (59), mas deixou um legado para a posteridade.

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PAT GARRETT AND BILLY THE KID (1973)

Para Altamir Pinheiros

Pat Garrett e Billy The Kid é um faroeste clássico, sem maquiagem, do Poeta da Violência, Sam Peckinpah, meio desconhecido dos aficionados do western raiz, mas que deixou sua marca pela canção de duas estrofes e o refrão, escrita na época pelo maior músico e compositor do Século XX, Byb Dylan, para fazer parte da trilha sonora: Knocking on Heavens Door.

A começar pelo elenco, Jemes Coburn (Patt Garrett), Kris Kristofferson (Willian Bonney), Bob Dylan (Elias), Jason Robards (Gov. Lew Wall), Rudy Wurtitzer) e Katy Jurado (Mrs. Baker), o Poeta da Violência imprime seu ritmo alucinógeno nas cenas de combate sem deixar margem para que outros cineastas o substituam. Kris Kristofferson foi quem deu a ideia a Dylan para escrever a canção para o filme, que se tornou um clássico do cantor e compositor.

Knockin’ on Heaven’s Door, o inesperado sucesso de Bob Dylan, completa 50 anos, e tornou-se sucesso no mundo todo.

Segundo o crítico musical José Teles, no seu site oficial TELESTOQUES, o livro Bob Dylan – The Lyrics 1961 -2012 reúne as letras que Dylan compôs durante 51 anos, um calhamaço com 740 páginas. Uma produção prodigiosa, com dezenas de obras-primas, que o levaram a ganhar um Nobel de Literatura em 2016. No entanto, uma das canções mais simples, despretensiosas (duas estrofes e o refrão), escrita para ilustrar uma cena do filme Pat Garrett e Billy The Kid, tornou-se a mais conhecida do compositor mundo afora. A genialidade é o tutano da simplicidade.

Cantada por estrelas como Eric Clapton, Guns ‘n’ Roses, The Byrds, Harry Styles, Elvis Costello, Zé Ramalho. Há até uma versão de John Lennon, num CD da série The Lost Lennon Tapes. É obrigatória no repertório de bandas que fazem covers de rock setentista. Em 2004, num desses listões da Rolling Stone, que frequentemente compila canções mais isso ou aquilo, no das 500 Melhores Músicas de Todos os Tempos, a de Dylan figura na posição 190.

A estas alturas fica óbvio que a canção é Knockin’ on Heaven’s Doors, que completou 50 anos 2023. Foi escrita num dos anos menos prolíficos do compulsivo Bob Dylan. Em 1973, ele só lançou um disco de estúdio, com a trilha do filme de Sam Peckinpah, Pat Garrett and Billy The Kid, com James Coburn, e Kris Kristofferson. Este último foi quem convenceu Dylan a compor as músicas do filme, inclusive “Knockin’ on Heaven’s Doors”. Dylan acabou fazendo um papel coadjuvante, um sujeito chamado apenas de “Alias”, ou “Vulgo”, que mal fala nas cenas em que aparece (a foto é um still de Dylan como Alias)

Feito numa época em que o western estava em baixa, Pat Garrett and Billy the Kid não foi sucesso de bilheteria, nem de crítica. Tampouco se esperava que a música tivesse vida própria fora das telas. Lançada dois meses depois da estreia do filme, Knockin on Heaven’s Door iniciou sua carreira de sucesso. Seria a música mais regravada de Bob Dylan nos anos 70. Foi gravada na Cidade do México, com participação de Roger McGuinn (The Byrds), no violão, e Jim Keltner na bateria, Terry Paul, no baixo, e Carl Fortina, no Harmonium, e ainda um coral feminino.

Pat Garrett & Billy the Kid Official Trailer #1 – James Coburn Movie (1973) HD

Pat Garrett and Billy the Kid Knocking on heavens door

Bob Dylan – Knockin’ on Heaven’s Door (Live)

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FRANCISCO DE ASSIS – O MANÍACO DO PARQUE

Francisco de Assis, à época da prisão, em 1989

O filme de título “Maníaco do Parque”, que está sendo rodado em São Paulo e será lançado em 2024, contará a história do serial killer Francisco de Assis Pereira (1967), o motoboy psicopata vivido na tela pelo ator (Silvero Pereira), foi condenado por um júri popular a mais de 268 anos de prisão por atacar mais de vinte e uma mulheres, tendo assassinado dez delas e escondido seus corpos no Parque do Estado, em São Paulo.

A história do assassino em série e os detalhes da sua psicopatia são revelados por Elena (Giovanna Grigio), uma repórter iniciante que enxerga na investigação dos crimes cometidos pelo maníaco a grande chance de alavancar sua carreira. Enquanto Francisco de Assis segue vivendo livre e atacando mulheres, sua fama na mídia sensacionalista cresce vertiginosamente, gerando terror na capital paulista.

