WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

O CHIFRE E SUAS LENDAS

Em viagem a Rio Branco, capital acreana, a dupla de amigos, poetas repentistas Matias Netto (Graúna do Norte) e Xexéu de Limoeiro, adentraram na mercearia do senhor Zé Neto, no bairro Calafate e, num momento de profunda reflexão, Xexéu de Limoeiro foi fotografado por seu velho parceiro de cantorias.

A referida fotografia, inspirou as seguintes estrofes:

Não sei se é simpatia
Ou enfeite do ambiente
Tem muita lenda a respeito
E existe quem comente
Que a defesa do touro
É desgraça pro vivente.

Wellington Vicente

E é com Wellington Vicente
Que combino até o fim
No touro é bom e bonito
Mas em mim é feio e ruim
Que permaneça no touro
E bem distante de mim.

Xexéu de Limoeiro

Para os supertiosos
Desde do tempo passado
Se usa como amuleto
Em bar, boteco e mercado
Pra retirar invejosos
E evitar o fiado.

Matias Netto

DEU NO JORNAL

TRUMP VAI ELIMINAR MADURO?

Deltan Dallagnol

O porta-aviões USS Gerald R. Ford, dos Estados Unidos

Os ventos da geopolítica voltaram a soprar forte sobre a América Latina e, desta vez, em direção a Caracas. O que parecia apenas mais uma escalada retórica entre Estados Unidos e Venezuela começou a ganhar contornos concretos, militares e explosivos. Donald Trump, segundo grandes jornais americanos como o The New York Times e o Washington Post, já teria dado sinal verde para operações terrestres contra Nicolás Maduro, o ditador venezuelano acusado de transformar seu país em um narco-Estado.

Antes que alguém imagine se tratar de uma teoria conspiratória, os fatos são públicos. Maduro é acusado pelo Departamento de Justiça dos EUA de chefiar o Cartel de los Soles, uma das maiores organizações de tráfico de cocaína do planeta, responsável por enviar toneladas de drogas pesadas aos Estados Unidos todos os anos.

Já faz tempo que o governo americano oferece uma recompensa de 60 milhões de dólares pela cabeça de Maduro ou por informações sobre onde ele pode ser encontrado. O governo americano o trata como um narcoterrorista internacional, e o Departamento do Tesouro já classificou seu cartel como organização terrorista internacional.

O próprio Trump vem declarando que os Estados Unidos tratarão os cartéis de drogas “como trataram a Al-Qaeda” — o que, traduzido para a linguagem americana, significa: operações secretas, caçadas internacionais e, se necessário, eliminação física de líderes. É assim que o país que matou Osama Bin Laden costuma lidar com inimigos que ameaçam sua segurança.

Nos últimos dias, navios de guerra e aeronaves de ataque dos EUA foram avistados próximos à costa venezuelana, sob o pretexto de “exercícios militares”. Mas, historicamente, quando a Casa Branca fala em “treinamento”, o mundo sabe que algo maior está por vir. As tropas especiais americanas, os famosos Navy Seals, já foram mobilizadas em operações semelhantes em outros países, como a Operação Lança de Netuno, que matou Bin Laden no Paquistão. E não é segredo que a CIA vem monitorando o entorno de Maduro há anos.

O que reforça essa movimentação é o pânico crescente do próprio ditador venezuelano, que apareceu publicamente em um vídeo pedindo “paz para sempre” e “guerra não”, em inglês, repetidamente, como se estivesse sofrendo um surto. O pânico tem justificativa: o ex-chefe de inteligência de Maduro, Hugo “El Pollo” Carvajal, hoje preso em Nova York, fechou um acordo com os procuradores federais e começou a falar. E o que ele contou tem o potencial de explodir o regime de Caracas.

Segundo reportagem do Miami Herald, Carvajal confirmou o envolvimento direto de Maduro com o narcotráfico, revelou que o ditador foi um dos criadores do grupo criminoso Tren de Aragua — uma facção sanguinária latino-americana que atua em vários países — e que Maduro usava o grupo como braço armado do Estado venezuelano.

Carvajal foi o homem que sabia demais — e agora está falando tudo. Ele detalhou, inclusive, que criminosos do Tren de Aragua foram enviados pelo próprio regime para outros países latino-americanos, o que ajuda a explicar por que o crime organizado venezuelano se espalhou por fronteiras e vem aterrorizando o continente, inclusive os EUA, para onde as drogas venezuelanas vão matar milhares de americanos todos os anos.

Para Trump, portanto, Maduro não é um “adversário político”, mas um inimigo de guerra — um chefe de cartel responsável pela morte de milhares de americanos. É uma leitura política, mas também moral: para os Estados Unidos, trata-se de uma questão de justiça e segurança nacional.

