
Navio Lobo Dalmada no Rio Amazonas
No início de 1966, eu era Tenente do Exército Brasileiro, servia no Recife. De repente fui transferido para a fronteira do Amazonas. Não tive como ficar naquela bela cidade que eu amava. Já que tinha de enfrentar a Amazônia, que assim o fosse, resolvi tirar o melhor proveito, conhecendo outras pessoas, outro mundo dentro desse enorme Brasil.
Tomei um transatlântico no Recife em três dias aportei em Belém. De Belém me envaram para Manaus via fluvial, embarquei no navio Lobo Dalmada singrando o Rio Amazonas. Foi uma experiência exuberante que ficou gravada em minha mente e coração. Tive uma feliz surpresa, encontrei o então Tenente Bosco embarcando para o mesmo destino no mesmo navio.
Foram cinco dias surpreendentes belezas de Belém a Manaus, curtindo a selva exuberante, subindo o Rio Amazonas. Paramos nos portos de Óbidos, Santarém, Parintins e outras pequenas cidades encravadas na selva.
Duas bonitas jovens americanas eram companheiras de viagem, estavam no camarote ao lado. Bosco com seu inglês e portunhol, entrosou-se com as sobrinhas do Tio Sam. O plano era, ele com uma e eu com a outra durante a viagem. Quando Bosco investiu na americana mais bonita, a outra percebeu e falou grosso. Eram namoradas. Assim acabou-se a fugaz paquera internacional pelo Rio Amazonas.
A 9ª Companhia de Fronteira em Roraima estava sem comando e precisando de oficiais. Eu e Bosco fomos designados e partimos juntos para cidade de Boa Vista num DC-3 da FAB. Eu assumi o comando do 9º Pelotão de Fronteiras, tendo o Tenente Bosco de subcomandante. Foi um trabalho maravilhoso, onde me senti útil ao país. Um soldado de fronteira se torna um defensor da nação com muito orgulho. Conheci toda a fronteira com a Venezuela e Guiana Inglesa que estava sob nossa responsabilidade. Um trabalho extraordinário. Para me capacitar enfrentei o curso de Guerra na Selva em Manaus, um dos mais difíceis no mundo.
Acontece que nem eu, nem o Bosco estávamos ali apenas para defender o Brasil. Como ninguém é de ferro, a carne é fraca e o mulherio amazonense muito assanhado, logo nos dedicamos à caça ao mulherio que nos receberam de braços e pernas abertos. Tenente Bosco foi um dedicado caçador de mulheres. Fazia isso como ocupação profissional paralela.
O inquieto Tenente Bosco só pensava em mulheres, não tinha namorada fixa, o que caísse na rede era peixe. Terminava o expediente à tardinha, ele saía na sua lambreta, pegava alguma das namoradas disponível e levava para um cantinho escuro à margem do Rio Branco. Apelidaram esse cantinho de Beco do Tenente Bosco. Eu soube que em Boa Vista ainda existe esse beco com placa e tudo.
Certa vez, Bosco cometeu a imprudência de namorar uma mulher casada, esposa de um alto funcionário da República que mandava no Território de Roraima (ainda não era Estado). A bela mulher era nova, o marido já passava dos setenta anos. Eu aconselhei ao Bosco sair dessa aventura. Ele me tranquilizou, o corno era manso. O grandola viajava para Brasília toda terça-feira no próprio avião. Na sexta-feira ele retornava pela tarde, dando rasante por cima de sua casa. Os linguarudos da cidade mexericavam. Insinuavam que aqueles rasantes eram avisos para dar tempo do Tenente Bosco sair da casa sem atropelos. A bela mulher, ao ouvir o ronco do motor do avião, dizia com carinho para o Bosco.
– Até terça-feira meu amor, que pena. O corno voador chegou.
Escreveu o amigo e mestre engenheiro Sócrates Times de Carvalho Neto. Talvez inspirado por artigo sobre outro amigo, Mané Tatu, que contou dos horrores que sofreu num exame que fez, Cintilografia. O texto me mandou até com título, Piripaque, e assim fica para todos os fins de Direito.