Tendo suas primeiras cenas gravadas no parque de São Paulo, o filme o “Maníaco do Parque,” está sob a direção do competente diretor Maurício Eça, produzido por Marcelo Agra e roteiro de L.G. Bryão, Thaís Nunes, com estréia prevista para 2024, conta a história do motoboy, o serial killer Francisco de Assis, matador de mais de dez mulheres no parque da zona sudeste de São Paulo nos anos noventa e abusado de mais de vinte e uma delas. Isso é o que está comprovado nos inquéritos policiais.

A história do Maníaco do Parque é assustadora, aterrorizante, exigindo uma abordagem séria do diretor que a conduz à telona. Filmar a história do Maníaco do Parque com seriedade, fugindo dos clichês dos filmes brasileiros, é saber decifrar com seriedade o poder de persuasão do maníaco para atrair suas vítimas para dentro do Parque com promessas vãs. “Me aproximava das meninas como um leão se aproxima da presa. Eu era um canibal. Jogava tudo o que eu podia para conquistá-la e levá-la para o parque, onde eu acabava matando e quase comendo a carne. Eu tinha uma necessidade louca de mulher, de comê-la, de fazê-la sentir dor. Eu pensava em mulher 24 horas por dia.”

O famoso motoboy recebia várias cartas de admiradoras na prisão. Alguns trechos desses documentos]:

“Eu não sei o que fazer para te distrair. Mas eu tenho uma ideia: primeiro quero dizer que te desejo todas as noites. É muito bom. Te acho gostoso, meu fogoso. Você está juntinho comigo, dentro do meu coração. Depois que chego em casa, queria você de corpo e alma, te amando. Te quero de qualquer jeito. Eu te amo do fundo do meu coração. Não perca a esperança, acredite em Deus, porque algum dia a gente vai se encontrar. Sei de seu comportamento doentio, por isso quero que fique calmo… ”

“Por enquanto, nossos beijos são assim. Mas quero te beijar de verdade. Acho que tens saudades. Eu te amo, te amo, te amo etc., te desejo, te quero de corpo e alma. E me perdoe por tudo que estou sofrendo. Sabe Francis, eu não me conformo, e choro. E eu preciso ser forte (…)”

“Quero te dizer que estou morrendo de saudade, querendo você… Aih meu Deus como te desejo todas as noites. Eu durmo sozinha e querendo você aqui. Mas sei que é impossível. O certo é eu ir te ver. E como posso sentir. Que é meu?”

“Francisco, não deixe a tristeza tomar conta de você e acabar com o brilho do seu olhar. Acredite em Deus, você não está e nunca ficará sozinho. Jesus te ama, sua mãe e seu pai também e, principalmente, eu…”

“Depois que tudo aconteceu, tentei dar um fim a minha vida, mais uma coisa super interessante teve que acontecer, eu pensei muito e tive esperanças, acredite o mundo dá voltas, quando a gente menos espera algo de bom sempre acontece.”

O jornalista e roteirista Gilmar Rodrigues publicou, em 2009, o livro “Loucas de Amor: mulheres que amam serial killers e criminosos sexuais” (editora Ideias a Granel), onde tenta entender por que o Maníaco é desejado por tantas mulheres. Segundo o autor, ele ficou impressionado com as cerca de mil cartas de amor que o criminoso recebeu um mês após ser preso, ainda em 1998.

Espera-se que o diretor Maurício Eça seja honesto na transposição para a telona desse tema tão integrado e salve o cinema brasileiro das porcarias que são lançadas há de séculos.

Maníaco do Parque conta o que sente ao ver fotos de suas vítimas

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RECUPERACAO

Eu estou praticamente recuperado do acidente, mas como eu tenho artrose e artrite e a roda dianteira da moto acertou em cheio meu joelho esquerdo, o impacto não deslocou o joelho, mas provocou um inchamento que, mesmo curado, a dor da recuperação é insuportável, não deixa escrever.

Já marquei a data para começar a fisioterapia para diminuir ou acabar o inchaço.

Será na próxima semana.

Foi ótima a recuperação: muita disciplina e não ficar parado esperando a morte chegar.

Amigos da Confraria do Bem do JBF, eu tive sorte, muita sorte mesmo, não ter ficado inutilizado com fraturas ou quebra de algum membro.

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“ARRUMA UM PAU QUE TEM SOMBRA”

Posto de Saúde Terezinha Batista

Eram cinco horas da manhã de uma segunda-feira chuvosa.

