COMENTÁRIO DO LEITOR

TINHA DE TODAS AS CORES!

Comentário sobre a postagem STF PEDE EXPLICAÇÕES SOBRE OPERAÇÃO POLICIAL, E RIO RECEBE APOIO DE

Luci Oliva:

Mostrem essa foto para o ator lacrador babaca André D’Lucca para que ele pare de palhaçada dizendo que estão exterminando a raça dele.

Entre os bandidos, traficantes, assassinos que morreram tinha branco, pardo, preto, amarelo, azul.

As mortes nada tiveram a ver com a cor dos desgraçados e sim com a atividade deles.

CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

CHOVE CHUVA, CHOVE SEM PARAR

Jucá acertou o pagamento da pousada em Penedo, Seu Jurandir, o proprietário, pediu-lhe um favor: Levar de carona à Maceió, Rosinha, sua jovem sobrinha. Gentil, ele disse que seria um prazer, embora gostasse de dirigir solitário nas estradas. Partiram pelas quatro da tarde. A jovem acomodou-se a seu lado no banco da frente, não o cumprimentou. Ligou seu telefone de ouvido curtindo músicas de adolescente, viajou sem tirar o aparelho do ouvido numa pose de quem estava fazendo um favor ter sua companhia. Jucá sentiu um desconforto com o comportamento pedante da jovem. Rosinha era graciosa como qualquer jovem. Corpo bem formado, pele rosada contrastava sob a blusa de malha branca, desenhada com motivos modernos, cobrindo os seios abundantes. Seu rosto suave, cabelos castanhos, uma bela jovem, pena ser tão soberba, pensou Jucá, enquanto analisava a sua companhia acidental.

A viagem transcorreu monótona, sem diálogo, a moça só ouvia música e gesticulava como se estivesse dançando. Certo momento, Rosinha retirou os fones do ouvido e sem pedir licença, ligou o rádio do carro, procurou um som pauleira, ficou a ouvir, calada. Jucá tentou conversar alguma coisa, desistiu diante do mutismo da jovem. Com hora e meia de viagem bateu uma chuva grossa persistente. Jucá parou num posto de combustível para abastecer e lanchar. Depois do lanche, pela primeira vez Rosinha falou.

– Deixe, que a minha conta eu pago. Faço questão de não lhe dar despesas.

Jucá respondeu brincando, pagando a conta.

– Na próxima você paga.

Depois de dirigir mais 15 minutos ainda sob um intenso temporal, encontrou uma fila de carros parados. Jucá perguntou a um guarda rodoviário o que havia acontecido, ele respondeu que o aterro da cabeça de uma pequena ponte estava com problemas devido à enxurrada da chuva, o D.E.R. havia proibido a passagem pela ponte. Estava perigoso enfrentar um desvio até Maceió àquela hora, escurecia. O patrulheiro aconselhou a dormir em Coruripe e continuar a viagem no outro dia pela manhã, quando a ponte estivesse liberada. Jucá perguntou a opinião de Rosinha. Ela fez um gesto com os ombros, como se dissesse tanto faz. Ele precavido voltou até o posto. Recomendaram uma pousada em Coruripe.

Acertou na portaria, pediu dois quartos. A chuva não parava, marcou com Rosinha para jantarem na pousada às 19:30 horas. Quando Jucá desceu na hora combinada, Rosinha subia as escadas, já havia jantado, sem sequer dar um boa-noite. Ele não entendia aquela grossura. Jantou, recolheu-se ao quarto. Deitou-se de pijaminha bermuda esperando o sono. Relâmpagos cortavam o ar e trovões ribombavam incessantemente, custou a dormir. Ainda não era meia-noite quando foi despertado por fortes batidas na porta de seu quarto, a voz aflita de Rosinha pedia, desesperada.

– Por favor, abra aqui. Abra a porta!

Jucá deixou a cama num salto, abriu a porta, Rosinha entrou correndo, enrolada no cobertor, deitando-se na cama, confessou com voz trêmula morrer de medo de trovão. Jucá surpreso e fascinado pelo encanto da moça, agora falando humildemente, buscou confortá-la, mandou que ela dormisse à vontade; ele dormiria na outra cama. Foi surpresa e emoção para o coroa, quando ela puxou-o pelo braço pedindo.

– Vem para perto de mim cara!

