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NOVO PACOTE MOSTRA QUE HADDAD NÃO APRENDEU NADA

Editorial Gazeta do Povo

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, durante coletiva à imprensa, em Brasília, em 28 de dezembro.

Do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pode-se ao menos dizer que, ao contrário de outros petistas graúdos, ele ao menos parece estar consciente de que o déficit público é um problema, e não uma solução como ferramenta para vencer eleições. Mas, infelizmente, o elogio termina aí. Seu anúncio mais recente, de um novo pacote para segurar o rombo nas contas públicas e ao menos tentar – ou parecer que está tentando; a essa altura, já não há como saber – alcançar o déficit zero em 2024, mostra que ele não aprendeu absolutamente nada depois de um ano sentado na cadeira de ministro, pois insiste na mesma receita do pacote apresentado em janeiro: muito imposto e pouco ou nenhum corte.

A medida provisória publicada em edição especial do Diário Oficial da União nesta sexta-feira contém três itens principais: a reoneração gradual da folha de pagamento para 17 setores da economia – entre os quais o de comunicação, ao qual pertence a Gazeta do Povo –; mudanças no Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse), criado para socorrer um dos setores mais afetados pelas medidas de isolamento social adotadas durante a pandemia de Covid-19; e um limite de compensação tributária para empresas que venceram decisões judiciais por pagamentos de impostos indevidos em anos anteriores. O pacote, se aprovado integralmente, deve elevar a arrecadação em algumas dezenas de bilhões de reais.

A reação à principal das medidas, a reoneração da folha de pagamento, foi imediata devido às suas implicações políticas, jurídicas e econômicas. O Congresso Nacional acabou de derrubar o veto de Lula à prorrogação da desoneração da folha até 2027, e a inclusão do tema no pacote de Haddad é lida no parlamento como uma nova tentativa do Planalto de atropelar o Poder Legislativo e fazer letra morta daquilo que é aprovado pelos deputados e senadores. O formato escolhido, o da medida provisória, também já foi duramente criticado por trazer enorme insegurança jurídica, deixando 17 setores na incerteza sobre qual regra cumprir – se a da MP ou a da lei da desoneração aprovada pelo Congresso – e garantindo uma futura judicialização do tema caso a MP caduque ou seja rejeitada no Legislativo, e os empresários tentem reaver valores pagos durante sua vigência. Por fim, alguns dos setores, como o de construção e o de call centers, já se pronunciaram ressaltando os possíveis efeitos econômicos sobre o caixa das empresas, pegas de surpresa por uma MP que pode colocar muitos empregos em risco.

Já pelo lado da despesa, o pacote não traz absolutamente nada. E, ao não cortar nem mesmo a gordura, quanto mais a carne, Haddad não se diferencia muito dos petistas que, dias atrás, exaltavam o déficit como a chave para o sucesso eleitoral em outubro de 2024 – um discurso bastante alinhado com o chefe máximo do partido, o presidente Lula, que só disfarça um pouco mais suas intenções ao defender o endividamento “para o país crescer”. São os verdadeiros “viciados em déficit”, na expressão do novo ministro da Economia argentino, Luis Caputo. E, como acabamos de lembrar neste espaço, o aumento de impostos é uma das medidas mais frequentes, ao lado da emissão de moeda e do endividamento, para um país empenhado em elevar gastos sem fazer as devidas compensações.

Mesmo considerando que há determinadas renúncias tributárias que são ineficientes ou se tornaram desnecessárias – no caso do Perse, mesmo economistas críticos da política fiscal do governo argumentam que o setor de serviços já opera em níveis idênticos ou até superiores aos de antes da Covid –, existe um limite para o quanto um governo pode retirar da economia em forma de impostos para se financiar. Não são poucos os que consideram que uma carga tributária de um terço do PIB já é demais para um Estado que gasta muito e gasta mal. Mesmo assim, o pacote de Haddad mostra que o petismo insiste em evitar qualquer redução de despesas. Se o governo torce o nariz mesmo para cortes mais superficiais, quanto mais em relação a um ajuste fiscal sério, com reforma administrativa e outras medidas de otimização da despesa pública que teriam muito mais chance de conter o déficit que as elevações de impostos. Lula, Haddad e o PT parecem dispostos apenas a tributar mais e mais, carregando todo o setor produtivo brasileiro para o buraco antes que aprendam a lição – se é que um dia aprenderão.

