DEU NO X

RODRIGO CONSTANTINO

O DILEMA DA DOSIMETRIA

Câmara aprova PL da dosimetria que reduz pena de Bolsonaro

Após meses de impasse, Câmara aprova PL da dosimetria que reduz penas de Bolsonaro e de condenados do 8/1

A Câmara dos Deputados aprovou, na madrugada desta quarta-feira (10), o projeto de lei que reduz as penas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023. O PL da dosimetria recebeu 291 votos favoráveis, 148 contrários e uma abstenção. Os deputados rejeitaram todos os destaques da base do governo que poderiam alterar o projeto.

O texto segue para análise dos senadores. Mais cedo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), garantiu que a proposta será votada ainda neste ano. O deputado Marcel van Hattem (Novo-RS) destacou a necessidade de se aprovar a proposta da dosimetria para beneficiar as pessoas presas pelo 8 de janeiro. “Temos pressa na aprovação desse projeto, estamos falando da redução do sofrimento das pessoas”, disse.

E esse é o grande dilema que se apresentou para a oposição. Todo brasileiro atento sabe que somente uma anistia ampla, geral e irrestrita faria alguma justiça. Na verdade, o certo mesmo era anular as sentenças absurdas, uma vez que os julgamentos foram políticos e teatrais, sem embasamento ou provas, sobre uma tentativa de golpe inexistente. Mas isso estava fora de questão.

A triste realidade é que o sistema venceu essa batalha. A guerra ainda não acabou, mas o poder real está nas mãos do STF – tanto que não houve qualquer chance de sequer votar emendas, e nos bastidores se sabe que foi exigência de Moraes. Uma vez que o regime tinha a faca e o queijo na mão, era dosimetria ou nada. Muitos conservadores optaram pelo aspecto humanitário: reduzir as penas de presos políticos afastados de suas famílias injustamente.

Por isso deputados do Novo e do PL votaram “sim”, mesmo sabendo que são “migalhas” oferecidas pelos que sequestraram esses pobres coitados. Alguns não queriam ceder, o que também é compreensível: agora ficou basicamente inviável falar em anistia, e ao votar pela redução das penas, a direita acabou ajudando a endossar a narrativa oficial do golpe.

Mas o realismo se impõe: não sou eu que vou passar o Natal longe dos pais ou dos filhos. É mais fácil bancar o herói quando não é um familiar nosso “sequestrado”. Bolsonaro recomendou voto favorável, mesmo sabendo que sua redução de pena ainda o levaria ao regime fechado por mais de dois anos. Ele pensou nos demais presos, muitos dos quais serão soltos com a nova regra, se aprovada pelo Senado.

O Brasil vive seu capítulo mais sombrio da “democracia”, e a permanência desses presos políticos é a maior prova dos abusos supremos. O projeto da dosimetria está bem longe do ideal, pode ter enterrado de vez a chance de uma anistia, e alimenta o discurso do STF. Mas paciência: compreendo quem votou pelo projeto pensando única e exclusivamente na soltura de inocentes. É isso o que mais importa nesse momento.

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DEU NO JORNAL

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

O FURTO DA POESIA

Em maio de 2014, nosso editor postou, aqui no Jornal da Besta Fubana, o poema “O Furto da Poesia”, que escrevi em parceria com o defensor público VICENTE ALENCAR RIBEIRO. Na verdade, a iniciativa foi de Vicente, que encaminhou a Berto a curiosa história de um certo Zé Maria de Dão, que havia furtado uma poesia. Ao final de seus versos, Vicente pediu que eu julgasse o caso. Julguei, também em versos.

Mas a página acabou se perdendo, por algum problema técnico no site. Então, resolvi encaminhar o caso para nova publicação. Tenho certeza que muita gente não conhece e vai gostar.

Aproveito a ocasião para renovar as congratulações e o agradecimento ao poeta Vicente Alencar Ribeiro, que me possibilitou participar da criação do poema que ora compartilho.

* * *

O FURTO DA POESIA – INVESTIGAÇÃO E DENÚNCIA – VICENTE ALENCAR RIBEIRO

Certo poeta um dia.
Procurou o delegado,
E com olhar mui sinistro,
Disse ter sido lesado.

E aquela autoridade,
Muito frio perguntou:
“O que fora que o ladrão,
Do vate surrupiou?”

O poeta respondeu,
Do fundo do coração:
“O marginal desalmado,
Levou minha inspiração”.

O delegado sorriu,
E de novo interrogou:
“Como é que algo abstrato,
O tal larápio levou?”

Ao que respondeu o vate,
Submerso em sentimento:
“Caro doutor não percebe,
Minha dor, meu sofrimento?”

“Ledo engano delegado,
Permita-me, autoridade,
Muitas vezes o reencontro,
Rouba de nós a saudade”.

“A felicidade é tudo,
É néctar que extasia,
Quando um amor se vai,
Rouba de nós a alegria.”

“Autoridade, assevero,
De forma calma e dileta,
Dê vazão a sua alma,
Pois ela é coisa concreta.”

“Ele levou minha vida,
A minha joia mais rara,
Das pérolas do meu cordão,
A minha pedra mais cara.”

“Tomou a terna poesia,
Que escrevi pra minha amada,
Versos que jamais mostrei.
Pois que vivia guardada.”

“Vou derrubar, me permita,
Sua conclusão tão crua:
Ele a anda recitando,
Dizendo a todos que é sua.”

“Posto isso autoridade,
Faço um pedido só,
Meu lamento tome a termo,
E autorize um BO.”

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DEU NO JORNAL

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA

DEU NO X

SEVERINO SOUTO - SE SOU SERTÃO

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

SONETOS AOS PÉS DE DEUS – Afonso Félix de Souza

Eu bato, eu bato, eu bato à tua porta,
bato sem ver que a porta está aberta.
Sem ver-te, sei, tua presença é certa,
e tento orar, mas minha voz é torta.

A luz que vem de ti em dois me corta,,
e do que fui e sou outro desperta.
Não posso, assim, a ti dar-me em oferta,
pois já nem sei que ser meu ser comporta.

Tudo o que busco dás, dás de sobejo,
pois sabes mais do que eu o que desejo,
e estás comigo e em mim, sempre a meu lado.

Comigo estás na paz e nas pelejas.
Por tudo o que me dás louvado sejas,
por tudo o que não dás sejas louvado.

Afonso Félix de Sousa, Jaraguá-GO (1925-2002)