Nesse dia o setor de emergência do Posto de Saúde Freira Terezinha Batista estava abarrotado de indigentes esperando atendimento, principalmente de jovens grávidas, geração Bolsa Família, programa esmola criado e ampliado no governo LULA, que tinha como lenitivo o suposto combate à pobreza, à desigualdade social e à assistência à população miserável, segundo exposição de motivos da lei 10.836, de 9 de janeiro de 2004, mas que, criminosamente, foi desviado do seu objetivo principal para dar lugar a um assistencialismo ladravaz jamais visto na história do Brasil.

Às seis horas da manhã chega ao setor de emergência uma paciente já em trabalho de parto. Os enfermeiros de plantão correm para atendê-la, mas quando se aproximam o bebê já está aos berros nas mãos da avó materna que veio acompanhada da neta na ambulância.

Mal a genitora e a avó descem do socorro, aparecem mais quatro crianças, filhos da neta, que tinham entre dois e três anos. Afora três de idade entre quatro, cinco e seis anos que haviam ficado no barraco assistidos pela irmã adolescente da genitora que, além de prenha do terceiro filho, também possuía mais dois de pais diferentes.

Arrancando os cabelos diante de tal situação e não controlando o desespero por ver tanto neto ao seu redor, a avó da genitora, uma senhora de quarenta anos, mas aparentando ter mais de sessenta, não contém a lágrima e, se dirigindo à neta, desabafa:

– Carminha, minha fia! Onde tu vai parar com tanto fio? Tu e tua irmã já tem pra mais de doze! Não é possível, fia! Tu tá pensando que o governo vai te sustentar e teus fios com essa esmola do bolsa família pra o resto da tua vida, é? Acorda pra Jesus, menina!

E continuou:

– Acaba com essa ilusão e vai arrumar um pau que tem sombra para tu descansar debaixo! Quem vive de promessa são palavras, menina! Tu precisa de um homem que cuide de tu e desses meninos, porque depois que Deus me levar, quem vai cuidar de tu e teus fios?

Desabafou a avó, soluçando, atenta a uma nova ambulância que chegava ao pátio do Posto de Saúde com mais uma filha do bolsa família com a barriga carregando trigêmeos, preste a dar à luz!

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OPPENHEIMER (2023), O FILME DO ANO

Texto escrito em parceria com Luis Antonio Tavares Portella, meu filho

Oppenheimer é um filme biográfico de suspense escrito e dirigido por Christopher Nolan. É baseado na biografia de 2005 American Prometheus, dos autores Kai Bird e Martin J. Sherwin. O filme narra a vida de J. Robert Oppenheimer, um físico teórico que foi fundamental no desenvolvimento das primeiras armas nucleares como parte do Projeto Manhattan, inaugurando assim a Era Atômica.

A trama do filme adaptará a história real de J. Robert Oppenheimer, o físico teórico norte-americano que ficou conhecido como o “pai da bomba atômica”. Ele se tornou o diretor do Laboratório de Los Alamos, chefiando a pesquisa e o desenvolvimento da arma que ajudou a encerrar a Segunda Guerra Mundial, sob o que foi secretamente chamado pelo governo de Projeto Manhattan.

Após a Guerra, ele foi nomeado como presidente do Comitê Consultivo da Comissão de Energia Atômica, onde manifestou forte oposição ao desenvolvimento da bomba de hidrogênio, sucessora da sua criação, o colocando em conflito com o também físico Edward Teller, a mente por trás da nova arma. Oppenheimer então se juntou a outros grandes cientistas que possuíam as mesmas preocupações para pressionar o governo a interromper o projeto da nova arma, já que tamanho poder de destruição era perigoso demais para a humanidade.

Durante a Guerra Fria, em 1953, foi acusado de ser comunista. Ele não foi oficialmente culpado por traição, mas perdeu acesso aos segredos militares. Após se afastar das pesquisas em armas bélicas, foi Diretor do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, onde trabalhou até se afastar para tratamento de um câncer na garganta, vindo a falecer por conta da doença em 1967.

Continuando a tradição de Nolan de preferir efeitos visuais práticos ao invés de gráficos gerados por computador (CGI), as filmagens envolveram o uso de explosivos reais para recriar o teste nuclearTrinity. Um cenário especial foi criado com gasolina, propano, pó de alumínio e magnésio para serem usados. Ao usar miniaturas para o efeito prático, o supervisor de efeitos especiais do filme, Scott R. Fisher, referiu-se a elas como “grande-aturas”, já que a equipe tentou tornar os modelos os maiores possíveis. Para parecer que tinham tamanho natural, a equipe usou a técnica de perspectiva forçada. Além disso, uma cidade no estilo dos anos 1940 também foi construída do zero para o filme. Imagens das interações entre átomos, moléculas e ondas de energia, bem como a representação de estrelas, buracos negros e supernovas, também foram obtidas por meio de métodos práticos. Nolan afirma que o filme não contém efeitos gerados por computador, dando um charme especial à sua produção.

