CARLITO LIMA - HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA

A HEROÍNA DO REGINALDO

Marlúcia nasceu em União dos Palmares, filha de trabalhadores rurais descendentes dos quilombolas, onde Zumbi organizou o Quilombo, a República de Palmares com os escravos fujões na Serra da Barriga que durou cem anos.

Morena bonita, com ares de felicidades, sorriso constante nos lábios. Menina, perambulava pelas ruas. Foi criada tomando leite de cabra. Era a mais rechonchuda do povoado. Quando ela completou 10 anos, seu pai resolveu morar na capital em busca de melhor qualidade de vida, foi morar numa invasão de terrenos no Vale do Riacho Reginaldo, onde construiu uma casa de taipa num arruado. Sua infância foi marcante. Líder das meninas e dos meninos, ela jogava ximbra, subia em pé de árvore, brincava de polícia e bandido.

De repente veio a adolescência, aos 15 anos pegou um corpo bonito, tornou-se mulher. Os homens ficavam cheios de desejos quando olhavam para aquela menina-moça exuberante, sensual, sapeca, cheia de energia, mas tinham receio do severo pai. Certo dia, Zezinho, um jovem caminhoneiro ao voltar de uma longa viagem avistou Marlúcia, o coração bateu forte. A menina que ele conhecia brincando, correndo nas ruas, trepando nas árvores, havia se transformado numa deslumbrante moça. Ele foi se achegando, se achegando, até que Marlúcia concordou namorar. Depois de dois anos entre namoro e noivado, foi marcado casamento para o dia 28 de dezembro. O jovem caminhoneiro atrasou-se na viagem, não chegou no dia marcado, mesmo assim houve festa, não se estragaram a bebida e comida. O casório aconteceu no dia 31 de dezembro.

Quatro dias depois do casamento Zezinho partia para outra viagem. Marlúcia, sem avisar, pela manhã estava pronta, para surpresa do marido sentou-se na boleia do caminhão. Foi a primeira das inúmeras viagens, percorreu todo o Brasil com seu companheiro. Logo aprendeu a dirigir, tornou-se excelente motorista, melhor que o Zezinho. Assim passaram-se onze anos, só não dirigiu o caminhão na época de dar à luz.

Um bonito amor também chega ao fim; houve a separação. Marlúcia foi tentar sua vida no Rio de Janeiro, ficou na casa do irmão. Logo estava trabalhando de cabeleireira para dar sustento aos filhos. Casou-se novamente, uma bela mulher fica sozinha se quiser. Com alguns anos a saudade foi maior, voltou e fixou residência em Maceió, trabalhando de manicure e cabelereira. As vicissitudes da vida fizeram acabar o novo casamento.

Marlúcia alugou um salão numa espécie de mercado de artesanato no bairro da Jatiúca. Ela fez negócio, estabeleceu-se, passou mais de quatro anos à frente de seu aprazível salão de beleza. Os turistas adoravam quando iam às compras de artesanato, encontravam um salão de beleza bem equipado e bem servido pela simpatia e competência de Marlúcia.

Quando em certa manhã ouviu o grito de fogo; ao perceber que o mercado estava em chamas, seu coração pulou, conseguiu retirar do salão alguns equipamentos. Acontece que as chamas cobriu seu salão. Ela tentou entrar no fogaréu, mas os bombeiros proibiram, dois militares seguraram seus braços. Marlúcia tentava se desvencilhar para enfrentar o inferno. Chorava ao ver o fogo acabar seu salão. Perdeu tudo, não tinha seguro.

Nada na vida lhe foi fácil. Com muito trabalho a ajuda do pai equipou uma sala da casa do Reginaldo, onde hoje, a vistosa e bonita quarentona, mãe de 2 filhos, atende a clientela.

Certa tarde, seu salão estava cheio quando entrou um meliante de revólver na mão exigindo dinheiro e celulares de todos. Marlúcia pediu calma ao ladrão que apontava a arma, ela levou seus clientes para um lugar seguro dentro da casa, voltou para negociar com o assaltante. Começou a conversar calmamente com o assaltante, de repente, tirando o apurado do bolso do avental, falou firme, gritando:

– Você não vai mexer com meus clientes. Tome aqui meu celular, tome meu dinheiro. E sabe de uma coisa, puxe para fora daqui seu cabra safado!!!!

O assaltante assustado deu um pique, disparou numa corrida pela calçada sequer olhou para trás. Os clientes aliviados bateram palmas. Assim é Marlúcia, uma heroína brasileira.

DEU NO X

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

ANO NOVO EM NOVA-CRUZ (RN)

Entre as recordações da minha adolescência, que guardo de Nova Cruz (RN), sempre me vem à memória a passagem de ano de 1959/1960, quando a cidade entrou em polvorosa, diante de previsões radiofônicas de que o Novo Ano raiaria com uma enxurrada de macacos invadindo as ruas.