E quem duvida de que Washington é capaz de agir dessa forma contra um presidente deveria revisitar a história. Em 1989, os EUA lançaram a Operação Just Cause e invadiram o Panamá para capturar seu chefe de Estado, o ditador Manuel Noriega, também acusado de envolvimento com o tráfico internacional de drogas. Foram mais de 20 mil soldados americanos, que, em menos de um mês, derrubaram o regime e levaram Noriega algemado para os Estados Unidos. O paralelo é inevitável.

Trump já mostrou que não mede palavras nem ações quando se trata de defender os interesses americanos. Ao autorizar operações contra cartéis internacionais e classificar Maduro como líder de uma organização terrorista, ele traçou uma linha vermelha. E, historicamente, quando os Estados Unidos traçam uma linha, quem a cruza paga o preço.

Lula, que vai se encontrar com Trump no domingo, deveria ter mais cuidado. Nesta sexta (24), ao defender o companheiro Maduro, Lula fez uma afirmação inacreditável: a de que os traficantes são “vítimas” dos usuários de drogas. Além de ser um disparate, a frase é um tapa na cara das famílias de milhões de brasileiros afetados pelo tráfico e que sofrem todos os dias com a violência e o terror impostos por facções como Comando Vermelho e PCC ao redor do país.

Maduro tem motivos de sobra para perder o sono. Os sinais estão todos lá: movimentação militar, autorização política, confissão de ex-aliado e consenso crescente no Congresso americano de que o ditador venezuelano é uma ameaça continental. Maduro pode até repetir em público suas frases confusas sobre “paz”, mas paz é justamente o que ele não terá. Sua hora parece estar chegando e, se a história ensina algo, é que nenhum ditador que desafiou frontalmente os Estados Unidos terminou bem.

A dúvida agora não é mais se Trump vai agir, mas quando.

DEU NO X

DEU NO JORNAL

LUIZ FUX É DE “EXTREMA DIREITA”?

Adriano Gianturco

luiz fux direita

Luiz Fux durante o julgamento do “núcleo 4” na Primeira Turma do STF

Dias atrás, Luiz Fux votou pela absolvição de todos os réus do chamado “núcleo da desinformação”. Ele argumentou que o STF seria incompetente para julgar a ação penal referente ao grupo, considerando que as tramas não passam de atos preparatórios; declarou que “os fatos, por força da ausência de tipicidade, não constituem infração penal” e citou “inexistência de provas suficientes para condenação”; defendeu que o relatório do Instituto Voto Legal não tem caráter ilícito e que discussões técnicas sobre o sistema eletrônico de votação não podem ser confundidas com ações golpistas. Foi voto vencido.

No notório processo sobre a tal tentativa de golpe de Estado, Fux também votou dessa forma, expressando-se pela incompetência da Primeira Turma, afirmando que “ao rebaixar a competência originária do plenário para uma das duas turmas, estaríamos silenciando as vozes de ministros que poderiam exteriorizar sua forma de pensar sobre os fatos a serem julgados nesta ação penal”. No mérito do caso, ele alegou que “não se concebe organização criminosa sem escalonamento de chefia e chefiado”, e que “não há prova nos autos de que réus tenham ordenado a destruição [do 8 de janeiro] e depois se omitido, pelo contrário”.

Fux ainda acolheu a alegação de cerceamento de defesa sobre o que chamou de “tsunami de dados”, referente aos 70 terabytes de dados – comparados a muitos milhões de páginas de supostas provas que a defesa teve pouco tempo para analisar. “Por consequência, declaro a nulidade do processo desde o recebimento da denúncia”, concluiu. Por fim, votou pela “incompetência absoluta do Supremo Tribunal Federal, visto que os denunciados já haviam perdido os seus cargos” e pela “nulidade de todos os atos decisórios praticados”, e fez um comentário bem mais abrangente e muito potente quando afirmou que “não compete ao STF realizar um juízo político do que é bom ou ruim, conveniente ou inconveniente, apropriado ou inapropriado”, e que “ninguém pode ser punido por convicções morais, por ser um canalha, um patife”.

Não me surpreenderia se daqui a pouco Fux fosse rotulado de “bolsonarista”, de “direita”, “extrema direita”, ou “antidemocrático”, nem se, talvez depois de se aposentar, ele fosse perseguido judicialmente. Mas será que Luiz Fux é mesmo de direita?