Oppenheimer torna-se assim mais um fruto da mente ousada e criativa de Christopher Nolan, mostrando porque é considerado um dos principais cineastas do século 21.

a) OPPENHEIMER – Novo Trailer (Universal Studios) – HD

b) “Oppenheimer”: a ópera atômica de Chris Nolan – comentários de Isabela Boscov

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TUDO NOS TRINQUES

Recebi pelos Correios, gratuito, postado pelo Mestre Berto a pedido do autor, o excelente livro Os Fuxicos do Senhor Engenheiro – Histórias para filhos e netos, do extraordinário colunista do JBF Magnovaldo Bezerra, ao qual agradeço de coração pelos belíssimos relatos históricos.

São histórias que Monteiro Lobato assinaria embaixo sem pestanejar pela leveza dos textos concisos e despretensiosos, mas genialmente bem escritos, o que fazem jus à inteligência do escriba de sorriso Big Smalle.

No dia 07 de dezembro de 2018, tive o enorme prazer de ter recebido, também gratuito, o excelente livro Cenas do Caminho, publicado pela Editora Bagaço, remetido pela magnífica cronista do JBF Violante Pimentel, carinhosamente apelidada de Vivi pelo napoleônico das letras Sancho Pança.

No prefácio do livro há uma frase genial pensada pelo Editor do JBF, Luiz Berto, que resume a beleza do livro:

“Violante é um exemplo perfeito de escritora que se torna Universal quando se ocupa de sua Aldeia.”

Magnovaldo Santos, bem como Violante Pimentel, já estão eternizados a partir das páginas dessa Gazeta Escrota, editada pelo genial BERTO de QUITERINHA.

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ERA UMA VEZ NO OESTE (1968) – UM MONUMENTO À SÉTIMA ARTE

‘Once Upon a Time In The West’ (1968), do magno diretor Sergio Leone, é uma obra de arte superlativa que, de qualquer ângulo que seja analisada, sua superlatividade será inalcançada.’

“Obra máxima de um dos maiores diretores que já existiram no cinema oeste mundial, Era Uma Vez No Oeste, se estabeleceu como um festival de imagens belíssimas que narram uma história maravilhosa e emblemática, servindo de metáfora para o começo da modernização e o fim do mundo mítico do Velho Oeste. É um canto de despedida de personagens clássicos e de um estilo de vida característico de uma época distinta da sociedade americana. Nas palavras de um personagem em certo momento do filme, ‘é algo que tem a ver com a morte.’

Um irlandês visionário compra uma propriedade inóspita afastada da cidade em um local que viria a ser no futuro a rota da estrada de ferro. Em virtude do lugar estratégico que se instalou, ele e toda sua família são assassinados por um matador de aluguel a mando de um magnata ferroviário. O que ninguém sabia é que o homem assassinado havia se casado há pouco tempo com uma prostituta de New Orleans que herdou tudo. Acabava de chegar à cidade e passa a ser defendida por um misterioso homem solitário e um fora da lei com sua gangue que também, queria vingança contra o matador.

Com sua costumeira habilidade e perfeccionismo para construir cenas antológicas, Leone inicia o filme mostrando uma velha estação, protegida por um senhor de idade e uma índia. A trilha sonora sempre competente de Ennio Morricone cede lugar aqui ao som de um moinho de vento que, auxiliado pela lentidão da construção da cena, ajuda a criar um clima crescente e insuportável de tensão. As gotas de água caindo no chapéu de um pistoleiro, a mosca voando no rosto de outro e o som insuportável do telégrafo só aumentam o clima de expectativa. Quando ouvimos o barulho do trem chegando à estação já imaginamos o que está para acontecer.

A excelente introdução do filme serve também para introduzir o personagem mais enigmático da narrativa: Harmônica (Charles Bronson). Sua primeira aparição já deixa bem claro para o espectador que se trata de alguém extremamente perigoso. Na cena seguinte, vemos a família que servirá de base para toda a trama e mais uma vez os momentos silenciosos falam mais que as palavras. Somente os olhares daquelas pessoas já nos indicam que algo anormal se aproxima. O que de fato acontece minutos depois.

Temos então outra excelente introdução de personagem: O pistoleiro assassino. Observe como a câmera prolonga ao máximo o momento em que o rosto de Frank (Henry Fonda) é revelado, criando uma enorme expectativa na plateia (movimento também utilizado em outra cena do filme, quando Jill abre uma porta). Além de ter muito estilo, esta introdução tem também um contexto histórico. Em uma época sem internet, as pessoas não sabiam quem faria qual papel nos filmes, e Fonda era um ator marcado por fazer papel de mocinho.