Ela levantou o lençol, estava nua. Ao mesmo tempo em que o abraçou. Rosinha, tremendo de medo, levantou o rosto, beijou voluptuosamente Jucá na boca, como se pedisse socorro.

A noite longa transcorreu com mais chuva, muitos trovões e muitos ais de amor. A louca ninfeta sabia tudo do amor, perfeita nos carinhos e na hora certa.

Dia seguinte, quando Jucá acordou, Rosinha não estava na cama. Olhou para o céu pela janela, o tempo havia melhorado, quase estiado. Tomou banho, arrumou a mala e desceu para o café da manhã e continuar a viagem até Maceió. Rosinha estava pronta sentada numa poltrona com a mala, esperando a partida.

Entraram no carro, a jovem tomou a mesma posição, calada como se nada tivesse acontecido. Não cumprimentou o companheiro de amor da noite de raios e trovões. Durante a viagem, quando tirou o fone do ouvido, e ligou o rádio, ela sorriu pela primeira vez, ficou às gargalhadas, coincidência ou não, no rádio Jorge Bem cantava:

“ -Chove chuva, chove sem parar… Pois eu vou fazer uma prece
 Pra Deus, nosso Senhor… Pra chuva parar… De molhar o meu divino amor”

DEU NO JORNAL

MAIS UMA

A cinco dias do 2º turno da eleição de 2022, o então candidato Lula (PT) garantiu com todas as letras e por escrito, que, vencendo a disputa com Jair Bolsonaro (PL), não tentaria a reeleição.

“Eu se eleito serei um presidente de um mandato só. Os líderes se fazem trabalhando, no seu compromisso com a população”, disse solenemente no ‘X’ (ex-Twitter).

Lula mentiu. Do tipo que não honra promessas, lançou sua candidatura à reeleição em 2026 semana passada, já no primeiro dia da visita à Ásia.

Lula diz ter “energia de 30 anos” e anunciou na Indonésia, dia 23, que irá “disputar o quarto mandato”.

* * *

Nesse nota aí de cima tem a seguinte afirmação: “Lula mentiu”.

Tem alguém surpreso?

Me arrespondam-me com sinceridade, por favor.

JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO NO BRASIL

Ao ver milhares de brasileiros na Esplanada dos Ministérios, tangidos como bois para as prisões, velhos e mulheres entre eles, como se fossem um rebanho, a imagem lembra dos campos de concentração. Que assim eram recolhidos, naqueles tempos, opositores do governo. Depois o Supremo ainda os distinguiria com penas superiores a 17 anos, num julgamento sem paralelo no Brasil, um horror, mas essa é outra história.

Assim, meio sem sentir, me vejo de volta aos tempos de Segunda Guerra. Aproveito e conto essa história a partir de um amigo querido, que de alguma forma fez parte dela, Mickel Sava Nicoloff. Em O Recife e a II Guerra Mundial, Rostand Paraiso diz “grupo de tripulantes de um corsário alemão, afundado em nossas costas… seria enviado para um campo de concentração existente, ninguém sabia onde, no Nordeste”.

Rostand teve, mais tarde, “a confirmação de que aquele campo havia, realmente, existido; funcionando, de novembro de 1942 a maio de 1945, em terras da Fábrica de Tecidos Paulista, de propriedade dos Lundgren”. Mas o que liga Mickel a esse campo de concentração?, eis a questão. Para responder, é preciso voltar no tempo.

A trajetória do eminente advogado Mickel Sava Nicoloff resulta (quase) inacreditável. Seu avô por exemplo, general Sava von Nicoloff, era ajudante de ordens do marechal Hindenburg na Primeira Guerra.

Depois, Hindenburg foi Presidente da Alemanha (Hitler era só primeiro-ministro). Sendo hoje mais conhecido, assim quis o destino, como nome de um Zeppelin movido a hidrogênio (um gás altamente inflamável) que, em 6/5/1937, pegou fogo e matou 35 pessoas na base naval de Lakehurst – em New Jersey (Estados Unidos).

Finda essa guerra, o filho do tal general Sava von Nicoloff, batizado Mickel (mais tarde pai do amigo Mickel, que me contou essa passagem de sua vida), decidiu viajar, por quase dois anos, pelo mundo inteiro. Dando-se que, nessas andanças, acabou se apaixonando por morena de Caruaru, Maria das Graças. O coração tem razões…

Depois, casados, voltaram a Berlim. O pai do nosso Mickel ligou para sua mãe, Sicha. E ela, em vez de abraça-lo correndo após ausência tão longa, acertou encontro entre eles com data e hora marcadas – para dois dias depois, na sua casa, às 16 hs. As culturas são mesmo diferentes. Aqui, qualquer filho iria direto ver a mãe, sem nem avisar, e ela o receberia rindo e feliz. Paciência.

