CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

TUDO NOS TRINQUES

Recebi pelos Correios, gratuito, postado pelo Mestre Berto a pedido do autor, o excelente livro Os Fuxicos do Senhor Engenheiro – Histórias para filhos e netos, do extraordinário colunista do JBF Magnovaldo Bezerra, ao qual agradeço de coração pelos belíssimos relatos históricos.

São histórias que Monteiro Lobato assinaria embaixo sem pestanejar pela leveza dos textos concisos e despretensiosos, mas genialmente bem escritos, o que fazem jus à inteligência do escriba de sorriso Big Smalle.

No dia 07 de dezembro de 2018, tive o enorme prazer de ter recebido, também gratuito, o excelente livro Cenas do Caminho, publicado pela Editora Bagaço, remetido pela magnífica cronista do JBF Violante Pimentel, carinhosamente apelidada de Vivi pelo napoleônico das letras Sancho Pança.

No prefácio do livro há uma frase genial pensada pelo Editor do JBF, Luiz Berto, que resume a beleza do livro:

“Violante é um exemplo perfeito de escritora que se torna Universal quando se ocupa de sua Aldeia.”

Magnovaldo Santos, bem como Violante Pimentel, já estão eternizados a partir das páginas dessa Gazeta Escrota, editada pelo genial BERTO de QUITERINHA.

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

ERA UMA VEZ NO OESTE (1968) – UM MONUMENTO À SÉTIMA ARTE

‘Once Upon a Time In The West’ (1968), do magno diretor Sergio Leone, é uma obra de arte superlativa que, de qualquer ângulo que seja analisada, sua superlatividade será inalcançada.’

“Obra máxima de um dos maiores diretores que já existiram no cinema oeste mundial, Era Uma Vez No Oeste, se estabeleceu como um festival de imagens belíssimas que narram uma história maravilhosa e emblemática, servindo de metáfora para o começo da modernização e o fim do mundo mítico do Velho Oeste. É um canto de despedida de personagens clássicos e de um estilo de vida característico de uma época distinta da sociedade americana. Nas palavras de um personagem em certo momento do filme, ‘é algo que tem a ver com a morte.’

Um irlandês visionário compra uma propriedade inóspita afastada da cidade em um local que viria a ser no futuro a rota da estrada de ferro. Em virtude do lugar estratégico que se instalou, ele e toda sua família são assassinados por um matador de aluguel a mando de um magnata ferroviário. O que ninguém sabia é que o homem assassinado havia se casado há pouco tempo com uma prostituta de New Orleans que herdou tudo. Acabava de chegar à cidade e passa a ser defendida por um misterioso homem solitário e um fora da lei com sua gangue que também, queria vingança contra o matador.

Com sua costumeira habilidade e perfeccionismo para construir cenas antológicas, Leone inicia o filme mostrando uma velha estação, protegida por um senhor de idade e uma índia. A trilha sonora sempre competente de Ennio Morricone cede lugar aqui ao som de um moinho de vento que, auxiliado pela lentidão da construção da cena, ajuda a criar um clima crescente e insuportável de tensão. As gotas de água caindo no chapéu de um pistoleiro, a mosca voando no rosto de outro e o som insuportável do telégrafo só aumentam o clima de expectativa. Quando ouvimos o barulho do trem chegando à estação já imaginamos o que está para acontecer.

A excelente introdução do filme serve também para introduzir o personagem mais enigmático da narrativa: Harmônica (Charles Bronson). Sua primeira aparição já deixa bem claro para o espectador que se trata de alguém extremamente perigoso. Na cena seguinte, vemos a família que servirá de base para toda a trama e mais uma vez os momentos silenciosos falam mais que as palavras. Somente os olhares daquelas pessoas já nos indicam que algo anormal se aproxima. O que de fato acontece minutos depois.

Temos então outra excelente introdução de personagem: O pistoleiro assassino. Observe como a câmera prolonga ao máximo o momento em que o rosto de Frank (Henry Fonda) é revelado, criando uma enorme expectativa na plateia (movimento também utilizado em outra cena do filme, quando Jill abre uma porta). Além de ter muito estilo, esta introdução tem também um contexto histórico. Em uma época sem internet, as pessoas não sabiam quem faria qual papel nos filmes, e Fonda era um ator marcado por fazer papel de mocinho.

Ao apresentá-lo em cena como o cruel assassino, Leone provocou um enorme choque na plateia. A cena termina com uma elipse maravilhosa que corta do som de um tiro para o som dos freios de um trem. Estes são apenas dois exemplos de mais uma espetacular direção de Sergio Leone. Ele alterna closes muito próximos dos rostos dos atores, que são capazes de revelar cada cicatriz, com planos gerais distantes que exploram muito bem as maravilhosas paisagens da região. Além da condução perfeita da narrativa, Leone abusa também da criação de planos e movimentos de câmera cheios de estilo. Em duas oportunidades Jill McBain (Claudia Cardinale) chega a ambientes desconhecidos por ela, e o visual da cena já nos faz sentir isso. Observe como o foco se concentra no rosto da atriz e todo o ambiente atrás dela fica fora de foco. O diretor cria um contraste interessante com o ambiente em que ela está chegando, sempre filmado através de um plano geral e com foco em toda a cena, demonstrando o quanto ela está deslocada e intimidada, ao contrário das outras pessoas que já estavam ali. Leone cria ainda muitos momentos de tensão, como na cena em que a algema presa ao braço de Cheyenne (Jason Robards) é cortada.

O diretor italiano demonstra também seu talento na direção de atores, extraindo performances de alto nível. O grande destaque fica para Charles Bronson como o frio e determinado Harmônica, sempre com a expressão séria e focado em seu objetivo. Suas introduções em cena com o som da gaita anunciando sua presença são maravilhosas. Henry Fonda também está muito bem como o expressivo vilão Frank. Seu olhar penetrante caiu como uma luva no personagem, que conta ainda com um jeito lento de andar, característico de quem é extremamente autoconfiante. O ponto alto da grande atuação de Jason Robards são os momentos de humor. Cheyenne é um vilão divertido e ambíguo, e Robards transmite essa idéia em muitas cenas com extrema habilidade. Sua conversa com Jill McBrain sobre a importância que tem para um trabalhador ver uma mulher linda como ela é hilária.