CARLOS EDUARDO SANTOS - CRÔNICAS CHEIAS DE GRAÇA

DE TEMPOS EM TEMPOS

De tempos em tempos é importante abrir as gavetas dos arquivos, contendo minhas lembranças impressas, sem que isto se destine à procura específica de determinado fato.

Nessas remexidas vou desencavando o que guardei para utilizar quando ficasse velho.

E agora, que o tempo previsto está chegando, me surpreendo com certas atitudes e hábitos do passado, ao examinar quanto os hábitos da vida social mudaram.

Nas épocas de dezembro, a exemplo, eu me dedicava a entrar em ação, verificando minha lista de quase 100 amigos, para lhes cumprimentar com um cartão especialmente preparado para a época, os quais eram remetidos assinados.

Com boa antecedência mandava imprimir cartões com o texto:

Com os melhores desejos de Feliz Natal e um Ano Novo cheio de felicidades, Carlos Eduardo Carvalho dos Santos e Família.

Depois de subscritar os envelopes, levava-os ao antigo Departamento dos Correios e Telégrafos, para serem postados. Comprava os selos e ainda tinha um trabalhão para ser desenvolvido em casa, a fim de colar nos envelopes.

Mesmo assim procedíamos, todos, com uma satisfação incomum. Era como se presenteássemos cada uma das famílias daqueles amigos com u’a mensagem escrita.

Não possuindo máquina de escrever, eu chegava uma hora antes, ao Banco, para datilografar tudo, com o maior esmero. A tarefa se prolongava por muitos dias. E que satisfação me envolvia tal trabalho!

O curioso da iniciativa era que cretinamente a maior quantidade de colegas da tal lista eram meus colegas de trabalho diário no Banco do Brasil.

Mas, mesmo nos vendo quase diariamente, eu achava que o cartão representava algo mais do que uma simples renovação de amizade: era uma prova de profundo respeito e afeto.

Os tempos mudaram tanto que de tais atitudes só restou a remessa, obedecendo a mesma lista – agora muito reduzida porque grande parte dos amigos já se foi, e ainda mais, essas mensagens, sendo por via eletrônica, não provocam a emoção que um envelope fechado conseguia despertar.

Felizmente, nos dias atuais, há algo mais belo: as mensagens são ilustradas e coloridas, o que ao meu entender, jamais terão a mesma força para a exprimir meu profundo afeto e a demonstração de sentimentos embevecedores.

Hoje, olhei para a lista, datilografada em ordem alfabética e fiquei saudoso daquela fase em que eu tinha tantos amigos.

Aproveito este momento para fazer uma oração, e tendo à mão a velha lista de amigos que receberam meus cartões, em 1960, elevo a Deus meu pensamento desejando momentos felizes para os que se foram e os poucos que ainda estão por perto.

É uma forma espiritual de chegar a todos. Por isso se costuma dizer que tudo se renova incontrolavelmente, de tempos em tempos.

PENINHA - DICA MUSICAL

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

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JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

AS 5 IDADES

1. Tenho teoria formulada com base nas 5 idades. É bem simples.

PRIMEIRA IDADE. Você não conhece ninguém e ninguém lhe conhece. É a de todos nós, no começo de nossas vidas. Nada a lamentar, pois.

SEGUNDA IDADE. Você conhece todo mundo e ninguém ainda lhe conhece. Avançando um pouco mais, no tempo, acontece com todo mundo. Lemos jornais, vemos TV, sabemos quem são os atores na história, mas esses passam por nós e sequer nos cumprimentam. O que é normal.

TERCEIRA IDADE. Você conhece todo mundo e todo mundo lhe conhece. É a da plenitude da vida social. Uma fase boa. Só que passa, esse o problema, infelizmente passa. Pessoa (Caeiro, O guardador …) até escreveu

‒ Que te diz o vento que passa?
Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.