Chegaram. Lá estavam mãe, tios, primos, todos perfilados à sua espera. Como se fosse uma Corte Marcial. Ou um pelotão de fuzilamento. O pai de Mickel entrou na sala com um cigarro aceso, entre os dedos. A mãe lhe disse, contrariada, “Parece claro que você nasceu para se juntar com uma índia” (assim qualificou a mulher que o pai de Mickel tinha do lado). “Mas, em casa de pessoas de bem, ninguém entra fumando. Saia, jogue o cigarro fora e venha me dar um beijo”.

Saíram. Já na calçada, o futuro pai de Mickel jogou na rua o guimba. Foi quando sua futura mãe disse ao marido “Se você entrar nessa casa, de novo, nunca mais vai me ver”. O pai respondeu que não fazia mesmo questão. Pegou no chão a ponta do cigarro ainda aceso, deu uma tragada e foram embora. Aquele beijo não seria dado.

Depois a mãe Sicha foi morar na Bulgária e nunca mais se viram. “Acima dos Deuses o Destino é calmo e inexorável” – escreveu, em uma Ode (sem título, sem data), Ricardo Reis (Fernando Pessoa).

O amigo Mickel nasceu em Berlim, numa Alemanha que já se preparava para a (Segunda) Guerra. O pai ganhava o pão de cada dia se exibindo, nos circos, em espetáculos de luta grego-romana; tendo, como parceiro, um dos 7 (ou 8) filhos, Mickel não me disse qual era, de Floriano Peixoto – segundo presidente do Brasil (1891-1894), morto em 1895. Mas sabemos, pela internet, que era José Floriano Peixoto, conhecido como Zeca Floriano.

Assim se deu até quando, ante a proximidade da guerra e com uma criança para criar, decidiram seus pais que melhor seria voltar ao Brasil.

Aqui, viveram bom tempo sem problemas. Até o dia em que policiais bateram na porta da casa em que moravam; e pediram que o pai de Mickel, alemão de nascimento só para lembrar, os acompanhasse. A mãe levou o marido até a porta e lhe deu um derradeiro beijo. Seria o último nas suas vidas.

Em seguida voltou, entrou no quarto, e saiu vestida de preto. Preto de luto. Nunca mais ninguém a viu com outras roupas. Nem outras cores. Usou preto, sempre, até morrer. E o pai de Mickel nunca mais voltou. Como a prisão se deu em Pernambuco deve ter entregue a Deus, sua triste alma, por aqui mesmo.

Depois a madrinha de Mickel, dona Marieta Lyra de Azevedo, oficial do Registro Civil de Caruaru, providenciou uma outra certidão de nascimento para ele. Por esses novos papéis, Mickel deixou de ser alemão e passou a ter nascido em Caruaru. Seus mais de dez nomes familiares, porém, foram abandonados. Ficou só Mickel, como o pai; Sava, como o avô; e Nicoloff, sem o von, como nome de família.

Voltando ao que interessa, imagina-se que seu pai terá sido encaminhado a algum campo de concentração. Nunca se soube exatamente onde terá sido. Nesse ponto, e considerando o silêncio constrangedor de nossos livros de história sobre o tema, o leitor amigo perguntará se terá mesmo havido algo assim, no Brasil.

Abro aqui parênteses para dizer que se trata de instituição bem mais comum do que se pensa. A primeira experiência em campos de concentração ocorreu com a Grâ-Bretanha, na Guerra dos Bôeres (que findou em 1902), quando os britânicos ainda ocupavam a África do Sul. Depois com alemães, numa colônia do Sudoeste Africano (atual Namíbia). O episódio é hoje conhecido como primeiro genocídio do século XX, contra rebeldes Hererós e Namaquas – entre 1904 e 1907. E a França, em sequência, respondeu por 3,5 milhões de mortes em 25 campos africanos próximos das atuais fronteiras com Iraque, Síria e Turquia.