Ele também tem um bom desempenho dramático, como na cena em que diz para Jill McBain que ela o faz lembrar sua mãe. Sua expressão sincera é marcante e estabelece uma conexão com ela, além de conseguir respeito da parte dela. Claudia Cardinale está belíssima como Jill. Sua memorável e última cena, quando ela se mistura aos trabalhadores para lhes dar água, é também extremamente simbólica. Seu olhar penetrante fascina os outros personagens, que vão descobrindo aos poucos o poder que aquela mulher tem naquele ambiente hostil. Ela é o centro da narrativa, tudo gira ao seu redor. Interessante notar como os três homens chave da trama têm alguma relação mais intima com ela de diferentes formas.

O Harmônica é mais violento, Frank mais romântico (com a concessão dela), e Cheyenne é mais bem humorado (e abusado também). Também merece destaque a cena em que Morton (Gabriele Ferzetti) vê o quadro do mar e sente que jamais conseguirá ver o que tanto desejava, pois sabe que seu fim está próximo. Ferzetti transmite toda a angústia do personagem através do olhar triste e da respiração pausada.

O roteiro é coeso e aborda temas interessantes como a vingança e o poder do dinheiro, além de mostrar a corrupção que envolvia todo o processo de construção das ferrovias. Os deliciosos diálogos, sempre presentes nos filmes de Leone, não poderiam faltar aqui. Podemos destacar a sensacional conversa entre o Hamônica e Cheyenne dentro do bar (“Eu vi três casacos como estes na estação. Dentro dos casacos havia três homens. Dentro dos três homens, três balas.”), dois excelentes diálogos entre Jill e Cheyenne (quando ele sente que ela pensa em atacá-lo e quando ela explica porque decidiu morar no campo) e uma outra tirada sensacional que faz referência à Judas, recheada de bom humor. Temos também a seqüência em que o atendente de um bar diz que jamais gostou da idéia de morar em uma cidade grande pois prefere a vida tranqüila do campo, o que se revela uma engraçada ironia, já que aquele lugar é perigoso o bastante para não se ter uma vida tranqüila.

O filme conta também com um excelente trabalho de montagem, que permite à narrativa fluir de forma agradável e nunca arrastada. Observe as excelentes transições de planos, como na ocasião em que Cheyenne pergunta à Jill McBain se o café dela é bom. A resposta “nada mal” vem em outra cena, com Morton fazendo uma outra pergunta a Frank. Tonino Delli Colli colabora significativamente para a criação daquele universo através de sua excelente direção de fotografia. As cores que predominam, como preto, bege e marrom, tornam ainda mais árido o ambiente.

Ele também conseguiu tornar imperceptível a diferença de cor na poeira das locações, que ficavam em lugares totalmente diferentes (EUA e Espanha). Quando Jill McBain deita em sua cama muito triste pela perda do marido, a fotografia a envolve em cores pretas, numa demonstração visual da escuridão que ela está mergulhada. O belo trabalho de direção de arte cria uma cidade em construção impressionante, vista pela primeira vez em um admirável travelling de Leone, além de cuidar de todos os detalhes dos cenários, como os envelhecidos talheres e toda a mobília da casa de Jill. Os figurinos sensacionais criam todo o ambiente característico do velho oeste, com botas, casacos e cinturões, além dos belos vestidos das mulheres.

A maquiagem também é excelente, marcando aqueles rostos queimados pelo sol com perfeição. Ennio Morricone dá mais um show, compondo uma trilha sonora sensacional. Cada personagem tem sua própria e bem característica trilha. Jill tem um tema delicado e arrebatador, com uma melodia lenta e uma voz aguda. Frank tem um tema tenso, com notas pesadas e longas. O tema de Cheyenne é alegre, com notas rápidas e divertidas. Já o Hamônica tem um tema sombrio, misterioso, com notas contínuas e pesadas misturadas ao som de uma gaita estridente.

Como não poderia deixar de ser em um filme de Sergio Leone, o esperado duelo final é conduzido lentamente e com enorme brilhantismo. A câmera alterna planos gerais com closes no rosto dos atores, ao som de uma trilha primorosa que mistura os temas dos dois personagens. A movimentação é orquestrada, e eles vão se posicionando para o duelo lentamente.

Os olhares fixos demonstram a tensão daquele momento e o auge acontece através de um close extraordinário que praticamente entra nos olhos do Harmônica, seguido de um flash-back que explica porque ele evitou a morte de Frank antes. O prazer da vingança era o seu maior desejo. Observe que após o duelo, quando Frank é baleado, ele está numa posição de comando no plano, com a câmera filmando-o de baixo pra cima. Quando ele cai, imediatamente o Harmônica assume esta posição, tomando assim o controle da situação. Frank, agora derrotado, passa a ser filmado de cima para baixo, e seu último plano, com a gaita na boca, remete visualmente ao motivo de sua perseguição e morte. Toda esta composição visual característica de Leone demonstra sua enorme habilidade como diretor. Os elementos característicos dos filmes dirigidos por Sergio Leone são utilizados de forma mais perfeita do que nunca nesta produção. O clima tenso e a sensação sempre presente de que aquelas pessoas dificilmente sobreviverão mantém o espectador sempre atento à narrativa.

Extremamente bem fotografado e colecionando cenas inesquecíveis, Era Uma Vez No Oeste é uma fábula lenta e triste sobre o fim de uma era e o início de outra na sociedade americana. À chegada da ferrovia trouxe o progresso para aquelas pessoas, mas trouxe também o fim de um período memorável, recheado de personagens inesquecíveis. Todos estes elementos fazem do filme uma obra-prima marcante e eterna.”

ERA UMA VEZ NO OESTE – TRAILER

ERA UMA VEZ NO OESTE 10 coisas que você NÃO SABIA! RESUMO e Curiosidades

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ALAN – O INCORRIGÍVEL PAVIO CURTO

Prédio das Lojas Mesbla da Avenida Conde da Boa Vista

Ano de 1988, auge das Lojas de Departamentos Mesbla S/A.

Naquela época a Loja incorporava no seu prédio sede, situado na Avenida Conde da Boa Vista, Recife-PE, a parte de venda a varejo, o setor de crediário e cobrança, este nos fundos da loja sede, no primeiro andar.

