CORRESPONDÊNCIA RECEBIDA

DEU NO X

PEDRO MALTA - A HORA DA POESIA

VOLÚPIA – Florbela Espanca

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A nuvem que arrastou o vento norte…
– Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…

Florbela Espanca, Vila Viçosa, Portugal (1894-1930)

DEU NO JORNAL

ESCONDENDO A SUJEIRA

“A palavra hoje é blindagem”, disse Eduardo Girão (Novo-CE), após o governo Lula impedir a convocação de suspeitos à CPMI, incluindo o Lulinha e outros.

“Vivi para ver o PT blindar bancos”, espantou-se.

* * *

E vai ver mais, sinhô senador.

Outras blindagens virão.

Viva mais, aguarde e confirme.

JOSÉ RAMOS - ENXUGANDOGELO

DE LINHO, NO ANIL E NO GRUDE

Homem vestindo linho puro

“As velas do Mucuripe
Vão sair para pescar
Vou levar as minhas mágoas
Pras águas fundas do mar

Hoje à noite, namorar
Sem ter medo da saudade
Sem vontade de casar

Calça nova de riscado
Paletó de linho branco
Que até o mês passado
Lá no campo ainda era flor”

Fortaleza, capital cearense. Anos 50 e 60. Juventude de comportamento efervescente que funcionou como rastilho de pólvora e acabou “provocando” o governo do regime militar – diferente da juventude de hoje, um alto percentual de baitolas, drogados e tatuados. Incapazes de perceber a vida presente e futura que lhes rodeia. Um dia o boleto chega, e exigirá pagamento.

Bailes noturnos, festas, tertúlias animadas por Ivanildo e seu conjunto e Sávio Araújo – que nos remetia aos tempos de Paulo Moura, Louis Armstrong e, vez ou outra, Cauby Peixoto procurando a Conceição. Até hoje não foi encontrada. Provavelmente está na ZBM ou comendo fava rajada na feira de Casa Amarela.

Os jovens aderiram à moda das calças Lee (tinham que ser importadas, por valorização e imposição da moda vigente) e vestiam camisas sociais “volta ao mundo”, mangas compridas. Como ainda não aparecera o desodorante, os meninos usavam talco Cashemere bouquet nas axilas – e aquilo, quando o corpo suava com a movimentação do corpo dançando “oh, cupido, vê se me deixa em paz, oh, oh”, aparecia a lama e manchava a camisa. As moças, usando vestidos elegantes sem mangas, mostravam o lamaçal feito pelo suor descendo do sovaco.

Longe dali, nos SECAIs ou no Romeu Martins da vida, ou, ainda, nos luxuosos salões do Ideal Clube e do Náutico, orquestras refinadas tocavam até tango argentino.

Rapazes vestiam camisas sociais, de linho puro.

Camisa lavada pela manhã, com o acréscimo do anil e do grude de goma. Colarinho caprichado. Exageradamente bem passada, a ponto de transformar qualquer jovem num príncipe das Astúrias.

Transporte: Aero Wyllis ou Fusca. O Jeep nem tinha o privilégio do estacionamento nas dependências do clube. A Vemaguette, pelo barulho provocante saído do cano de descarga, era inoportuno. O carro da moda era o Simca Chambord.

Aquelas noites….. deixemos pra lá, né!

Saudade também mata – e os modernos resolveram rotular de depressão.

Depressão, uma porra!

Vivência. Prazer de relembrar as coisas boas vividas.

Depressão é viadagem de quem nunca comeu mucuim de galinha e os dois pés da mesma galinha, com a mão e lambendo dobrinha por dobrinha dos ossos.

DEU NO JORNAL

MAURÍCIO ASSUERO - PARE, OLHE E ESCUTE

A GENTE TEM ALGUM DIREITO?

Essa semana fomos surpreendidos com uma decisão monocrática de Gilmar Mendes que foi noticiada em diversos jornais do mundo. Trata-se da decisão monocrática que impõe, única e exclusivamente à Procuradoria Geral da República a competência para solicitar impeachment de ministros do STF. Não sou jurista e nem capacitado para expor determinados conceitos legais, mas eu aprendi a ler e sei interpretar o que lei, portanto, faço este comentário à luz desse parco entendimento.

O artigo 39 da Lei nº 1079/1950 – até então, a base sobre impedimentos – elenca 5 itens que são base para pedido de impeachment de um ministro do STF, a saber: 1- altera, por qualquer forma, exceto por via de recurso, a decisão ou voto já proferido em sessão do Tribunal; 2 – proferir julgamento, quando, por lei, seja suspeito na causa; 3 – exercer atividade político-partidária; 4 – ser patentemente desidioso no cumprimento dos deveres do cargo e 5 – proceder de modo incompatível com a honra dignidade e decoro de suas funções.

