JOSÉ PAULO CAVALCANTI - PENSO, LOGO INSISTO

NOTÍCIAS DE PORTUGAL

Lisboa. Seguem mais notícias da terrinha que, de alguma forma, lembram o Brasil.

ACESSIBILIDADE. O governo português anunciou grande programa para adaptar imóveis, seus, às necessidades dos que têm carências específicas. A findar em dezembro deste ano. O jornal Publico deu, na primeira página, o resultado de pesquisa que fez, até hoje, sobre a eficiência estatal:

– Em quatro anos, obras de acessibilidade chegam a dez de 1500 edifícios públicos.

Quase nada, então. A cara de nosso país.

APOSTAS. Manchete do Publico:

– Nunca se apostou nem se perdeu tanto dinheiro no jogo, em Portugal.

Não é só no Brasil, pois. Apenas no ano passado foram torrados na jogatina, por aqui, 24 bilhões de euros. Quase 140 bi em reais.

BALEIAS. Um grupo de Orcas atacou veleiro que naufragou, ao largo da Costa de Caparica, em Almada. E outra embarcação quase segue o mesmo destino, na Baia de Cascais. O portal “orcas.pt” já registrou mais de 70 ataques, só este ano. Uma espécie de vingança, parece, pela morte de companheiras em outros mares.

CABEÇAS. O português João Paulo Silva Oliveira, 56 anos, divulgou nas redes sociais vídeo em que diz:

‒ “Cada português que trouxer a cabeça de um brasileiro, desses zukes que vivem aqui em Portugal, estejam legais ou ilegais, cada cabeça que trouxer eu pago 500 euros”.

A reação foi rápida. Por pressão dos clientes, boa parte deles brasileiros, foi demitido da padaria em que trabalhava. E já está preso pelo Departamento de investigação e Ação Penal (DIAP) de Santa Maria de Feira, Aveiro. Apesar de tudo sugere-se, aos brasileiros que estiverem por aqui, ficar longe dele.

CELULARES, TELAS, PAPEL E CANETA. O ministro da Educação esclarece que “a proibição do uso do telemóvel é para alunos do público e do privado”. O que parece caracterizar uma tendência, em todos os países. Apesar disso, por aqui, segue um debate intenso. Primeira página do Publico diz:

– Diretores reagem a sanções: proibir não rima com educar.

Dentro, em longa matéria, “Diretores preferem sensibilização”. Indicando, ainda, que “Escolas vão definir sanções para alunos que usem smartphones”. Luiza, neta que estudou na Inglaterra, tinha marcado pela direção da escola os (poucos) horários em que podia usar. Vai acabar sendo assim, por todo o planeta. Agora, no Publico, se vê declaração do ex-ministro da Educação da Suécia (até junho), Johan Pehrson:

– “Fomos ingênuos”.

Seu país, pioneiro na digitalização, para ele deve ser uma “zona livre de smartphones e redes sociais”. E está a voltar, nas escolas públicas, papel e lápis. Como dinossauro, que não usa computadores e gasta uma caneta por semana, vejo isso com alegria.

CHAGPT. Portugal vai ter o seu que se chamará Amália. Só que o governo já deu ciência, aos da terrinha, que vai faltar um monte de aplicativos. Como Caixa de mensagens. O modelo será usado só em algumas aplicações da administração pública. Consternação geral, para os usuários.

COVID. O jornal eletrônico TSF anuncia preocupação do governo com “nova versão do vírus da Covid-19”. Deus do céu, não tem mais fim?

EDUCAÇÃO. O mesmo TSF dá manchete:

– Quase metade dos adultos portugueses só consegue compreender textos simples e curtos.

Por essas e outras o professor Carlos Ceia propõe a criação de um Partido da Educação. Segundo ele “um lugar seguro, civilizacional, capaz de transcender divisões ideológicas e reenquadrar o debate nacional”. Cristovam Buarque vai, creio, gostar dessa notícia.