Nessa época houve uma fusão na cobrança e crediário, com a implantação do sistema computadorizado. Os clientes faziam as compras e os pagamentos dos carnês eram confeccionados no Rio de Janeiro, na sede matriz. Por causa dessa unificação computadorizada havia muitos erros nas baixas dos pagamentos dos carnês e a maioria dos clientes recebiam carta de cobrança, mesmo já tendo pagado seus carnês, sem contar que eram “negativado no SPC por ausência de pagamento dos carnês constatado…

Nessa época o balcão de cobrança da loja fervilhava de gente indignada, reclamando da não chegada dos carnês e extratos e de suas negativações indevidas no SPC. Devido ao grande contingente de clientes reclamando todos os dias na loja, esta teve de recrutar vários atendentes e treiná-los para atender no balcão, que a cada dia se entupia de cliente reclamando da incompetência da loja em não dar baixa nos pagamentos no sistema e, com isso, impedir a inclusão de seus nomes no Serviço de Proteção ao Crédito.

Dentre esses contratados a loja recrutou um baxim da ureia de abano e pavio curto, curtíssimo, chamado Alan que, após os treinamentos fora escalado imediatamente para o setor de cobrança, linha de frente, atender o público que chegava à cobrança com o nervo a flor da pele, virados no “pentei de barrão.”
Na estreia, Alan já sentiu na pele que não tinha vocação nem paciência para atender o público. O primeiro cliente que atendeu já foi trocando farpas ao ponto de quase irem às tapas na divisória do balcão. Era “um tal de mal educado praqui,” “desaforado pralá” e ninguém se entendia.

No outro dia, a história se repetia com mais intensidade: xingamentos, “fi de maria rolete praqui,” “fi de maria pacaré pracá,” com o blafáfá comendo na casa de noca, e nada dos ânimos cessarem.

Três semanas nessa pisada, Alan já estava com o bofe cheio e os nervos a flor da pele. Um dia, assim que a loja se abriu apareceu do nada uma senhora virada no prego enroscado e se dirigiu para Alan, que já tinha discutido com o cobrador de ônibus por causa de falta de troco, na viagem ao trabalho.

– Ei, mocinho. É com você mesmo que quero falar. Não fuja da raia não. Venha cá seu desaforado – instigou a cliente para Alan.

Alan, fingindo que não era com ele, se aproximou de mansinho da cliente e foi logo perguntando:

– Qué que a senhora quer?

– Eu quero que você me responda o que diabo eu devo a Mesbla para ela andar me cobrando uma prestação já paga há mil anos e ainda por cima colocado meu nome no SPC, e jogou o carnê em cima de Alan.

– Oi! – disse Alan para a cliente… É que houve algumas cobranças não computadas e a cobrança mandou cartas de cobranças…

– O senhor – prosseguiu a mulher virada no prego quente, tá com um erola, rola aí defendendo a Mesbla que não vale merda! Todos vocês são uns incompetentes, e em dedo em riste para Alan, disse:

– Eu quero falar com seu chefe porque estou sentido com senhor é um bosta que, além de não entender nada de cobrança, é um ignorante no trato com as senhoras donzelas feito eu.

– Virado no pentei de barrão, Alan respondeu a cliente:

– A senhor não sabia que a Mesbla era assim, porque foi comprar? Eu não mandei a senhora comprar, mandei?, a senhora comprou porque quis…

Como a cliente permaneceu exaltada e instigando Alan, este abriu a porta que separava o balcão para dentro do setor e disse: olhe o chefe ali. Vá lá reclame a ele porque quem já está de saco cheio sou eu! E deixou o balcão com menos de um mês de trabalho, dizendo – “o diabo é que volta para trabalhar nessa porra!” “Atender o público é FODA!” – concluiu.

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AS ESTRIPULIAS DE JOÃO PIRE

Ascendentes de João Pire

João Pire era um pretinho arrojado, taludo, entroncado. Um metro e cinqüenta, cara de bolacha, braços roliços, narigão, pescoço curto. Nunca levava desaforo para casa. Se alguém o provocasse na rua e ele não fosse com a cara do desafeto, ali mesmo o pau comia no centro. Muitas vezes ele apanhava que só a molesta do cachorro, mas não cedia e partia para cima do adversário com os dentes trincados e mordendo a língua até sangrar, igual cachorro raivoso.

Por causa desse temperamento irritadiço, João Pire nunca parava nos colégios onde estudava. Sofria de uma patologia que até hoje a psiquiatria não estudou: encrenqueiro nato! Toda hora de recreio no colégio onde estudava era palco de rinha com os colegas de turma. Só vivia sendo reprimido pela coordenação, que lhe aplicava um castigo e o deixava de molho durante três dias, mandando comunicar o ocorrido aos pais, que nunca recebiam a reclamação porque ele rasgava “a queixa” antes de chegar ao destinatário final.

De saco cheio de tantas arruaças, brigas, e sem vocação para as letras, principalmente para as ciências exatas, quando completou dezesseis anos conseguiu uns bicos de encanador e foi trabalhar cavando valeta para encanações, limpando fossa e fazendo instalações hidráulicas nas residências dos bastardos da cidade.

Tornou-se tão conhecido em pouco tempo no oficio que era requisitado por todo mundo para fazer as instalações hidráulicas das residências. Como não possuía tino administrativo fazia tudo sozinho. A agenda era cheia e ele não parava em casa. Muitas vezes se perdia no labirinto das anotações e muitos serviços eram “queimados.” Os esquecidos ficavam putos com ele, mas como sabiam da sua fama de encrenqueiro, acertava uma nova data para fazer o serviço.

Cheio da grana e já manjaleco, vestido a caráter de calça boca sino, danou-se a frequentar o baixo meretrício, na zona sul de Floresta dos Leões. Gostava principalmente de uma ala chamada West Saloon, enfeitada de retratos de cawboys do spaghetti western, onde a cafetina Zefa Pesão “guardava” as filés mignons defloradas, que os pais as expulsavam de casa por “denegrir a honra da família, mal faladas pelos noivos antes de casar.” A honra, naquelas bandas, era a lei do cabaço selado.