Ao apresentá-lo em cena como o cruel assassino, Leone provocou um enorme choque na plateia. A cena termina com uma elipse maravilhosa que corta do som de um tiro para o som dos freios de um trem. Estes são apenas dois exemplos de mais uma espetacular direção de Sergio Leone. Ele alterna closes muito próximos dos rostos dos atores, que são capazes de revelar cada cicatriz, com planos gerais distantes que exploram muito bem as maravilhosas paisagens da região. Além da condução perfeita da narrativa, Leone abusa também da criação de planos e movimentos de câmera cheios de estilo. Em duas oportunidades Jill McBain (Claudia Cardinale) chega a ambientes desconhecidos por ela, e o visual da cena já nos faz sentir isso. Observe como o foco se concentra no rosto da atriz e todo o ambiente atrás dela fica fora de foco. O diretor cria um contraste interessante com o ambiente em que ela está chegando, sempre filmado através de um plano geral e com foco em toda a cena, demonstrando o quanto ela está deslocada e intimidada, ao contrário das outras pessoas que já estavam ali. Leone cria ainda muitos momentos de tensão, como na cena em que a algema presa ao braço de Cheyenne (Jason Robards) é cortada.

O diretor italiano demonstra também seu talento na direção de atores, extraindo performances de alto nível. O grande destaque fica para Charles Bronson como o frio e determinado Harmônica, sempre com a expressão séria e focado em seu objetivo. Suas introduções em cena com o som da gaita anunciando sua presença são maravilhosas. Henry Fonda também está muito bem como o expressivo vilão Frank. Seu olhar penetrante caiu como uma luva no personagem, que conta ainda com um jeito lento de andar, característico de quem é extremamente autoconfiante. O ponto alto da grande atuação de Jason Robards são os momentos de humor. Cheyenne é um vilão divertido e ambíguo, e Robards transmite essa idéia em muitas cenas com extrema habilidade. Sua conversa com Jill McBrain sobre a importância que tem para um trabalhador ver uma mulher linda como ela é hilária.

Ele também tem um bom desempenho dramático, como na cena em que diz para Jill McBain que ela o faz lembrar sua mãe. Sua expressão sincera é marcante e estabelece uma conexão com ela, além de conseguir respeito da parte dela. Claudia Cardinale está belíssima como Jill. Sua memorável e última cena, quando ela se mistura aos trabalhadores para lhes dar água, é também extremamente simbólica. Seu olhar penetrante fascina os outros personagens, que vão descobrindo aos poucos o poder que aquela mulher tem naquele ambiente hostil. Ela é o centro da narrativa, tudo gira ao seu redor. Interessante notar como os três homens chave da trama têm alguma relação mais intima com ela de diferentes formas.

O Harmônica é mais violento, Frank mais romântico (com a concessão dela), e Cheyenne é mais bem humorado (e abusado também). Também merece destaque a cena em que Morton (Gabriele Ferzetti) vê o quadro do mar e sente que jamais conseguirá ver o que tanto desejava, pois sabe que seu fim está próximo. Ferzetti transmite toda a angústia do personagem através do olhar triste e da respiração pausada.

O roteiro é coeso e aborda temas interessantes como a vingança e o poder do dinheiro, além de mostrar a corrupção que envolvia todo o processo de construção das ferrovias. Os deliciosos diálogos, sempre presentes nos filmes de Leone, não poderiam faltar aqui. Podemos destacar a sensacional conversa entre o Hamônica e Cheyenne dentro do bar (“Eu vi três casacos como estes na estação. Dentro dos casacos havia três homens. Dentro dos três homens, três balas.”), dois excelentes diálogos entre Jill e Cheyenne (quando ele sente que ela pensa em atacá-lo e quando ela explica porque decidiu morar no campo) e uma outra tirada sensacional que faz referência à Judas, recheada de bom humor. Temos também a seqüência em que o atendente de um bar diz que jamais gostou da idéia de morar em uma cidade grande pois prefere a vida tranqüila do campo, o que se revela uma engraçada ironia, já que aquele lugar é perigoso o bastante para não se ter uma vida tranqüila.

O filme conta também com um excelente trabalho de montagem, que permite à narrativa fluir de forma agradável e nunca arrastada. Observe as excelentes transições de planos, como na ocasião em que Cheyenne pergunta à Jill McBain se o café dela é bom. A resposta “nada mal” vem em outra cena, com Morton fazendo uma outra pergunta a Frank. Tonino Delli Colli colabora significativamente para a criação daquele universo através de sua excelente direção de fotografia. As cores que predominam, como preto, bege e marrom, tornam ainda mais árido o ambiente.