ELEIÇÕES. Domingo ocorreram as eleições autárquicas. Para escolher prefeitos, no país todo. Aqui se chamam “Autarcas”. Não há Câmara de Vereadores, somente Conselheiros Municipais. Que custam nada. O mais impressionante, para brasileiros, são as apurações. No Brasil a grande vantagem das urnas eletrônicas, assim se diz, é que não temos que esperar dias pelos resultados. O que justifica a fortuna gasta em cada eleição. Pois bem. Aqui, os votos são nas células. Em papel. E, à noite do próprio domingo, já se tinha todos os resultados. Pode acreditar, amigo leitor.

GORDURA. Segundo El Pais, citado pelo Publico:

‒ Existem já mais de 100 novos candidatos a medicamentos para tratar a obesidade em testes.

O objetivo agora, em vez de injeções, é “um fármaco oral para emagrecer”. Que venham logo, nós gordos agradecemos.

GREVE. Nunca se viu isso, por aqui. O Publico anuncia, em primeira página, que

– Magistrados do Ministério Público anunciam greve de cinco dias.

Só para lembrar, e diferente do Brasil, grevistas em Portugal (como no resto do mundo) não recebem salários pelos dias não trabalhados. E trata-se de longo tempo, num país em que greves nunca passam de um dia.

HOSPITAIS. Segundo o TSF, “todos os hospitais passam a poder internar doentes em casa”. Chama-se, por aqui, Hospitalização Domiciliária. Só ano passado foram 110 mil internamentos. Os hospitais públicos têm equipes médicas que vão até os doentes, em suas casas. O sistema começou no Hospital Garcia de Orta (médico português), em Almada, e seus resultados são muito positivos. Unindo conforto do ambiente familiar, redução no risco de infecções hospitalares e melhorias na qualidade de vida dos doentes. Vale a pena ver isso melhor, para aplicar (ou não) no Brasil.

JOVENS. O Público dá manchete, em primeira página, que preocupa:

‒ Número de jovens até os 20 anos, nas prisões, subiu 45% desde 2019.

LIVROS. Miguel Esteves Cardoso dá, em sua coluna do Publico, receita infalível para quem tem que ler muito:

– Abro um ou dois livros, leio as primeiras duas páginas, mais duas páginas do meio, a última, e limito-me a verificar se fiquei com vontade de ainda ler.

Sugiro, a todos, cumprir esse roteiro.

MORTES. O Publico LX mostra estatística:

– Homens mais velhos com taxas mais altas de suicídio.

São, em média, 3 por dia. E a Coordenação da Saúde Mental até já divulgou telefone, para quem estiver deprimido, número 1411. Na frente dos casos está o Alantejo onde cresceu, em um ano, 9%. A taxa nacional em Portugal é de 9,8% casos, para 100 mil habitantes. Maior que a de nosso Brasil, só de 8%. Mas está por aqui também crescendo, em 2021 era só de 7.2%. Seja como for, Deus tenha pena dessas almas.

ORÇAMENTO. José Manuel Ribeiro, presidente da delegação portuguesa no Comitê das Regiões, dá declaração no TSF que bem poderia ser lida em Brasília:

‒ Especializamo-nos muito em como gastar. Agora temos que nos especializar em como competir.

OUTDOORS. Lisboa acaba de proibir cartazes políticos. Segundo o Autarca de lá (Prefeito no Brasil, como vimos), Carlos Moedas, trata-se de “poluição visual absolutamente indesejável”. Políticos se queixam de que seria “um ataque à liberdade democrática”. Será mesmo? Ou só prova de bom senso e bom gosto? Não acabou de todo ainda, nestas eleições de domingo passado, mas já diminuiu muito.

PIANISTA. A consagrada pianista portuguesa Maria João Pires, 80 anos, acabou de ganhar o grande Prêmio Europeu Helena Vaz da Silva 2025. Pena que teve um AVC. Está se tratando e deu, a seus admiradores, bela explicação do que iria fazer a partir de agora:

– Lamento informar-vos que terei de me afastar dos palcos por algum tempo. Surgiu-me um problema de saúde cerebrovascular, que encaro como um sinal, talvez aviso. Vou dedicar este período a reencontrar o equilíbrio entre o corpo e o espírito, e a encontrar a alegria em me retirar, ler, meditar e aprender com as lições que a vida me quiser ensinar.