Afinal, que quer dizer isso exatamente? A palavra, apesar de seu uso comum, (ainda) não foi dicionarizada. Está na fila junto com outras, ainda em análise, como cordonel (lona textil), disania (dificuldade em sair da cama), microssono (sono breve), pejotização (contratação de trabalhador como pessoa jurídica), reclínio (ação de reclinar), retrofiltagem (modernização de edifícios antigos), terrir (gênero de filme), tokenização (substituição de dados sensíveis por códigos aleatórios). Até lembrei o tal Piripaque a Ricardo Cavaliere, confrade que é Coordenador da Comunicação de Lexicografia em nossa Academia Brasileira de Letras.
Ao que se sabe, sua etimologia sugere que derivou de Billie and Park, termo hospitalar que evoluiu para Blipark e depois, no Brasil, a dito Piripaque. Inspirada na expressão Histeric (ou Hy), aplicada aos que estiverem à beira de um ataque de nervos. Como se deu com o dito Sócrates.
Lembrei conto de Afrânio Peixoto, Ato de fé, em que disse dos exames médicos serem “tortura que o humanismo medieval adotou, legado às idades modernas como remanescente de uma inquisição”. Talvez seja mesmo. E sigamos com Sócrates:
“Como de hábito, acordei na madrugada para fazer xixi. Tomei água, para garantir que me levantaria novamente. Imagino seja uma maneira original de confirmar que ainda estou vivo. Mas acordei exausto.
Essa introdução parece coisa de bêbado, mas você irá entender. Acho. Não me sentia bem. Sem conseguir dormir na primeira e, menos ainda, na segunda mijada. Quando acordei, agora para tomar café e outras coisas, teve início uma aventura que nem Ulisses acorrentado poderia dizer que foi superior em sofrimentos, atrocidades e novas descobertas.
Suor frio, cansaço extremo com o menor esforço e o coração tentando sair pela boca. Mas sem encontrar o caminho, ainda bem. Minha mulher sugeriu verificar a pressão. Mediu três vezes e estava, na média, 13/9; só que o batimento cardíaco era de 120. Daí para frente. Nossa filha resolveu telefonar para o irmão, que é médico e estava já se preparando para ir a Gravatá com nossos netos.
Ele chegou, avaliou pressão e batimento cardíaco. Fez manobras que imaginei serem tentativa de me matar e, como não conseguiu, afirmou Vamos para uma emergência cardiológica que o batimento vai a 150 e oscila. Achei que fazia sentido e não haveria surpresa porque não tenho opinião firme, imagine meu pobre coração.
Nosso neto mais velho estava tentando sondar se eu iria morrer, o mais novo se iríamos para Gravatá. O caçula estava mais certo, não era o melhor dia para morrer. No hospital, esse filho me deixou em frente à emergência e foi estacionar o carro. Antes, me orientou o que dizer ao entrar na emergência.
Na primeira abordagem, um gentil atendente falou qualquer coisa como Seja bem-vindo, é uma satisfação tê-lo aqui…. Acho que foi isso, não sei, apenas repeti o que meu filho orientou. A partir de certa idade, pai deve obedecer a filho sem discutir. O atendente respondeu com fisionomia de quem encarou fantasma às 11h da manhã, Fique aqui!, correu e me colocou numa cadeira de rodas. Imaginei: ou é uma senha infalível ou estou andando por obra e graça do Senhor, eufemismo para tu morreu e não sabe.
Num clique, a recepcionista me deu senha. Imaginei fosse do necrotério, mas era da triagem. A triadora chamou meu anjo da guarda e falou box 29!. Ele saiu correndo e, no box 29, já havia alguém. Mais um monte de familiares. Ele não falou nada, nem eu, mas nossos olhares falaram, puta que pariu futebol clube!
Meu anjo da guarda, brasileiro, não questionou o engano, não reclamou e se virou nos 30. Foi em frente até encontrar um box vazio, o 31 Lá, me deitou e foda-se quem iria para o tal box 31. Vá morrer em outro box! que cheguei primeiro, seu filho da puta.
Uma mocinha, linda e gentil, acho que cabelos brancos e fragilidade são armas, teve a atenção de me informar que iria fazer um eletrocardiograma. Foi rápida. Puxou uma fita de papel, colocou na vertical ou horizontal não lembro, e perguntou O senhor já enfartou? Respondi não, mas é melhor repetir depois dessa pergunta. Ela não achou graça.