Apaixonado até os pneus por uma rechonchudinha dos peitos fartos, coxas grossas, sem cintura, sem pescoço, redonda como um botijão, que com ele havia dormido uma semana. Não tendo sido correspondido na cantada feita por ele a ela para irem morar juntos, João Pire, rejeitado e com o orgulho ferido, tomou uma cachaça de ficar bodejando feito bode, chegou no West Saloon virado na besta fera, altas horas da noite e com um tronco de juá e uma foice na mão, quebrou toda a prateleira, as garrafas de cachaça, os pratos, os tamboretes, as mesas, pôs todos os marmanjos para correrem e sumiu madrugada a dentro para nunca mais voltar.

No outro dia, escondido no canavial, quando soube que estava sendo procurado pelo comissário da delegacia de polícia da cidade por arruaças e ter quebrado o cabaré de Zefa Pesão, pegou o ônibus da Itapemirim e se mandou para a Capital.

Aqui chegando, se instalou logo no quartinho do inferninho do Centro, administrado pelo sociólogo das putas, Liêdo Maranhão, que lhe arranjou logo uns bicos de encanador por perceber sua habilidade na instalação hidráulica da pensão.

Não demorou muito para João Pire ficar conhecido na redondeza que não dava conta da demanda, e passou a fazer só serviços em prédios grandes, condomínios residências senhoris. Vez por outra, por ser pavio curto, arranjava uma encrenca com os administradores, o pau comia no centro, e ele abandonava o serviço sem dar satisfação, deixando todo mundo de mãos atadas às fezes.

Indicado por Liêdo Maranhão, João Pire foi fazer um conserto no edifício famoso no Centro. Lá chegando percebeu que era um caso encrencado, entupimento delicado no cano mestre dos dejetos. Avisou ao administrador que precisava que avisasse a todos os moradores para não irem aos banheiros enquanto ele estivesse consertando o cano mestre.

Crente de que depois do aviso poderia fazer o serviço tranquilo, João Pire chegou ao prédio logo cedo todo equipado: uma escada de três metros, corda para amarrar a cintura e cola. Lá chegando, descobriu onde era o entupimento, pegou a serra, serrou o cano na parte que estava entupida, e no momento que estava fazendo a limpeza correta, um adolescente filho de um dos condôminos, entrou no prédio sem ser percebido, subiu até o apartamento e com a barriga daquele jeito, entrou no sanitário, despejou um verdadeiro sarapatel de excremento e, sem saber do alerta do encanador, deu descarga e o sarapatel de excremento lambuzou a cara de João Pire.

Puto da vida com o incidente, desceu da escada todo melado de fezes e fedendo, bufando de ódio, partiu para cima do administrador, meteu-lhe os braços na fuça, quebrando-lhe a chapa e por pouco não lhe estourou os olhos. Antes de sair do prédio, quebrou as divisórias da guarita, o vidro das portas, deu de garra de suas ferramentas, pôs a escada no lombo e ganhou a rua para nunca mais voltar.

Dois anos após desse episódio bizarro para o administrador que apanhou mais do que Lou Savarese no rigue contra Mike Tyson, voltei a encontrar Liêdo Maranhão no Mercado de São José e com aquela cara de gozador nato ele me confidenciou sirrindo-se de se mijar:

– Se lembra daquele encanador pretinho da tua terra, todo metido a acochado, se dizendo mais macho do que um preá de agave, que morava naquele quarto da Rua da Concórdia? Tomou uma cachaça tão da porra, que foi dormir com o travesti Bunda de Butijão pensando que era a quenga dele. No outro dia quando acordou que viu aquele desmantelo nu na frente dele, ficou tão desmoralizado que pegou os mijados e sumiu do mapa com a cara mais deslavada do mundo com vergonha da gozação dos amigos da pensão.

Até hoje nunca se sabe o paradeiro de João Pire: Se está na Cochinchina ou se está na Serra das Russas feito bicho do mato. Ou se está na caverna da Mata Atlântica, morando com Antônio Pirocão, seu pariceiro de pensão.

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THE HURRICONE – (1999) – “O FURACÃO” CONDENADO PELO RACISMO

Bob Dylan visita “The Hurricone” na cadeia em 1975

A cinebiografia HURRICONE – O FURACÃO (1999), dirigida pelo aclamado diretor Horman Jewison, conta a história de Rubin “Hurricone” Carter (Denzel Washington), numa atuação magistral, do famoso pugilista estadunidense, cuja prisão por assassinato foi cercada de suspeita por perseguição racial. Em 1966, Rubin Carter foi detido junto com um amigo e acusado do assassinato de três pessoas em Nova Jersey. Após rápido julgamento, ele foi condenado à prisão perpétua por um júri composto exclusivamente por brancos por triplo assassinato. Tanto Rubin Carter como seu amigo, John Artis negaram envolvimento nos assassinatos, passaram sem problemas por um detector de mentiras e as testemunhas não os reconheceram como os executores dos disparas no bar, mas mesmo assim foram condenados. O filme mostra as pessoas que ajudaram a conseguir um novo julgamento que o inocentou. Rubin Carter ficou encarcerado por quase 20 anos e a sua esperança restringia-se aos fãs que acreditavam em sua inocência.

“Esta é a história de Hurricane, o homem que as autoridades vieram a culpar por algo que ele nunca fez. Posto na prisão, aquele que poderia ter sido campeão do mundo,” assim escreveu Bob Dylan na letra da música Hurricone, protestando pela injustiça da condenação preconceituosa do boxeador.

Em junho de 1966, Rubin “Hurricane” Carter (Denzel Washington) era um forte candidato ao título mundial de boxe. Entretanto, os sonhos de Carter vão por água abaixo quando três pessoas são assassinadas num bar em Nova Jersey. Indo para casa em seu carro e passando perto do local do crime, Carter é erroneamente preso como um dos assassinos e condenado à prisão perpétua. Anos mais tarde, Carter publica um memorial, chamado “The 16th round”, em que conta todo o caso. O livro inspira um adolescente do Brooklyn e três ativistas canadenses a juntarem forças com Carter para lutar por sua inocência.

O filme “The Hurricane – O Furacão”, é baseado na história real de Rubin Carter, um famoso pugilista que após ganhar 18 lutas seguidas passou a ser conhecido como “Furacão” por seus golpes demolidores. No entanto, a carreira vitoriosa de Carter foi interrompida por uma acusação infundada de três homicídios.