SANGUE. Descoberto, depois de 15 anos de pesquisas, um novo grupo sanguíneo – o Gwada Negativo, que só uma pessoa tem no planeta. Trata-se de mulher francesa nascida em Guadalupe, no Caribe. Os jornais daqui sugerem que faça um estoque grande, nos bancos de sangue; que, se por acaso precisar numa operação, não teria quem lhe doasse. Parece uma boa ideia.

ÚLTIMA NOTÍCIA, FUTEBOL. Jornais e televisões daqui dizem que José Mourinho, novo treinador do Benfica, é “o melhor do mundo”. E dizem também que “jogo do ano” se deu último sábado, em Alvalade (estádio do Sporting), quando Portugal venceu a Irlanda no fim da prorrogação, por 1 x 0, com gol de Rubem Alves. Depois de Cristiano Ronaldo, pouco antes, perder um pênalti.

Duas notícias erradas. Uma, porque maior técnico do planeta não é Mourinho, mas Hélio dos Anjos. Que deveria estar na seleção brasileira. Viva Hélio!!!

E jogo do ano foi outro, Náutico x Brusque, quando voltamos à série B. Um jogo épico. A verdadeira Batalha dos Aflitos. Por tudo, então, Viva o Timba!!!

CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

MARCOS MAIRTON - CONTOS, CRÔNICAS E CORDEIS

GRAVE, MUITO GRAVE

Todo dia, quando vejo as notícias, há sempre um político, um jornalista ou um burocrata preocupado com coisas graves. “Isso é muito grave!”, dizem eles, fazendo cara de sérios, preocupados, às vezes indignados.

Acabo me desconcentrando e esquecendo o que eles acabaram de dizer. Porque lembro que se for grave demais, a gente nem escuta. Mas se for agudo demais também não dá pra ouvir.

Dizem que é assim que funcionam os apitos de cachorro — aqueles que emitem sons numa frequência que o ouvido humano não capta. Aliás, “apito de cachorro” é uma expressão que vem ganhando espaço na política, especialmente na parte que se desenvolve pela via das redes sociais. No sentido de discurso aparentemente inofensivo, mas que sinaliza, para certo grupo, determinada ação combinada.

Mas isso é assunto para outra crônica. Até porque a incapacidade humana para ouvir apitos de cachorro, no sentido literal, está exatamente no fato de eles emitirem sons muito agudos. Quem emite sons graves demais para os ouvidos humanos captarem são os elefantes, mas, se for falar disso, vou perder definitivamente o fio da meada.

E o fato é que acabo tendo certo incômodo com a preocupação causada pelos atos ou fatos graves, porque, na verdade, gosto dos graves. Não é à toa que, nos tempos em que tive banda de rock, escolhi tocar contrabaixo. A corda Mi pode emitir o som mais grave do baixo. E, nos de cinco cordas, há também a corda Si, mais grave ainda — profunda, densa, quase subterrânea.

O grave é o que dá corpo à música, é o chão onde o som pisa. Sem ele, as canções flutuam como discursos vazios.

Mas “grave” é palavra versátil. Em “o fato é grave” tem sentido muito diferente do que se vê em “um paciente em estado grave”.

No latim, “gravis” é o que pesa, o que tem densidade, o que puxa pra baixo. Daí vem também o sentido de “gravidade”. A mesma força que mantém os corpos na Terra parece, de algum modo, agir sobre a linguagem e sobre as pessoas. Há os que vivem sob a lei da gravidade dos fatos, e há os que acreditam poder flutuar acima dela. Uns respeitam o peso das consequências; outros acham que a realidade é opcional.

(Incrível coincidência – enquanto revisava este texto, mantive ligado um canal de notícias no YouTube. Ao chegar exatamente a este ponto da leitura, ouvi a voz de um jornalista no vídeo: – Olha a gravidade do que esse cara disse!)