Em primeiro lugar, Luiz Fux foi indicado por Dilma Rousseff! Em 2011, votou para reconhecer a união estável entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar, defendendo que é dever do estado combater o preconceito. Em 2019, votou pelo enquadramento da homofobia e da transfobia como crimes de racismo, até que o Congresso Nacional editasse lei específica sobre a matéria. Em 2020, ao votar sobre a competência federativa durante a pandemia, Fux assegurou (contra a vontade de Jair Bolsonaro) que estados e municípios gozam de autonomia para implantar medidas sanitárias, como bloqueios e restrições. Em 2023, o voto de Fux foi decisivo para formar a maioria no STF contra o marco temporal para demarcação de terras indígenas. Na ocasião, ele destacou que existe “uma coexistência harmônica da proteção do meio ambiente e a proteção dos indígenas”. Fux enfatizou que “a posse constitucional é uma posse diferente da posse civil”.

Ou seja, Fux não é de direita. Nesses dois processos, da “trama golpista” e do “núcleo de desinformação”, ele está apenas expondo a verdade nua e crua, dizendo obviedades ululantes e seguindo os mesmos princípios de qualquer país onde vigora o Estado de Direto, os direitos básicos que estamos defendendo há meses e anos, e pelos quais todos somos taxados de “extrema-ultra-hiper-direita”.

Defender que quem não tem foro privilegiado não pode ser julgado pelo STF; que ninguém pode ser vítima e juiz ao mesmo temo; que ninguém pode julgar seu inimigo; e que todos têm direito a mais graus de jurisdição não é extremismo – pelo contrário, é a coisa mais básica e moderada do mundo.

JOSÉ DOMINGOS BRITO - MEMORIAL

OS BRASILEIROS: Conselheiro Antônio Prado

Antônio da Silva Prado nasceu em 25/2/1840, em São Paulo, S.P. Advogado, político, jornalista, agricultor, empresário e banqueiro, foi o primeiro prefeito da cidade de São Paulo e um dos expoentes da abolição da escravatura, participando na elaboração da Lei dos Sexagenários (1885) e da Lei Áurea (1889).

Filho de Veridiana Valéria da Silva Prado e Martinho da Silva Prado, tradicional família da aristocracia cafeeira paulista. Diplomado em 1861 pela Faculdade de Direito em São Paulo, foi chefe de polícia no II Reinado, deputado provincial (1862-1864), deputado geral (1869-1872), senador (1886), conselheiro do Império (1888) e prefeito de São Paulo (1899-1911). Figura destacada na política, publicava suas opiniões no órgão do Partido Conservador – Correio Paulistano -, de sua propriedade a partir de 1882.

Na condição de grande proprietário de terras, incentivou a imigração italiana para suprir a carência de mão-de-obra na agricultura e foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Imigração. Ao assumir o cargo de Ministro da Agricultura, incentivou a criação de ferrovias e autorizou a construção de diversas linha férreas no País. Ainda como ministro, assinou em 1885 junto com a Princesa Isabel, a Lei Saraiva-Cotegipe, também chamada Lei dos Sexagenários, que previa a abolição gradual da escravatura, com indenização aos proprietários de escravos. Em seguida passou a batalhar pela promulgação da Lei Áurea.

Permaneceu 12 anos no cargo de Prefeito de São Paulo e foi o primeiro a receber este título na República. Deixou um considerável legado de obras, modernizando a cidade para o que veio a se tornar em seguida. Providenciou a construção de pontes e o aterramento de várzeas que impediam a ligação entre as várias regiões da cidade; implantou o sistema de energia elétrica, em 1900, através da empresa canadense The São Paulo Light & Power; inaugurou o bonde elétrico em substituição ao bonde-a-burros; construiu o Teatro Municipal, inaugurado em 1911; inaugurou a Pinacoteca do Estado e a Estação da Luz. Em seguida, construiu a Avenida Tiradentes, que liga a Zona Norte ao Vale do Anhangabaú.

Na sua gestão, foi criado balneário do Guarujá, ao lado da cidade de Santos, um empreendimento pioneiro no início do século XX, e foi um dos fundadores do Automóvel Clube de São Paulo. Durante os 12 anos como prefeito, São Paulo teve um aumento vertiginoso da população com a chegada dos italianos, seguidos pelos japoneses e outras nacionalidades. Assim, deu-se a rápida industrialização da cidade, destacando-se os setores têxtil e de alimentos.

Na República optou por não se filiar a nenhum partido e ajudou a criar o Partido Democrático em 1926, atuando como figura “apartidária”. Ele e seu irmão Martinho Prado Jr. colonizaram a região de Ribeirão Preto, onde foi proprietário de 2 fazendas, que chegaram a possuir 20 milhões de pés de café. Foi banqueiro proprietário do Banco do Comércio e Indústria do Estado de São Paulo, da Vidraria Santa Marina, dono de um frigorífico em Barretos e fundador, dono e presidente da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Foi também um dos pioneiros em reflorestamento do País, plantando bosques para abastecer de lenha a ferrovia

Faleceu em 23/4/1929 e no mesmo ano foi lançado um livro de mais de 800 páginas contendo seus discursos e ensaios, organizado por sua filha Nazaré Prado. Em 1940 foram realizados, em São Paulo e no Rio de Janeiro, vários eventos comemorativos do centenário de seu nascimento, incluindo a publicação da biografia Centenário do conselheiro Antônio Prado, editada pela Gráfica Revista dos Tribunais. Em São Paulo a praça central, onde inicia a Av. São João, recebeu seu nome. Em Barretos nomeia a praça da estação ferroviária e a avenida que liga o Shopping de Barretos com a Fundação Educacional de Barretos. No Rio Grande do Sul, a cidade mais italiana do Brasil, tem o nome de Município Antônio Prado.