No final de 1959, surgiu um boato em todo o Brasil, de que um profeta havia preconizado que em 1960 os negros iriam virar macacos (sic). Os compositores imediatamente aproveitaram a dica e fizeram o frevo-canção “Operação Macaco” da autoria de Sebastião Lopes e Nelson Ferreira, interpretado por Nerize Paiva.

No interior nordestino, principalmente em Nova Cruz-RN, antiga Anta Esfolada, o boato se transformou em praga. As pessoas mais ingênuas tomaram isso ao pé da letra, e a notícia, de tão repetida, virou verdade, tal qual a atual fake news.

A festa da padroeira da cidade, Nossa Senhora da Conceição, pela primeira vez foi tensa, pois havia quem acreditasse nessa propagada profecia.

A barraca, armada em frente à Matriz estava repleta de pessoas que aguardavam a chegada do Ano Novo. Notavam-se nas fisionomias de todos, tensão e medo, diante da perspectiva do cumprimento da profecia divulgada pela cidade. Havia pessoas nervosas, que acreditavam nos boatos negativos. Mesmo assim, a cidade estava repleta de nova-cruzenses, tanto da zona rural como da zona urbana. Essas pessoas invadiam a cidade, na véspera de Ano Novo, em busca de diversão, como passeios no Parque São Luiz, compras de iguarias regionais, incluindo cestinhas com alfenins e doces secos. Tudo isso era vendido em barraquinhas armadas ao longo da Rua Grande, principal rua da cidade.

Havia também o serviço de alto-falante, onde os casais apaixonados pagavam para oferecer músicas significativas, verdadeiras declarações de amor aos parceiros.

As senhoras católicas da cidade prestavam sua colaboração à Igreja, preparando iguarias, como perus assados, pasteis e outros salgados, e as garçonetes e garçons eram pessoas conhecidas, que também prestavam sua ajuda gratuita à paróquia.

Quando se aproximava a hora da passagem do ano, a banda de música da cidade, comandada pelo exímio maestro Tenente Freitas, de saudosa memória, executava emocionantes dobrados, e na passagem do ano tocava o Hino Nacional. Nessa hora, ouvia-se o pipocar de foguetões, o sino da Igreja repicava por alguns minutos, e as emoções explodiam entre pessoas amigas e até inimigas eventuais. Em seguida, o Padre Pedro Moura dava a Benção do Santíssimo da janela da Igreja, o que completava o clima de emoção. Era uma verdadeira apoteose!!!

Na passagem do ano de 1959 para 1960, notavam-se crianças em pânico, agarradas às saias de suas mães, apavoradas com a profecia de que negro iria virar macaco, na passagem de ano.

Dona Lia, minha saudosa mãe, atendia na barraca da Igreja, juntamente com outras senhoras da sociedade, despachando fatias de peru assado e salgadinhos variados, solicitados pelos ocupantes das mesas. De repente, ela percebeu que o filho caçula, Bernardo, de quatro anos, não se desgrudava de sua saia, e chegava a tremer de medo, observando a fisionomia de cada pessoa morena ou negra da cidade. Apavorado, o menino temia que na passagem do ano, a barraca fosse invadida por gorilas, como nos filmes de Tarzan. Esperava que os negros da cidade se transformassem em macacos. Foi uma expectativa de terror. Não só as crianças, como também alguns adultos supersticiosos, temiam a anunciada previsão, amplamente divulgada pelas emissoras de rádio.

Os passeios em redor da barraca principal eram contínuos, por pessoas mais simples, que não podiam gastar dinheiro na barraca da Igreja. Havia leilão de prendas ofertadas pelas pessoas da cidade, que variavam de coisas simples, como frango assado, até animais vivos, bovinos e caprinos, ofertados por fazendeiros ricos da região, e que davam muito lucro à Paróquia.

A bem da verdade, as pessoas, principalmente as crianças, só se tranquilizaram no final da festa, já ao amanhecer o dia, quando constataram que nenhum negro tinha virado macaco. Nem tampouco tinha havido invasão de gorilas na festa da Padroeira de Nova Cruz, Nossa Senhora da Conceição.

A crendice popular tem o condão de impressionar as pessoas, e essa passagem de ano marcou época em Nova Cruz.

A fake new deu origem a um grande sucesso carnavalesco, a música Operação Macaco, da autoria de Sebastião Lopes e Nelson Ferreira, interpretada pela cantora pernambucana Nerize Paiva. 

Isso aconteceu antes da época do politicamente correto. Hoje seria humanamente impossível, tamanha gozação.

Se fosse hoje, a “profecia” seria fake new, e os autores da música Operação Macaco teriam sido punidos.

DEU NO JORNAL

INCÊNDIOS

O ano de 2024 entra para a história como um dos piores para os biomas brasileiros.