Ele também conseguiu tornar imperceptível a diferença de cor na poeira das locações, que ficavam em lugares totalmente diferentes (EUA e Espanha). Quando Jill McBain deita em sua cama muito triste pela perda do marido, a fotografia a envolve em cores pretas, numa demonstração visual da escuridão que ela está mergulhada. O belo trabalho de direção de arte cria uma cidade em construção impressionante, vista pela primeira vez em um admirável travelling de Leone, além de cuidar de todos os detalhes dos cenários, como os envelhecidos talheres e toda a mobília da casa de Jill. Os figurinos sensacionais criam todo o ambiente característico do velho oeste, com botas, casacos e cinturões, além dos belos vestidos das mulheres.

A maquiagem também é excelente, marcando aqueles rostos queimados pelo sol com perfeição. Ennio Morricone dá mais um show, compondo uma trilha sonora sensacional. Cada personagem tem sua própria e bem característica trilha. Jill tem um tema delicado e arrebatador, com uma melodia lenta e uma voz aguda. Frank tem um tema tenso, com notas pesadas e longas. O tema de Cheyenne é alegre, com notas rápidas e divertidas. Já o Hamônica tem um tema sombrio, misterioso, com notas contínuas e pesadas misturadas ao som de uma gaita estridente.

Como não poderia deixar de ser em um filme de Sergio Leone, o esperado duelo final é conduzido lentamente e com enorme brilhantismo. A câmera alterna planos gerais com closes no rosto dos atores, ao som de uma trilha primorosa que mistura os temas dos dois personagens. A movimentação é orquestrada, e eles vão se posicionando para o duelo lentamente.

Os olhares fixos demonstram a tensão daquele momento e o auge acontece através de um close extraordinário que praticamente entra nos olhos do Harmônica, seguido de um flash-back que explica porque ele evitou a morte de Frank antes. O prazer da vingança era o seu maior desejo. Observe que após o duelo, quando Frank é baleado, ele está numa posição de comando no plano, com a câmera filmando-o de baixo pra cima. Quando ele cai, imediatamente o Harmônica assume esta posição, tomando assim o controle da situação. Frank, agora derrotado, passa a ser filmado de cima para baixo, e seu último plano, com a gaita na boca, remete visualmente ao motivo de sua perseguição e morte. Toda esta composição visual característica de Leone demonstra sua enorme habilidade como diretor. Os elementos característicos dos filmes dirigidos por Sergio Leone são utilizados de forma mais perfeita do que nunca nesta produção. O clima tenso e a sensação sempre presente de que aquelas pessoas dificilmente sobreviverão mantém o espectador sempre atento à narrativa.

Extremamente bem fotografado e colecionando cenas inesquecíveis, Era Uma Vez No Oeste é uma fábula lenta e triste sobre o fim de uma era e o início de outra na sociedade americana. À chegada da ferrovia trouxe o progresso para aquelas pessoas, mas trouxe também o fim de um período memorável, recheado de personagens inesquecíveis. Todos estes elementos fazem do filme uma obra-prima marcante e eterna.”

ERA UMA VEZ NO OESTE – TRAILER

ERA UMA VEZ NO OESTE 10 coisas que você NÃO SABIA! RESUMO e Curiosidades

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ALAN – O INCORRIGÍVEL PAVIO CURTO

Prédio das Lojas Mesbla da Avenida Conde da Boa Vista

Ano de 1988, auge das Lojas de Departamentos Mesbla S/A.

Naquela época a Loja incorporava no seu prédio sede, situado na Avenida Conde da Boa Vista, Recife-PE, a parte de venda a varejo, o setor de crediário e cobrança, este nos fundos da loja sede, no primeiro andar.

Nessa época houve uma fusão na cobrança e crediário, com a implantação do sistema computadorizado. Os clientes faziam as compras e os pagamentos dos carnês eram confeccionados no Rio de Janeiro, na sede matriz. Por causa dessa unificação computadorizada havia muitos erros nas baixas dos pagamentos dos carnês e a maioria dos clientes recebiam carta de cobrança, mesmo já tendo pagado seus carnês, sem contar que eram “negativado no SPC por ausência de pagamento dos carnês constatado…

Nessa época o balcão de cobrança da loja fervilhava de gente indignada, reclamando da não chegada dos carnês e extratos e de suas negativações indevidas no SPC. Devido ao grande contingente de clientes reclamando todos os dias na loja, esta teve de recrutar vários atendentes e treiná-los para atender no balcão, que a cada dia se entupia de cliente reclamando da incompetência da loja em não dar baixa nos pagamentos no sistema e, com isso, impedir a inclusão de seus nomes no Serviço de Proteção ao Crédito.