Só para lembrar, inspirado nele, o amigo Manuel Alegre fez a mais famosa canção de protesto, contra Salazar, que Portugal conheceu (Trova do vento que passa). Assim começa

‒ Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
E o vento cala a desgraça
O vento nada me diz.

QUARTA IDADE. Todo mundo lhe conhece e você já não sabe quem são os que lhe cumprimentam. É aquela onde estou, hoje. De vez em quando, após um encontro com alguém mais moço, pergunto “Você é filho de quem?” Quando explanei à querida Tânia Bacelar como funciona essa idade, ela definiu lindamente ‒ “É a da tampa do caixão, Zé Paulo”. É mesmo. Tenho pena de nós. Faltando só a última.

QUINTA IDADE. Você não conhece mais ninguém e todos mundo já se esqueceu de você. Só falta essa. O começo do fim. Espero, apenas, que demore (muito) a chegar. E bem a propósito lembro versos de José Bernardino, cantador de São José do Egito (PE)

‒ Já vou sentindo o excesso
Do peso na minha carga
Trilhando um caminho estreito
Vendo tanta estrada larga
Sinto uma sede tão grande
Que a ponta da língua amarga.

2. Isto posto, exponho agora outra teoria pessoal, a das idades comparadas com as estações do ano, Primavera ‒ Verão ‒ Outono ‒ Inverno. Que começou num dia em que estava fazendo aniversário e apareceu, no escritório, o (grande) pintor Zé Cláudio, saudades dele. Entrou na sala, mostrou uma folha seca de Coração-de-Nêgo (nem sei mais se podemos continuar a dizer o nome, politicamente incorreto, desse pé de pau) que apanhou no chão e falou “É seu presente”. Não entendi, que folha seca não é propriamente um presente. E, pior, ele nem me deu, colocou foi em sua bolsa. Uma semana depois chegou belo quadro seu, com aquela folha pintada. Que belo presente!, senhores. Obrigado, amigo. E respondi, na hora, com esses versos que expressam bem as tais 4 idades:

‒ São 4 as folhas que a vida
Esparrama pelo chão
A primeira é esperança
A segunda é amplidão

Mas o destino tonteia
Quando se acaba o verão
Que a terceira é desalento
E a quarta é solidão.

Tudo recomendando, como dizia o amigo Eduardo Galeano, que ““Neste mundo…/ Seremos capazes de viver cada dia como se fosse o primeiro/ E cada noite como se fosse a última”.

3. Por isso, neste novo ano que já vem, desejo aos leitores que vivam plenamente suas boas idades. E que o vento demore a lhe trazer dita quarta folha, do inverno, a da solidão. Valendo lembrar outros versos, agora do mesmo Pessoa (sem título, 1928),

‒ Ó vento vago
Das solidões,
Minha alma é um lago
De indecisões.

Por tudo então, bem no fundo desse lago da existência, bons anos a todos e cada um. E há braços, com o coração.

P.S. Agora, perdão, mas o mar me espera. O “Mar” de Antonio Machado, para quem “não lhe servem âncora, timão, remos e o medo de naufragar”. O “Mar calmo”, de Shakespeare. O “Mar amigo”, de Baudelaire. O “Mar sempre recomeçando”, de Valéry. Os “Mares” de Camões, “nunca dantes navegados”. O “Mar salgado”, cantado por António Correia de Oliveira e Pessoa. O “Mar tenebroso” dos navegadores antigos, de que falava Torga. O mesmo Torga que, entre 12 e 18 anos, viveu no interior de Minas Gerais, como caçador de cobras, mas essa é outra história… O mar azul da Lagoa Azul, aqui em Pernambuco. E tantos outros. Por isso me despeço agora dos leitores com a intenção de voltar a essas páginas só depois do carnaval. Como em todos os outros anos, antes. Se o JBF ainda me quiser, claro. E se Deus permitir, sem dúvida. Até lá, pois. Graças. Adeus. Pensando bem até breve, melhor assim.