A trajetória do garoto negro que aprendeu a sobreviver cedo, como o próprio se define, começa a ficar turbulenta aos 11 anos, quando tem seus direitos de cidadão violados e é condenado a cumprir sentença até completar 21 anos por atacar um pedófilo branco da alta corte americana. O detetive encarregado da investigação foi Della Pesca (Dan Hedaya), um branco racista, o mesmo que se encarregaria de reunir provas falsas para incriminar Rubin Carter novamente em 1965.

A história de Rubin Carter comoveu artistas e fãs e ganhou propagação mundial, mas nem mesmo as inúmeras manifestações e os protestos foram suficientes para tirá-lo da prisão. Carter foi preso e condenado a prisão perpétua, junto com seu amigo John Artis, porque duas testemunhas do local do crime confirmaram os dois como autores do triplo assassinato. As testemunhas foram subornadas pelo detetive particular racista Della Pesca, que encontrou uma maneira simples e rápida de resolver o caso.

Após passar, quase 20 anos preso, e ser julgado e condenado duas vezes por um júri branco, Rubin Carter estava desacreditado de sua liberdade. No entanto, o livro escrito por ele, nos primeiros anos de cadeia, intitulado The 16th Round – De número 1 ao número 45472, caiu nas mãos de Lesra, um garoto negro que se identificou com a história do pugilista e motivou a família canadense a lutar pela liberdade de Carter. Essa amizade foi responsável por em 1985 garantir a liberdade de Hurricane. Tendo a sentença de condenação anulada por um juiz do tribunal federal que, na sentença, encontrou prova de racismo e alteração da realidade dos fatos por um detetive particular branco, racista, que o havia condenado na adolescência.

É interessante pensar em Hurricane como um campeão de boxe, afinal a sua grande vitória vem ao escrever sua biografia que encanta o jovem Vince e seus amigos canadenses, e é com a ajuda dele que Rubin (Hurricane) consegue sair da prisão após quase 20 anos preso injustamente.

O filme, além de contar com uma atuação magistral de Denzel Washington (lembrando seus momentos de glória em Duelo De Titãs e O Voo, onde esteve brilhante) também é muito bem escrito, conseguindo prender o telespectador durante as mais de duas horas e meia de exibição e consegue fazer o espectador escolher um lado, se o da polícia, ou (e obviamente) o do boxeador.

Para aqueles que pensam que Hurricane – O Furacão, é apenas mais uma biografia de um homem que conseguiu dar a volta por cima; enganam-se. O filme é sim uma verdadeira superação, é uma aula onde a pauta principal é a vida; Porque viver? Porque o racismo? Porque eu? Essas são apenas algumas das inúmeras perguntas respondidas e que estão muito bem delineadas nas entrelinhas do roteiro.

As considerações fáticas do Juiz Federal Judge Sarokin (Rod Steiger) para anular os dois processos de primeiro grau do Tribunal Estadual de Nova Jersey são um primor de contextualização jurídica. E a frase que Rubin Carter pronuncia ao jovem Lesra Martin de dentro do parlatório, o adolescente negro que abraçou a causa por puro amor à Justiça, pagam o filme: “O ódio me pôs na prisão. E o amor vai me tirar.” – concluiu Carter.

The Hurricane – Trailer

Bob Dylan – Hurricane (Official Audio)

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PIEDADE – (2019), UM FILME COM TEMA SÉRIO JOGADO NO LIXO

Cartaz do filme Piedade (2019)

“Piedade”, filme ficcional do cineasta caruaruense Cláudio de Assis, lançado oficialmente no 52º festival de cinema de Brasília em 2019, é mais uma pornochanchada brasileira de péssima categoria patrocinado pela famigerada Lei Rouanet, esse lixo radioativo criado em 1991 pelo governo do doidivana Collor de Melo para afrouxar dinheiro para artistas ricos, incompetentes, improdutivos e inescrupulosos (não é o caso do cineasta Cláudio de Assis) de enriquecerem às custas dos impostos dos brasileiros que trabalham sério e lutam pelo progresso do País.

As primeiras imagens que aparecem na tela desse lixo metragem deixa qualquer telespectador inteligente aturdido, atabalhoado, por ficar em dúvida se está assistindo a um filme cuja temática é a resistência de uma comunidade ribeirinha pacata preste a ser despejada pela ação nefasta de um empresário ganancioso, inescrupuloso ou a um campeonato aquático de adolescente cagando palavrões pela boca.

Ao entrar no cinema pensando que vai assistir a um drama sério, abordando um tema lhano, universal, um libelo à natureza, ao meio ambiente, por causa da ganância do homem, o telespectador se depara com um amontoado de cenas de palavrões e sexos explícitos masculinos sem conexão com a história. As cenas de sexo explícito entre Aurélio e Sandro por mais de dez minutos é uma violência ao bom senso de qualquer telespectador.

A sinopse aborda “o cotidiano da pequena cidade fictícia de Piedade abalada com o interesse e chegada de uma grande petroleira no local. Aurélio, interpretado por Matheus Nachtergaele, é representante da petroleira Petrogreen e tem o objetivo de convencer os moradores da cidade a venderem seus terrenos. Logo ele percebe que o foco de resistência à sua proposta é o círculo familiar de Dona Carminha, personagem interpretada magnificamente por Fernanda Montenegro e seu filho mais velho, Omar, interpretado pelo sempre inspirado ator barreirense Irandhir Santos, proprietário do bar Paraíso do Mar. As abordagens de Aurélio fazem com que ele descubra segredos da família e uma inesperada conexão com Sandro, interpretado pelo ator Cauã Reymond, dono de um cinema pornô do outro lado da cidade.”

Depois de dirigir “Amarelo Manga” (2002), seu longa de estreia, que retrata a vida de alguns moradores do centro histórico do Recife, guiados pelas suas paixões e frustrações do dia a dia; “Baixio das Bestas”, (2006), um pornô com cenas de sexos explícitos piegas, refletindo as condições das prostitutas dos cabarés de quinta categoria; “Febre do Rato” (2011), um enredo fora de controle, doidera geral; “Big Jato” (2016), baseado no livro homônimo de memórias de Xico Sá, que retrata a vida do motorista do imponente Big Jato, um caminhão-pipa utilizado para limpar as fossas da cidade sem saneamento básico. Porém, Francisco está mais interessado nas ideias do tio, um artista libertário e anarquista. À medida que descobre o primeiro amor, ele percebe a vocação para se tornar poeta.

