ALEXANDRE GARCIA

GOVERNO ESCONDE CRISE E COMÉRCIO CRITICA CANETADA NO FGTS

Conselho do FGTS autoriza distribuição de R$ 15,2 bilhões a trabalhadores

Novas regras do saque-aniversário do FGTS entraram em vigor em novembro

A propaganda do governo esconde a realidade que a vemos nas ruas e nas lojas. A economia está esfriando. O PIB não está parando, mas está muito devagar. Os juros estão altos, o crédito está caro, há insegurança jurídica e econômica, há desequilíbrio nas contas públicas, com pressão na inflação. E aí eu me surpreendo ao ver, na primeira página da Folha de S.Paulo, um anúncio dizendo assim: “Trabalhador, agora não mais! É isso mesmo, presidente Lula?”

O anúncio da capa remete à página 8, onde há um novo anúncio dizendo “FGTS: o dinheiro é seu. A decisão? Agora não mais”. O texto diz que o Congresso não aprovou, mas que o governo, com uma canetada, limitou o saque-aniversário do FGTS a R$ 2,5 mil, e a pessoa tem de esperar 90 dias para receber. As novas regras começaram a valer em novembro. O governo diz que o FGTS é dinheiro do trabalhador, mas na verdade ele não pode escolher como quer usar o seu dinheiro. “Quando o trabalhador perde autonomia, a economia inteira perde fôlego”, diz o anúncio, que termina repetindo: “Presidente Lula, é justo? Agora não mais”. Está assinado pelos várias associações, incluindo a Abad, que é dos atacadistas e distribuidores; a Abrasel, dos bares e restaurantes; a Associação Brasileira de Tecnologia para o Comércio e Serviços (Afrac); a Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil; e a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas.

Vejam os dados das concessionárias: em novembro, as vendas de veículos novos caíram 8,2% em comparação com outubro, e 6,2 em relação a novembro do ano passado. Isso é um termômetro. O governo tenta esconder, mas estamos chegando perto do Natal e todos sabem disso. Os jornais recebem anúncios de páginas inteiras de bancos estatais, que não têm de se preocupar com a concorrência, dizendo que vem aí o 13.º, que beleza, vai mobilizar o comércio. Mas vocês viram que a Black Friday já virou Black Saturday, Black Sunday, Black Monday, e lá vai, estão precisando prorrogar para vender.

* * *

O Brasil está doente, de muitas maneiras

Outro dia falei do caso do moço morto pela leoa, que foi abandonado pelo sistema psiquiátrico do SUS. Mas não é o único caso, tem outros terríveis, parece que estamos criando monstros no Brasil. Um maluco arrastou uma mulher por um quilômetro na Marginal Tietê, em São Paulo, e ela perdeu as duas pernas. Em Queimados (RJ), um padrasto pegou o enteado de 2 anos e bateu tanto nele que o menino morreu. Em Manaus, outra criança morreu porque deveria receber um estimulante por nebulização, e aplicaram na veia. Não sei se é irresponsabilidade, falta de profissionalismo, raiva de alguma coisa, mas as pessoas parecem estar doentes.

Nós temos uma doença ética, que todos conhecemos e que vem de tempos. Com a maior cara de pau, as pessoas defendem corruptos e justificam: “Descondena, devolve”. O sujeito roubou e devolveu; depois, o dinheiro é devolvido pra ele de novo. É incrível. É uma crise muito, muito grave que estamos passando.

* * *

Se um dia o Brasil tiver um empate técnico como o de Honduras, como vamos conferir os votos?

Ontem noticiei o que a ministra Cármen Lúcia afirmou sobre o voto eletrônico: “tenho certeza de que seu voto vai ser computado”. Mas como ter certeza, a não ser por uma questão de fé? Eu quero ver ali, preto no branco. Pois vejam o que aconteceu em Honduras. Com 1,9 milhão de votos apurados, os dois candidatos a presidente mais votados estavam separados por apenas 515 votos. Vão começar a contar um a um. E no Brasil, como é que fazemos isso? Um byte? Quantos quilobytes? Quantos megabytes? Não sei.