Foram 278.229 focos de incêndio, o período de maior incidência desde 2010.

Subiu 46% em relação a 2023 (189.891 focos).

* * *

Isso sem falar nos horríveis incêndios provocados na administração do país pelo gunverno do descondenado.

O gigantesco fogaréu luloso está acabando com essa republiqueta banânica, aliada da Venezuela.

É phoda!!!

COMENTÁRIO DO LEITOR

DEU NO JORNAL

O FIM DA FARSA

Editorial Gazeta do Povo

Lula mandará embaixadora à posse de Maduro

Lula e Nicolás Maduro em foto de 2023, durante visita do venezuelano a Brasília

Diante da evidente fraude eleitoral que culminou com a declaração de vitória de Nicolás Maduro nas eleições venezuelanas de julho de 2024, Lula pretendeu cozinhar o assunto o quanto pôde: não reconheceu a “vitória” do companheiro socialista, como fizeram várias ditaduras mundo afora (e seu partido, o PT), mas também não afirmou categoricamente que a contagem dos votos havia sido fraudada, como fizeram várias democracias mundo afora, algumas delas reconhecendo o oposicionista Edmundo González como presidente eleito. Em vez disso, Lula e o chanceler de facto Celso Amorim flertaram com várias ideias esdrúxulas, incluindo a realização de novas eleições na Venezuela, até se fixarem em um pedido que sabiam ser irrealizável.

Para tentar iludir a opinião pública, o petista passou a insistir na apresentação dos boletins de urna (as chamadas “atas”) como condição para o reconhecimento do resultado. Mas havia um truque: tal apresentação, segundo Lula, só poderia ser feita pela autoridade eleitoral chavista. Era uma forma de contornar o fato de que a oposição já havia divulgado boletins suficientes para atestar a vitória de González, e de que o Centro Carter, observador internacional independente, havia confirmado a fraude. O pedido de Lula, evidentemente, foi ignorado por Maduro, dando início a uma pequena série de provocações que o observador mais atento sabia que deveria encarar com um certo ceticismo.

Mas chegou a hora da verdade: em 10 de janeiro, o presidente eleito da Venezuela deverá assumir o cargo, e Maduro está preparando o seu teatro, como fizera em 2019 após “vencer”, em meados de 2018, uma eleição que já não teve o reconhecimento dos Estados Unidos, da União Europeia e do Brasil, então presidido por Michel Temer. E o governo brasileiro terá uma representante na cerimônia de “posse”: a embaixadora brasileira em Caracas, Glivânia Oliveira. Sua ida à Venezuela, no início de 2024, marcou o restabelecimento completo de relações entre os dois países, já que Jair Bolsonaro havia fechado a representação diplomática em 2020; Lula a reabriu em 2023, mas por um ano manteve lá um encarregado de negócios, e não um embaixador, lacuna que foi preenchida com o envio de Glivânia.

Não há como minimizar a decisão de Lula. Um embaixador está longe de ser um cargo qualquer; se parte da opinião pública está enxergando a escolha como um “rebaixamento” ou mesmo uma “crítica” a Maduro, é apenas por causa da enorme camaradagem entre o ditador bolivariano e o petista, que em outras circunstâncias já estaria com a viagem agendada para abraçar pessoalmente o amigo. O fato é que, se um governo não reconhece o resultado de uma eleição em outro país, não envia representante nenhum à pretensa posse do autoproclamado vencedor. Se o faz, é porque, no fim das contas, reconhece o resultado. E não se trata nem mesmo de um reconhecimento tácito, feito nas entrelinhas: trata-se de reconhecimento explícito. Gilvânia comparecerá ao evento em nome do governo brasileiro, e talvez até cumprimente Maduro enquanto ele estiver envergando a faixa presidencial; o que mais seria necessário para mostrar que Lula realmente considera o ditador como mandatário legítimo da Venezuela?

Assim termina a farsa de Lula e de seus colegas de esquerda no México e na Colômbia, dois países que também escolheram a estratégia do pedido pela publicação das atas, e que estarão representados no teatro do dia 10. O petista ganhou tempo, iludiu a parte da opinião pública que desejou ser iludida para não ter de reconhecer o erro cometido ao chamar Lula de “democrata” em 2021 e 2022, e no fim seguirá prestigiando o herói da “democracia relativa”, a vítima de “narrativas”, o responsável por manter algo que não é mais que um “regime desagradável”. O povo venezuelano, que elegeu González e teve sua voz sufocada pela ditadura chavista, sabe que não pode contar com Lula para absolutamente nada que envolva o fim de um regime usurpador. E a pequena troca de insultos se revelou um teatrinho ou, no máximo, uma briga entre amigos que já se entenderam novamente.

DEU NO JORNAL

PENINHA - DICA MUSICAL