Dentre esses contratados a loja recrutou um baxim da ureia de abano e pavio curto, curtíssimo, chamado Alan que, após os treinamentos fora escalado imediatamente para o setor de cobrança, linha de frente, atender o público que chegava à cobrança com o nervo a flor da pele, virados no “pentei de barrão.”
Na estreia, Alan já sentiu na pele que não tinha vocação nem paciência para atender o público. O primeiro cliente que atendeu já foi trocando farpas ao ponto de quase irem às tapas na divisória do balcão. Era “um tal de mal educado praqui,” “desaforado pralá” e ninguém se entendia.

No outro dia, a história se repetia com mais intensidade: xingamentos, “fi de maria rolete praqui,” “fi de maria pacaré pracá,” com o blafáfá comendo na casa de noca, e nada dos ânimos cessarem.

Três semanas nessa pisada, Alan já estava com o bofe cheio e os nervos a flor da pele. Um dia, assim que a loja se abriu apareceu do nada uma senhora virada no prego enroscado e se dirigiu para Alan, que já tinha discutido com o cobrador de ônibus por causa de falta de troco, na viagem ao trabalho.

– Ei, mocinho. É com você mesmo que quero falar. Não fuja da raia não. Venha cá seu desaforado – instigou a cliente para Alan.

Alan, fingindo que não era com ele, se aproximou de mansinho da cliente e foi logo perguntando:

– Qué que a senhora quer?

– Eu quero que você me responda o que diabo eu devo a Mesbla para ela andar me cobrando uma prestação já paga há mil anos e ainda por cima colocado meu nome no SPC, e jogou o carnê em cima de Alan.

– Oi! – disse Alan para a cliente… É que houve algumas cobranças não computadas e a cobrança mandou cartas de cobranças…

– O senhor – prosseguiu a mulher virada no prego quente, tá com um erola, rola aí defendendo a Mesbla que não vale merda! Todos vocês são uns incompetentes, e em dedo em riste para Alan, disse:

– Eu quero falar com seu chefe porque estou sentido com senhor é um bosta que, além de não entender nada de cobrança, é um ignorante no trato com as senhoras donzelas feito eu.

– Virado no pentei de barrão, Alan respondeu a cliente:

– A senhor não sabia que a Mesbla era assim, porque foi comprar? Eu não mandei a senhora comprar, mandei?, a senhora comprou porque quis…

Como a cliente permaneceu exaltada e instigando Alan, este abriu a porta que separava o balcão para dentro do setor e disse: olhe o chefe ali. Vá lá reclame a ele porque quem já está de saco cheio sou eu! E deixou o balcão com menos de um mês de trabalho, dizendo – “o diabo é que volta para trabalhar nessa porra!” “Atender o público é FODA!” – concluiu.

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AS ESTRIPULIAS DE JOÃO PIRE

Ascendentes de João Pire

João Pire era um pretinho arrojado, taludo, entroncado. Um metro e cinqüenta, cara de bolacha, braços roliços, narigão, pescoço curto. Nunca levava desaforo para casa. Se alguém o provocasse na rua e ele não fosse com a cara do desafeto, ali mesmo o pau comia no centro. Muitas vezes ele apanhava que só a molesta do cachorro, mas não cedia e partia para cima do adversário com os dentes trincados e mordendo a língua até sangrar, igual cachorro raivoso.

Por causa desse temperamento irritadiço, João Pire nunca parava nos colégios onde estudava. Sofria de uma patologia que até hoje a psiquiatria não estudou: encrenqueiro nato! Toda hora de recreio no colégio onde estudava era palco de rinha com os colegas de turma. Só vivia sendo reprimido pela coordenação, que lhe aplicava um castigo e o deixava de molho durante três dias, mandando comunicar o ocorrido aos pais, que nunca recebiam a reclamação porque ele rasgava “a queixa” antes de chegar ao destinatário final.

De saco cheio de tantas arruaças, brigas, e sem vocação para as letras, principalmente para as ciências exatas, quando completou dezesseis anos conseguiu uns bicos de encanador e foi trabalhar cavando valeta para encanações, limpando fossa e fazendo instalações hidráulicas nas residências dos bastardos da cidade.

Tornou-se tão conhecido em pouco tempo no oficio que era requisitado por todo mundo para fazer as instalações hidráulicas das residências. Como não possuía tino administrativo fazia tudo sozinho. A agenda era cheia e ele não parava em casa. Muitas vezes se perdia no labirinto das anotações e muitos serviços eram “queimados.” Os esquecidos ficavam putos com ele, mas como sabiam da sua fama de encrenqueiro, acertava uma nova data para fazer o serviço.