Entrou um sujeito jovem, firme nas ações, tentando me convencer que essa porra toda não era nada especial. Não foi assim que falou, mas pimenta no cú dos outros… Repetiu a manobra mecânica executada por meu filho. A cama de nossa casa é o melhor lugar para morrer, garanto. Então!, chegou o tal filho. Colocou uma calça jeans sobre a bermuda e manteve os chinelos. Era isso ou entraria descalço na emergência. Foram contemporâneos, meu filho e o cardiologista. O que isso significa? Rigorosamente, coisa nenhuma.
O tal cardiologista executou outra manobra e… nada. Ficou sem graça e afirmou Nunca perdi a retomada da frequência cardíaca com as manobras, acho que temos que usar medicamento. Afirmei que derrota não assusta torcedor do Náutico.
Eu estava sendo monitorado, em tempo real, com aquela mini tv que transmite ao vivo a morte. Sabia disso pelo movimento do globo ocular dos coveiros no box 31 e, também, porque me interessei pelo espetáculo. Recomendo. Se não estiver em coma, claro. O cardiologista, provavelmente por conta da presença do colega de residência, perguntou Vamos fazer nova tentativa?
Eu senti cheiro de indecisão (eufemismo para cheiro de merda) e não deixei ninguém decidir, não delego merda, merda faço eu, a glória é minha e o desastre é uma glória por livrar todos da decisão. Foda-se! Com calma, defini: não tente nova manobra, eu quero que seja administrado algum medicamento.
Chegou um enfermeiro que teve aula com meu filho, quando era plantonista em outro hospital. Nova festa. Eu só olhando e pensando na farra dos funerais irlandeses, comida, bebida, encontro com velhos amigos, roupa de casamento e enterro, mas eu ainda estava vivo. O cardiologista falou o nome da droga, Adenosina, que seria providenciada. E, em seguida, tentou me explicar o que ocorreria. Se bem percebi, havia um curto-circuito no controle dos batimentos cardíacos, provocando um descompasso que atende por arritmia.
Não entendi o por quê da tensão, até então. Mas era razoável. O cardiologista falou A droga vai parar seu coração por 2 a 4 segundos, é como morrer nesse momento. Todos relatam que há um mal-estar grande, mas passageiro. Topa? Sim, vai ser interessante para ir treinando. Era só o que faltava, um torcedor do Náutico ter medo de droga.
A tal porta se abriu, entrou uma enfermeira com a droga e um coveiro arrastando um desfibrilador. Olhei praquela merda e para meu filho, um escroto; que, com fisionomia de quem pede outro chope, afirmou Fica tranquilo, isso é protocolo. Injetaram a tal droga da morte prêt-à-porter e o cardiologista falou Começou!. Contei, mentalmente: 1001, 1002, 1003… nada… então 1004. A frustração foi tal que perguntei: acabou?
Havia acabado a administração da droga da morte de brincadeirinha, recurso que deveria ter um nome de impacto mas não tem. Acho que os médicos só se interessam pela morte pra valer. Não senti nenhuma diferença entre estar vivo ou morto, continuo fazendo as mesmas merdas.
A outra opção, menos provável, é que estou morto e não sei, vivendo num mundo paralelo. Na segunda opção, espero que não tenha influência no mundo dos vivos e que nada do que escrevi seja lido. Beijos do Além”.
Lembrei outro texto, agora de Millôr (A Bíblia do caos), “Os médicos não descobriram nada, mas recomendaram outros exames. Se eu aceitar fazer todos, e ficar bem quietinho, eles prometem achar alguma coisa”. Pode ser. No caso relatado, em resumo, o amigo Sócrates sobreviveu. Ainda bem. Até agora, pelo menos. Graças. Adeus.
Foi constrangedor o papelão do governo Lula no caso do tarifaço, incapaz de estabelecer qualquer tipo de negociação com o governo dos Estados Unidos, segundo maior comprador dos nossos produtos.
* * *
Papelão constrangedor, diz a nota aí de cima.
Alguém sabe de qualquer atitude, fala, decisão ou comportamento do Descondenado que não seja um papelão constrangedor?
Quem souber, diga aqui pra gente, por favor.
Adamastor era um engraxate, que, na década de 60, atendia aos fregueses na Praça Padre João Maria, bairro da Cidade Alta, em Natal (RN). No final da tarde, guardava seus apetrechos no estabelecimento de um sapateiro “lambe-sola” (consertador de calçados), seu amigo Osvaldo, um homem fanático por Aluízio Alves, na época, governador do Estado. Convém salientar que Seu Osvaldo só usava camisa verde, símbolo do partido político do seu ídolo, e as paredes do seu minúsculo ponto comercial eram totalmente decoradas com fotos desse homem, que exerceu grande liderança política no Estado, durante muitos anos. Além disso, o sapateiro também mantinha na parede externa do seu estabelecimento de trabalho, onde também morava, uma grande bandeira verde, símbolo do partido de Aluízio Alves. Era uma figura folclórica.