Nessa relação entre grave e gravidade, quando alguém diz “a situação é grave”, quase sempre significa que tudo está caindo — às vezes o governo, às vezes a credibilidade, às vezes o bom senso (raramente os preços).

É a gravidade social em ação, puxando tudo para baixo (menos os preços).

Há ainda quem confunda ser “grave” com parecer sério, como se bastasse franzir a testa para equilibrar o mundo. E falta gente que saiba distinguir peso de importância. Porque há coisas pesadas que não valem nada, e há coisas leves que sustentam o espírito. Há quem carregue sua própria gravidade como um fardo — e há quem a use como centro de gravitação, atraindo em torno de si ideias, pessoas e causas.

Quanto a mim, reconheço que a humanidade passa por um período de grande gravidade, e que a qualquer momento poderemos enfrentar crises mais agudas.

Para tocar a vida sem agravar a situação, talvez seja o caso de equilibrar graves e agudos. Não para unificá-los em um tom médio, mas para buscar a harmonia em meio à diversidade de frequências.

Concluída essa divagação, inspirada na gravidade das coisas, talvez eu a publique apenas como texto. Ou talvez eu grave um vídeo sobre o assunto.

É… talvez eu grave.

MARCELO BERTOLUCI - DANDO PITACOS

GOVERNO É TÃO BONZINHO

Nos últimos doze meses, o congresso aprovou leis aumentando a pena para:

– falsificação de bebidas alcoólicas
– violência doméstica ou de gênero
– porte de arma de fogo
– adulteração de identificação de armas de fogo
– bullying e bullying digital
– entrega de álcool ou drogas a menores de idade
– exploração sexual de menores de idade
– sequestro ou cárcere privado de menores de idade
– crimes contra idosos ou pessoas com deficiência
– abandono ou maus-tratos a idosos
– atear fogo em vegetação
– danificar florestas
– roubo ou furto de cabos de energia
– crimes cometidos em escolas
– receptação de celulares, eletrônicos e medicamentos controlados
– crimes cometidos contra membros do sistema de justiça
– apologia ao crime
– apologia ao crime pela internet

Eu fico pensando: se nossos nobres deputados e senadores acham que aumentar a pena é a solução para um crime, não seria mais fácil aumentar de uma vez a pena para todos os crimes? Talvez até, se aumentassem bastante, os crimes acabariam.

Claro que isso é só uma brincadeira, porque é óbvio que político nenhum quer o fim dos crimes; pelo contrário, ele quer que os crimes continuem deixando os eleitores com medo, para que ele possa se apresentar como a solução. Da mesma forma, o fim das doenças seria algo horrível para os políticos, porque o povo deixaria de ter medo de ficar sem o SUS. Isso foi bem resumido em um filme de 1995, onde o personagem de Michael Douglas diz “Políticos só querem duas coisas: que vocês tenham medo, e que acreditem que eles são a solução”. (A bem da verdade, a fala exata é “políticos como ele”, se referindo ao adversário republicano, porque Michael Douglas interpretava um político democrata, e nos filmes de Hollywood políticos do partido democrata são santos imaculados, verdadeiros anjos que só pensam no bem do povo.)

Então, essa pantomima toda serve para manter a ilusão de que sem os políticos e suas leis, nossa sociedade se desmoronaria e mergulharíamos no caos. Fazer-se de importante é o pensamento central da política. Vale lembrar que:

– O governo está se vangloriando de ter encontrado e fechado não sei quantas fábricas de bebidas clandestinas, mas só fez isso depois que as pessoas começaram a morrer envenenadas.

– O governo proibiu a Voepass de operar, mas só depois que um acidente matou dezenas de pessoas. Antes disso o governo dizia que estava tudo certo com a Voepass. Aliás, o governo disse que estava tudo certo com a pista de Congonhas no dia do acidente do TAM 3054 e que não havia problemas com o controle de tráfego aéreo no dia do acidente do GOL 1907.

– O governo descobriu que a boate em Santa Maria onde um incêndio matou mais de duzentas pessoas tinha várias irregularidades, mas só depois do incêndio. Antes, a boate tinha todos os alvarás e licenças e tinha sido fiscalizada por todos os “órgãos competentes”.