O cineasta Cláudio de Assis não inova em nada na sua filmografia. Continua estático, com um tom ranzinza e raivoso, atirando bosta no ventilador da matinê de domingo. Não sai do nonsense, do underground, do lugar comum, da vulgaridade, da lixeira.

Se tivesse argúcia, sensibilidade e espírito inovativo para fazer obras sérias e inovadoras e não possuísse o ego maior do que sua calça jeans, Cláudio de Assis dava um tempo a seus projetos pessoais, assistiria a todos os filmes do mestre Sergio Leone, que rompeu a muralha holywoodiana nos anos sessenta com talento, impôs seus western sphaghetti produzidos na Itália e disse aos yankees: “Oeste se faz com mais violência, sim; efeitos sonoros de sons ambientais, sim; e utilização de imagens e símbolos religiosos, sim.” O resto é conversa fiada para boi dormir e discursos raivosos de John Wayne, que considerava, à época, que o faroeste fora do eixo de Holywoodd era piada pronta de cineasta italiano idiota, no caso do diretor Sergio Leone, que o tempo provou o contrário; e pôs uma rolha na boca de Wayne.

Sergio Leone encantou-se jovem ainda, mas deixou uma obra genial para a posteridade, tão importante quanto às produzidas pelos americanos por que encarava cinema com seriedade, sem copiá-los nem utilizar cenas de sexos explícitos para fazer obras-primas como a magna Trilogia dos Dólares, Era Uma Vez no Oeste, Quando Explode a Vingança e Era uma Vez na América, melhor filme já produzido sobre a ascendência da máfia judaica no bairro de Nova York.

O filme “Piedade” tem um excelente tema, mas desperdiçado seu desenvolvimento por um diretor obssessivo pelo underground paranoico, pornográfico-esquerdo pata, onde a exploração do homossexualismo rola como se fora a caixa de pandora da história.

“Piedade” – Trailer Oficial

Elenco de “Piedade” comenta o filme no Festival de Brasília | Cinejornal

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

ORIGEM DO CABARÉ DE MARIA BAGO MOLE

Réplica do Cabaré de Maria Bago Mole

“Ninguém pode mudar seu Destino. Cada um nasce com o seu. A Natureza me pôs no mundo para ser cafetina. É isso que vou ser sempre. Por isso procuro dar o melhor de mim.” – Maria Bago Mole

Nos anos vinte aportou no vilarejo Casas de Taipa, depois Vila Dois Vinténs, Centro da Cidade de Florestas dos Leões, uma mulherinha de olhos negros, cabelos pretos, compridos e salientes, peitos pequenos e duros, parecendo duas maçãs; ancas enormes. À boca miúda, espalhou-se no povoado ser a estranha filha da Tribo dos Índios Chuparam a Mãe.

Ninguém no local sabia de onde teria vindo aquela mulherzinha inteligente, pragmática, enigmática, altruísta. Tampouco se procurou saber seu passado.

Ninguém na vila deu importância a esse senão. O certo é que aos poucos ela começou a conquistar a admiração e a confiança do povoado da localidade, e lá se instalou como sua residência oficial.

Muito perspicaz, visionária, prestativa, fala sensual, dois anos depois de se instalar oficialmente no vilarejo, aquela mulherinha, carismática e doada, começou a desenvolver a plântula daquele que no futuro receberia o seu nome como homenagem: O Cabaré de Maria Bago Mole.

Na casa de taipa com quatro cômodos onde ela se instalou, doada por um dos vizinhos que ela socorreu em momentos difíceis e depois ficou dando assistência material e emocional, aos poucos começou a vender refeições aos caminhoneiros e cortadores de cana que por ali passavam rumo aos engenhos de cana-de-açúcar. O negócio começou crescer, prosperar, e Maria Bago Mole antevendo que poderia oferecer outras “comidas” àqueles homens sedentos por sexos que sempre a procuravam e a cantavam para dar uma trepadinha, prometendo torná-la a Deusa de todas as deusas. Mas ela tergiversava, dizendo ter pretendente.

Pressentindo o sucesso com o negócio crescendo e a pressão dos fregueses por diversões sexuais, ela resolveu viajar pelo interior de sua cidade natal e de lá trazer algumas “meninas defloradas”, que os pais expulsavam de casa por terem perdido o “cabaço” com os namorados antes do casório. Nem sempre isso acontecia, mas…

Poucos anos depois a casa de taipa de quatro cômodos recebeu uma reforma caprichada para a época e se transformou numa pousada de dois pavimentos. Em baixo ficava o bar com o aposento da mulherinha e, em cima, foram construídos os quartos onde os homens levavam as “meninas” para se lambuzarem de cachimbadas movidas a óleo de peroba. Estava nascendo o Cabaré de Maria Bago Mole.

No dia da inauguração apareceram homens de toda região sedentos por sexo, principalmente senhores de engenhos, que tinham vontade de conhecer e comer a tão falada e idolatrada administradora do cabaré, que dizia às suas meninas não querer compromisso com nenhum homem para não destoar do seu comércio, deixando essa função para as suas cortesãs. Mas essa afirmativa da cafetina era um blefe, mistério, pois havia um zunzunzum na Vila de ela ter sido estuprada pelo pai biológico e expulsa de casa para não o dedurar, já que era de família casca grossa da Zona da Mata, por isso havia lhe desenvolvido inconscientemente “a síndrome da repulsa ao sexo”.

No dia inauguração apareceu por lá o senhor de engenho mais conhecido e poderoso da redondeza, Seu Bitônio Coelho, um galegão de um metro e noventa, olhos claros, que tinha uma tara da gota serena por Maria Bago Mole, só em ouvir falar no nome dela e por causa dos seus dotes administrativos inteligentes e de xibiu “preservado”, e por ser uma quarentona enxuta, conservada, com tudo nos trinques.