Adamastor, à noite, ganhava dinheiro pastorando carro. Sua freguesia era constituída de frequentadores do Cine Nordeste, localizado na Rua João Pessoa, por sinal, bem perto da Praça Padre João Maria.
Antes disso, jantava um cachorro-quente “Sebosão”, enorme, que tinha tudo o que o diabo gosta: carne moída gordurosa, salsichão da pior qualidade, frango com muita graxa, vinagrete, e uma cobertura generosa de “ketchup” e maionese. Dentro de uma mochila, trazia sempre uma garrafa de pinga e um copo. Trazia também um depósito com água.
À noite, depois que se transformava em pastorador de carro, Adamastor aproveitava para tomar suas chamadas de cana, quando não havia ninguém olhando. Bebia moderadamente e nunca foi visto embriagado.
Adamastor já era uma figura conhecida na redondeza, e de muita confiança. Tinha seus fregueses cinéfilos, que deixavam seus carros estacionados perto do cinema, aos seus cuidados, e lhe pagavam bem. E ai dos malandros que se aproximassem dos carros que pastorava. Ele gritava, mandando-os “desarredar” imediatamente. Para demonstrar zelo, mantinha sempre nas mãos uma flanela molhada, com a qual tirava a poeira dos carros.
Certa noite, Dr. Mesquita, um advogado muito conhecido na cidade, confiou-lhe sua luxuosa e recém adquirida caminhonete, enquanto iria com a esposa ao “Cinema de Arte”, sessão das 21 horas, no Cine Nordeste.
Como o filme era de longa-metragem e só terminava à meia noite, Dr. Mesquita pediu ao pastorador que redobrasse o cuidado.
Nessa noite, Adamastor se excedeu na cachaça, e ficou ainda mais cuidadoso, principalmente com a caminhonete “zerinho” do doutor. Para se sentir mais seguro, resolveu providenciar um “cacete”, para usar contra qualquer malandro que tentasse bulir nos carros. Nesse tempo, ainda não havia assalto nem roubo de carro em Natal.
Depois que a sessão de cinema terminou, o advogado foi pegar seu veículo e notou que Adamastor estava muito nervoso, pois, quando o avistou, foi logo dizendo em voz alta:
– Graças a Deus, doutor, o senhor chegou!
E Dr. Mesquita perguntou:
– Está tudo bem, Adamastor? Aconteceu alguma coisa?
Então, o pastorador respondeu:
– Agora, tá tudo bem, doutor. Mas passei um susto danado! Tava tudo calmo e de uma hora pra outra apareceu um moleque taludo, querendo mexer no trinco da caminhonete do senhor. Parece até que eu tava adivinhando, pois já tava com a arma na mão. Dei uma grande surra de cacete no safado, mas ele conseguiu fugir correndo. Fiquei o resto do tempo “cubando” se ele voltava, mas o ladrão desapareceu de vez.
O “cacete” a que Adamastor se referiu foi, nada mais, nada menos, do que a antena da caminhonete de luxo, novíssima, do advogado, que ele continuava segurando.
Como a causa foi justa, Dr. Mesquita guardou a antena, agradeceu e deu uma nota graúda ao pastorador.
Editorial Gazeta do Povo

Em vez de negociar com Trump, Lula reagiu com bravatas patrióticas e discursos sobre “soberania nacional”
Um recuo de última hora do governo Donald Trump atenuou (mas não muito) o tarifaço imposto pelo presidente norte-americano aos produtos brasileiros. A ordem executiva assinada na quarta-feira, dia 30, confirmou a tarifa padrão de 50%, mas adiou em alguns dias sua entrada em vigor – a tarifa só começará a valer em 6 de agosto, e não mais no dia 1.º – e abriu exceções para centenas de itens em uma lista bastante variada, com produtos como petróleo, aviões de uso civil e suco de laranja. No entanto, por mais relevantes que alguns desses itens sejam no comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos, a nova taxa de 50%, que ainda será cobrada sobre produtos importantes como café e carnes, deve afetar algo entre 55% e 60% das exportações brasileiras para os EUA, segundo estimativas independentes e considerando o fluxo comercial atual.