Isso está na lei, mas não na prática. Infelizmente, os ministros escolhidos para o STF são infinitamente partidários-políticos. Zanin, não é juiz, não tem notório saber, mas foi advogado do presidente da república e o próximo indicado, que do ponto de vista de formação acadêmica tem qualidade, era o mesmo jovem que tinha em mãos uma “nomeação” assinada para que o atual presidente colocasse seu nome mediante ameaça de prisão. Em relação ao item 2, há um ministro que é vítima, investigador e relator do processo, simultaneamente.

Creio que não precisa ser jurista para entender que as coisas não deveriam ser dessa forma. O artigo 41 da referida lei diz: “Art. 41. É permitido a todo cidadão denunciar perante o Senado Federal, os Ministros do Supremo Tribunal Federal e o Procurador Geral da República, pelos crimes de responsabilidade que cometerem (artigos 39 e 40)”. Retirar o sagrado direito do cidadão se posicionar, sinceramente, não entendo como uma atitude democrática. Outro fato agravante é que o impeachment poderia ser definido por maioria simples no senado e Gilmar impõe que sejam 2/3.

Como se tudo isso não bastasse, a concordância cúmplice de pessoas que deveriam usar sua inteligência para esclarecer e fazer do país um celeiro de democracia, parece mais uma faca que se crava, lentamente, no peito. Um amigo, com um cargo público que lhe permite uma renda mensal de uns R$ 25 mil, com mestrado e doutorado, soltou uma que quase me fez sair de um grupo. Alguém disse: “isso é bom porque afasta a chance de bolsonarista querer acabar com vitalidade dos ministros do STF” e ele, simplesmente, “concordo em gênero, número e grau”.

É sabido que Lewandowski andou tratando de uma atualização da lei do impeachment. O problema é, sempre, o momento no qual as coisas são feitas. Como naquele velho ditado de “chutar cachorro morto”. No momento de fragilidade constitucional, onde o congresso é refém do STF por conta dos inúmeros corruptos que são eleitos com os votos de eleitores medíocres, que vendem seus votos em troca de saco de cimento, fica difícil construir um equilíbrio racional. Hoje, qualquer pleito no STF é arquivado, caso seja contrário ao pensamento político vigente.

Eu acho interessante o debate que se faz em defesa da constituição, mas dificilmente, as pessoas protestam por violações constitucionais. Em 2018, o senado era presidido por Alcolumbre e a câmara por Rodrigo Maia, o popular, “botafogo” nas planilhas da Odebrecht. Essa dupla procurou Lewandowski para verificar a possibilidade de permanecerem nas presidências das respectivas casas numa nova legislatura (que se iniciaria, salvo engano, em 200). O caso foi para Gilmar Mendes e ele, num voto de 64 páginas, disse que isso era possível “mesmo ao arrepio da lei”.

Vejam o teor: mesmo violando a constituição, para Gilmar Mendes era possível à recondução dessa dupla dinâmica à presidência das casas. Salvo engano, esse voto foi derrubado no plenário, posto que, caso contrário, seria vergonhoso demais.

O presidente do senado reagiu, enfaticamente, à decisão de Gilmar, mas não custa lembrar que ele, no último dia de exercício como presidente do senado em 2020, arquivou todos os pedidos de impeachment contra ministros do STF, dentre os quais, uns 10 contra Alexandre de Morais. Tudo isso acontece em meio a tentativa de aprovação da lei que prevê limites para decisões monocráticas. Na verdade, toda decisão ali era para ser colegiada. Talvez isso representasse atraso no andamento dos processos, mas traria maior equilíbrio ao Brasil.

DEU NO X

WELLINGTON VICENTE - GLOSAS AO VENTO

DEPOIS QUE VOCÊ PARTIU

Xilogravura: Lana Clese

Depois que os seus caracóis
Das minhas mãos se afastaram
Que os nossos sonhos cessaram
E deixamos de ser nós
Depois que a sua voz
Nunca mais me deu “psiu”
Quando o meu peito sentiu
Falta do seu aconchego
Acabou-se o meu sossego
Depois que você partiu.

Nunca mais senti prazer
Em sentar naquela praça
Sem você tudo é sem graça
Não tem sentido viver
Sei que não vou esquecer
O que pra nós existiu
Pois quem outrora nos viu
Ao me ver só, já indaga,
Disfarço e escondo a chaga
Depois que você partiu.

Até a minha viola
Nunca mais foi empunhada
Lá num canto empoeirada
Não pode e nem me consola
Vegeto nesta gaiola
Que o destino impingiu
Sou represa que ruiu,
Uma fazenda sem gado,
Castelo mal-assombrado
Depois que você partiu.

DEU NO X