Não só lá. União Soviética (entre 1923 e 1961, sobretudo nos tempos de Stalin), teve seus Gulags (Sibéria). China, com Laogais, até 1990 (no total, chegou a abrigar 50 milhões de chineses). Aqui mais próximo, na Argentina, durante a ditadura militar (de 1976 a 1983), os Centros Clandestinos de Detenção (CCD). E no Chile, durante a ditadura de Pinochet, o Estado Nacional e a Villa Grimaldi. Além de muitos outros lugares – Espanha, França, Itália, Japão, Portugal.

Sem esquecer a Alemanha nazista, com os mais famosos deles (Auschwitz-Birkenau, Buchenvald, Treblinka, tantos mais) em que se estima terem sido 8 milhões de pessoas encarceradas nesses espaços que eram sobretudo de extermínio. Nos Estados Unidos, quando estudei lá (em Harvard), um professor disse terem sido 17. Entre esses um, no deserto da Califórnia; em que os presos, estimulados a escapar, morriam de sede naquelas areias quentes.

Sem mais dados a informar. Nem comprovações disso. Faltando lembrar campos ainda hoje existentes: em Guantânamo (Cuba), sob responsabilidade dos Estados Unidos; e na Coréia do Norte (com mortalidade elevada), de um ditador (Kim Jong-un) do século XIX em pleno século XXI.

Sem contar, nessa relação de tragédias, o Brasil. Os números oficiais indicam que tivemos, na Segunda Guerra, 12 campos de concentração para manter presos cidadãos nascidos em Alemanha, Itália e Japão. Entre eles um famoso, no Pico da Bandeira. Sem outros detalhes. Só que, tudo sugere, foram mais.

Segundo registros, o de Pernambuco ficava em local conhecido como Chã de Estevam – hoje, Araçoiaba. Talvez o pai de Mickel tenha ido para lá. Ou mesmo para o de Paulista, citado por Rostand. Junto da fábrica de tecidos da família. Onde aliás naquele tempo trabalhou o alemão Fritz Theodor Hemprich (tio do amigo Tota Faria), casado com Gracinha, irmã do dr. Agadir Faria.

Seja como tenha sido, imagino que o pai de Sava morreu de morte natural; que, segundo o mesmo Rostand, eram “campos mais de confinamento que de concentração”.

Saudades de Mickel Sava Nicoloff. Fique em paz, amigo querido. No céu, provavelmente. E findo com um lamento pelos que perderam (ou estão perdendo) nas prisões, confinados como os de Brasília, pedaços inteiros de suas vidas. Deus tenha pena deles todos.

DEU NO X

PEDRO MALTA - REPENTES, MOTES E GLOSAS

DOIS POEMAS DE CANCÃO

João Batista de Siqueira, Cancão, São José do Egito-PE (1912-1982), foi poeta

* * *

MEU LUGAREJO

Meu recanto pequenino
De planalto e de baixio
Onde eu brincava em menino
Pelos barrancos do rio
Gigantescos braunais,
Meus soberbos taquarais
Cheios de viço e vigor
Belas roseiras nevadas
Diariamente abanadas
Das asas do beija-flor

A terra da catingueira
Criada na penedia
Onde a ave prazenteira
Canta a chegada do dia
Planalto, ribeiro, prado
Onde até o próprio gado
Parece ter mais prazer
Terreno das andorinhas
Onde arrulham mil rolinhas
Quando começa a chover

A borboleta ligeira
Que desce do verde monte
Passa voando maneira
Roçando as águas da fonte
As aragens dos campestres
Pelas florzinhas silvestres
Atravessam sem alarde
Quando o sol se debruça
A Natureza soluça
Nas sombras do véu da tarde

Terreno em que os sabiás
Cantam com mais queixumes
Belas noites de cristais
Cravadas de vaga-lumes
Meus mangueirais magníficos
Por onde os ventos pacíficos
Atravessam mansamente
Verdes matas perfumadas
Nas lindas tardes toldadas
Das cinzas do sol poente

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VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

A FEIRA DA MINHA ALDEIA

Décadas atrás, entrando pelo século passado, a pequena cidade de Nova-Cruz (RN) era paupérrima, “sem água e sem luz” e não dispunha de consultórios médicos, ambulatórios nem hospitais.

A mortalidade infantil era absurda. A criança adoecia à tarde e antes de amanhecer o dia estava morta. Não havia assistência médica nenhuma, e, consequentemente, não havia plantão médico.