A família dos Prado é uma das mais importantes na história de São Paulo e o nome Antonio da Silva Prado foi adotado por alguns deles, causando certa confusão em distingui-los. Consta na Wikipedia que o pai do Barão de Iguape (1778-1875) tem esse nome, que foi passado para o filho Barão. Este, por sua vez teve a filha Veridiana da Silva (1825-1910), que denominou seu filho, o conselheiro Antonio da Silva Prado (1840-1929).

FERNANDO ANTÔNIO GONÇALVES - SEM OXENTES NEM MAIS OU MENOS

AVALIANDO ONTENS E HOJES PERNICIOSOS

Lamentavelmente, o nosso sistema educacional ainda não avaliou o espantoso crescimento do analfabetismo funcional nos quatro cantos do país, favorecendo a multiplicação de manadas eleitorais apenas ruminantes que só beneficiam uma elite quase nada pensante, nada solidária, hedonista em sua grande maioria, que não sabe binoculizar um ambiente futuro social-democrático capaz de lhe proporcionar maiores lucratividades, também promovendo uma distribuição de renda mais equilibrada e justa.

Infelizmente, a grande maioria das classes mais bem situadas na pirâmide financeira está apenas atentando para ganhos mais lucrativos, práticas individualistas contempladoras dos próprios umbigos, manifestando sempre um comportamento religioso hipócrita, quilômetros distanciados das camadas menos favorecidas.

Para uma juventude pré-universitária, de camadas sociais as mais diversas, recomendo duas leituras estruturadoras que muito auxiliarão no fortalecimento de um agir crítico-construtivo em prol de um Brasil mais humanamente desenvolvido, sem negativismos nem sectarismos, com um sistema partidário pensante, advindo de eleições democráticas praticadas por um eleitorado nunca servil nem alienado, consciente de ser um grupo dotado de imensas percepções sociais e morais.

A primeira recomendação é um significativo trabalho de um docente de Ciências Humanas, especialista em análises contemporâneas da vida social: PENSO, LOGO INSISTO: RESPOSTAS PARA PERGUNTAS QUE EU NEM SABIA QUE TINHA, Márcio Krauss, São Paulo, Editora Planeta do Brasil, 2023, 272 p. Segundo Alexandre Coimbra Amaral, analista cultural, “o que é mais notório neste livro de Márcio Krause é que ele transforma cada ideia fundamental dos autores e autoras em perguntas úteis para a vida de quem o lê.” Umas das perguntas contidas no livro: “Em algum momento da vida a gente se sente realizado? Ou o lance é ir conquistando e perdendo coisas, vendo pessoas chegando e partindo?”

A segunda recomendação se baseia rm uma análise feita por um talento nordestino, potiguar de nascimento, ex-presidente do IPEA: A ELITE DO ATRASO: DA ESCRAVIDÃO À ASCENSÃO DA EXTREMA DIREITA, Jessé Souza, Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 2025, 251 p. Páginas que analisam realisticamente a escravidão brasileira e como estão constituídas as classes sociais no Brasil contemporâneo, com seus conflitos e a persistência antipopular das nossas elites financeiras, convivendo com uma classe média sem muita visão construtiva, sem reestruturação evolucionária do seu nível comportamental. Uma análise de excelente nível interpretativo, favorecendo uma mais ampla compreensão dos atuais moralismos patrimonialistas, a violência que vitima os quatro cantos do país, a classe média, com suas fobias e obsessões, além das suas atuais práticas corruptoras, hoje invadindo até os mais diferenciados setores públicos, aqui incluindo o que se classificou de Lava-Jato. Páginas bem documentadas, fruto de quarenta anos de leituras e pesquisas, que procuram reinterpretar o Brasil, potencializando um planejamento social-democrático dos amanhãs nacionais que se desejam humanos, soberanos, evolucionários e amplamente comunitários.

PENINHA - DICA MUSICAL

DEU NO JORNAL

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

A UM LIVRO – Florbela Espanca

No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu, e salma
As orações que choro e rio e canto! …

Poeta igual a mim, ai que me dera
Dizer o que tu dizes! … Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto! …

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

LAUDEIR ÂNGELO - A CACETADA DO DIA