Ao menos dessa vez, tanto Lula quanto outros petistas graúdos acostumados a povoar as redes sociais tiveram a decência de não reivindicar o crédito pelo recuo parcial do governo norte-americano. Afinal, por mais que os motivos de Trump para a mudança sejam desconhecidos, sabe-se com toda a certeza que empenho da parte do governo brasileiro não foi um deles. Enquanto vários países e blocos econômicos tomaram a iniciativa de procurar os norte-americanos para negociar e conseguiram acordos – o mais importante deles até agora, com a União Europeia, foi anunciado no último domingo –, o Brasil se encastelou na soberba de Lula, disfarçada de defesa da soberania nacional.
Nenhuma autoridade de primeiro escalão do governo federal se dispôs a ir aos Estados Unidos especificamente para tentar negociações, e o governo se mostrava disposto a deixar o prazo se esgotar e as tarifas começarem a valer, para só depois tomar alguma providência. A única exceção foi o chanceler Mauro Vieira, que foi a Nova York para uma reunião da ONU sobre o Oriente Médio, e acabou conseguindo um encontro com o secretário de Estado Marco Rubio, na quarta-feira. Uma missão oficial aos EUA com outras autoridades do Executivo foi descartada porque, sem nenhuma reunião antecipadamente confirmada, o governo temia um vexame caso seus representantes não fossem recebidos na Casa Branca; se houver algo neste sentido, a viagem deve ocorrer apenas com as sanções já em vigor.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pode reclamar o quanto quiser sobre a falta de canais diretos com Trump; a verdade é que foi o chefe de Haddad, de Vieira e do vice-presidente Geraldo Alckmin – outro que tem buscado algum tipo de contato de alto nível em Washington – quem fechou as portas à negociação. Desde o anúncio das novas tarifas, Lula não fez outra coisa a não ser bravatear e provocar em busca de popularidade, usando suas metáforas de boteco e insinuando que ele é quem deveria ser procurado por Trump para discutir, e não o contrário, como os EUA tivessem muito mais a perder que o Brasil em caso de uma disputa comercial entre os dois países.
E não se pode nem mesmo alegar que os norte-americanos não deixaram nenhuma porta aberta. Independentemente do que se possa pensar sobre a associação feita por Trump entre as tarifas e o processo contra Jair Bolsonaro, fato é que o encarregado de negócios da embaixada norte-americana no Brasil, Gabriel Escobar, disse a empresários do setor de mineração (um dos que vinham se mobilizado com mais intensidade para evitar as tarifas norte-americanas e uma retaliação brasileira) que os EUA têm interesse em terras raras e minerais como lítio e nióbio, dentro de um contexto de disputa com a China pelo controle desses minerais, importantes para setores como tecnologia e siderurgia. Mas, na segunda-feira, Lula também respondeu a essa possibilidade com frases de efeito. “Se esse mineral já é crítico, eu vou pegar ele pra mim. Por que eu vou deixar pra outro pegar?”, questionou – escondendo que o Brasil não tem capacidade de processar esses minérios, e que eles estão sendo vendidos em quantidades cada vez maiores para os chineses.
Sem o envolvimento do Poder Executivo, restam iniciativas isoladas de setores empresariais como o de mineração e a missão de senadores brasileiros, da base aliada e da oposição, que foram aos Estados Unidos em busca de interlocutores, sem no entanto conseguir muito sucesso. Infelizmente, e apesar do recuo norte-americano, neste caso tudo se encaminha para um cenário em que os autênticos interesses brasileiros sucumbirão diante de arrogâncias e preferências pessoais de quem coloca a própria conveniência à frente da promoção do comércio exterior, que historicamente tem se mostrado um motor de prosperidade.
Muito antes de Trump iniciar seus tarifaços, qualquer analista econômico capaz de ligar os pontos reconhecia que o Brasil ainda era uma economia bastante fechada, que apelava ao protecionismo por meio de vários artifícios – como as políticas de conteúdo nacional tão ao gosto do petismo – e que, por isso, perdia em competitividade e produtividade. E a resposta de Lula à ofensiva comercial norte-americana não será a tão necessária abertura (seja ao mercado dos EUA, seja a outros mercados, como o europeu), mas a intensificação da mesma receita que tem impedido o Brasil de se tornar um ator mais relevante na economia mundial.