– As instalações da Samarco em Mariana e da Vale em Brumadinho eram também regularmente fiscalizadas pelos “órgãos competentes”, que nunca encontraram nada de errado. Idem para a ciclovia do Rio de Janeiro, o viaduto de Belo Horizonte, as barreiras de contenção de enchentes em Porto Alegre, e tantos outros casos.

Para um cético como eu, nada disso surpreende. Pessoas são movidas por interesses, e essas coisas acontecem porque nossa sociedade caminhou, passo a passo, nessa direção, com a participação (ou omissão) de todos. Repetindo o que eu já disse várias vezes aqui no JBF, a cada dia fica mais difícil mudar essa realidade, porque o poder controla dois aliados de peso que executam a tarefa de introduzir as idéias de submissão na cabeça das pessoas: o sistema educacional e a mídia.

DEU NO X

VIOLANTE PIMENTEL - CENAS DO CAMINHO

AMOR À PÁTRIA

Patriotismo é o sentimento de orgulho, amor e devoção à Pátria, aos seus símbolos (bandeira, hino nacional, brasão, riquezas naturais e patrimoniais).

O militar presta serviços à Pátria, e, com o tempo, absorve os hábitos próprios da sua profissão. Acaba se identificando com o quartel, e jamais perderá o jeito de soldado, por mais que o tempo passe.

A influência das armas sobre os militares é tão forte, que eles se reconhecem na rua, mesmo quando vestidos á paisana.

Ao ver, na via pública, um oficial do Exército envergando um jaquetão ou um fraque, a impressão que se tem é de que falta alguma coisa à sua elegância.

Por mais correto que ele esteja vestido nas suas roupas apuradas, lembra-nos, sempre, um tigre metido na pele de um urso, ou um leão enfiado, por modéstia, no couro de um elefante. Sentimos a força, a segurança e o respeito que eles impõem, perante a sociedade.

O rigor e o respeito que a farda militar impõe, mostram-se de modo mais acentuado perante os seus subordinados e cidadãos civis.

Absorvido pelo seu mundo de glória, o soldado revela-se em toda a parte e em todas as circunstâncias: no calor das palestras, na energia da vontade, na severidade da vida, na intransigência das atitudes, na disciplina do porte, e, até, ás vezes, no emprego do vocabulário empregado fora do quartel.

Pois bem. O caso do tenente José Porto Brasil é uma comprovação de que o militar guarda dentro do peito, como relíquia, os ensinamentos absorvidos na vida de quartel. A qualquer momento, poderá dar provas dessa verdade.

Militar elegante, bonito, bravo e decidido, o tenente José Porto Brasil utilizava os dias de serenidade da Pátria, passeando pela Avenida principal da capital, quando viu uma tarde, em certa casa de chá, uma bela mulher, que lhe fez acordar tocando alvorada, todos os clarins do coração. Ousado e destemido, pôs-se logo em atividade, para saber quem seria aquela linda criatura, que tanto mexeu com o seu coração. No dia seguinte, já sabia o suficiente para tentar atacar “aquela fortaleza”.

Ficou sabendo do endereço da mulher e se dirigiu até lá. A casa tinha muro alto e portão de ferro, controlado por um porteiro. O tenente viu o portão se abrir e sair um casal, que, segundo o porteiro, eram os donos da casa.

Decepcionado, ao ver que a bela mulher era casada com um homem alto, bonito e elegante, o tenente viu que era impossível atacar a “cobiçada fortaleza”.

No dia seguinte, por curiosidade, dirigiu-se, novamente, à residência da bela mulher, para se convencer de que, realmente, ela era casada com aquele cidadão. Chegou ao palacete, e, nervoso, tocou a sonora campainha. O silêncio era absoluto na casa, e ninguém atendeu. Duas, três, quatro vezes repetiu ele o sinal, mas inutilmente. Quando, desiludido, já batia em retirada, ouviu um chocalhar de corrente no portão. Voltou-se e viu o jardineiro, que abria a grade para dar passagem ao dono da casa, passando, de novo, a corrente no portão.