Honduras é a terra de Manuel Zelaya, aquele que tomou conta da embaixada brasileira, a converteu em diretório político, punha as botas em cima da mesa, usava seu chapelão dentro da embaixada, em uma enorme falta de educação. E o Brasil reclamava? Que nada! Por que eu estou falando do Zelaya? Porque a candidata dele e da mulher dele, que é a atual presidente, perdeu feio, ficou em terceiro lugar, não chegou a 20% dos votos. Os outros dois estão empatados ali na casa dos 40%, separados por centésimos. O interessante é que ambos são de ascendência árabe: Nasry Asfura Zablah e Salvador Nasralla Salum. Nasralla é uma espécie de Silvio Santos de Honduras, fez carreira na televisão. Asfura, que é o candidato de Trump, é ex-prefeito da capital Tegucigalpa e já foi condenado e descondenado por corrupção.

Por fim, uma curiosidade sobre Honduras, que já lutou uma Guerra do Futebol com El Salvador. Nas eliminatórias para a Copa de 1970, quando fomos tricampeões no México, os dois países disputavam uma vaga no Estádio Azteca, a partida estava empatada em 2 a 2, El Salvador ganhou na prorrogação, e depois começou uma guerra em que morreram 2 mil pessoas.

DEU NO X

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DALINHA CATUNDA - EU ACHO É POUCO!

CORDEL – O TABACO DE MARIA

Xilogravura de Erivaldo Ferreira

1
Na estrada do Pai Mané
Na cidade de Ipueiras
Bem pertinho das Barreiras
De imburana tem um pé
Ele dá um bom rapé
Pra quem sabe preparar
Maria sabe torrar
E tem grande freguesia
O tabaco de Maria.
Todo mundo quer cheirar.

2
E naquela arrumação
Meu pai era viciado
No dedo era colocado
Do rapé uma porção
Com o tabaco na mão
Pra no nariz esfregar
E logo após aspirar
Ele fungava e dizia:
O tabaco de Maria.
Todo mundo quer cheirar.

3
Valdenira me indicou
Disse mulher acredite
Ele é bom pra sinusite
Aqui mamãe sempre usou
Depois que ela receitou
Comecei a melhorar
Nunca parei mais de usar
Acabou minha agonia:
O tabaco de Maria.
Todo mundo quer cheirar.

4
Garapa ficou sabendo
Dessa história do rapé
Foi direto ao Pai Mané
Também estava querendo
Com Maria se entendendo
Resolveu logo pagar
E não saiu sem provar
do cheiroso nesse dia
O tabaco de Maria.
Todo mundo quer cheirar.

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PENINHA - DICA MUSICAL

PABLO LOPES - PEIXE NA ÁGUA

O PÓ SOB OS SAPATOS

Enquanto conversa com um frade franciscano, Salvatore Giuliano, o herói fora-da-lei, desenha três círculos no chão de terra e explica: “Este é a máfia; este os proprietários de terras e este a igreja”.

– Não se consegue nada fora desses círculos-; diz o frade.

– Mas, e o povo? – Pergunta Giuliano.

Rindo o frade responde: -O povo é o pó sobre o qual você desenhou seus círculos.

O diálogo acima, o qual cito de memória, foi tirado do filme O Siciliano, de Michael Cimino, baseado no romance de Mario Puzzo.

Relembrei esta cena quando comecei a escrever este texto, no qual pretendo trazer uma abordagem acerca do, digamos, “efeito prático” da infiltração política no STF, cujas origens tratei em minha última coluna. Convido meus piedosos e escassos leitores a me acompanharem; prometo evitar o juridiquês.

Como bem definiu Montesquieu, quem detém o poder tende a abusar dele, até encontrar limites. A constituição de 1988 criou um sistema de freios e contrapesos entre os poderes, a fim de um exercesse controle sobre os outros, sem que nenhum se sobrepusesse aos demais; criou os tais limites.