Chá de canela era o “remédio” que os curiosos indicavam para os bebês, quando de repente ficavam febris, pálidos e choramingando. Foi assim que vi um irmãozinho meu, Galdino, morrer, no dia em que completou sete meses de idade, ao sofrer uma convulsão pela madrugada. Tinha amolecido à noitinha, ficou febril e foi “medicado” por um conhecido charlatão da cidade, que, em sua casa, consultava o povo da roça, dia de feira. O remédio por ele indicado foi chá de canela, achando que deveria ser uma gripezinha.

Nunca esqueci o desespero da minha mãe naquela madrugada, gritando desolada, sem querer acreditar que a criança estava morta. Meu pai, também desesperado, tentava acalmá-la, mas era em vão. Eu tinha pouco mais de quatro anos. Nunca esqueci essa terrível cena, numa madrugada escura e fria.

Pela manhã, a casa se encheu de gente. À tarde, houve o enterro de Galdininho (como minha mãe o chamava), com a presença de familiares da minha mãe, que moravam em Natal. Essas coisas tristes da vida, a gente nunca esquece…

Pois bem. A feira municipal de Nova-Cruz era na 2ª feira. Era considerada a maior feira da região agreste. Começava pela madrugada e se estendia até o final da tarde.

Do balcão da bodega do nosso pai, assistíamos a um verdadeiro espetáculo de cultura popular: As cantigas dos cegos, pedindo esmolas, e insultando uns aos outros, defendendo seus direitos àquele ponto. Era uma verdadeira festa do Cordel. Os desafios eram hilários e maliciosos.

A feira era um verdadeiro encontro ou reencontro de almas. Era um dia divertido, com meu pai, minha mãe e todos os filhos no balcão da venda. Em frente, havia duas barracas que vendiam cocorotes (de coco), bolo branco (hoje chamado “bolo da moça”) e doce americano (geleia de coco). Nunca me esqueci do gosto dos cocorotes. Tudo era uma gostosura.

Mais adiante, chegava um vendedor ambulante, com uma mala cheia de óculos de grau para vender, e formava-se uma fila de pretensos “clientes”, para comprar óculos, cujo grau lhes permitisse ler as letrinhas da caixinha de fósforo “MARCA OLHO”. Esse era o teste para aprovação do grau.

A precariedade da vida em Nova-Cruz forçava o povo a dar preferência aos óculos vendidos pelo ambulante, na feira livre. Além do mais, se o problema fosse apenas “vista curta”, seria mais cômodo e mais em conta comprar os óculos já prontos na feira, do que ter que viajar a Natal, somente para esse fim. Os compradores de óculos ficavam satisfeitos quando enxergavam perfeitamente as letrinhas da caixinha de fósforos “Marca Olho”. Era o sinal de que o grau era aquele.

De Nova-Cruz a Natal são 110km. Entretanto, naquela época (60/70), em estrada de barro, a viagem de ônibus levava de 4 a 5 horas. Durante o inverno, o atoleiro era grande. Por isso, tanto os feirantes da zona rural, como os moradores da zona urbana, eram acostumados a comprar óculos de grau na feira, já prontos. A aprovação dos óculos era 100%, e ninguém reclamava. Meu saudoso tio Paulo Bezerra, por comodidade, também só comprava óculos de grau na feira, e se dava muito bem.

Também na feira de Nova-Cruz, costumava estar presente um homem vestido com uma bata branca, com pose de doutor, que ali armava uma pequena banca e sobre ela mantinha uma garrafada, que continha um ácido para “tirar” sinais da pele. Nessa época, não se falava em carcinoma. A fila de pessoas que pagavam para tirar sinais era grande. Nunca se soube de um insucesso de um desses “procedimentos cirúrgicos”. Hoje, esse homem seria preso por charlatanismo, mas, naquela época, era a salvação do povo que tinha problemas com sinais. Meus tios Paulo Bezerra e Eulina Bezerra chegaram a tirar alguns sinais com ele e os “procedimentos” foram muito bem sucedidos.

Essas lembranças fazem parte da minha saudade. Volto à minha infância e juventude. Essa feira, na minha vida, foi muito mais do que uma simples feira. Ela faz parte das mais belas recordações de Nova-Cruz, com cenários inesquecíveis, que guardo na memória e no coração.

Ave, Nova-Cruz!

PENINHA - DICA MUSICAL

A PALAVRA DO EDITOR

DEU NO X