Atordoado pelo seu pensamento de aventura, e, não menos, pela consciência da sua superioridade de militar, o oficial não teve dúvidas: parou, deu meia volta, e marchou, firme, no rumo do cavalheiro que saíra de casa. Estacaram, pálidos, um diante do outro, dominados pela emoção.

– Que deseja o senhor? – perguntou, com a desconfiança estampada nos olhos, o marido da bela mulher..

Mão no revólver, disfarçando a tempestade que lhe invadia o coração, o tenente respondeu, com voz trêmula:

– A senha!

E os dois soldados se abraçaram emocionados. Eram velhos amigos, do tempo de quartel, que a vida havia afastado.

DEU NO JORNAL

TUDO MUITO DEMOCRÁTICO E MUITO BEM ADMINISTRADO

Francisco Razzo

stf justiça censura

Toda tirania começa com boas intenções. Como termina, já são outros quinhentos. O fato é que nenhuma censura se anuncia como censura. Nasce da promessa de proteger a sociedade de si mesma. Aqui no Brasil não seria diferente. O Supremo Tribunal Federal decidiu que as plataformas devem remover conteúdos “antidemocráticos” sem ordem judicial. A justificativa não poderia ser diferente: é nobre – evitar o discurso do ódio, impedir golpes, resguardar a democracia. A democracia, agora, precisa pedir autorização para existir. E tudo isso, claro, é muito democrático.

Os defensores da decisão repetem uma ladainha conhecida: “a liberdade de expressão não é absoluta”. Dita com ar de prudência, a frase abre a porta para qualquer arbítrio. Tudo depende de quem define o limite. Se a fronteira é traçada por quem julga, não há mais direito – há administração. É o Estado, mediante a suprema corte, garantindo o direito de decidir quando o cidadão pode falar e o que pode ser dito. O perigo está em acreditar que o poder sabe distinguir, em tempo real, o que é opinião legítima e o que é ameaça ao regime. Mas, óbvio, tudo isso é muito democrático. Muito.

As redes sociais tornaram impossível o controle dos danos. “A mentira se espalha mais rápido que a verdade”, alegam os doutores do bem-estar social. É verdade – e sempre foi. A diferença é que, antes, o erro circulava e o contraditório o corrigia. Agora, por amor à democracia, a correção foi substituída pela exclusão. A lógica é simples: se o debate é arriscado, extingue-se o debate. O tribunal passa a operar como um grande filtro de pensamento, tudo, claro, em nome da democracia.

Há ainda quem insista que o Supremo age por dever moral, para “defender a democracia”. Ninguém que defende isso assumirá que é em nome da tirania. Tudo isso precisa soar sensato, porque apela ao medo – e, neste contexto, o medo costuma parecer racional quando o poder soberano o pronuncia. Nenhum regime autoritário se confessa como tal. Ele sempre começa em nome de um bem superior ou de uma sublime causa: a segurança, a saúde, a estabilidade. A virtude é o disfarce mais eficaz dessa doença.

O que se vê é a substituição do juízo público pelo juízo dos guardiões. A política se converte em perícia técnica. A palavra dos outros é suspeita. O cidadão, um risco potencial. A cada sentença que amplia a autoridade judicial, o Estado se torna mais seguro e a sociedade, mais protegida de si mesma. Há nisso uma ironia trágica: o medo do caos funda uma nova forma de obediência, sempre com aparência de racionalidade.

É possível imaginar o novo ambiente digital. Diante de um post crítico, o algoritmo hesita: e se um ministro considerar isso “antidemocrático”? A empresa, com medo de multa – um cálculo eficaz da razão econômica –, remove o conteúdo. O cidadão apela, e a plataforma responde com soberano silêncio. O dano está feito. A censura, neste contexto, não precisa de mandado – basta um clique preventivo.