Contudo, com apenas uma ou outra exceção, os freios ao poder judiciário são exercidos pelo próprio judiciário, por meio das fases recursais, quando possíveis erros ou abusos de juízes podem ser corrigidos por outros juízes de instancias superiores.

Também é o próprio judiciário que se encarrega de punir desvios de conduta de seus membros, por meio do CNJ e da Lei Orgânica da Magistratura. O corporativismo afasta qualquer hipótese de controle sério. Em suma, há uma ausência quase completa de controle externo.

Tal ausência não seria um problema, caso o STF fosse composto por juristas sem vinculação político-ideológica, se atendo apenas à constituição; evitando interpretações esdrúxulas e agindo apenas quando provocado. Mas, parafraseando Lord Acton, o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente.

Pois foi assim, em uma espécie de tempestade perfeita, que se juntaram a corrupção (em sentido ideológico) e o poder absolutos; sem freios, para um uso prático da infiltração política na cúpula do poder judiciário. Não poderia ser pior.

Em tese, juízes só podem agir quando provocados. Ocorre que não obstante previsão constitucional, o STF tem escolhido a quais provocações irão atender. Assim, partidos políticos, um dos legitimados a impetrar ações no supremo, ainda que insignificantes em termos eleitorais, encontraram um caminho para impor sua ideologia a todos, como é o caso do PSOL.

A esquerda esteve no poder em 17 dos últimos 21 anos e teve ocasião de moldar o supremo à sua imagem e semelhança. Dessa forma, pautas esquerdistas derrotadas nas urnas ou no congresso acabam sendo impostas via judiciário. Isso sem falar nas perseguições a adversários promovidas por meio do mesmo expediente.

Além disso, o supremo passou a agir sem provocação, com no caso do inacreditável inquérito, onde figura como vítima, investigador, acusador e julgador, violando TODOS os preceitos do sistema acusatório.

A aberração político-jurídica da vez é a invocação e aplicação de conceito de “Estado de Coisas Inconstitucional”, teoria surgida na Colômbia que encontrou terreno fértil por aqui.

Não pretendo entrar nesta teoria; talvez o faça em outro artigo, mas basta dizer que sua adoção permitiu ao STF invadir as prerrogativas dos demais poderes em quase todas as áreas, sempre alegando omissão ou atraso do executivo e legislativo na implementação de políticas públicas. Como se o judiciário também não fosse lento e omisso…

Barroso foi um dos maiores entusiastas daquela ideia. Basta relembrar seu discurso de posse na presidência do supremo, quando falou na atuação do tribunal quanto à, entre outros, segurança (!), educação (!!) e saneamento (!!!). Convido, a quem se interessar, que leia o discurso; tem na internet, e verá um verdadeiro programa de governo, além da total divergência entre aquilo que prega a aquilo que faz.

Ou seja, a infiltração deformou o judiciário quee rompeu o equilíbrio entre poderes; encabrestou o congresso e passou a tutelar o executivo, ora interferindo diretamente, como no governo Bolsonaro, ora se fingindo de morto, com no caso do governo Lula. Eis o uso prático a que me referi.

O único controle externo constitucional pertence ao Senado Federal, que tem competência para barrar indicações políticas ou cassar o mandato de ministros abusadores. Porém, o foro especial que coloca os senadores sob a mira do STF, faz com que estes sejam ameaçados, velada ou explicitamente, de terem seus processos desengavetados caso tentem conter os abusos. Melhor não contar com eles.

Restaria ao povo a missão de reverter esta distorção, elegendo políticos corajosos e com ficha limpa, sem rabo preso, que poderiam servir de freio ao poder absoluto togado. A outra opção passa necessariamente pela quebra da ordem constitucional. Não desejo e nem defendo tal coisa.

O problema é que, voltando ao começo deste texto, o povo, ora, o povo, é apenas a poeira sob a sola dos sapatos de cromo alemão que, ao lado das capas pretas, completam a indumentária dos donos do poder.

Confesso estar quase sem esperanças.