Depois da festa de inauguração, que transcorreu no maior buruçu: brigas, freges, arranca-rabos por disputas internas entre caminhoneiros, cortadores de cana e outros fregueses: quem ia dormir e comer quem das meninas do cabaré, a cafetina pôs para funcionar seu instinto de gerenciadora para aquelas ocasiões: Pegou uma chibata de couro de boi que havia comprado na feira livre para aqueles fins e nas “relhadas” saiu expulsando todos os penetras e lisos do recinto, organizando a desordem e ordenando que as meninas se recolhessem aos quartos com seus clientes escolhidos, que já “haviam pago adiantado pelos serviços com as meninas”.

– Deem o melhor de vocês aos seus homens. Satisfaçam-lhes todos os desejos e fantasias sexuais. Não deixem nada pela metade. Lembrem que lá fora ninguém sabe o que está acontecendo aqui dentro. Portanto, deem o melhor de vocês! Vocês estão recebendo para isso. Não se esqueçam de que o sucesso de vocês depende de vocês. – Dizia a cafetina com voz mansa e sensual às suas meninas.

Feito isso e percebendo que tudo estava aparentemente normal, foi para o seu aposento com o homem que lhe tirou o cabaço pela segunda vez. A farra foi tão picante, excitante, regrada a todos os prazeres do sexo, que Maria Bago Mole e Seu Bitônio Coelho perderam a hora e quando acordaram já passavam das dez horas da manhã do dia seguinte, o que para ambos era uma desmoralização, acostumados a estarem de pé antes das cinco da matina.

Percebendo o horário e totalmente contrariado, o poderoso senhor de engenho quis se apressar para sair. Nesse momento foi contido pela cafetina que o pegou pelas mãos e o conduziu até o banheiro para tomar um banho de cuia, tomar café e depois se ir-se.

– Não tenha pressa, amor! A gente só anda para frente. A gente cumpre o Destino que tem de cumprir. Você está procedendo do mesmo jeito que os outros homens! Acalme-se! Depois de uma noite daquela você não deve se preocupar com o que aconteceu ou deixou de acontecer lá fora! Ou você já se esqueceu do que aconteceu entre nós dois? Por falar em nós dois, quando você vier por aqui novamente visitar a “casa” eu desejo ter uma conversa séria com você! Nada de mais! Coisas de mulher! – Disse ela lhe dando um beijo na boca com gosto de café. E ele apressado, passou a mão na égua, pôs a sela, subiu e se mandou contrariado com a hora: meio dia! Puta merda! E ela, sorrindo com a contrariedade dele, ficou-o olhando a trotear em cima do cavalo e com a certeza de que aquele homem rude a havia conquistado o coração…

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

ERA UMA VEZ NO OESTE (1968) – NÃO HAVERÁ OUTRO IGUAL

“O ritmo do filme pretendeu criar a sensação dos últimos suspiros que uma pessoa exala antes de morrer. Era uma Vez no Oeste é, do começo ao fim, uma dança da morte. Todos os personagens do filme, exceto Claudia Cardinale, têm consciência de que não chegarão vivos ao final.”- Sergio Leone.

Três homens chegam a cavalo numa estação ferroviária, à espera de alguém. De quem, o espectador no cinema não sabe. Os minutos correm. O suor dos homens contagia os espectadores, o suspense torna-se quase insuportável. Gotas d’água e moscas transformam-se em instrumentos de tortura. As imagens em close dominam a tela.

Nesse momento, o primeiro diálogo:

– Frank não veio?

– Frank não teve tempo de vir. Mandou-nos.

– Vocês trouxeram um cavalo para mim?

– Ha, ha, olhando em volta, eu só vejo três. Parece que temos um a menos?

– Vocês trouxeram dois a mais.

O próprio início de Era uma Vez no Oeste tornou-se legendário, um mito do cinema moderno. E a ele somava-se uma trilha sonora incomparável: poucas músicas na história do cinema foram tão marcantes como a composta pelo gênio italiano de Ennio Morricone. Sob diversos aspectos, Era uma Vez no Oeste consagrou-se como um clássico do cinema e um modelo de filme: música, encenação, direção, atuação, fotografia – em tudo isso, o filme criou um novo padrão em 1968.

Com o seu filme Por um Punhado de Dólares (1966), o diretor Sergio Leone inventaria o gênero denominado de spaghetti western, o qual ele próprio consolidaria com duas continuações. Com Once Upon a Time in the West (título original de Era uma Vez no Oeste), Leone voltou a criar uma obra-prima de caráter próprio, mesclando a mitologia do faroeste americano com a ópera europeia.

A história narrada pelo filme é bastante conhecida. O caladão que tocava gaita ( Charles Bronson), cujo personagem tem nome no filme de “harmônica”, busca vingança. Quando criança, ele fora testemunha de um ritual macabro de assassinato, sendo obrigado a tocar uma canção na gaita-de-boca enquanto o seu pai era enforcado a mando do matador de aluguel Frank.

Paralelamente, Leone conta também a história da conquista do Oeste pela ferrovia, a história da linda prostituta Jill McBell (Claudia Cardinale), do assassino de aluguel Frank (Henry Fonda) e do velhaco de boa índole Cheyenne (Jason Robards), em imagens belíssimas e diálogos lacônicos, que são tão simples como verossímeis:

– Ninguém sabe o que o futuro trará. Por que eu estou aqui? Eu quero a fazenda ou a mulher? Não. Você é o motivo. E vai me dizer agora quem você é! Diálogo entre Frank e Harmônica perto à ferrovia que estava nascendo.

– Algumas pessoas morrem de curiosidade.

Isso se confirma no final. Henry Fonda, que em toda a sua longa e bem-sucedida carreira anterior sempre encarnara o mocinho, sucumbe sobre o chão poeirento com a gaita na boca. Morto pelo homem sem nome, (Charles Bronson), que quase sempre fazia o papel do malvado. Também essa inversão de papéis foi um choque para os espectadores da época.

Em Era uma Vez no Oeste convergia muita coisa e eram muitas as interpretações possíveis naquele ano de 1968. Capitalismo e revolução, cultura clássica e cultura pop americana, mitologia grega e ópera, amor e tragédia: ou seja, cinema na forma e perfeição mais pura e original, além de uma música que, ainda hoje, dá um arrepio na espinha.