Alguns juristas tentam suavizar o impacto. Alegam que o Supremo apenas “atualizou o Marco Civil” e que as plataformas já dispõem de mecanismos de moderação. Confundem, porém, o que é faculdade privada com dever estatal. O que antes era escolha empresarial passou a ser obrigação jurídica. É o tipo de argumento que transforma o remendo em sistema. O Marco Civil previa um modelo simples: a plataforma só respondia depois de ordem judicial. Era a garantia mínima contra o arbítrio e o filtro do devido processo. A atual suprema corte brasileira inverteu a lógica. Instituiu a responsabilidade direta, sem mediação judicial, e fez da precaução uma forma de liberdade democrática. Primeiro remove-se, depois se discute. A democracia passa a funcionar sob o regime da suspeita – tecnicamente mais eficiente.

Outros perguntam: “Mas e o discurso de ódio? E os ataques às instituições?” A resposta é simples. O direito já prevê punições para esses crimes. O que muda é o método. Antes, o Estado precisava provar o dano e garantir defesa. Agora, ele age por antecipação. É o retorno da velha ideia de “crime de opinião”, disfarçada com um pomposo vocabulário digital.

Pessoalmente, defendo o republicanismo. A virtude republicana é a contenção. O poder deve desconfiar de si antes de desconfiar do povo. Um juiz prudente sabe que sua força não está em decidir, mas em saber quando não decidir. Juízes deveriam temer o próprio entusiasmo, pois é dele que nascem os piores equívocos. A tentação de corrigir o mundo sempre acaba com o mundo corrigindo o homem, até aniquilá-lo. Como não é movido pelo entusiasmo de movimentos considerados extremistas e suas paixões mobilizadoras, o gesto parece nobre.

O Supremo, nesse episódio, parece ter cedido à tentação de ser tutor moral da República. O gesto é compreensível – toda instituição teme a desordem. Entretanto, há uma diferença entre preservar a ordem e camuflar o discurso. O primeiro dever do poder é suportar o incômodo da crítica. Nenhum regime que precise punir a palavra para se afirmar pode dizer-se confiante de sua legitimidade. E é, pois, assim que as democracias terminam: não com um grito, mas com o silêncio cúmplice muito bem administrado.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO X

RODRIGO CONSTANTINO

ESTATAIS VOLTAM A ACUMULAR ROMBOS BILIONÁRIOS COM LULA

Lula se revolta com modelo de "corporation" de ex-estatais, em que não consegue interferir

A sangria das estatais voltou justo com Lula na Presidência

Recolocar um alcoólatra no comando do bar: o que poderia dar errado? As estatais controladas pela União acumularam um prejuízo de quase R$ 9 bilhões até agosto deste ano, segundo dados do Banco Central compilados pela CNN. O montante representa mais que o dobro das perdas registradas no mesmo período de 2024.

A sangria das estatais voltou justo com Lula na Presidência. Num gráfico feito pela CNN, fica claro que as empresas só tiveram lucro nas gestões de Temer e Bolsonaro, enquanto na era petista é só vermelho.

Claro que nada disso é coincidência ou falta de sorte do PT. É, ao contrário, um projeto deliberado de poder. Nem mesmo a incompetência na gestão explica o resultado, afinal. É um projeto de poder que enxerga nas estatais vacas leiteiras para o partido.

Não custa lembrar o que foi o Petrolão. O mensalão nasceu nos Correios, que agora quebraram de vez e precisam acessar o mercado para uma dúvida de R$ 20 bilhões! Pense no PT como um bando de cupins que vai para cima das estatais como se fossem madeira.

É de sua natureza roubar essas empresas, além de servirem de cabides de emprego, decisões politiqueiras ou financiar cúmplices. O petismo é como uma praga que vai devorando tudo que vê pela frente. Onde há recursos, lá estará o PT para tentar se apropriar deles.

Esse é mais um motivo para defender as privatizações. Além de não caber ao Estado ser empresário, há sempre o risco de alternância de poder, e quando a esquerda volta ao comando das estatais, nada de bom que a direita tenha feito em termos de governança é duradouro. Melhor seria o PT não ter essas estatais ao seu dispor. A única solução definitiva para a praga petista, portanto, é vender as estatais. Privatize já!