Cheio da grana e já manjaleco, vestido a caráter de calça boca sino, danou-se a frequentar o baixo meretrício, na zona sul de Floresta dos Leões. Gostava principalmente de uma ala chamada West Saloon, enfeitada de retratos de cawboys do spaghetti western, onde a cafetina Zefa Pesão “guardava” as filés mignons defloradas, que os pais as expulsavam de casa por “denegrir a honra da família, mal faladas pelos noivos antes de casar.” A honra, naquelas bandas, era a lei do cabaço selado.

Apaixonado até os pneus por uma rechonchudinha dos peitos fartos, coxas grossas, sem cintura, sem pescoço, redonda como um botijão, que com ele havia dormido uma semana. Não tendo sido correspondido na cantada feita por ele a ela para irem morar juntos, João Pire, rejeitado e com o orgulho ferido, tomou uma cachaça de ficar bodejando feito bode, chegou no West Saloon virado na besta fera, altas horas da noite e com um tronco de juá e uma foice na mão, quebrou toda a prateleira, as garrafas de cachaça, os pratos, os tamboretes, as mesas, pôs todos os marmanjos para correrem e sumiu madrugada a dentro para nunca mais voltar.

No outro dia, escondido no canavial, quando soube que estava sendo procurado pelo comissário da delegacia de polícia da cidade por arruaças e ter quebrado o cabaré de Zefa Pesão, pegou o ônibus da Itapemirim e se mandou para a Capital.

Aqui chegando, se instalou logo no quartinho do inferninho do Centro, administrado pelo sociólogo das putas, Liêdo Maranhão, que lhe arranjou logo uns bicos de encanador por perceber sua habilidade na instalação hidráulica da pensão.

Não demorou muito para João Pire ficar conhecido na redondeza que não dava conta da demanda, e passou a fazer só serviços em prédios grandes, condomínios residências senhoris. Vez por outra, por ser pavio curto, arranjava uma encrenca com os administradores, o pau comia no centro, e ele abandonava o serviço sem dar satisfação, deixando todo mundo de mãos atadas às fezes.

Indicado por Liêdo Maranhão, João Pire foi fazer um conserto no edifício famoso no Centro. Lá chegando percebeu que era um caso encrencado, entupimento delicado no cano mestre dos dejetos. Avisou ao administrador que precisava que avisasse a todos os moradores para não irem aos banheiros enquanto ele estivesse consertando o cano mestre.

Crente de que depois do aviso poderia fazer o serviço tranquilo, João Pire chegou ao prédio logo cedo todo equipado: uma escada de três metros, corda para amarrar a cintura e cola. Lá chegando, descobriu onde era o entupimento, pegou a serra, serrou o cano na parte que estava entupida, e no momento que estava fazendo a limpeza correta, um adolescente filho de um dos condôminos, entrou no prédio sem ser percebido, subiu até o apartamento e com a barriga daquele jeito, entrou no sanitário, despejou um verdadeiro sarapatel de excremento e, sem saber do alerta do encanador, deu descarga e o sarapatel de excremento lambuzou a cara de João Pire.

Puto da vida com o incidente, desceu da escada todo melado de fezes e fedendo, bufando de ódio, partiu para cima do administrador, meteu-lhe os braços na fuça, quebrando-lhe a chapa e por pouco não lhe estourou os olhos. Antes de sair do prédio, quebrou as divisórias da guarita, o vidro das portas, deu de garra de suas ferramentas, pôs a escada no lombo e ganhou a rua para nunca mais voltar.

Dois anos após desse episódio bizarro para o administrador que apanhou mais do que Lou Savarese no rigue contra Mike Tyson, voltei a encontrar Liêdo Maranhão no Mercado de São José e com aquela cara de gozador nato ele me confidenciou sirrindo-se de se mijar:

– Se lembra daquele encanador pretinho da tua terra, todo metido a acochado, se dizendo mais macho do que um preá de agave, que morava naquele quarto da Rua da Concórdia? Tomou uma cachaça tão da porra, que foi dormir com o travesti Bunda de Butijão pensando que era a quenga dele. No outro dia quando acordou que viu aquele desmantelo nu na frente dele, ficou tão desmoralizado que pegou os mijados e sumiu do mapa com a cara mais deslavada do mundo com vergonha da gozação dos amigos da pensão.

Até hoje nunca se sabe o paradeiro de João Pire: Se está na Cochinchina ou se está na Serra das Russas feito bicho do mato. Ou se está na caverna da Mata Atlântica, morando com Antônio Pirocão, seu pariceiro de pensão.