Era uma vez no oeste – Trailer

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

TINA TURNER E ELZA SOARES, A MAIOR DIFERENÇA ENTRE AS DUAS

Segundo o mais bem informado jornalista da MPB, José Teles, no seu site TELESTOQUES, a cantora americana Tina Turner faturava 3,7 milhões de dólares por ano de direitos autorais, Elza Soares, que tinha tanto talento quando a cantora americana, precisou trabalhar até o final da vida para não morrer de fome. As leis dos direitos autorais do Brasil são uma porcaria e o legislativo não legisla para regulamentá-la. Uma lástima.

Tina Turner (1939-2023)

“Entre os muitos roteiros criados para aumentar a audiência em cima da morte de Tina Turner, um deles foi compará-la a Elza Soares. Com exceção de ambas serem grandes cantoras e negras não há similaridades entre elas, e muito mais diferenças. A maior delas tem a ver com direitos autorais.

Elza Soares (1930-2022)

Enquanto Elza Soares até o final da vida viu-se obrigada a fazer shows para ganhar o sustento, já que não se debate a sério no Brasil o tema da remuneração do artista por seus discos, músicas que tocam no rádio, TV, bares, restaurantes etc, e nas plataformas de música para stream. Estas pagam uma ninharia.

Enquanto isso, Tina Turner, que abandonou os palcos e estúdios em 2009, segundo a Billboard, faturava 3,7 milhões de dólares por ano com os direitos de sua obra (R$18,5 milhões de reais). Claro, a americana foi uma estrela internacional da música, tocou, e toca, no mundo inteiro. Enquanto Elza Soares atuou basicamente no Brasil, com passagens pela Itália, durante o conturbado relacionamento com Garrincha.

Mesmo assim, pela quantidade de canções que gravou, pela extensão de sua discografia, a brasileira, se tivesse regras justas de pagamentos de direitos no país, deveria ter vivido os últimos anos financeiramente tranquila, sem necessidade de viajar debilitada para poder pagar as contas.”

Dói na alma da gente tomar conhecimento dessa situação. O Brasil não é um país sério porque os políticos não deixam.

Elza Soares – Mulher do Fim do Mundo (Clipe Oficial)

CÍCERO TAVARES - CRÔNICA E COMENTÁRIOS

CUTRUVIA NO CABARÉ

Ruína semelhante ao Cabaré de Maria Bago Mole

Após a fama do cabaré se espalhar por toda Região da Zona da Mata Sul e Norte de Carpina (PE), quase toda semana chegava uma “cutruvia” no cabaré, média de dezesseis a vinte anos, vinda das redondezas. E Maria Bago Mole acolhia a todas, nem que fosse por uma semana ou duas até encontrar um pretendente que se engraçasse dela e juntos fossem morar. Não era de sua índole abandonar quem estava necessitada, mas não dava para acolher todas.

Certo dia chegou ao Cabaré Carminha de Zefa, uma morenona pedaço de mau caminho, pernas grossas, nariz afilado, cabelos pretos e longos, filha de índia com negra ex escrava. A famosa cafetina logo viu “futuro” na donzela e a escondeu antes que um Zé Qualquer passasse os olhos naquele monumento e ousasse comê-la, sem a cafetina mostrá-la a um coronel endinheirado que não dava mais no couro, nem que fizesse uso dos chás de ervas milagrosas da época, oferecidos pelos propagandistas de porta em porta.

(Há que se registrar aqui uma curiosidade: todas as meninas do cabaré antipatizaram com a chegada da “intrusa” por ser muito bonita e nova e logo a apelidaram de “cutruvia”, mesmo sem saber o significado da palavra. Teve de haver a intervenção da cafetina para que a harmonia reinasse na casa e ninguém se visse como rival: o sucesso não tolera querelas internas. A união é que faz a força, produz riqueza e todas ganham – dizia ela às meninas.)

O pai de Carminha de Zefa, Seu Zequinha, era um homem tosco, rude, e, por não aceitar que a filha fosse “deflorada” por um Zé Qualquer a expulsou de casa contra a vontade da mãe, Dona Zefinha, que, além de confiar na filha em não ter cedido às tentações do pretendente, jurava no altar que a filha era cabaço ainda.

À noite chegou ao cabaré o coronel Amâncio, um dos coronéis mais ricos e influentes da Zona da Mata Sul de Carpina (PE), depois de Seu Bitônio Coelho, bem-querer de Maria Bago Mole. Entrou pela porta dos fundos por sugestão da cafetina e ficou escondido no quarto especial que as meninas do cabaré haviam preparado a mando da “patroa” para os dois.

Antes que o coronel Bitônio Coelho chegasse ao cabaré como havia prometido, Maria Bago Mole preparou a morena para ficar a noite inteira com o coronel Amâncio, mas antes lhe passou algumas instruções de como lidar com um homem já oitentão: tire-lhe as roupas devagar, peça por peça, deite-o na cama, passe-lhe óleo de peroba nos trololós dele, amolegue-lhe bem os cachos, cheire-os, beije-os, rodopie-os e, caso não obtenha êxito, tire sua roupa toda na frente dele, dance, se esfregue nele para ele se sentir no paraíso e, depois, se nada acontecer, diga-lhe que quer morar com ele na fazenda para transformar as noitadas dele numa festa de harmonia e prazer eterno.
Golpe de misericórdia!

O coronel Amâncio ficou tão lisonjeado com o pedido de casamento da morena que, mal o dia raiou, foi logo se trocando, mandou a cafetina preparar a carruagem que ele havia deixado com os cavalos, pagou-lhe todas as despesas do cabaré e ainda compensou a cafetina por ter-lhe arranjado aquele “presente” dos deuses. Grana gorda!

Depois que o coronal Amâncio deixou o cabaré, Seu Bitônio Coelho se despediu da amada, Maria Mago Mole e se mandou também no seu alazão branco. Ela reuniu as “meninas” no salão, verificou se não havia mais freguês nos quartos, e discursou, olhando nos olhos de cada uma:

– Vocês têm de aprender a engolir cobras e sapos. Vocês têm de ver o que é melhor para vocês. Onde existir possibilidade de lucrar não pode haver rivalidade, mas troca de experiência, aprendizado, porque é dessa forma que ganhamos todas. E deu a cada menina uns réis que o coronel Amâncio a havia entregue pelo presente ofertado.

Naquele dia a festa no cabaré foi entre as meninas e a cafetina.